Percorremos o caminho para a delegacia em silêncio, apenas com o rádio sendo o ruído entre nós. Estávamos perdidos em nossos próprios problemas e procurando, em vão, uma solução. Ainda consigo me lembrar da mãe de Malic e consigo criar inúmeras frases para rebatê-la, para contestar, mas nenhuma delas me arruma uma solução.

Há uma vaga em frente à delegacia, assim que paro, Matthew desce e eu permaneço dentro do carro, o observando entrar e desaparecer por lá. Por que tudo isso está acontecendo comigo? Qual a minha diferença para outra menina? O que Deus viu em mim para me dar uma situação dessa? Sou bombardeada por um problema de cada lado, de cada vez, incessantemente. Existem bilhões de pessoas e justo eu fui escolhida para essa situação.

Encaro minhas mãos.

Que pensamento mais egoísta. Há pessoas com problemas piores que os meus, por exemplo, as famílias que perderam suas filhas, as moças que morreram na mão do Jonas, pessoas com doenças terminais. Sou muito egoísta em reclamar. Se isto está acontecendo comigo é porque consigo superar e é isso que vou fazer, passar por cima. Abro a porta do carro e sigo para a entrada. Respiro fundo.

A agente está me esperando perto do balcão, o que facilita a abordagem em ir direto para o assunto.

– Achei que não fosse sair do carro. – ela dá um rápido sorriso e começa a caminhar para o lado oeste da delegacia, sigo-a.

Pois é, estava quase voltando para casa.

Dobramos o corredor e logo à frente a uma porta cinza duas-folhas com dois policias a guardando. Essa parte da delegacia é mais relaxada quanto aos cuidados, as paredes precisam ser pintadas e rebocados de novo, a iluminação deve ser trocada e o chão nivelado.

Os guardas abrem a porta e nos dão passagem, consigo visualizar Matthew encostado na parede e duas pendendo pela grade. Engulo em seco e continuo seguindo a agente com a cabeça baixa. Meu coração acelera e minha respiração fica ruidosa. É agora.

– Vocês têm meia-hora para falar com ele. – ela informa – É tudo o que eu posso dar e depois vocês irão responder a um formulário de segurança.

Franzo o cenho. Formulário?

Ela passa por mim rapidamente e toca no bolso traseiro de minha calça.

– Esse é o nosso formulário. – ela sussurra em meu ouvido e um “click” é escutado logo depois. Ela vai gravar nossa conversa.

Segundos depois a porta é fechada, o silêncio perturbador se instala e o clima fica pesado, nenhum de nós fala nada. Aproximo-me mais de Matthew e encosto na parede ao seu lado. Visualizo Jonas.

Irreconhecível. Essa palavra descreve seu estado físico e, possivelmente, psicológico. Emagreceu consideráveis quilos, está com olheiras e raspou o cabelo, tem alguns hematomas pelo corpo e as roupas estão rasgadas. Seus olhos estão opacos e fatais. Um sorriso de lado transforma sua feição infantil em algo tenebroso e sádico. Olhando para ele assim consigo acreditar que foi o autor daqueles crimes.

– Olha ela aí. – ele sussurra.

– Não escute o que ele diz. – Mattew aconselha – Não está pensando.

Encaro Jonas e permaneço em silêncio.

– Achei que não veria me ver. – ele se afasta da grade e caminha pela cela – Pensei que fosse preferir ficar fodendo com seu namorado malhado e tatuado a vir aqui.

– Foi você que me chamou? – estreito os olhos.

– Só falaria se fosse com você.

Por isso vamos preencher um formulário, eles não conseguiram arrancar nada dele e por isso foram tão gentis em deixar a gente falar com ele. Hipocrisia devia matar.

– Está vendo isso? – ele levanta a camiseta e mostra os enormes hematomas – Foi o custo que paguei para te ver.

Me aproximo da cela.

– Por que queria me ver?

– Cresci em uma família de homens e sempre escutei meus irmãos falando de suas putas e meu pai das dele. Fiquei deslumbrado com a hipótese de um dia fazer as mesmas coisas, sentir as mesmas coisas. – ele não responde minha pergunta – Mas comecei a ganhar peso na puberdade e então não consegui parar, à medida que eu engordava, as meninas se afastavam de mim, me olhavam com desdém e nojo. – ele inclina a cabeça – Nojo. Era isso que sentiam de mim.

Engulo seco e o deixo continuar.

– Os jogos foram meus amigos e as personagens femininas minhas parceiras, mas o ódio ainda me corrompia. Por que vocês conseguem ser tão triviais? Por que sempre a aparência importa para vocês? O que é um cara perfeito? Aquele tipinho badboy que pisa em vocês como se fossem insetos, transa e depois te descarta com a camisinha? Porque eu garanto para você que é hipocrisia dizer que a aparência não importa, sou uma prova viva disso, sempre gentil e dedicado só para ser trocado, humilhado, massacrado. Então eu percebi: vocês gostam de ser tratadas como lixo, gostam de levar tudo pelo carro, carteira, nome e sobrenome, e a beleza.

Jonas dá um passo para frente e passa a mão na cabeça, sua respiração falha e isso deixa evidente seu choro.

– Meu pai precisou pagar uma prostituta para transar comigo. Quer mais humilhação que isso? Hein?! Será que vocês conseguiriam me humilhar mais? Ah! Mas eu não dei essa chance, não dei gosto da vitória, nunca! Percebi que deveria tratar vocês feito insetos e foi isso que fiz, esmaguei todas como se fossem baratas imundas e as descartei como se fossem lixo. Uma após a outra. Adorava escutar as súplicas delas, porque era só naquele momento que elas realmente me enxergavam, realmente viam o meu potencial. – ele sorri de lado, sadicamente – Eu senti muito mais que meus irmãos puderam sentir, é muito mais revigorante ser temido do que amado.

– Você está escutando o que está dizendo? – murmuro – Fez tudo isso por vingança, foi tão baixo quanto elas.

Ele estreita os olhos.

– Quem é você? Mais uma puta mandada de um badboy, então não ouse julgar meus princípios. E quer saber de uma coisa? É muito mais excitante escutar um grito de dor e desespero do que um gemido engasgado falso. Vocês não são a pureza que falam.

O complexo de rejeição o fez criar uma aversão as mulheres, que posteriormente virou a agressão dos assassinatos.

– Não transforme a minoria em maioria. – repreendo-o – Você não encontrou a mulher certa.

Com um piscar de olhos, ele está na minha frente. Recuo para trás em um sobressalto e bato em Matthew.

– Mulher certa é mulher morta, massacrada, humilhada. – ele sussurra, entre dentes – Vocês não merecem amor.

Uma ponta de desespero cresce em meu âmago só de lembrar que um dia estive ao lado dele sem a proteção de uma grade, que já conversei com ele, já o toquei e o considerei amigo. Seguro a mão de Matthew e aperto. Quero sair correndo dali.

– Sou o Lobo Mau. – ele admite – Tenho o orgulho de dizer que fui o serial killer que matou mais 30 mulheres em três meses. Como Lobo Mau fui notado, noticiado, temido e procurado. Foi como assassino que consegui fama e foi com o personagem que consegui história. Se eu tivesse sido denunciado por vocês, continuaria matando, mataria sempre, mataria todas.

Um arrepio percorre minha espinha.

– Você seria minha próxima vítima em potencial, já tinha em mente o que faria. – ele passa o dente pelo lábio inferior – Estava tudo esquematizado e então você me encontrou no beco, vi que você tinha mais potencial, ao invés de seguir a correnteza e se acomodar com o medo como as outras, me enfrentou. – ele estala a língua – Adoro jogar e foi isso que fiz com você.

Tudo foi um jogo...

– Quando estava efetuando o final, mas você conseguiu escapar de mim.

A entonação que ele utiliza para o “você” é como se estivesse se dirigindo para mais uma pessoa além de mim. Camila.

– O que você fez? – avanço e agarro a grade, ficando frente a frente com ele – Me diga o que fez com ela!

Um largo sorriso faz suas bochechas recuarem e estreitarem seus olhos.

– Diga! – vocifero – Fale o que fez com ela!

Como o bote de uma cobra, ele agarra a gola de minha camiseta e me puxa contra a grade com força, me fazendo bater a testa nas barras de metal.

– Nada que não fosse necessário. – ele sussurra. Seu olhar demonstra sua decadência, é pesado, sufocante e pecoso. Mas diferente do olhar que já senti sobre mim.

O pânico faz lágrimas brotarem em meus olhos e minhas pernas enfraquecem. Ela está morta.

– Todos têm medo do lobo mau. – ele sussurra, sorrindo.

– Solta ela. – Matthew segura o braço dele, em alerta.

– Ou o quê? – Jonas ergue uma sobrancelha – Irá me bater?

– Não duvide disso.

A porta abre em um estrondo e com o barulho, Jonas me solta com um empurrão. Bato no ombro de Matthew e cambaleio para trás. Um dos guardas me pega pelos ombros e me arrasta para fora, mas antes de sair consigo escutá-lo cantarolar:

– Todos têm medo do lobo mau, lobo mau, lobo mau.

O tic-tac do relógio e a gravação da conversa são o único barulho na sala do delegado. Ele já é intimo meu devido aos nossos incessantes encontros em situações diversas. Balanço na cadeira e observo meus pés. Ainda consigo escutá-lo cantar em minha cabeça, repercutindo por todo o meu sistema nervoso. Matthew é o único que responde verbalmente ao delegado e a agente, minhas únicas respostas são gestos ou simplesmente ignoro a pergunta.

Ele a matou. Matou. Como lixo, como inseto. A fez gritar, implorar, chorar e se excitou com o desespero dela, zombou da situação e de seu corpo. Arrancou a vida como vingança por seu complexo. Quase me matou. A única coisa que não deixou esse fato se concretizar é a palavra quase, que se transforma na minha sorte de não ter sido pega.

– Alguma observação? – o delegado interrompe meus pensamentos, mais uma vez.

– Sim. – limpo a garganta – Procure o corpo de Camila.

Ele franze o cenho.

– Jonas a matou, como você nota ele assumindo no final da gravação. Por favor, achem o corpo dela.

Ele não diz nada, apenas lança um olhar sério para a agente, que se retira em seguida.

– Tudo bem. – ele se apoia na mesa – Vocês fizeram um bom trabalho aqui, podem ir.

Fizemos o trabalho de vocês.

Levanto e saio da sala o mais rápido que consigo. É como se eu estivesse mergulhado muito fundo e agora estivesse voltando para a superfície, ansiando pelo oxigênio, sufocando. Abro a porta de vidro da entrada e um flash me cega.

Ah, cacete, essas pessoas brotam aqui?

Cubro o rosto e corro na direção do carro, desviando de repórteres e câmeras, me esquivando dos flashes e de perguntas. Destravo o carro e me jogo ali dentro. Ameaço avançar por cima deles e só assim eles abrem caminho, acelero e saio do estacionamento cantando pneu.

**

Estaciono na garagem, mas continuo dentro do carro. Encosto a cabeça no volante e choro compulsivamente, estava errada, muito errada, tão erroneamente errada. Não sou capaz de lidar com isso, de saber que sobrevivi por um “quase” enquanto as outras não tiveram a chance dessa palavra. Todos têm medo do lobo mau.

– Cala a boca! – grito – Ninguém tem medo do lobo mau, ninguém! – esmurro o volante.

Você está preso agora e irá apodrecer aí, definhar. Não verá mais nada a não ser paredes e grades e eu desejo que sofra, não importe de que forma, mas desejo que sofra com todas as minhas forças.

Não existe mais Lobo Mau, nem vítimas, nem você.