Diga Adeus à Inocência
28 Capítulo 27
Reviro os olhos.
– Por favor. – sussurro – Você está tão sentimental hoje, parece até eu quando estou de t.p.m.
Ele esboça um simples sorriso.
– Você não é uma pessoa ruim. – garanto.
– Claro. – posso notar a ironia em sua voz.
Suspiro.
– Minha vó estava tão estranha hoje. – mudo de assunto – Passou a tarde no cemitério e quando voltou está ainda mais chateada do que quando foi.
– Por que ela foi no cemitério?
– Aniversário de casamento.
– Não sabia que ela ainda considerava o seu avô. – ele afasta a cabeça para me encarar – Ela namora um outro tio aí, não é?
– Ela passou 50 anos com o meu vô. – rebato e acho o suficiente para explicar a consideração dela.
– Minha irmã vivia falando que ia casar e ter o “ feliz para sempre”. – ele comenta, repentinamente – Ela ainda acreditava que o amor conseguia passar por cima de todas as divergências, que conseguia viver sem um combustível.
Permaneço em silêncio. O que aconteceu com a irmã dele?
–Onde sua irmã está?
– Em algum lugar. – ele dá de ombros.
– Ela casou?
– Ela nem chegou a ser adulta.
Mordo o lábio inferior e abraço-o. Agora tenho certeza que ela morreu e não tenho coragem de perguntar como, já estou satisfeita com as informações que tenho sobre ela.
– Quando eu era pequena não acreditava tanto em príncipes. – divago – Por incrível que pareça, gostava mais dos malvados que sempre ficavam bons no final.
– Por quê?
– Porque eles têm uma história, tipo, eles não nasceram cruéis, se transformaram. – explico – Gostava de estórias sobre vampiros, lobos e afins.
– Então você gosta do Lobo Mau?
– Na estória. – ressalto – Não o serial killer que anda matando as meninas.
– Ele é o vilã. – ele rebate.
Suspiro.
– Nos contos eles são melhores.
– Na ficção tudo é melhor.
Concordo com um meneio de cabeça.
– Estou com calor. – me afasto dele e respiro fundo, retirando o cobertor.
– Está com calor? – ele ergue uma sobrancelha.
– Algum problema em sentir calor? – retruco.
– Nenhum. – ele ergue as mãos na defensiva – Quer água?
– Eu posso pegar. – levanto.
Posso notar seu revirar de olhos, ignoro o ato e vou até a cozinha. Encho o copo e caminho pela sala, observando a cidade embaixo de mim, quase apagada.
Lembro-me de Camila. É tão estranho esse sumiço. Sei que ela pode estar com medo do Jonas vir atrás dela e concretizar suas ameaças, mas ela sumiu sem nem avisar para onde iria, sem nem dar notícia de seu paradeiro, sem levar suas coisas. Tenho um pressentimento ruim quanto a esse assunto e gostaria de estar errada, gostaria que ela me ligasse a qualquer hora e falasse que está bem na nova cidade, na nova vida, aonde quer que ela esteja. Dou mais um gole na água gelada. Não devia ter deixado ela sair sozinha aquela noite, tinha que ter insistido em levá-la para casa ou para minha casa. Merda. Só faço merda.
Coloco o copo na pia e quando entro no corredor para o quarto, trombo com uma silhueta negra no meio da penumbra. Congelo. Está coberto por algo peludo e usando uma mascará de lobo. Grito e recuo para trás, me enroscando nas cadeiras da mesa de jantar e caindo por cima delas. Bato a cabeça na mesa e sou esmagada por duas cadeiras. Meu coração sobe na boca e meus sentidos ficam atordoados.
Escuto uma risada. Pelo vidro da mesa noto que a mascará foi deixada de lado e o cobertor de pelo também, Malic está gargalhando ao mesmo tempo que tira as cadeiras de cima de mim.
– Filho da puta. – resmungo — Babaca! O que pensa que está fazendo?
– Fui procurar o controle do ar condicionado e encontrei essa máscara do meu irmão. E pensei: “ por que não?”
– Por que não?! – admiro-me — Porque assustar pessoas é algo ridiculamente patético, seu imbecil, principalmente no meio da noite no escuro, animal, ainda por cima usando uma máscara dessas.
Ele estende a mão para me ajudar.
– Sai. – afasto-as – Não toque em mim.
– Machucou?
– Ah! Vai se fude, seu animal dos infernos. Devia ter pensado nisso antes de me assustar nessa merda de corredor. Ridículo. – levanto e esfrego minha cabeça – Não sei se te acerto um soco ou quebro essa cadeira na sua cabeça.
Caminho pelo corredor em direção ao quarto.
– Desculpa, não sabia que você ia ter essa reação. – ele vem atrás de mim.
– Cala a boca. – retruco – Quanto mais você fala, mais tenho vontade de te bater.
– Bianca.
– É sério, Malic. Brincadeira de mau gosto, de pessoa imbecil, quase morri do coração e isso não engraçado!
Ele contém o riso.
– Desculpa, sério.
– Vai toma no cú, seu imbecil.
Pego o travesseiro e me dirijo para a porta novamente, ele barra a passagem.
– Vai dormir aonde? – questiono.
– No quinto dos infernos.
Ele ri.
– Você tinha que ver a sua cara. – ele tenta segurar o riso – Foi uma cópia fiel ao “o grito”.
Fecho a cara.
– Babaca. – acerto um soco em seu peito – Eu devia ir embora agora depois disso.
– Foi só pra animar a situação. – ele sorri.
– Animar é o cacete, vou ficar toda roxa.
– Ah! Bebê, não fica assim. – ele abaixa e abraça minha cintura.
Arregalo os olhos.
– Malic. – repreendo-o – Solta.
– Não. – ele me ergue.
Minha cintura encaixa em seu ombro e me tórax cai em suas costas. Soco-o.
– Me solta, seu idiota.
– Você não vai a lugar nenhum.
Estreito os olhos. Quem ele pensa que é?!
– Malic, não – antes que eu possa terminar, ele me joga na cama. Fecho a cara.
Seu sorriso de lado é um golpe fatal, perco a pose e mordo o lábio inferior.
– Não foi tão ruim assim. – ele ajoelha na cama.
Recolho minhas pernas e sento por cima delas. Encaro-o fixamente. Então ele acha que vai ficar assim? Que não haverá punição?
Antes que seus lábios possam tocar os meus, afasto o rosto e seguro seu queixo, fazendo-o me encarar.
– Acha que é assim tão fácil? – ergo uma sobrancelha.
– Não tinha muita confiança.
Sorrio.
– Não me leve a mal, mas sempre fui o melhor em assustar na minha família e desde que cresci, parei com esse meu perfeito hobby.
– Isso explica porque você mora sozinho agora.
Ele revira os olhos. Minha cabeça ainda está latejando da batida que dei e a raiva por isso ainda se faz presente, mesmo que eu admita que foi um bom susto. Ainda mantemos o contato visual – e por uns segundos esqueci que o estava encarando.
– Minha mãe queria te conhecer. – ele comenta – Tive que inventar uma boa desculpa para explicar sua fuga daqui.
Rio. Que vergonha, o que ela deve pensar de mim agora?
– Para sua sorte, falei que você ia passar o fim de semana aqui e assim ela teria outra chance. – ele continua, vitorioso.
Engulo seco.
– Quando ela vai vir?
– Talvez hoje de tarde ou à noite. – ele dá de ombros — Só sorria e acene, e ela ficará feliz.
Franzo o cenho.
– Está dizendo para eu tratar sua mãe como idiota?
Ele ri.
– Basicamente. – pondera.
Acerto um tapa em seu ombro.
– Como você pode ser tão horrível?! – admiro-me.
– Nunca disse que sou um ótimo filho. – ele retruca- Minha mãe fala demais e se você der corda, ela irá encher o saco e contará a história da minha família começando pelos antepassados, então encurte o papo.
Não consigo tratar pessoas mal, sempre tenho um remorso profundo e outra, não consigo ser ríspida com alguém, mesmo quando quero ou sendo necessário, alguma coisa sempre quebra a minha fachada duramente trabalhada na feição séria e acaba tudo em pizza. Agora estou ansiosa para conhecer a mãe dele e para conhecer a família dele começando pelos antepassados.
– O que você disse a ela?
– Falei que você é um miniprojeto de modelo e que tinha algumas fotos para fazer.
Miniprojeto. Rio.
Ele se aproxima novamente e tenta, falhamente, me beijar. Sorrio e afasto-o novamente.
– Meu bem, com isso aqui – sussurro e me aproximo, colocando sua mão sobre o galo que se forma no local da batida -, você não terá isso aqui. – pego sua outra mão livre e coloco sobre um de meus seios. Ofego para provocá-lo e mordo o lábio inferior.
Seus lábios estão entreabertos e ele me encara, fixo em cada movimento meu. Aproximo-me mais.
– Muito menos isso. – retiro sua mão de meu galo e coloco-a sobre meu shorts. Solto um gemido fraco e posso ver os efeitos disso nele pela sua respiração falha.
Aproximo-me mais e suas mãos migram para minha cintura e coxa. Subo minha mão de seu joelho até a parte da coxa coberta pela box. Sorrio lascivamente.
– E nem vamos cogitar nisso. – passo a mão por cima de sua box e seus olhos se arregalam em súbita surpresa. Colo meu peito ao dele e roço meus lábios nos seus – Boa noite, Malic. – sussurro.
Afasto-me rapidamente e deito na cama, me cobrindo e segurando o riso.
– Nunca mais vou assustar você, cacete viu. – ele resmunga.
– Fico feliz que tenha aprendido. – digo, vitoriosa.
– Olha o que você faz.
Rio.
– Você tem uma mão, meu bem, pode muito bem resolver isso sozinho. – retruco.
– Ah, por favor, não tenho mais 15 anos. – ele deita e bate a cabeça na cabeceira da cama – Cacete.
Rio.
– Acho que você deveria praticar mais seu perfeito hobby. – sou irônica – Está faltando mais prática.
– Notei duplo sentido. – ele comenta.
Não digo nada, apenas sorrio.
– Boa noite. – repito e passo meu pé por sua canela.
– Meu Deus – ele segura em meu tornozelo e aperta -, Bianca, seu segundo nome é Capeta.
Gargalho, orgulhosamente vitoriosa.
– Tenha bons sonhos. – puxo o meu pé de volta.
– Você será cruelmente castigada. – ele ameaça.
– Não tenho medo do Lobo Mau. – faço referência a cabeça de lobo que ele usava quando me assustou.
Ele ri.
– Veremos.
Acordo com o celular tocando, arrasto-me até a minha mala e caço-o por entre as minhas roupas o mais rápido que posso. Malic resmunga alguma coisa, mas ainda parece estar dormindo.
O número é desconhecido.
– Alô? – sussurro.
– Bianca Pavillion? – é uma mulher.
– Sim, sou eu.
– Sou a policial para quem você deu o celular no dia do incidente da escola, está lembrada?
Lembro-me vagamente do ocorrido.
– Claro.
– Nos encontramos depois da sua denúncia com sua amiga.
– Ah! Sim. – levanto e saio do quarto – O que aconteceu?
– Nós encontramos o Jonas.
Subitamente, minhas pernas travam e sinto um alívio. O encontraram. Graças a Deus. Conseguiram pegá-lo.
– Ele já foi detido?
– Está na delegacia.
Suspiro aliviada.
– Se você se encontrar no interesse, podemos liberar uns minutos para você conversar com ele.
Por que eu iria querer conversar com ele? Que ridículo.
– Tenho que ir. – ela desliga.
Continuo segurando o celular próximo ao ouvido e sorrio. Ele foi pego, então significa que acabou. Finalmente, acabou.

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