Notas iniciais
Demorei um pouco, peço desculpas

Pego meu celular e disco para minha mãe. Sento na beirada da cama e escorrego até o chão, encolhendo os joelhos e colocando meu rosto entre eles.

– Bianca?

– Mãe... Socorro.

– O que está acontecendo?! – ela grita, exasperada.

– Calma mãe, não é nada de vida ou morte. Hm... Em parte não.

– Você não deveria estar na faculdade?

– Isso é um fato considerável. – pondero – Mas não é sobre a faculdade que quero falar.

– O que aconteceu? – ela parece mais calma, mas ainda alarmada.

– Hm... Eu... Estou namorando.

– Sei disso.

Limpo a garganta.

– Eu... Nós... – respiro fundo – A camisinha estourou.

Omiti parte da verdade.

Ela fica em silêncio.

– Mãe? – minha voz sai carregada e embargada, quero chorar.

– Você sabe se ele ejaculou dentro?

– Não.

– Não o que?

– Não foi dentro.

– Toma pílula do dia seguinte e espera a menstruação, se ela atrasar você faz um teste.

Soluço.

– Mas não quero um bebê, mãe. Eu sou um bebê, praticamente e o Malic... – reviro os olhos – Ele ainda é um feto. Não dá para um bebê e um feto cuidar de outro feto!

– Bianca, calma. Você ainda nem tem a confirmação. Para de chorar.

– Não estou chorando. – fungo – Só estou lacrimejando.

– Compra a pílula e relaxa.

Mordo o lábio inferior.

– Ele já comprou e eu já tomei.

– Ai meu Deus, meu chefe está olhando para mim, tchau.

Fui trocada pelo chefe em um momento crítico desse. Deixo o celular cair no chão e continuo na mesma posição. Não tem um feto aqui dentro. Não vai ter.

Tenho a sensação de estar sendo observada, olho para o lado e encontro Malic parado. Limpo as lágrimas e tento sorrir. Ainda não consigo entender o porquê de estar chorando. Minha mãe parece não estar preocupada com o ocorrido, então não tem motivo para eu ficar.

Ele se aproxima mansamente, senta na cama e coloca uma perna de cada lado de meu corpo, aperta meus ombros.

Prendo a respiração para conter o choro e permito que algumas lágrimas escorram.

O silêncio é reconfortante.

– Talvez eu tenha sido rude demais. – ele murmura.

– Não foi. – murmuro – Não estou chorando por causa disso, sei lá, nem sei por que estou chorando.

Ele esfrega minhas costas e coloca meu cabelo de lado. Giro e fico de frente para ele; de joelho o abraço e aos poucos subo para seu colo, enrosco minhas pernas em sua cintura e inalo seu cheiro cítrico.

– Se por acaso você estiver grávida, em uma chance mínima, vamos conseguir dar um jeito.

Permaneço em silêncio.

Não quero mais falar sobre isso.

– Quer se arrumar?

– Você tem uma escova para me emprestar?

– Sim. Vá para o chuveiro.

– Vamos tomar banho de novo?

– Precisamos relaxar.

Solto o ar dissonante.

Desvencilho-me dele e vou até o banheiro. Debruço na pia e me encaro no espelho. Olhos vermelhos.

Malic não demora para achar a escova de dente e logo já está de volta no banheiro, sorrio para ele pelo espelho.

– Tire minha roupa. – peço e ergo os braços.

Ele tira minha blusa, raspando os dedos na lateral de meu corpo até os braços e então, quando a camisa já está no chão, ele passa para a cueca.

– Minha cueca fica incrivelmente mais atraente em você. – ele comenta.

Rio.

Caminho até a banheira e abro o registro, sento na beirada e aguardo-o. Observo-o despir-se e contemplo seu corpo, sua beleza, sua pele, seus músculos, suas tatuagens.

– O que está olhando? – ele me encara.

– Você. – sorrio.

Malic caminha até a banheiro graciosamente e fecha o registro. Prontamente, entro na banheira e deslizo para frente, dando-lhe lugar. Assim que entra, me puxa para trás novamente. Deito a cabeça em seu ombro e fecho os olhos.

Coloco meu vestido novamente e a cueca de Malic. Volto para o quarto para pegar minhas coisas e meu celular toca, é Amiony.

– Oi. – atendo.

– Aconteceu alguma coisa?

– Não e aí?

– Vai acontecer de tarde.

– O que? – franzo o cenho.

– O Rafael conseguiu uma sessão de fotos com a revista e queria saber se vai dar para você comparecer.

– Claro. Que horas?

– Vou te passar tudo por mensagem, tenho que desligar agora.

– Tudo bem. Tchau.

Desligo. Hoje, as pessoas estão apressadas em desligar o telefone na minha cara.

Malic sai do banheiro esfregando a toalha na cabeça e com outra enrolada na cintura. Sento na cama e termino de recolher minhas coisas.

– Vou ter umas fotos hoje. – aviso.

– Quer vir jantar aqui?

– Posso pensar no seu caso.

– Durma aqui.

– O fim de semana? – ergo uma sobrancelha.

– Por que não?

– Vou ver.

Despeço-me dele e vou embora antes da mãe dele chegar, não para evitar o encontro, apenas para deixar menos constrangedor. Estou parecendo aquele tipozinho que os caras costumam sair em baladas e mandar embora depois – vestidos curtos só caem bem durante a noite em uma festa, não se deve usar eles na frente da mãe do seu namorado.

Entro no carro e coloco o endereço que Amiony me passou no GPS e durante o caminho ligo para minha vó, dando um sinal de vida e avisando que vou demorar para chegar em casa hoje. Não comento sobre nada extra que aconteceu hoje. Paro em uma padaria antes do estúdio para comer alguma coisa e depois sigo direto.

É uma pequena casa branca e só é identificada como um estúdio de fotografia pela sua fachada. Estaciono o carro do outro lado da rua e atravesso. Toco a campainha e é Amiony que vem abrir.

– Você tem que ir se arrumar. – ela está usando roupão.

– Vai tirar foto? – franzo o cenho e entro, arrastada.

– Não encontramos a Camila. – ela revira os olhos – Vou entrar no lugar dela.

A Camila... Por um momento me esqueci dela. Por onde será que ela anda?

– Onde ela está? – questiono.

– Há rumores que ela voltou para a casa do pai, mas as coisas continuam na república.

Que estranho, ela não iria embora sem levar as roupas, material e os afins.

Subimos uma escada em caracol e logo estamos na loucura das fotos. Monique já está sendo fotografada e Coraline já está sendo maquiada.

– Sua roupa está ali. – Rafael avisa.

Meneio a cabeça confirmando e vou para a penteadeira que ele apontou. Mais duas pessoas chegam para me ajudar na maquiagem e no cabelo. Ao contrário da primeira, essa não parece estar espancada e sim ter chorado durante dias. O lápis e o rímel têm um efeito escorrido até um pouco abaixo das maçãs de meu rosto, meus olhos tem um olhar cansado e abatido. Minhas clavículas são ressaltadas.

– Pode tirar o vestido? – a maquiadora pede, gentilmente – Temos um trocador aqui do lado.

Sigo-a até o trocador e retiro a peça. Automaticamente ela olha para a cueca, sorrio amarelo.

– Irá colocar o corpete vermelho e as cintas de liga. – ela entrega as peças de roupa – O salto já vai ser entregue.

– Tudo bem. – murmuro deixando as peças de lado.

Ela termina mais alguns retoques na maquiagem corporal e facial e sai, deixando que eu termine de me trocar.

– Amiony! – chamo-a – Amiony!

– Ô meu Deus. – ela abre a porta – O que foi?

– Fecha o corpete para mim. – viro de costas.

Encaro-me no espelho. Irei aderir os corpetes, deixanm o corpo mais curvilíneo e a cintura mais afinada, gosto disso.

Em momento de distração lembro-me do lanche que comi na padaria e meu estômago embrulha. Nunca mais vou comer aquele lanche, sinto nojo só de lembrar. Minha boca fica com um gosto amargo e meu estômago revira.

– Onde é o banheiro?

– Logo ali. – ela aponta para uma porta depois dos trocadores.

Mal tenho tempo de chegar ao banheiro e a bile sobe por minha garganta e tenho a sorte de estar perto do vaso. Afasto o meu cabelo e ajoelho. Amiony entra no banheiro exasperada e segura meu cabelo.

– Você está passando bem? – ela questiona.

Será que o lanche estava podre?

Passo a mão na boca e respiro fundo. Dou descarga.

– Comi um lanche hoje. – dou de ombros – Não parecia estar estragado.

– Comeu por dois? – Monique entra no banheiro.

– O que?! – não consigo esconder o espanto e minha própria acusação – Não estou grávida.

– Quando foi sua última menstruação? – ela cruza os braços.

– Olha, tenho problema com meus ciclos menstruais – explico -, um mês ela vem e outro não. Mas tenho certeza que não estou grávida.

– Absoluta? – ela ergue uma sobrancelha.

– Certeza já é absoluta. – rebato.

– Talvez ela só esteja passando mal. – Amiony intervém.

– Fecha a porta. – peço.

Monique obedece e não esconde sua desconfiança sobre minha explicação. Limpo a garganta.

– É impossível eu estar grávida. – afirmo – Foi ontem que a camisinha estourou, não faz sentindo ter os sintomas hoje.

Amiony arregala os olhos.

– Tomou a pílula? – Monique fala, indiferente ao caso.

– Sim. – murmuro.

– Então é isso. – ela alivia a postura – Em algumas mulheres a pílula tem efeito colateral, mas amanhã passa. Tome a segunda dose ou vai perder o efeito, principalmente por ter vomitado.

Aquiesço.

– Vamos, temos que tirar as fotos. – Amiony abre a porta e sai, seguida de Monique.

Levanto e lavo a boca na pia, me certificando de não danificar a maquiagem. Saio do banheiro e vou direto tirar as fotos.

Depois da sessão, como de costume, Rafael serviu vinho e algumas torradas para comemorarmos o progresso de um simples projeto para a faculdade. Não permaneço muito tempo na comemoração, pois marquei de encontrar a minha vó no almoço. Vou para o trocador fazer a troca de roupa e fico um tempo me encarando no espelho.

Estou gorda. Fico de lado. Preciso fazer um regime urgente. Olha o tamanho dessas coxas! Credo, nunca tive coxas assim, elas estão emendando com minha canela, não tenho mais joelho. Aperto minha barriga; está dura. Regime, urgente.

**

Chego em casa um pouco depois do almoço pelo trânsito e por ter passado mal de novo. Entro em casa e o cheiro de comida é inebriante, porém estou enjoada demais para sentir fome. Largo minhas coisas na sala.

– Vó?

– Aqui em cima.

Subo as escadas correndo e entro no quarto dela. Está sentada na cama com uma caixa na mão. Deito na cama ao seu lado e olho dentro da caixa. Há algumas fotos do vovô e um revolver.

– Que horror. – comento ao ver a arma.

– Era do seu vô. – ela dá um sorriso de lado – 50 anos juntos e ainda achei pouco.

Permaneço em silêncio. Faz uns quatro anos que ele faleceu e sempre achei que ela não foi capaz de superar a morte repentina dele. Mesmo mantendo um relacionamento com o Israel atualmente.

– Sabe que dia é hoje? – ela me encara.

–Espero que não seja seu aniversário. – sorrio e ela ri.

– Não, sua besta, é meu aniversário de casamento. – ela pega uma foto dele em cima de um cavalo – Costumávamos comemorar.

– Posso comemorar com você. – sorrio.

– Não será a mesma coisa.

– Obrigada por me rejeitar.

– Quero que escute o que vou te dizer, Bianca. – sua voz fica séria.

Aguardo sua continuação.

– Quando eu morrer, quero ser enterrada com essa arma. – ela pega a arma velha- É o único bem que prezo de verdade.

– Que mórbido, vó.

– Você é a única que vai me escutar, sua mãe parece escutar e não ouvir.

Sei bem como é isso.

Ficamos em silêncio. Encarando o velho revolver do vovô e posso me lembrar como se fosse ontem de quando ele me ensinou a atirar, carregar, travar e descarregar uma arma.

– Ainda sabe mexer? – ela me encara.

– Sim.

Ela acaricia minha cabeça.

– Você faz assim. – ela começa a relembrar os passos.

Um pouco depois da nostalgia dela, vamos comer. Ela permaneceu em silêncio durante a refeição e depois quis dar uma passada no cemitério, cogitei em ir com ela, mas ela preferiu ir sozinha. Fiquei em casa.

Ligo para Malic.

– Oi. – a voz rouca dele ressoa.

Sorrio.

– Oi.

– O que você está fazendo?

– Estou deitada no sofá e você?

– Também.

– Vou mais tarde para a sua casa.

– Então, queria te convidar para ir em uma festa.

Reviro os olhos e sorrio, debilmente.

– Posso chamar minhas amigas?

– Claro. Aí depois da festa a gente vem para o meu apê.

– Não vou entrar em um carro com você bêbado.

Ele ri.

– Você dirige.

– Agora vi vantagem.

Rimos.

– Aonde vai ser?

– Naquela cachoeira que eu te mostrei aquele dia.

– Não gosto desse lugar...

– Ah, Angel, vamos lá.

Respiro fundo.

– Vou falar com elas.

– Passo para te pegar.

– Que horas?

– 19:30.

– Tudo bem.

– Você está melhor?

– Sim. – minto.

– Você tem que tomar o outro comprimido.

– Eu sei. Pode trazer para mim?

– Levo.

– Obrigada.

– Fez seu ensaio?

– Fiz, foram poucas fotos e só algumas individuais, então foi bem rapidinho.

– Vai ter mais ensaio no fim de semana?

– Espero que não.

– Sim.

Ficamos em silêncio e meu celular vibra, anunciando outra chamada.

– Tenho que desligar. – aviso em um murmúrio.

– Até mais tarde.

Mal desligo sua chamada e o meu celular toca, é minha mãe.

– Desculpa, ela não pode atender agora. Creio que ela foi ali retirar o útero e ainda não voltou.

– Não faça drama. – posso vê-la revirar os olhos – Desculpa ter desligado e falado rápido àquela hora, mas não era um bom momento para me telefonar.

– Pode falar agora?

– Sim. Você tomou a pílula?

– Tomei e tive uma reação.

– Vomitou?

– Sim.

– Então irá tomar o outro o quanto antes para não perder o efeito, entendeu? – sua voz está firme e isso anuncia que agora ela está se importando com o que aconteceu.

– Entendi.

– E semana que vem marquei um ginecologista para te receitar um anticoncepcional e te introduzir corretamente no mundo sexual.

Por favor, que seja uma mulher.

– Não é no seu, né?

– Não, é em um aí em Villa Lobos mesmo.

Graças a Deus. Aquele velho me causava arrepios e eu nem era paciente dele.

– Tenho que desligar, minha reunião começa agora. – ela desliga antes mesmo que eu tenha tempo de dar tchau.

Crio um grupo por mensagem para avisar as meninas sobre a festa de hoje à noite.

**

Vovó volta só no entardecer enquanto estou me arrumando para a festa, não quis saber para onde eu iria, mas avisei que parecia o fim de semana na casa do Malic – ela deve ter percebido pela mala.

Depois de escutar sugestões e ver fotos das roupas das meninas, resolvi aderir o mesmo estilo que elas: shorts jeans e o biquíni com o top aparecendo. Termino de passar o rímel e o batom e desço com minhas coisas, aguardando por Malic na varanda.

Recebo algumas mensagens no grupo que criei sobre como elas vão encontrar a cachoeira e mais um monte de baboseiras e arrisquei dizer que eu espero elas no acostamento – onde vamos deixar os carros.

Uma buzina me desperta, olho para a rua e vejo o carro de Malic estacionado. Sorrio e pego minhas coisas, indo na direção do automóvel. Antes de entrar, olho para a janela do quarto de minha vó e ela está parada lá, nos observando no escuro. Aceno.

– Trouxe sua pílula. – ele me entrega.

– Obrigada. – pego a garrafa de água que reservei na mala para isso.

Tomo e respiro fundo. Nada de paranoia.

– Temos que esperar as meninas no acostamento. – aviso.

– Tudo bem. – ele sai com um único arranco.

Havia alguns carros parados no acostamento e não preciso pensar muito para saber que são dos amigos do Malic. Jogo minha mala para o banco de trás e abro a porta quando ele para, caminho pelo acostamento para esticar as pernas e os braços.

– Onde pensa que vai assim? – sei que ele se refere a minha roupa.

Sorrio.

– Tenho uma festa.

– Hm... Que bonito hein. – ele se aproxima, com um sorriso de lado se formando.

Meu coração dispara e um sorriso brinca em meu rosto, debilmente.

Na expectativa de beijá-lo, sou jogada ao chão quando ele me abraça e beija o topo de minha cabeça. Retribuo o abraço, apertando-o em meus braços e afundando o rosto em sua camisa e me drogando com seu cheiro.

Ficamos assim, em silêncio, parados e abraçados. Seus braços grandes e quentes envolvem minhas costas nuas e traz uma sensação reconfortante. Ele é uma das melhores coisas que me aconteceu nessa cidade.

– Eu te amo. – murmuro.

– Eu também te amo. – ele segura em meu queixo e encosta os lábios nos meus, um simples e amigável selinho que deu entrada para o beijo propriamente dito. Levo os dedos para seu cabelo macio e acaricio.

O farol de um carro interrompe o ato e as buzinas já anunciam que são elas. Me afasto dele e viro para observar o carro estacionar.

– Chegamos para estragar o clima do casal. – Monique desce do carro.

– Para variar. – zombo.

Ela revira os olhos e deposita dois beijos em minhas bochechas e depois repete o ato em Malic. Assim que o grupo está reunido, entramos na trilha.

– Jesus amado, isso é alguma tentativa de sequestro passiva? – Coraline comenta segurando no braço de Juliana.

– Como vou sair daqui quando estiver bêbada? – Monique questiona – Nunca, vou me perder eternamente aqui.

Sorrio.

– Pelo menos não fui a única que reclamei. – murmuro para Malic.

Continuamos a caminhada escutando as reclamações e os gritos agudos de Coraline quando uma folha encostava em seu pé – mas para ela era uma cobra. Um pouco a frente conseguimos ver lanternas vindo ao nosso encontro. São os amigos de Malic.

Malic retira um maço de cigarros do bolso e acende um – faz um tempo que não o vejo fumar. Continuo ao seu lado enquanto as meninas se enturmam com seus amigos e, aos poucos, nos deixam para trás.

– Não aguentava mais as reclamações. – ele anuncia.

Dou um singelo sorriso.

– Elas são legais.

– Claro que são. – ele passo o braço por meu ombro e traga o cigarro, por intermináveis segundos.

– Você tem fôlego. – comento.

Ele dá um sorriso de lado com o cigarro ainda nos lábios, dando a chance de encarar o ato como malicioso. Estreito os olhos.

– Vamos. – ele começa a caminhar e me arrasta com ele.

Subitamente, lembro-me de Camila. Onde será que ela está? Vou ligar para ela amanhã. Não é normal alguém sumir assim, sem dar notícias ou satisfação e ainda largar tudo para trás. Franzo o cenho com o pensamento. Será que o Jonas foi atrás dela? Ou será que ela está fugindo dele? Preciso conversar com ela.

– O que está tomando seus pensamentos? – Malic me tira do devaneio.

– Nada importante. – ajeito uma mecha de meu cabelo e suspiro.

Ele dá apenas mais duas tragadas no cigarro e o joga no chão, pisando em cima logo em seguida.

– Por que não para de fumar? – pergunto encarando a bituca de cigarro no chão.

– Porque alguma coisa precisa me fazer mal. – ele responde de um jeito mortalmente manso.

Franzo o cenho.

– Por quê?

– Porque eu faço mal para as pessoas. – ele me encara de canto de olho – Então preciso de um equilíbrio: eu faço o mal e recebo o mal também.

Que tipo de coisa ruim o Malic podia causar para alguém? Se não contarmos a humilhação de sua beleza perante os demais, não vejo outra coisa ruim nele.

– Não te acho uma pessoa ruim. – comento, baixo.

– Você é minha menina inocente. – ele sussurra e vira para me encarar – Não te desejo mal.

Sorrio, sem mostrar os dentes.

Não consigo ver perfeitamente seu rosto por conta da escuridão, mas seus traços ainda são marcantes. Tento imaginar quem pode sofrer pela crueldade do Malic e se ele, de fato, consegue praticar algo tão ruim assim. E mesmo tentando, não consigo pensar no Malic como uma pessoa ruim, cruel e fria.

– Vamos para a festa. – ele quebra o silêncio e começa a andar, me levando junto.

A festa está animada e já posso reparar em algumas pessoas bêbadas. Há caixas de isopor nas pedras perto do lago e duas caixas de som do outro lado. Alguns casais sobem até a cabana que achei a blusa e outros preferem ficar no meio das árvores mesmo.

Sento perto do lago e observo Malic na água conversando com alguns amigos. Vezes ou outras ele me encara e eu retribuo com um sorriso. Mesmo gostando de participar de festas, não sou a pessoa mais festeira para se ter em uma, passo a maior parte do tempo sozinha, apenas observando os outros.

Ele sai da água e senta ao meu lado, esfregando o cabelo e fazendo algumas gotas respingarem em minha coxa.

– Quer ir embora?

– Você quer ir? – encaro-o.

Ele dá de ombros.

– Faço o que você quiser.

Solto o ar.

– Pode ficar mais um tempo com seus amigos.

– Prefiro ficar mais um tempo com você. – ele rebate.

– Então vamos embora.

***

Assim que chegamos em seu apartamento, tomamos banho e fomos direto para cama. O silêncio do quarto é aconchegante, mas não estou com sono.

– O que vai fazer quando acabar a faculdade? – ele pergunta em um sussurro, contra meu torso.

– Procurar um emprego. – falo, óbvia.

– Pretende casar?

Fico em silêncio, para pensar em uma boa resposta.

– Acho que sim, mas não agora, por quê? – acaricio seu cabelo.

– Porque não consigo te imaginar casada. – ele sorri – Não com outra pessoa.

– Como assim?

– Talvez você esteja mais comigo quando acabar a faculdade, iremos perder contato e você irá conhecer pessoas novas e consequentemente, irá se casar com um cara que conhecer por aí. – ele sussurra- E eu serie apenas parte do seu passado e já que o passado é algo que não existe mais para você, então eu não existirei mais.

Sorrio.

– Que crise existencial profunda.

Ele ri.

– Você sempre existirá para mim. – garanto em um sussurro.

– Mesmo eu sendo assim? – ele me encara. Seus olhos amarelados estão opacos.

– O que você é?

– Uma pessoa ruim.