Minhas pernas ficam mole e minha garganta seca. Como ele consegue fazer isso? Como consegue quase me fazer ter um ataque com poucas palavras?

Amaço a foto e saio do banheiro, seguindo as meninas até o prédio do diretor.

O diretor não permitiu que o grupo inteiro entrasse em sua sala, principalmente por eu estar lá também, então só concedeu lugar a Juliana e a namorada dela, que são as reais vítimas do atentado. Camila está sentada na última cadeira do corredor, olhando para o chão com mãos trêmulas. Não mencionei a mensagem atrás da foto, prefiro mostrar isso para a polícia, tenho a sensação que o diretor possa sabotar o que tive de provas em mãos.

Não consigo entender ela, por mais que eu tente, não consigo entender essa omissão e esse medo de denunciar o Jonas, mesmo vendo tudo o que ele está fazendo, mesmo tendo uma prova concreta! Ás vezes acho que sou capaz de pular no pescoço dela e esganá-la. Encaro os meus pés e lembro-me do meu pequeno dever: decidir o que vou fazer com o Malic.

Querendo ou não, ele colocou pressão. Mas não estou incomodada com isso e sim, com a minha resposta, em como pensar em uma. Céus. Gosto muito dele, posso até dizer em amor, só que não consigo dizer isso a ele e duvido que consiga transmitir, não quero que ele tenha dúvida sobre meus sentimentos por ele, mas também não quero ter uma relação desgastante. A relação da Juliana é um bom exemplo de algo verdadeiro, mesmo passando por dificuldades, elas continuaram juntas e deram um jeito de dar certo. Tenho que arrumar um jeito de dar certo com o Malic e tenho medo que esse jeito não exista.

Mordo o lábio inferior e suspiro.

Gostaria tanto de ser alguém decidida na vida, ter resposta para tudo e uma decisão imediata, com tudo na ponta da língua, no entanto sou totalmente o oposto disso, quero seguir em frente enquanto ando para trás ou virar à esquerda quando estou sinalizando para direita. Esse deve ser o meu grande problema.

A porta da sala do diretor é aberta e as duas saem, caladas.

– O que ele falou? – Coraline questiona, de imediato.

– Ele vai averiguar como essa foto foi parar lá, mas no momento não pode fazer mais que isso. – Juliana suspira.

– Pelo menos vai tentar fazer alguma coisa. – Monique tenta dar uma motivação, falha.

– Só quero ir para casa. – Juliana dá de ombros.

– Está tudo bem. – a menina afaga seu ombro.

– Por que você não vai? – ergo uma sobrancelha – Está mais que merecendo um descanso pela manhã de hoje.

Ela dá um sorriso melancólico e aperta a mão da namorada.

– Posso te levar para casa. – a outra se oferece.

– É melhor irmos saindo. – Camila levanta.

Concordamos e sigamos para fora do prédio. Já está no intervalo e todos os estudantes ocupam o pátio, deixando-nos totalmente invisíveis no meio da falação e risadas. Encontro o grupo de amigos do Malic e ele está no centro, por que não estaria? Está erguendo a camiseta e mostrando algo em seu peito. Forço a vista para tentar ver o que é e noto que é uma tatuagem nova. Hm. Ele havia comentado comigo sobre ela.

Volto a me concentrar nas meninas se despedindo de Juliana e faço o mesmo.

– Vamos para a cantina? – Monique encara Coraline.

– Vou com vocês. – Amiony avisa.

Acabo ficando sozinha com Camila.

– Já estava pensando em denunciar. – ela murmura – Antes disso acontecer com ela.

– Acontece que você tinha que ter denunciado isso no dia. – retruco – E não uma semana depois.

– Estava com medo. – ela balbucia.

– Pois não deveria. – cruzo os braços – Ele não pode e não vai fazer nada com você, entenda isso.

– Vamos depois da aula? – ela sugere.

Encaro o chão. Gostaria de ir agora, para aproveitar o ato fresco da ação, mas não será uma boa ideia perder aula.

– Te pego depois da aula. – dou as costas e volto para o meu prédio.

Faz 15 minutos que o período encerrou e Camila não apareceu por aqui, estou começando a achar que ela me enganou só para conseguir fugir de mim. Bufo. Como pude ser tão trouxa? Era melhor ter ido àquela hora. Tudo bem, se ela não quer fazer isso, eu faço. Pego a chave do carro e quando vou me dirigir para o estacionamento, sou abordado por seu grito:

– Bianca! Espera aí! – ela vem correndo em minha direção atolado de livros.

– Achei que não iria mais vir.

– Tenho palavra. – ela dá um sorriso fraco e fica ao meu lado – Vamos?

Não respondo, apenas caminho na direção do carro.

A delegacia estava vazia, calma e silenciosa. Tudo mudou assim que chegamos com a foto e o bilhete, além da acusação de Camila. As coisas foram acontecendo rápido, logo já estava agindo e indo atrás de Jonas em sua casa, enquanto que perguntavam mais sobre os acontecimentos para nós, principalmente por eu estar envolvida com isso novamente.

Nos mandaram esperar. O tempo nunca passou tão devagar quanto está passando agora, parece até que estamos em um modo de câmera lenta. Encaro a parede branca do corredor que estamos e aperto minhas mãos. Vovó disse que viria para cá com o Israel, mesmo depois que eu falei que não era necessário. Camila está quieta e tensa. Não puxo assunto por não estar no clima para conversa e por não ser o momento para conversas.

Mais rápido que eu gostaria, a resposta veio crua e fria: Jonas não estava em casa; não havia ninguém na casa. Porém os policiais encontraram as fitas que Camila falou – estavam vazias, prontas para novos vídeos. Uma busca foi inicia pelas cidades e estados mais próximos, logo Jonas não era um simples estudante do curso de anatomia, mas um procurado. O maior receio agora era de sua saída para o exterior, o que iria complicar ainda mais as buscas que já não estavam em seu ápice. Nada mais foi encontrado com alto teor de incriminação.

Mesmo insistindo, Camila recusou meus pedidos de levá-la para casa. Não entendo essa vontade dela de ficar sozinha em um momento que requer a junção e apoio das outras pessoas, mas respeitei seus pedidos e fiquei na delegacia para saber mais coisas sobre a procura.

– Isso já está virando palhaçada. – vovó resmunga – Como ela não denunciou isso no dia?

– Calma, querida, as coisas não são como em filmes. – Israel sussurra segurando em seus ombros.

De fato, nada acontece como acontece nos filmes; nada tem a perfeição das telas.

– Estou cansada. – suspiro- Será que vai demorar muito?

– Por que você não vai para casa? – a policia sugere – Qualquer notícia entro em contato.

– E a segurança? – minha vó interfere.

– Como? – a polícia a encara, confusa.

– Não é a primeira vez que minha neta se envolve com esse caso, acho necessário o uso de seguranças para ela. – ela explica.

Reviro os olhos.

– Não precisa vó, foi denúncia anônima. E se precisar, seria para a Camila.

– Amanhã vamos providenciar escoltas para as duas. – a agente garante.

A informação para contentar minha vó, que segura em meu braço e se despede dos policiais no recinto. Saímos em silêncio.

–Vou no meu carro. – informo – Encontro com vocês em casa.

Ela não parece apoiar a ideia, mas não diz nada contra a minha ação. Destravo o carro e entro, demorando alguns segundos para raciocinar em colocar a chave na ignição.

Deus do céu, era o Jonas. Estive tão perto de um assassino, fui amiga dela. Como alguém pode ser tão dissimulado a ponto de ter duas vidas? De ser duas pessoas? Ele conseguiu separar suas identidades sem problema algum, sem suspeita alguma. Conseguiu ser o Jonas e o Lobo Mau ao mesmo tempo e ninguém nunca iria desconfiar de suas ações até as câmeras serem descobertas, e se elas não tivessem sido descobertas? Ele iria continuar. Sinto um arrepio. Espero que ele seja preso logo, o mais rápido possível.

Quando cheguei em casa, fui dormir e acabei chorando – contra a vontade.

No dia seguinte, todos estavam sabendo do ocorrido. Do dia para a noite Jonas virou a pessoa mais falada na cidade toda, como se tivesse saído das sombras para a luz. Hoje virou um dia épico para os moradores de Villa Lobos, hoje o Lobo Mau tinha um rosto, um nome, um corpo, uma vida.

A faculdade inteira falava e debatia sobre o comportamento do pequeno Jonas tímido da anatomia e havia apenas uma pessoa que lutava contra a correnteza e tentava proteger o amigo das acusações: Matthew. Para ele é quase impossível acreditar que o amigo viciado em videogames foi capaz de matar mulheres a fio e ainda vigiá-las nas horas vagas; é ilógico para todos acreditar que isso viria de Jonas.

– Ele era tão calado e tímido, nunca tinha nem ficado com uma menina direito. Ainda não consigo entender, esse não é o Jonas. – Matthew sussurra.

– Pare de tentar defender um assassino. – Monique o repreende.

Algumas atitudes psicopatas se desenvolvem após algumas frustações, talvez ele fosse frustrado por nunca namorar ou ser desejado pelas meninas como os amigos eram e isso deve ter gerado sua violência contra as mulheres.

Camila não apareceu hoje e minhas tentativas de ligar são inúteis, já que seu celular se encontra desligado.

Passamos a ser as heroínas da cidade, principalmente Camila. Fama para alguns e desgraça para outros.

Os professores fizeram incríveis debates sobre o tema da violência e o projeto de Rafael foi cada vez mais citado, ganhando fama novamente. Não tive muita vontade de falar sobre o assunto, mas sempre pronunciava alguma coisa quando era citada por alguém interessado no assunto. As coisas ainda estão me entorpecendo.

Minha mãe me ligou no intervalo e meu pai também falou comigo, queriam saber como as coisas estavam e como eu estou perante essa situação toda. Ainda não tenho uma resposta. Só continuo indo com a maré, seguindo a correnteza, deixando-me ir.

Fiquei sozinha durante o intervalo. Observei os alunos sentada em um banco e encontrei Malic perdido pelo pátio, estava sozinho. Ainda tenho que dar a resposta para ele, mas ainda nem pensei em uma – na verdade, isso nem passou pela minha cabeça ainda. Gostar de alguém é como mascar chiclete, no começo é macio e gostoso, mas com o tempo fica duro e sem gosto, dando sinal que já está na hora de jogar fora.

Mas jogar fora significa que você nunca gostou e sim, curtiu. Se amamos de verdade, não jogamos fora, mastigamos devagar para a dureza passar e fingimos que ainda tem algum gosto. É como a sensação que ele é, ela irá passar e a única coisa a permanecer será as lembranças sobre ela, a não ser que eu a faça ficar, que eu me esforce para sempre sentir isso.

Suspiro. Não sei o que tenho que fazer.

Os olhos amarelos estão me encarando, minhas bochechas esquentam e minha única reação e acenar, ele devolve o aceno e vai embora.

**

Camila não apareceu na escola nos outros dois dias e há rumores que ela saiu da faculdade e mudou para outra cidade, mas nada foi confirmado, ela continua ignorando minhas ligações com a caixa postal.

A cidade está mais conformada com o Lobo Mau – ainda não o suficiente, mas já é aceitável. O projeto de Rafael será publicado em uma revista e isso exigi outro ensaio – Camila será substituída por Amiony.

– Vamos sair hoje e encher a cara. – Monique diz, sentando ao meu lado – Preciso esquecer tudo isso.

A forma mais fácil de aceitar as coisas é ignorando, vou não concorda, mas também não rejeita.

– Estou precisando beber pra cair. – Matthew suspira – Ainda está entalado na minha garganta.

Coraline morde o lábio inferior.

– Não podemos beber amanhã? – ela nos encara.

– Qual a diferença? – Juliana a encara – Topo beber qualquer dia.

– Vamos hoje e amanhã. – Amiony resolve – Assim todos ficam feliz.

– E todos morrem em coma alcoólico. – comento.

Eles riem.

– Depois do período. – Monique confirma – Leva a sua Julieta, Romeu. – ela encara Juliana.

– Não enche o meu saco. – Juliana resmunga.

Sorrio.

– Depois da aula. – confirmo e levanto.

Fui a última a chegar para encontra o grupo, eles já estavam na segunda rodada de bebida e os ânimos estavam voltando com uma risada aqui e uma conversa ali. Sento na ponta da mesa, ao lado de Juliana e da namorada.

– Conseguiu falar com a Camila? – Juliana me encara.

– Não. – murmuro – Ela não retorna minhas chamadas.

– Pois é.

– Mas então, como vocês estão? – mudo de assunto.

– Falei para os meus pais sobre a Ju. – Michaela sorria – Eles super apoiam a gente.

Sorrio.

– Vou falar para os meus pais esse fim de semana. – Juliana parece tensa – Mas acho que vai dar tudo certo.

– Vai dar. – Michaela a corrigi.

– Claro. – concordo.

– E você?

– Hm? – encaro Juliana.

– Você não estava namorando aquele carinha lá?

– Terminamos. – murmuro.

– Por quê? – Michaela pergunta, incrédula – Não conheço ele, mas Juliana comentou de uma briga dele com o Matthew,

Todo mundo sabe disso?

– Sei lá – dou de ombros – Talvez eu não goste dele o suficiente.

As duas franzem o cenho ao mesmo tempo.

– O suficiente? – Michaela ergue a sobrancelha – Ou você gosta ou não.

– Sim. – Juliana concorda – Você parecia tão decidida aquele dia que resolveu ir com ele e deixar a gente aqui depois da briga, e é nesse seu ato que me inspiro para continuar o meu relacionamento.

– Por quê? – franzo o cenho. Não vejo nada heroico no que eu fiz para virar inspiração.

– Porque você o escolheu, indo contra todos. – ela explica – E isso foi quase que uma declaração do que você sentia por ele. Não entendo porque está confusa agora.

Eu o escolhi aquele dia. Assim como escolhi quando minha vó e minha mãe queriam o Matthew. Minhas escolhas sempre foram ele.

Levanto.

– Preciso ir. – aviso. Elas sorriem.

Corro até o carro e vou direto para casa. Assim que entro, mal falo com minha vó e corro para o chuveiro. Tomo um banho rápido e escovo os meus dentes, raspo minhas pernas e lavo o cabelo. Faço uma maquiagem leve e coloco meu vestido vermelho, coloco meu celular na minha bolsa e desço novamente. Aviso minha vó que estou saindo.

Em 20 minutos estou na frente do prédio dele. Respiro fundo. Saio do carro e caminho até a portaria, onde custo a lembrar o apartamento dele.

– É só pegar o elevador. – o porteiro avisa.

– Obrigada. – sorrio.

Dou uma última arrumada no meu cabelo em frente as portas metálicas, aperto o andar dele e encosto na parede. Respiro fundo mais uma vez. Estou pronta, agora estou.

As portas abrem e ele está parado atrás delas. Está usando uma camisa social com os três primeiros botões abertos e a gravata azul folgada, uma calça jeans escura e meias. Ele vai sair...

Em um súbito momento, tenho vontade de apertar o botão para o térreo e sair correndo daqui. Prendo a respiração e saio do elevador.

– Você vai sair? – murmuro.

Ele se aproxima de mim, mansamente.

– Com os meus amigos.

Eu tinha coragem, até encontrar com ele e saber que ele vai sair.

– Você quer me falar alguma coisa?

Mordo o lábio inferior e sorrio. Ele está jogando comigo.

– Se você não tivesse compromisso, podíamos até conversar. – me aproximo e seguro sua gravata – Podemos marcar outro dia.

Centímetros. É isso que me separa dele.

Puxo a gravata e trago sua boca na direção da minha. Se eu esperar mais, não vou fazer nada. Continuo segurando sua gravata com uma mão e seguro em sua nuca com a outra. Uma de suas mãos espalma minhas costas e a outra se encontra um pouco abaixo de meu quadril.

– Meu compromisso pode esperar. – ele sussurra contra minha boca.

Sorrio.

– Venha. – puxo-o pela gravata para dentro do apartamento e fecho a porta.

Caminhamos até o sofá, paro e volto-me para ele, empurrando-o no sofá. Ele sorri de lado, jogo meu cabelo para o lado e sento no seu colo. Suas mãos deslizam para dentro do meu vestido e puxam o elástico de minha calcinha, subindo logo em seguida para minhas costas.

Encaro-o e me afogo na imensidão de seus olhos.

– Eu amo você. – sussurro.