Notas iniciais
O que estão achando?

O resto do período foi normal. O assunto da manhã foram as fotos, que já rodaram as redes sociais.

– Vamos sair para comemorar hoje. – Amiony senta de lado na carteira para me encarar.

– Barzinho? – ergo uma sobrancelha.

– A Monique que sabe.

– Vou ver se consigo ir, estou sem carro.

– Pede pro tatuado te levar.

Sorrio.

– Afinal, vocês estão namorando ou só enrolando?

– Sei lá. – dou de ombros – Está bom assim.

– Relacionamento aberto?

– Não estou saindo com outras pessoas. – rabisco a carteira.

– Ele também pode dizer isso?

– Claro que pode.

Acho que ele pode.

– Por que estamos falando disso? – franzo o cenho – Assunto sem sentido.

Ela revira os olhos.

– Não quis insinuar nada. – ela vira novamente.

Por que as pessoas desconfiam tanto do Malic? Será efeito das tatuagens? Ele não é nenhum bicho de sete cabeças.

– À proposito – ela vira novamente -, o que você fez no joelho?

– Cai em cima de uma garrafa.

– Tava bêbada? – ela ri.

– Não, só tropecei. – dou de ombros e sorrio.

– Você tem uma coordenação cinco estrelas para desastres.

– Obrigada.

O professor volta a explicar, o que nos obriga a ficar quietas. No entanto, ficar em silêncio não quer dizer prestar atenção no que ele está explicando. Repasso a cena do menino saindo do banheiro feminino várias vezes na minha cabeça, buscando alguma coisa que o identifique como um homem e não uma mulher ou lésbica. Lembro-me também do casaco na cabana e comparo os dois. Na minha cabeça, tudo sempre se encaixa perfeitamente, porém, quando falo para os outros passo como louca paranoica. E se ele voltar agora? Não acho que esse protesto seja um modo seguro, principalmente quando se faz referência a um assassino que ainda não foi preso.

– Você não vem?

Volto a realidade e olho para o lado, Amiony está com a mão no meu ombro e com a bolsa no ombro.

– Nossa, nem escutei o sinal tocar. – sorrio e recolho minhas coisas.

– Você viaja. – ela ri.

– Algumas vezes. – rio.

– Mas então, se você quiser levar o Malic, ele será bem-vindo. – ela retoma o assunto.

– Vou ver, se ele quiser ir. – dou de ombros.

– Você se afastou desde que reatou com ele. – ela comenta.

– Como assim? Claro que não.

– Sim sim. – ela insisti – Não foi jantar com a gente ontem.

– Uma vez. – reviro os olhos – Passo o lanche com vocês.

– Metade, porque você vai vê-lo. – ela rebate.

– O que foi agora? Não posso mais ver o meu namorado?

– Ah, agora é namorado. – ela sorri.

– Foi força de expressão. – rebato.

– Quer saber? – ela me encara – Faz o que você quiser, só não seja tonta o suficiente em perder seus amigos por causa de um pinto e corpo definido. – ela sai andando, me deixando para trás.

O quê? Franzo o cenho e a observo se afastar.

Vou até o estacionamento onde Malic deixou o carro e o encontro sentado no capô, fumando – o que não se pode confundir pelo cheiro, maconha. Aproximo-me sorrindo.

– Vamos sair hoje. – aviso.

– Vamos para onde?

– Para um barzinho.

– Com os seus amigos? – ele faz uma careta.

– Sim, algum problema?

– Sei lá. – ele dá de ombros.

Seguro seu rosto com uma mão e dou um rápido selinho, arrancando o cigarro de sua mão com a outra.

– Vamos? – encaro-o.

– Tudo bem. – ele destrava o carro – Já ligou para sua vó?

– Ligo no caminho. – entro no carro.

Não demoramos para encontrar o barzinho, já que é o único da cidade e vive lotado de estudantes residentes das republicas.

– Seja você, simpático, que eles vão gostar. – comento abrindo a porta, não escuto sua resposta.

Entramos no bar e automaticamente procuro pela mesa mais cheia e barulhenta; ela está no centro do bar, na horizontal. Pego na mão de Malic e me aproximo, sorrindo. Assim que chegamos em uma das pontas da mesa, o assunto e as risadas cessam.

Limpo a garganta.

– Achei não havia problema em trazê-lo. – falo, para quebrar o clima.

– Mas não tem. – Monique nos encara – Senta aí, tatuado.

Malic sorri.

– Não esperávamos por mais uma pessoa. – Matthew interrompe – Não tem cadeira.

– Tem uma ao lado da Camila. – aponto.

– Está sendo usada para a bolsa dela. – ele estreita os olhos.

– Ela não vai se importar de colocar a bolsa em outro lugar. – retruco.

– Vai sim. – ele rebate.

O silêncio é incomodo e pesado. O que ainda estou fazendo aqui? Submetendo o Malic a essa humilhação desnecessária? Francamente.

– Sem problemas. – Malic puxa uma cadeira da mesa ao lado e senta.

Todos continuam em silêncio.

– Vai atrapalhar a passagem dos garçons. – Matthew fala, debruçando na mesa e me encarando.

– Malic, vamos embora. – puxo-o pelo braço.

– Não. – Monique nos encara – Fica aí.

– Está tudo bem. – forço um sorriso.

Malic levanta e respira fundo.

– Enfia a cadeira no seu cú agora, babaca. – ele fala e chuta a cadeira, que bate na mesa ao lado.

Matthew levanta e empurra a mesa, um copo vira no colo de Coraline que resmunga se levantando. Aperto o braço de Malic.

– Vamos embora. – estreito os olhos o puxando.

– Já estou indo. – ele puxa o braço.

A essa altura, todos da mesa estão tensos e lívidos. Olho em volta, as outras pessoas ainda não notaram. Respiro fundo.

– Malic... – sussurro.

Matthew cruza a mesa e fica a alguns passos de distância de Malic, meu coração acelera e fico presa ao chão.

– Repete na minha cara. – Matthew desafia.

– Enfia a cadeira no seu – antes que Malic pudesse terminar a frase, Matthew acerta um soco em sua boca. Arregalo os olhos.

Agora sim, todos do bar notaram a briga – o silêncio é acusatório. Ninguém da mesa mexe um músculo sequer para apartar a briga.

Matthew se aproxima de Malic, que esbarra na cadeira de Monique ainda se recompondo. Matthew ergue o punho para deferir outro soco, mas Malic o bloqueia e revida com outro soco, acertando o nariz de Matthew. Posso escutar o estralo do osso se partindo.

– Jonas! – chamo-o – Faça alguma coisa!

Ele ergue a mão na defensiva e não levanta da cadeira.

– Alguém tem que fazer alguma coisa! – olho em volta.

Todos estão apenas assistindo. E foi aí que eu percebi que ninguém se importa com ninguém e nunca vai se importar, é isso que acontece com o Lobo Mau, ninguém irá reagir a ele enquanto a vítima não for alguém próximo – se ele permanecer longe de nós, com vítimas que não tem laços com a gente, seremos apenas mais alguns espectadores para suas ações, assim ele nunca será parado.

Algo quebra. Volto minha atenção para a briga e noto que Matthew caiu por cima de uma mesa, quase inconsciente. Malic irá matá-lo.

Os seguranças do bar se aproximam da briga, mas tem dificuldade de passar pela multidão. Em um impulso, agarro o punho de Malic antes que ele acerte o rosto de Matthew, com a força do puxão, sou jogada no chão, por cima de Matthew.

– Chega! – encaro Malic.

Ele abaixa a mão.

– Está defendo ele? – ele estreita os olhos.

– Claro que não. – franzo o cenho – Apenas prevenindo uma morte.

Seu lábio está inchado e um pouco roxo, o sangue seco escorre pela lateral de sua boca até o queixo, com alguns respingos na camiseta.

– Já cansei de bater nele. – ele dá de ombros e sai.

Os seguranças conseguem se aproximar, porém, não tem sucesso em barrar a saída de Malic, indo direto socorrer Matthew. Levanto e olho para todos na mesa.

– Ótima comemoração. – cuspo as palavras e sigo Malic.

– Bianca – Juliana me chama -, se você for com ele, é melhor nem falar com a gente amanhã.

– Como você tem coragem de culpá-lo? – estreito os olhos – Quem começou tudo isso foi o Matthew.

– Olha o que ele fez com o Matthew. – Monique levanta – Ele é um animal!

– Não ouse ofendê-lo. – ameaço.

– Bianca. – Juliana e Malic falam em uníssono.

Olho para os dois e respiro fundo.

– Espero que Matthew fique bem. – sigo Malic até a saída.

Entro no carro e permaneço em silêncio, aguardando ele entrar.

– Me leva até o meu carro. – peço.

Permaneço o caminho todo em silêncio, com o olhar na paisagem do lado de fora. Malic segura o volante com uma mão e repousa a outra na minha coxa, como se estivesse se desculpando. Suspiro. Ele para o carro um pouco mais à frente do meu, recolho as coisas e saio do carro, batendo a porta.

Ridículo; isso define tudo o que aconteceu.

Pego a chave do carro na bolsa e o destravo. Escuto a porta do carro bater de novo, aperto o passo. Abro a porta e ela fecha antes que eu possa entrar, suas mãos seguram meus ombros e me fazem virar.

– Foi egoísta. – ele murmura.

– Apenas esqueça. – suspiro.

– Devia ter respeitado pelo menos você – ele murmura -, são seus amigos.

– Meus amigos idiotas. – corrijo – Não se preocupe com isso.

– Está chateada comigo?

– Se eu estivesse chateada com você, teria ficado no bar. – sorrio.

Ficamos em silêncio. Talvez ele tenha perdido a razão quando quase matou o Matthew espancado, mas não foi ele que começou a discussão, não é correto jogar a culpa em cima dele. Foi apenas um jeito Malic de se defender. Passo a mão em sua cintura e subo lentamente, até chegar em seu rosto, envolvo-o delicadamente. Fico na ponta do pé.

– Gosto de você, tatuado. – murmuro – Nunca duvide disso.

Nossos lábios se tocam, tenho receio de machucá-lo. Escorrego minhas mãos para sua nuca e puxo-o para mais perto. O gosto de ferro inunda minha boca, sutilmente. Ele se afasta.

– Você não quer ir para o meu apartamento?

Rio.

– Vá para casa, Malic. – abro a porta do carro.

– Vamos estar normais amanhã, né?

– Vamos.

Ele fecha a porta do carro e volta a pressionar o meu corpo com o seu. Beijo-o.

Alguma coisa me diz que apenas nós estaremos normais amanhã...

Notas finais
Estou com um pequeno e chato problema de não conseguir mais por imagens, mas sempre há a possibilidade do Nyah estar zoando comigo, então se vocês conseguirem ver, me avisem ^^