Diga Adeus à Inocência
21 Capítulo 20
Notas iniciais
O resto do período foi normal. O assunto da manhã foram as fotos, que já rodaram as redes sociais.
– Vamos sair para comemorar hoje. – Amiony senta de lado na carteira para me encarar.
– Barzinho? – ergo uma sobrancelha.
– A Monique que sabe.
– Vou ver se consigo ir, estou sem carro.
– Pede pro tatuado te levar.
Sorrio.
– Afinal, vocês estão namorando ou só enrolando?
– Sei lá. – dou de ombros – Está bom assim.
– Relacionamento aberto?
– Não estou saindo com outras pessoas. – rabisco a carteira.
– Ele também pode dizer isso?
– Claro que pode.
Acho que ele pode.
– Por que estamos falando disso? – franzo o cenho – Assunto sem sentido.
Ela revira os olhos.
– Não quis insinuar nada. – ela vira novamente.
Por que as pessoas desconfiam tanto do Malic? Será efeito das tatuagens? Ele não é nenhum bicho de sete cabeças.
– À proposito – ela vira novamente -, o que você fez no joelho?
– Cai em cima de uma garrafa.
– Tava bêbada? – ela ri.
– Não, só tropecei. – dou de ombros e sorrio.
– Você tem uma coordenação cinco estrelas para desastres.
– Obrigada.
O professor volta a explicar, o que nos obriga a ficar quietas. No entanto, ficar em silêncio não quer dizer prestar atenção no que ele está explicando. Repasso a cena do menino saindo do banheiro feminino várias vezes na minha cabeça, buscando alguma coisa que o identifique como um homem e não uma mulher ou lésbica. Lembro-me também do casaco na cabana e comparo os dois. Na minha cabeça, tudo sempre se encaixa perfeitamente, porém, quando falo para os outros passo como louca paranoica. E se ele voltar agora? Não acho que esse protesto seja um modo seguro, principalmente quando se faz referência a um assassino que ainda não foi preso.
– Você não vem?
Volto a realidade e olho para o lado, Amiony está com a mão no meu ombro e com a bolsa no ombro.
– Nossa, nem escutei o sinal tocar. – sorrio e recolho minhas coisas.
– Você viaja. – ela ri.
– Algumas vezes. – rio.
– Mas então, se você quiser levar o Malic, ele será bem-vindo. – ela retoma o assunto.
– Vou ver, se ele quiser ir. – dou de ombros.
– Você se afastou desde que reatou com ele. – ela comenta.
– Como assim? Claro que não.
– Sim sim. – ela insisti – Não foi jantar com a gente ontem.
– Uma vez. – reviro os olhos – Passo o lanche com vocês.
– Metade, porque você vai vê-lo. – ela rebate.
– O que foi agora? Não posso mais ver o meu namorado?
– Ah, agora é namorado. – ela sorri.
– Foi força de expressão. – rebato.
– Quer saber? – ela me encara – Faz o que você quiser, só não seja tonta o suficiente em perder seus amigos por causa de um pinto e corpo definido. – ela sai andando, me deixando para trás.
O quê? Franzo o cenho e a observo se afastar.
Vou até o estacionamento onde Malic deixou o carro e o encontro sentado no capô, fumando – o que não se pode confundir pelo cheiro, maconha. Aproximo-me sorrindo.
– Vamos sair hoje. – aviso.
– Vamos para onde?
– Para um barzinho.
– Com os seus amigos? – ele faz uma careta.
– Sim, algum problema?
– Sei lá. – ele dá de ombros.
Seguro seu rosto com uma mão e dou um rápido selinho, arrancando o cigarro de sua mão com a outra.
– Vamos? – encaro-o.
– Tudo bem. – ele destrava o carro – Já ligou para sua vó?
– Ligo no caminho. – entro no carro.
Não demoramos para encontrar o barzinho, já que é o único da cidade e vive lotado de estudantes residentes das republicas.
– Seja você, simpático, que eles vão gostar. – comento abrindo a porta, não escuto sua resposta.
Entramos no bar e automaticamente procuro pela mesa mais cheia e barulhenta; ela está no centro do bar, na horizontal. Pego na mão de Malic e me aproximo, sorrindo. Assim que chegamos em uma das pontas da mesa, o assunto e as risadas cessam.
Limpo a garganta.
– Achei não havia problema em trazê-lo. – falo, para quebrar o clima.
– Mas não tem. – Monique nos encara – Senta aí, tatuado.
Malic sorri.
– Não esperávamos por mais uma pessoa. – Matthew interrompe – Não tem cadeira.
– Tem uma ao lado da Camila. – aponto.
– Está sendo usada para a bolsa dela. – ele estreita os olhos.
– Ela não vai se importar de colocar a bolsa em outro lugar. – retruco.
– Vai sim. – ele rebate.
O silêncio é incomodo e pesado. O que ainda estou fazendo aqui? Submetendo o Malic a essa humilhação desnecessária? Francamente.
– Sem problemas. – Malic puxa uma cadeira da mesa ao lado e senta.
Todos continuam em silêncio.
– Vai atrapalhar a passagem dos garçons. – Matthew fala, debruçando na mesa e me encarando.
– Malic, vamos embora. – puxo-o pelo braço.
– Não. – Monique nos encara – Fica aí.
– Está tudo bem. – forço um sorriso.
Malic levanta e respira fundo.
– Enfia a cadeira no seu cú agora, babaca. – ele fala e chuta a cadeira, que bate na mesa ao lado.
Matthew levanta e empurra a mesa, um copo vira no colo de Coraline que resmunga se levantando. Aperto o braço de Malic.
– Vamos embora. – estreito os olhos o puxando.
– Já estou indo. – ele puxa o braço.
A essa altura, todos da mesa estão tensos e lívidos. Olho em volta, as outras pessoas ainda não notaram. Respiro fundo.
– Malic... – sussurro.
Matthew cruza a mesa e fica a alguns passos de distância de Malic, meu coração acelera e fico presa ao chão.
– Repete na minha cara. – Matthew desafia.
– Enfia a cadeira no seu – antes que Malic pudesse terminar a frase, Matthew acerta um soco em sua boca. Arregalo os olhos.
Agora sim, todos do bar notaram a briga – o silêncio é acusatório. Ninguém da mesa mexe um músculo sequer para apartar a briga.
Matthew se aproxima de Malic, que esbarra na cadeira de Monique ainda se recompondo. Matthew ergue o punho para deferir outro soco, mas Malic o bloqueia e revida com outro soco, acertando o nariz de Matthew. Posso escutar o estralo do osso se partindo.
– Jonas! – chamo-o – Faça alguma coisa!
Ele ergue a mão na defensiva e não levanta da cadeira.
– Alguém tem que fazer alguma coisa! – olho em volta.
Todos estão apenas assistindo. E foi aí que eu percebi que ninguém se importa com ninguém e nunca vai se importar, é isso que acontece com o Lobo Mau, ninguém irá reagir a ele enquanto a vítima não for alguém próximo – se ele permanecer longe de nós, com vítimas que não tem laços com a gente, seremos apenas mais alguns espectadores para suas ações, assim ele nunca será parado.
Algo quebra. Volto minha atenção para a briga e noto que Matthew caiu por cima de uma mesa, quase inconsciente. Malic irá matá-lo.
Os seguranças do bar se aproximam da briga, mas tem dificuldade de passar pela multidão. Em um impulso, agarro o punho de Malic antes que ele acerte o rosto de Matthew, com a força do puxão, sou jogada no chão, por cima de Matthew.
– Chega! – encaro Malic.
Ele abaixa a mão.
– Está defendo ele? – ele estreita os olhos.
– Claro que não. – franzo o cenho – Apenas prevenindo uma morte.
Seu lábio está inchado e um pouco roxo, o sangue seco escorre pela lateral de sua boca até o queixo, com alguns respingos na camiseta.
– Já cansei de bater nele. – ele dá de ombros e sai.
Os seguranças conseguem se aproximar, porém, não tem sucesso em barrar a saída de Malic, indo direto socorrer Matthew. Levanto e olho para todos na mesa.
– Ótima comemoração. – cuspo as palavras e sigo Malic.
– Bianca – Juliana me chama -, se você for com ele, é melhor nem falar com a gente amanhã.
– Como você tem coragem de culpá-lo? – estreito os olhos – Quem começou tudo isso foi o Matthew.
– Olha o que ele fez com o Matthew. – Monique levanta – Ele é um animal!
– Não ouse ofendê-lo. – ameaço.
– Bianca. – Juliana e Malic falam em uníssono.
Olho para os dois e respiro fundo.
– Espero que Matthew fique bem. – sigo Malic até a saída.
Entro no carro e permaneço em silêncio, aguardando ele entrar.
– Me leva até o meu carro. – peço.
Permaneço o caminho todo em silêncio, com o olhar na paisagem do lado de fora. Malic segura o volante com uma mão e repousa a outra na minha coxa, como se estivesse se desculpando. Suspiro. Ele para o carro um pouco mais à frente do meu, recolho as coisas e saio do carro, batendo a porta.
Ridículo; isso define tudo o que aconteceu.
Pego a chave do carro na bolsa e o destravo. Escuto a porta do carro bater de novo, aperto o passo. Abro a porta e ela fecha antes que eu possa entrar, suas mãos seguram meus ombros e me fazem virar.
– Foi egoísta. – ele murmura.
– Apenas esqueça. – suspiro.
– Devia ter respeitado pelo menos você – ele murmura -, são seus amigos.
– Meus amigos idiotas. – corrijo – Não se preocupe com isso.
– Está chateada comigo?
– Se eu estivesse chateada com você, teria ficado no bar. – sorrio.
Ficamos em silêncio. Talvez ele tenha perdido a razão quando quase matou o Matthew espancado, mas não foi ele que começou a discussão, não é correto jogar a culpa em cima dele. Foi apenas um jeito Malic de se defender. Passo a mão em sua cintura e subo lentamente, até chegar em seu rosto, envolvo-o delicadamente. Fico na ponta do pé.
– Gosto de você, tatuado. – murmuro – Nunca duvide disso.
Nossos lábios se tocam, tenho receio de machucá-lo. Escorrego minhas mãos para sua nuca e puxo-o para mais perto. O gosto de ferro inunda minha boca, sutilmente. Ele se afasta.
– Você não quer ir para o meu apartamento?
Rio.
– Vá para casa, Malic. – abro a porta do carro.
– Vamos estar normais amanhã, né?
– Vamos.
Ele fecha a porta do carro e volta a pressionar o meu corpo com o seu. Beijo-o.
Alguma coisa me diz que apenas nós estaremos normais amanhã...

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