Notas iniciais
Obrigada pelos comentários ♥ Vou responder todos, prometo.

Voltei para casa e matei o tempo ligando para a minha mãe e estudando. Magicamente ela já sabia do meu envolvimento com o Malic- não culpo vovó por contar, sei que essa vontade de fofocar com a minha mãe é maior que ela. Foi confortável conversar com mamãe, seu otimismo é impressionantemente irritante e ela acredita que amanhã o pessoal vai falar comigo.

Vou dormir de madrugada.

Meu celular desperta em um alarme alto, acordo assustada e quase caio da cama. Vou direto para o banheiro e escovo os dentes enquanto me troco, desço e pego uma fruta. Não encontro vovó. Pego o carro e sigo para a faculdade em completo silêncio, não sinto vontade de ligar o rádio.

Estaciono perto da faculdade e sigo o resto do caminho a pé. Meu coração bate forte e meu estômago revira, tento evitar pensar em como o clima pode estar, tento evitar pensar sobre o que aconteceu ontem, apenas continuo andando. Assim que entro, os localizo no mesmo banco de sempre. Paro e aperto a alça de minha blusa.

Devo ir falar com eles? Fingir que nada aconteceu? O certo seria eles virem falar comigo como se nada tivesse acontecido ontem, já que não foi culpa minha ou do Malic, mas sinto que não será isso que vai acontecer. Eles me ignoram.

Ajeito minha bolsa no ombro e sigo para o outro lado, encontro um banco vazio um pouco afastado do pátio principal. Largo minha bolsa no chão e sento. Bufo. Eles são errados, não acredito que seja necessária uma desculpa da minha parte, foi Matthew que acertou Malic primeiro, a briga foi a consequência do Matthew não saber se defender. Isso é injusto, me mandaram escolher entre eles e o Malic, isso não é uma escolha, é golpe baixo, não se pode escolher entre amigos e namorado, isso é uma questão de integração.

– Está antissocial hoje?

Ergo o olhar e encontro Malic com uma lata de refrigerante.

– A essa hora? – encaro a latinha.

– Estava com fome, mas não consigo comer de manhã. – ele senta ao meu lado – Quase que não te achei aqui.

– Estava me procurando? – pego a latinha de sua mão e dou um gole.

– Sim, não queria te deixar sozinha depois de ontem. – ele pega a latinha da minha mão.

Sorrio e pego sua mão, massageando-a.

– Ainda bem que tenho você. – murmuro.

– Sempre terá. – ele aperta a minha mão.

Abaixo o olhar para sua mão e fico em silêncio.

– Seu joelho está melhor?

– Sim, já começou a cicatrizar.

– Menos mal.

– E sua boca?

– Foi só um corte. – ele dá de ombros.

Lembro-me da briga de ontem.

– Como aprendeu a bater assim? – questiono – Você nem deu tempo dele respirar.

Ele solta o ar dissonante.

– Bater é assim, você não pode deixar o outro pensar para não ter um contra-ataque.

– Achei que fosse matá-lo. – murmuro.

– Era a minha vontade. – ele resmunga.

– Sente raiva dele por causa do ataque? – inclino a cabeça.

– Não vamos reviver o passado. – ele suspira – Temos um histórico longo.

– Mas você prometeu que me contaria um dia.

– Um dia. – ele repete.

Reviro os olhos. O sinal bate. Suspiro e pego minhas coisas, levantamos ao mesmo tempo. Sua calça jeans está caída no quadril, deixando o elástico de sua cueca aparecendo. Adoro quando ele usa a calça assim.

Mordo o lábio inferior e me aproximo. Fico na frente dele e o encaro ao mesmo tempo em que passo o dedo pelo elástico e puxo, fazendo-o estalar em sua pele. Ele ergue as sobrancelhas.

– Você fica ótimo assim – sussurro -, mas ainda prefiro você sem nada.

Beijo-o rapidamente e saio andando. Escuto-o rir.

– Você está virando uma menina muito ousada. – ele replica.

Sorrio e continuo andando.

Amiony sentou do outro lado da sala e não fiz questão de me aproximar, sentei na primeira fileira e tentei ao máximo participar da aula para ignorá-la em sua fofoca com algumas meninas perto de sua carteira.

No lanche permaneci na sala estudando mais um pouco e repeti o processo na hora do almoço, no final do período estava quase morrendo de fome. Fui a primeira a sair da sala e do prédio, Malic está me esperando na escadaria.

– Onde você estava? – ele questiona.

– Fiquei estudando. – sorrio amarelo – Desculpa não te avisar.

– Tenho que me acostumar com suas coisas de nerd. – ele revira os olhos e sorri – Está com fome?

– Morrendo.

– Quer comer em algum lugar?

– Quer jantar lá em casa? – sugiro.

– Tudo bem.

– Quer me acompanhar até o meu carro? – sorrio.

– Está muito longe?

– Não.

**

Vovó, por incrível que pareça, ficou feliz em ver Malic e eles se deram bem no jantar, quase nem tive chance de falar. Ajudamos a tirar a mesa e depois subimos para o meu quarto.

– Estou cansada. – deito na e pego meu livro – Ainda preciso estudar esse aqui.

– Sua vó é muito gentil. – ele deita ao meu lado.

– Ela é um amorzinho. –abro o livro.

Ficamos em silêncio; ele se concentra em mexer no anel de seu dedo e eu em ler o parágrafo do livro.

– Quero fazer outra tatuagem. – ele comenta.

– Qual? – encaro-o.

– Um leão.

– Faça. – dou de ombros – Gosto das suas tatuagens.

– Quer ir comigo? – ele acaricia minha coxa.

– Sim.

Termino de ler e anotar minhas explicações sobre o assunto e deito mais perto do Malic, vendo-o mexer no celular.

– Me conte sobre você. – sussurro – Quem é Malic?

Ele sorri.

– Sou o filho caçula de um engenheiro com uma médica, mas não tinha vocação para seguir a medicina e escolhi a engenharia para trabalhar com o meu pai. – ele faz uma pausa – Digamos que falo mais com a minha mãe do que com o meu pai, talvez porque minha mãe seja mais amorosa e atenciosa, mas o meu pai tem suas qualidades quando quer.

– Você tem irmão?

– Tinha uma irmã.

Tinha? É até sem lógica ter um irmão e no segundo depois não ter mais, com certeza ela morreu. Prefiro não perguntar nada sobre ela.

– Só ela?

– Não, tenho um irmão mais velho. – ele bloqueia o celular – Gosto mais de cachorro do que de gato, embora eu nunca tenha tido nenhum dos dois.

Sorrio.

– Que infância triste, eu tive um cachorro – faço uma pausa para me lembrar – Três.

– Quer jogar na minha cara mesmo? – ele me encara.

– Tadinho. – finjo estar comovida – Vou comprar um cachorro para você.

– Agora não quero mais. – ele resmunga – Nem vou ter tempo para o cachorro.

Acaricio o seu rosto.

– Ainda vou te dar um cachorro. – garanto.

Ele ri.

– Se você diz. Mas e você?

– Eu o quê?

– Filha única?

– Sou e gosto disso. – sorrio – Mas nunca fui mimada, meus pais me criaram com independência, então nunca fui chegada em levar amiguinha em casa, sempre preferi brincar sozinha e estudar sozinha, fazer trabalho em grupo comigo mesma.

– Eles te criaram solitária. – ele discorda.

– Independência é uma quase solidão, você não precisa de ninguém para se virar. – rebato.

– Isso é triste.

– Não, essa é a vida. – discordo – Temos que aprender a nunca depender dos outros.

– Então é por causa disso que você tem problema com seus sentimentos?

– O que? – franzo o cenho e me afasto.

– Você não quer depender seus sentimentos para outra pessoa.

Isso já aconteceu e não teve um resultado tão positivo assim.

– Não é bem assim... – sussurro – — Meu problema é em reconhecer o que eu sinto pelas pessoas. – explico.

Ele me encara, fixamente.

– O que você sente por mim?

Permaneço em silêncio. Um frio abraça minhas entranhas e me mantém calada, tenho que ter calma e cuidado com o que for responder, uma resposta mal interpretada pode acabar em merda agora.

– Não sei explicar. – sussurro.

– Tente. – seus olhos exigem.

– Você é como uma sensação – arrisco -, sabe? É bom sentir e ter. Mas tenho que ter cuidado, porque se eu tenho demais, posso me afogar e se eu sentir demais, posso perder.

Ele sorri de lado e se aproxima, mansamente. Fecho os olhos e respiro fundo. Sei que ele está bem próximo, consigo sentir o peso de seu olhar.

– Você não quer passar um fim de semana no meu apartamento? – ele sussurra, contra a pele sensível de meu pescoço.

Rio com o arrepio que sinto.

– Essa proposta é muito indecente.

– Por que não seria?

– Que menino mau que você é – abro os olhos e o encaro -, induzindo mocinhas.

– Meu talento natural. – ele concorda com um sorriso lascivo.

Apoio-me nos cotovelos e fico frente a frente com ele, apenas alguns centímetros nos separam. Por conta da escuridão do quarto, consigo ver apenas os traços de seu maxilar, seu cabelo jogado para o lado e o peso de seu olhar.

– É seguro gostar de você?

Rio.

– Seguro? – ergo uma sobrancelha – Acho que sim, por que a pergunta?

– Porque eu realmente gosto de você e sinto que estou fazendo a coisa errada. – ele sussurra.

Responda alguma coisa. Responder o que? Coisa errada? Não é errado gostar de alguém, mas essa pessoa sou eu e considerando minhas sérias inseguranças, se eu fosse ele, pensaria duas vezes antes disso.

Ao invés de responder, abraço-o e permaneço em silêncio.

**

O dia seguinte foi quase a mesma coisa: nenhum deles falou ou olhou para mim, mas Matthew estava lá, com o nariz entalado ou sei-lá-o-que-tinha-no-nariz, a única coisa que tenho certeza é que ele deve ter quebrado com o soco.

Estudei no primeiro período e evitei descer para o pátio, porém, Malic cismou que no almoço teria que descer e almoçar com ele.

– Não é porque estão te ignorando que você vai se excluir naquela sala. – ele me repreende.

– Não estou me excluindo. – discordo.

Ele revira os olhos.

– Ficar dentro da sala não é se excluir? – ele senta ao meu lado no banco e me entrega um lanche.

– Não, é estudar. – replico.

Ele suspira e não diz mais nada. Encosto a cabeça em seu ombro e sorrio.

– Não se preocupe comigo. – murmuro.

– Não estou. – posso sentir seu sorriso.

– Ótimo.

Terminamos de comer os lanches e ficamos mais um tempo no banco, em silêncio, observando o fluxo de estudantes passar de um lado para o outro e também olhando a aula de Educação Física na quadra.

– Você precisa de uma disposição absurda.- ele comenta.

– Nunca faria Educação Física por causa disso. – observo-os fazerem o exercício proposto com a maior animação – Não tenho pique para isso.

– Pois é.

Ficamos em silêncio mais uma vez.

– Está menos falante hoje. – mordo a lateral do meu lábio inferior – É culpa minha?

– Não.

– Então converse comigo. – peço.

– Não tenho assunto hoje. – ele dá de ombros.

– Vamos arranjar um.

Ficamos em silêncio de novo. Reviro os olhos e volto a prestar atenção nas alunas de Educação Física saindo da quadra e entrando no banheiro até que noto um dos funcionários do colégio colocando mais uma foto do trabalho de Rafael ali perto.

– Eles gostaram. – falo, para ninguém em especial.

– Ele soube trabalhar. – ele reconhece – Um ótimo trabalho.

E não houve nenhuma reação a isso.

Sento de lado no banco e seguro o seu rosto com uma mão, virando-o na minha direção.

– Não gosto de você assim. – mantenho a feição séria – Aconteceu alguma coisa?

– Só estou confuso. – ele vira o rosto para o outro lado.

– Confuso em relação a que? – toco em seu ombro e me aproximo mais.

Ele continua olhando para outro lado, me ignorando.

– Malic.

– Em relação a você. – ele me encara, seus olhos queimam.

– A mim? – admiro-me.

– Sim. – ele confirma — Não consigo entender seus sentimentos.

Fecho os olhos e suspiro. Está acontecendo de novo...

– Não quero ser apenas uma sensação. – ele estreita os olhos – Não quero ser alguma abstrata para você.

– Mas – ele me interrompe:

– Quero ser algo de verdade para você ou então não sou nada.

Engulo seco.

Abro a boca para argumentar, mas não sei o que dizer e então fecho-a novamente.

– Está vendo? – ele ergue uma sobrancelha – Você não sabe nem se explicar.

Mais que merda! Fala logo alguma coisa! Fala que gosta dele, fala que ele é importante para você. Está tudo travado em minha garganta e não importe o quanto eu tente, não consigo dizer nada. Como um bloqueio. Fala que ama ele.

Ele respira fundo.

– Talvez isso seja perda de tempo. – ele se afasta.

– Malic, por favor. – é a única coisa que consigo dizer – Não faça isso.

– Não estou fazendo nada. – ele discorda – É você que está fazendo.

Ele levanta do banco e sai andando. Permaneço sentada, imóvel. As lagrimas deixam minha visão desfocada. Muito bem, Bianca, você conseguiu.

Um grito vindo do vestiário chama minha atenção – a atenção de todos do pátio, que se aproximam aos poucos. Um grupo de garotas sai totalmente revoltada erguendo alguma coisa para o aglomerado de pessoas que começa a se formar ali perto e aos poucos, a revolta começa a se espalhar para todos.

Franzo o cenho e levanto.

Aproximo-me e tento entender a situação, mas tudo fica cada vez mais estranho. Um funcionário da faculdade aparece para acalmar as reclamações e, principalmente, o grupo das meninas, mandando-as para o prédio principal e dispersando os demais. O que aconteceu?

Tento escutar os comentários e é algo relacionado com vídeos e uma câmera, uma suposta gravação. Será que é mais um desses vídeos íntimos vazados na internet? Por impulso e intuição, entro no vestiário e encontro uma menina sentada no chão.

– O que aconteceu? – me aproximo, sentando ao seu lado.

– Era uma câmera. – ela murmura – Uma pequena câmera escondida.

Agora tenho quase certeza sobre o vídeo íntimo.

– Foi o seu namorado? – toco em seu ombro – Por que não dá queixa na polícia?

– Não tenho namorado.

Descarto o vídeo.

– O que aconteceu? – insisto.

– Estava me trocando no toalete quando uma luz vermelha piscando me chamou a atenção – ela funga -, estava vindo da lata de lixo e eu ignorei, até que ela se tornou insistente.

Afago seu ombro.

– Abaixei para revirar o lixo e tentar descobrir o que era e acabei descobrindo uma câmera, estava gravando. Ela gravou eu me trocar. – lagrimas se formam em seus olhos – Desde quando ela está aí? Quantos vídeos já gravou? Quem gravou isso? Para onde foram?

Uma câmera dentro do cesto de lixo? Gravando?!

– Vocês viram os vídeos gravados?

Ela meneia a cabeça.

– Muitas meninas usando o banheiro ou se trocando. – ela murmura – Aquela câmera gravou tudo.

Lembro-me do menino que vi saindo do banheiro feminino e tudo parece ter ligação. Ai meu Deus, foi ele! Mas o que ele faria com os vídeos? Colocaria na internet? Talvez não, assim isso seria descoberto a tempos. Então ele guarda para si, tipo um maníaco. Há quanto tempo ele faz isso? Quantas meninas tiveram sua intimidade violada? Que tipo de doente mental faz isso?

A não ser... A não ser que esse doente mental seja intitulado Lobo Mau.

– Vai ficar tudo bem. – Embora eu tenha sérias sobre isso...

Abraço-a e permaneço em silêncio, repetindo a cena do menino encapuzado saindo do banheiro.