Diga Adeus à Inocência
16 Capítulo 15
O período terminou mais cedo devido a última aula ter sido vaga. O pessoal preferiu não ir embora e ficar conversando no pátio, como não tenho nada melhor para fazer em casa, resolvo ficar junto. O assunto principal é sobre a festa e a sessão de fotos.
– Convidei a Monique, Bianca, Camila e a Coraline. – Rafael informa – Amiony não quis e a Juliana nem me escutou.
Juliana revira os olhos.
– Mas eu vou ver o ensaio. – Amiony sorri.
– O que precisamos usar? – Camila pergunta, sentando ao meu lado.
– Nada. Não que vão estar nuas, mas as roupas vão ser dadas pela minha equipe. – Ele explica.
– Equipe? Desde quando você está tão poderoso? – Monique ergue uma sobrancelha.
– O trabalho é em grupo, fui escolhido para fotografar e os outros ganharam suas funções – ele a encara – e uma delas foi a roupa.
– Por que não chamar modelos de verdade? – Juliana questiona.
– Porque teríamos que pagar e não temos dinheiro para isso.
– Está nos chamando de mendigas? – Camila franze o cenho e ri – Mas tudo bem, não irei cobrar para tirar foto, só se você ganhar dinheiro com isso.
– Não vou ganhar nada. – Ele rebate, emburrado.
– Então não vou cobrar nada. – Ela sorri.
A conversa muda o rumo para a festa. Camila toca em meu joelho e aponta discretamente para o outro lado pátio, entendo que ela quer conversar a sós e levanto do banco. Ando até o lugar indicado e sento no banco, aguardando por ela.
– Sei que talvez você não queira falar o motivo da briga com o tatuado, mas depois dela você mudou um pouco. – Ela senta ao meu lado – Não está mais falante ou sequer presta atenção no que falamos com você. Quer compartilhar alguma coisa? Estou a ouvidos.
Respiro fundo. Preciso conversar com alguém sobre o que aconteceu e Camila parece ser a pessoa certa, pelo menos parece.
– Você sabe que já fiquei com ele, certo? – Sento de lado e puxo os meus joelhos para cima do banco, abraçando-os – Depois da última vez que ficamos não conversamos muito e até achei que aquela atração tinha acabo, digamos que nunca dei alguma coisa por ele.
– Voltaram a ficar e ele traiu você. – ela deduz.
– Foi quase isso. – pondero – Voltamos a ficar e eu meio que transei com ele.
Ela franze o cenho.
– Não existe meia transa, ou você transou com ele ou não.
Suspiro.
– Eu transei com ele. – Cuspo as palavras para fora.
– E ele gravou? – Ela ergue uma sobrancelha.
– O quê? – Arregalo os olhos – Acho que ele não gravou.
Ela ri.
– O que ele fez?
– Eu era virgem, Cam, foi mágico pra mim. – minha voz fica embargada – Realmente senti alguma coisa por ele, mas no dia seguinte ele já estava com outra e rolou a briga e o resto você sabe.
Ela fica em silêncio.
– Você era virgem? – ela parece perplexa – Como ele teve coragem de fazer isso com você?
– Não sei. – quero chorar, mas seguro.
– Ele te deu alguma explicação?
– Falou que a culpa é minha. – solto o ar com força – Não sei se a culpa é minha, completamente. Eu já tinha dado uns fora nele antes, mas achei que ele se tocaria que depois do que aconteceram as coisas mudariam, porra, perdi minha virgindade com ele, querendo ou não ele vai ficar na minha vida para sempre.
– Isso é um assunto delicado – ela fala, mansamente -, ele errou feio ao fazer isso com você e mais ainda depois da reação grosseira que teve aqui no pátio, mas também temos que avaliar que você também não é totalmente vítima. – Ela acaricia meu joelho – Você também deu um fora nele e em nenhum momento demonstrou mudar de ideia.
– Como assim?
– Vocês transaram, tudo bem, mas você não disse nada que depois de transar com ele queria um relacionamento – ela explica-, para ele foi mais um sexo casual que um compromisso.
Mordo o lábio inferior.
– Mas isso não justifica a ação grosseira dele. – Ela completa – Só acho que você deve pensar melhor, principalmente nos seus sentimentos por ele, porque como você mesmo disse: ele vai ficar marcado pra sempre na sua vida e você não deve ter tantas lembranças negativas dele.
– Camila, vem aqui. – Juliana grita – Preciso de seus conselhos.
– Pode ir. – murmuro.
Ela dá um sorriso meigo e levanta do banco, caminhando até o outro lado. Permaneço na mesma posição, olhando para o nada.
Tenho muitas lembranças positivas do Malic e apenas uma negativa, mas acontece que apenas uma negativa acabou manchando todas as outras que eu possuía. Tudo o que tenho dele se tornou algo negativo e pejorativo para mim. Se eu o perdoar, o que garante que ele não voltará a ser estúpido novamente? As palavras deles? Por favor, se palavras valessem alguma coisa.
Olho para a porta do prédio de engenharia e sei que ele está lá, em alguma sala, tendo alguma aula de cálculo e eu aqui, pensando nele. Levanto e pego minhas coisas, acho melhor eu ir para casa e descansar, amanhã tenho que acordar cedo para o trabalho do Ruffles e tenho que estar com uma cara apresentável. Despeço-me do pessoal e sigo para o estacionamento – por incrível que parece, consegui uma vaga dentro da universidade hoje.
Verifico se meu celular está na mala e pego minha chave, destravo o carro e me aproximo devagar ao notar que tem alguém sentado no capô do carro ao lado. Tento identificar quem é, mas as luzes do estacionamento não permitem uma visualização perfeita. Continuo caminhando, pego meu celular e deixo na discagem rápida para a polícia. A pessoa no carro lado está fumando e pelo odor especifico sei que é maconha.
Jogo minha mala no banco de trás e quando vou entrar no carro consigo identificar a pessoa; Malic. Travo por uns instantes, posso notar que ele está me encarando. Aperto a maçaneta da porta e respiro fundo. Não.
Entro no carro, bato a porta, engato e vou embora.
Há um carro estacionado na frente de casa, franzo o cenho e abro o portão da garagem, estaciono e permaneço dentro do carro. Maldito. Soco a direção e acabo buzinando, meu próprio ato me assusta. Pego minhas coisas e entro em casa.
Todas as luzes estão acesas, a casa está quente e o cheiro de comida é inebriante. Há vozes na cozinha, minha vó não está sozinha. Será que são meus pais? Mas aquele carro não é do meu pai.
Largo minhas coisas no sofá e vou até a cozinha, encontrando duas pessoas estranhas sentadas à mesa; um senhor trajando um suéter vermelho e calça social preta e um menino, usando uma camiseta com o rosto de um lobo estampado e uma calça jeans. Eu conheço esse senhor de algum lugar...
– Essa é minha neta, Bianca. – vovó me apresenta – Esse é o Israel, meu namorado e o Felipe, neto dele.
Dou um singelo sorriso.
– Nós já nos vimos antes. – encaro Israel.
– Sim, dei carona para vocês no dia do incidente do beco. – ele confirma.
Ótimo, não estou ficando louca.
– Que frio é esse? – minha vó me encara – Está usando roupas de frio a semana toda.
– Não estou com calor. – dou de ombros.
Ela estreita os olhos.
– O jantar estará pronto em breve. – Ela anuncia – Por que não vai conversar com o Felipe na sala?
Porque eu não quero conversar com ninguém.
– Tudo bem. – Fecho a cara e me dirijo até a sala.
Sento na poltrona e aguardo por ele, mexendo no celular. E então ele vem, timidamente até o sofá onde senta e permanece em silêncio. Observo melhor os seus traços; cabelos curtos negros, olhos castanhos, pele caucasiana média, magro e alto, mas com feições infantis.
– Quantos anos você tem? – inicio a conversa.
– 16.
Tá aí o porquê das feições de criança.
– Mora com seu avô?
– Não, com os meus pais na cidade, mas às vezes venho para a casa do meu avô passar o tempo. – ele me encara – Você mora aqui?
– Moro, por causa da faculdade. – volto a olhar para o celular.
– Quantos anos você tem?
– 18.
Ficamos em silêncio.
– Está no ensino médio, certo? – puxo assunto.
– Sim.
– Sabe o que vai fazer? – largo o meu celular.
– Não, acho que vou para EUA e passar um ano lá, só pra relaxar.
Essa é uma típica frase de adolescente.
– Vai curtir um pouco.
– Exato.
Ele ainda não conheceu a pressão do último ano.
– O jantar está na mesa. – minha vó anuncia.
O jantar terminou bem, Israel parece ser uma boa companhia para a minha vó. Assim que eles vão embora, vou direto para o banho.
– Posso entrar?
– Sim. – viro de lado para evitar que ela veja o hematoma verde claro em meu braço – Aconteceu alguma coisa?
– Eu que te pergunto isso. – ela senta no vaso sanitário – Está diferente essa semana, estudou muito, falou pouco, comeu menos ainda.
– Estou estressada por causa das provas.
– Só as provas são o motivo? Ou tem mais alguém? – ela me encara pelo vidro do boxe – E esse alguém tem o corpo todo rabiscado?
Reviro os olhos.
– Ele não tem nada a ver. – minto – Nem falo mais com ele.
– Mente que eu finjo que acredito. – ela rebate- Sei que continua falando com ele.
– Falava. – corrijo.
– Então não tem problema extras as provas? – ela insisti.
– Não.
– Tudo bem. – ela suspira.
– Amanhã vou sair cedo porque tenho que ajudar um amigo com o trabalho dele e depois tenho uma festa. – informo – Talvez eu durma na casa de uma amiga minha, se eu beber demais.
Ela bate as mãos na coxa e levanta.
– Só espero que esteja falando a verdade.
Franzo o cenho. Não menti, apenas omiti.
Termino o meu banho e vou direto para o meu quarto.
**
O despertador me assusta. Levanto rápido e me troco, vou para o banheiro e escovo os dentes enquanto mando uma mensagem para Camila avisando que estou saindo. Volto para o meu quarto e pego a roupa para a festa à noite, desço silenciosamente e pego uma fruta na cozinha.
Após pegar tudo o que preciso e colocar em minha bolsa, vou até o carro e o destravo, coloco tudo no banco de trás e vou para o banco do motorista. Será que é bom avisá-la que já estou saindo? Encaro a porta da entrada e desconsidero a ideia, ela sabe que vou sair hoje.
Nem preciso aguardar muito por Camila, ela já me aguarda na porta de sua república com uma bolsa e sacolas.
– Você é rápida. – ela comenta entrando no carro – Achei que ia demorar mais.
– Aqui o negócio é rápido. – sorrio – Onde vai ser a sessão?
– No parque da cidade.
– Onde fica isso? – nem sabia que aqui tinha um parque, para mim era só a reserva.
– Vai indo que eu dito o caminho. – ela manda.
Após algumas entradas erradas, finalmente conseguimos chegar na entrada do parque que está mais para um jardim botânico. Estaciono o carro.
– Onde eles estão? – pergunto enquanto pego o meu celular na bolsa.
– Matthew ia esperar a gente aqui para nos levar lá para o ensaio. – ela avisa indo para a entrada.
– Por que o Matthew veio? – questiono.
– Sei lá, ele quis vir. – ela dá de ombros.
Caminho até a entrada e não demora muito para avistarmos ele sentado na mureta. Conforme vamos nos aproximando, ele levanta e começa a seguir por uma das trilhas de pedra do parque.
– Vai mais devagar! – Camila grita.
Ele desacelera um pouco.
– O Ruffles conseguiu um lugar reservado do parque só para isso, está realmente ambicioso com o projeto. – ele anuncia.
– Por que tanta produção? – ergo uma sobrancelha – É só um trabalho semestral.
– Acontece que o trabalho será julgado e o ganhador irá conseguir umas páginas em uma revista falando do projeto. – ele explica – Por isso ele está fazendo essa super produção.
Ele é mesmo bem ambicioso.
– Sabe o que vamos vestir? – Camila pergunta.
– Nada. – ele sorri de lado.
– Como assim? – exalto-me – Topei fazer uma sessão de fotos e não posar para a playboy.
Ele ri.
– Irão usar peças íntimas.
Por isso a Amiony não quis fazer e por isso Rafael falou que ela tinha vergonha do corpo, vamos estar quase nuas.
Não precisamos chegar muito para perto para eu saber que chegamos, era só ver a movimentação, as luzes, painéis e um vestiário improvisado.
– Ai estão vocês. – ele se aproxima de nós com uma câmera nas mãos – Vamos, preciso explicar o projeto.
Todas as “modelos” se reúnem e Rafael começa a explicar seu ambicioso, cobiço e ótimo projeto que se baseia exatamente nisso: O tema principal dado pelos professores era beleza e os alunos podiam explorar o tema em diversas formas, Rafael e seu grupo escolher explorar pela beleza feminina, mas houve algumas mudanças com o decorrer das discussões do grupo. Agora eles falariam sim da beleza feminina, mas em sua forma de exploração. Falariam sobre as doenças ligadas a beleza feminina, as agressões físicas e sexuais que as mulheres sofrem e sobre a discriminação de nosso sexo perante o masculino.
– Eu acho só um pouquinho foda. – Monique comenta após a explicação.
– Então vamos aos papeis – ele pega uma prancheta -, Camila você representará uma mulher vítima da discriminação, Monique representará uma mulher vítima de um abuso sexual, Coraline irá representar a doente e Bianca a que sofre agressões.
Isso foi uma indireta?
Somos levadas para os vestiários improvisados e cada uma recebe uma peça. Minha lingerie é vermelha com detalhes em renda.
– Isto está mais para uma lua de mel. – comento.
– Achei legal o projeto dele, mas por que lingeries tão bonitas? – Coraline termina de abotoar o sutiã.
– Parem de reclamar. – Monique revira os olhos – Melhor que usar algo rasgado ou simplesmente não usar nada.
Pondero em silêncio.
Saímos do trocador – trajando roupões, e a primeira a ser chamado para fotografar é Coraline, sem antes passar por uma rápida maquiadora- que fez as suas maçãs do rosto quase saltarem para fora, suas costelas ficaram mais visíveis, assim como sua clavícula. Magicamente, Coraline parecia ter perdido mais de 30 quilos.
– Quero a mágica da maquiagem na vida real. – Camila sussurra.
Coraline vai para o centro de um pequeno quadrado preto com uma tela preta atrás, o fundo preto destaca sua peça intima azul. Uma menina se aproxima delas com algumas fitas métricas e as entrelaça na cintura, braços, pernas e pescoço de Coraline. Após quase amarrá-la inteira, a menina entrega um pequeno frasco de remédio.
– Olhe para a câmera como se a mesma estivesse lhe impondo regras. – Rafael fala enquanto posiciona a câmera.
Ao todo foram 15 fotografias cada um com uma pose distinta referente ao tema dado, porém, a que mais chamou a atenção foi a última onde Coraline debruça sobre um vaso sanitário e deixa seu braço pender ao lado do corpo com o pequeno frasco de comprimido aberto, derramando minúsculos comprimidos – as fitas métricas continuam enroladas em seu corpo.
Minha beleza natural é vítima de sua opinião artificial.
– Onde conseguiram uma privada? – Camila questiona.
– Da loja do meu pai. – Matthew responde.
– Por que estamos usando roupas intimas? – aproximo-me de Rafael.
– Para denunciar a sexualização da mulher.
Ele pensou em cada detalhe.
– Camila. – ele anuncia a próxima a fotografar.
Antes dela entrar no cenário, passa pelo mesmo procedimento que Coraline; maquiagem. Porém, ela é diferente, ao invés de posar apenas de lingerie, ela recebe uma muda de roupa.
– Mas por que ela é privilegiada? – Monique contesta.
– Não atrapalhe. – Rafael resmunga.
Amiony ajuda Cam a colocar as roupas e ficar no posicionamento certo, assim que termina caminha ao nosso encontro.
– Você foi ótima Cora. – ela sorri.
– Obrigada. – Coraline sorri e se enrola no roupão.
– Respondendo a sua pergunta – ela se volta para Monique -, Camila vai representar as mulheres que são criticadas por suas roupas, então ela precisa de roupa.
– Acho bom – Monique resmunga -, já achei que seu namoradinho estava dando preferência para ela.
As bochechas de Amiony ficam levemente coradas.
Camila caminha para o centro do mesmo quadrado que Coraline ficou, está trajando uma blusa social branca transparente a cor rosa de seu sutiã, os botões estão abertos, dando a perfeita visão do volume de seus seios, acompanhando o figurino, usa uma saia cinza escura até os pés e ao seu corpo e roupa foram colados alguns comentários relacionados a sua roupa.
– Vão maquiando a Bianca, a maquiagem dela é a mais difícil. – Amiony me leva até o pequeno estúdio de maquiagem.
As fotografias de Camila foram as mais difíceis de fazer, já que ela trocava de roupa para cada foto tirada, dando um contraste; uma peça ”comportada” e a outra “reveladora”. Os comentários mudam para cada roupa e sua pose mais impactante foi uma em que ela está encostada na parede preta, com um shorts curto e uma blusa com um bom decote. Suas mãos cobrem os ouvidos e ela fecha os olhos – permanecendo serena diante da chuva de comentários machistas e de teor sexual que cobrem seu corpo.
Minhas roupas não são rótulos para você ditar o que sou.
Fui maquiada durante todo o ensaio de Camila e talvez não termine tão cedo, eles estão recriando marcas e hematomas como se eu tivesse acabado de levar uma surra. A maquiadora demora um pouco em meu braço e sei o que ela estava e, possivelmente, pensando.
– Vou precisar de maquiagem? – Monique pergunta, se aproximando.
– Apenas a imitação de umas olheiras e a peruca. – Amiony diz enquanto lê um papel.
Alguns segundos depois um rapaz chega com a peruca da medusa, no entanto suas características cobras foram substituídas por pênis.
– Mas o quê? – Monique exclama – Não vou usar, vou ser zoada pro resto de minha vida. Rafael!
– Monique, calma, jamais iriamos por em você uma coisa pejorativa a sua imagem. – Rafael diz, calmamente.
– Que merda é essa? – ela segura a peruca com certa repulsa – Pênis? Isso é uma brincadeira, só pode.
– Na verdade é uma denúncia ao estrupo usando a história da Medusa. – Amiony explica – Você conhece a história dela, certo?
Monique permanece em silêncio.
– Ela era uma mulher extremamente linda, desejada por todos os homens e invejada por todas as mulheres. Sua vocação era ser sacerdotisa do templo de Atenas, onde se dedicava em cultuar a deusa. Uma noite, tomado pelo desejo, Poseidon invadiu o templo da deusa e estupro Medusa, que durante o ato pedia pela ajuda de Atenas. A deusa considerou o ato da sacerdotisa profano para seu templo e amaldiçoou a pobre mulher, onde Medusa não poderia mais olhar para ninguém sem que essa pessoa ficasse petrificada, o que a tornou uma vítima de si própria, pois também não poderia mais olhar no espelho ou em qualquer superfície que refletisse sua imagem, sem tirar a recompensa que Atenas fez por sua cabeça. Ou seja, ela foi uma vítima transformada em monstro, a causadora daquilo e é isso que acontece atualmente, as vítimas são ditas como as causadoras, os monstros. – Amiony explica.
Subitamente, Monique vai abaixando a mão como se estivesse aceitando e não cria mais nenhuma objeção.
A sua maquiagem começa, a peruca é colocada e ela está pronta para as fotos. Ao contrário das outras, ela não tira nenhuma foto em pé, para mostrar sua total submissão e desemparo. A foto que teve mais impacto, para mim, foi uma em que Rafael a instruiu deitar de bruços e esticar o braço, como se quisesse agarrar a câmera ou uma mão amiga imaginaria, como se o ato do estupro estivesse se consumando e ela estivesse buscando por uma ajuda que não existe.
Eu não sou o monstro, a sociedade que é.
Finalmente a minha vez, quase na hora do almoço. Meu estômago suplica por comida e a única coisa que consigo comer para não demorar é um copo de suco de laranja.
– Só falta você. – Rafael parece aliviado.
– Só espero que não seja necessário uma repetição. – comento.
– Você não é na tela preta, é nas árvores mesmo. – ele avisa.
– Por quê? – franzo o cenho.
– Porque você será a nossa chapeuzinho. – ele pega a câmera e vai para o lugar escolhido.
Sigo com cuidado para não tropeçar em raízes ou pedras e fico de frente para a câmera.
– Relaxe e tente passar a sua emoção para a lente. – ele diz enquanto monta o tripé – Cadê o capuz?
O mesmo menino que entregou a peruca, agora traz um capuz na forma da cabeça de um lobo.
Ele está mesmo fazendo isso? Uma referência ao Lobo Mau e seus assassinatos? Justo comigo?!
– Rafael, não acho que isso dê certo. – balbucio – Já tenho um histórico com esse cara e não acho que isso melhore as coisas.
– Como se ele fosse ver um projeto de escola. – Rafael revira os olhos – Não vai acontecer nada com você.
Respiro fundo e visto o capuz de lobo, puxando suas abas laterais para ajeitá-la em minha cabeça.
– Pronta?
– Sim.
– Ótimo.
Minha pose inicial é sentada sobre os meus joelhos com a cabeça baixa, deixando apenas o focinho do lobo visível. As poses vão variando até que fico em pé.
– Tragam o cachorro. – Rafael manda e então um husky cinzento aparece, andando graciosamente – Aqui está o seu Lobo Mau. – Rafael sorri.
As outras poses interagem com o cão e a última eu utilizo um maçado. O cão está deitado aos meus pés, seguro o machado com as duas mãos e encaro a câmera de cima para baixo com os lábios levemente entreabertos.
Não fui eu que conversei com o lobo, foi ele que atrapalhou o meu caminho.

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