Diferentes idades
7 Um soco no Robert
Notas iniciais
Vim para casa muito devagar, estava cansada e vinha a pensar em Daniel, em como era perfeito, como me fazia feliz.
Cheguei a casa às nove da noite, quando saí de casa dele às oito.
Lucas e o meu pai ainda não tinham chegado, geralmente, todos os sábados eles chegam muito tarde.
Tinha fome, mas não havia restos no frigorífico, e não me apetecia fazer comida, por isso o meu jantar foi um gelado.
Atirei-me para a cama, vestida e calçada, por cima dos lençóis e adormeci ali.
Senti o meu bolso a vibrar, e depois começou a tocar. Já era de manhã?
Eu:
– Estou? — atendi com uma voz sonolenta.
Daniel:
– Oi! Desculpa acordar-te. Mas preciso da tua ajuda — era o Daniel e parecia preocupado
Eu:
– Não faz mal. O que aconteceu?
Daniel:
– O Rafael ainda não voltou. Preciso da tua ajuda para o encontrar.
Eu:
– Vou já para aí.
Levantei-me da cama, olhei para as horas, três da manhã. Lucas e o meu pai ainda não tinham chegado, e eu ia sair àquela hora. Por isso enviei uma mensagem a Lucas.
Eu:
Oi. O irmão do meu amigo desapareceu. Tenho de ajudar.
Beijinhos. Não te preocupes.
Corri porta fora. Cheguei à casa do meu namorado em quinze minutos. Fui mesmo rápido. Para voltar levei uma hora.
– Olá! — cumprimentou-me um rapaz que não conhecia, era loiro de olhos azuis. Trazia vestido umas calças de ganga, uma camisa azul e um casaco de cabedal preto.
– Oi! Eu sou a Clarissa e tu és…?
– Sou o Will. Um amigo do Daniel. — ele sorriu, era mesmo bonito.
– Clars! Vieste rápido. — o Daniel correu até mim, abraçou-me e sorriu ao falar.
– Claro que vim! — fiz uma pausa, olhei para os seus lindos olhos. — Eu preocupo-me contigo e com o Rafael.
– Vamos procurar o rapaz! — gritou o Will já indo embora.
– Eu bem disse. — o Daniel sussurrou no meu ouvido.
– O que disseste? — não tinha a certeza do que ele estava a falar.
– Que ias conhecer os meus amigos mais cedo do que pensavas. — ele sussurrou de novo, eu sorri depois dele falar e apertei-o com força.
Corremos até ao Will que já ia longe.
– Vamos separar-nos. Eu vou até ao parque e à escola. Will, vais até à estação de comboios. E Clarissa, tu vais procurá-lo na praia. — o Daniel falou com uma voz autoritária, e assentava-lhe muito bem, eu e Will assentimos com a cabeça.
– Se o virem liguem! Logo! — Daniel estava mesmo preocupado com o irmão, não deveria ser habito ele fazer este tipo de coisas.
Cada um correu para o seu respetivo lugar.
Cheguei à praia o mais depressa possível. Andei às voltas, chamei por ele, eu tinha a certeza que ele estava ali.
Olhei para o lago a pensar onde estaria o Rafael. E vi um barco. Ele estava lá. O barco estava em terra. Não podia acreditar que ainda não tinha reparado.
Corri até ao barco. Saltei lá para dentro. Ele estava lá dentro a chorar.
– Vai embora! Eu quero estar sozinho! – ele gritou assim que me viu, ele estava sentado com as mãos na cabeça, os seus olhos estavam vermelhos, suas bochechas coradas, sua roupa molhada e sua mão estava cortada, havia muito sangue.
– Rafael, o que aconteceu? — falei calmamente.
– Nada! E eu também não sou nada! Agora sai! — ele gritava bem alto.
– Tu não sabes que és tudo para o teu irmão? Porque estás assim? O que aconteceu à tua mão? Onde te cortaste? — sentei-me ao seu lado, rasguei a minha camisa para cobrir a sua mão.
– Porque és tão simpática? — ele estava a começar a parar de chorar.
– E porque haveria de ser antipática? — sorri e ele também, estava feliz por ele já se estar a sentir melhor, eu esperava outro grito e não aquela pergunta.
– Vou ligar ao teu irmão. Ele está muito preocupado. — ele assentiu com a cabeça, e eu liguei.
Eu:
–Encontrei-o. Ele está na praia!
Daniel:
–Está bem?
Eu:
–Em parte. Anda para cá!
Desliguei o telemóvel. E voltei a olhar para o estado de Rafael.
– Não me vais contar o que aconteceu?
– Eu estava à procura do senhor Micas. E achei-o. — ele olhou para mim, estava quase a chorar de novo.
– E porque não viste logo para casa?
– Eu fiquei a brincar no parque, com o senhor Micas. Até aparecerem uns miúdos. — ele fez uma pausa, já estava a chorar de novo. — Eles começaram a dizer que eu não tinha o direito de estar no parque deles, que não queriam anormais no parque. E eu peguei no senhor Micas e saí do parque, pronto para ir para casa.
– Não lhes disseste nada?!
– Não. E também não tive tempo. Quando eu sai do parque… — fez uma pausa de novo para enxugar as lágrimas. — eles atiraram-me uma pedra. Acertou no senhor Micas. Aquele gato louco saltou do meu colo e arranhou um deles na perna! Eles agarram no senhor Micas e levaram-no com eles.
– Rafael, e tu deixaste levarem assim o teu gato?
– Que podia eu fazer?! Eu segui-os até casa e eles puseram o senhor Micas numa grande gaiola de pássaros. — ele gritava de novo.
– Numa gaiola de pássaros?! — nunca tinha ouvido tal coisa.
– Não deviam ter outro sítio para o trancar. — a sua voz já estava mais calma.
– Então nós vamos buscá-lo. — sorri para ele, mas ele não retribui o sorriso.
– Tu vais buscá-lo?! Tens noção que tens a minha idade?! Que eles te fazem o mesmo?! Tu és tão nada quanto eu! — gritava ainda mais alto, mas desta vez não achei que ele tivesse razão.
– Calma. Lá por estares irritado não precisas de descarregar em mim. E se eu sou tão nada como tu, então sou muito! — estava com vontade de lhe retribuir as ofensas, mas não seria justo.
– Tu vais roubar tudo o que eu tenho! — eu pensei que ele não tivesse entendido o que eu disse para responder tal coisa.
– Roubar?
– Sim! Vais roubar o meu irmão! — levantou-se e cada vez gritava mais alto.
– Pensei que gostasses de mim. — ainda sentada olhei para ele e vi que já não estava vermelho de chorar, mas de sim da raiva que estava a sentir.
– Pensaste mal! Eu odeio-te! Como é que uma rapariga da tua idade pode andar com o rapaz tão mais velho! Estas com ele por interesse! — eu estava a começar a perder a calma, tudo o que ele dizia pareciam facas a perfurar-me.
– Olha, eu não sabia que pensavas isso de mim. Mas também não percebo porque pensas. Não sei o que te fiz. E se tens esse ódio todo por mim, porque me convidas-te para vossa casa? — levantei-me e vi o quanto eu era mais alta, respirei fundo para manter a calma, eu sabia que ele não estava bem.
– Não sabes mesmo nada! — ele saltou para fora do barco.
– Onde pensas que vais? — gritei.
– Onde eu quiser! — ele gritou mais alto.
Saltei do barco, corri até ele, agarrei o seu braço com força, olhei nos seus olhos e pensei no que iria dizer.
– O que vai fazer o teu irmão sem ti?
– Larga-me! — ele gritou e uma lágrima escorreu pela sua cara.
– Por favor. Já chega. — eu não desviei o meu olhar do seu nem por um segundo. Estava a pensar no quanto ele precisava de ajuda, de um melhor amigo que falasse com ele, de que a mãe lhe estava a fazer falta, de que o pai estava ausente de mais. Eu estava a sentir a sua dor entrar em mim, eu queria ajuda-lo. Eu sentia-me sua irmã mais velha, apesar de termos a mesma idade, as nossas atitudes eram completamente diferentes.
Ele abriu os braços, pensei que iria levar um estalo, mas ele deu-me um abraço. Fechei os olhos e apertei-o com força. Voltei a reparar o quanto eu era mais alta, talvez ele é que era demasiado pequeno.
Senti dois grandes braços nos envolverem. Era o meu namorado. (Acho que começava a gostar da palavra).
– Estão bem? — ele perguntou ainda sem nos largar.
– Ótimos! — exclamou o Rafael.
Já não estávamos abraçados e o Daniel pode ver o estado do irmão.
– Ótimos?! — agarrou na mão do Rafael que estava envolvida numa parte da minha camisa. — O que andaste a fazer?
– Olha já está tudo resolvido. Não te preocupes. — o Rafael falou como se estivesse mesmo tudo bem.
– Falamos depois. Agora temos de ir todos para casa. — a voz autoritária do meu lindo namorado voltou.
Eu queria muito ir todo o caminho abraçada a Daniel, mas havia quem precisa-se mais de mim. Dei a mão a Rafael e ambos sorrimos. Pela primeira vez reparei que era parecido com Daniel, o seu cabelo escuro, o sorriso, a cara, apenas os olhos tinham uma cor diferente, eram castanhos.
– A roubar a minha namorada? — Daniel não parecia achar muita graça.
– Não. É só emprestada. — o Rafael falou. Todos rimos e seguimos o caminho para casa dos dois irmãos.
Chegámos a casa deles. O Rafael foi logo trocar de roupa.
– O que aconteceu com ele? — eu e Daniel estávamos sentados no sofá, eu com a cabeça no seu ombro.
Deitei-me nas suas pernas, para poder olhar para ele.
– Acho melhor ser ele a contar-te.
– Ele nunca me conta nada.
– Pois… talvez ele precise mesmo de falar.
– Como faço com que ele fale?
– Eu quero muito falar, mas digo sempre que não. Por isso o Lucas enfia-se no meu quarto e só sai quando eu falo. — sorri para ele.
– E se ele inventar uma mentira qualquer?
– Tens de ter cuidado com as palavras que usas e com a forma como insistes. Assim ele vai dizer a verdade.
– Vou tentar. Mas podes ou menos dizer-me onde está o gato?
– Não. E olha tenho de ir para casa. — olhei para as horas, quatro da manhã, não demorámos muito tempo a encontrá-lo.
– Dorme cá.
– Nem pensar! O Lucas matava-te.
– Vais andar na rua a esta hora? Sozinha? — pela sua expressão, não queria mesmo que eu saísse dali.
– Sim.
– As tuas chaves de casa?
– Para quê?
– Vou ficar com elas. Assim não entras.
– Ó meu deus! — sentei-me direita e pus as mãos na cabeça, não podia acreditar no que tinha feito. — Esqueci-me!
– Esqueceste-te do quê? — ele olhou para mim com preocupação.
– Das chaves. — apertei os meus cabelos, como iria entrar em casa?
– Pronto. Tens mesmo de ficar cá. — ele riu sozinho.
– Vou ligar para o meu irmão. — disse já com o telemóvel na mão.
– Não. — ele agarrou a minha mão. — Ele não está a trabalhar.
– Mas eu preciso mesmo de lhe ligar. – soltei a minha mão e comecei a marcar o número, mas antes de acabar, ligaram-me.
Eu:
– Lucas! O teu turno já acabou?
Lucas:
– Não, ainda não. Mas já encontraram o rapaz?
Eu:
– Sim, ele já está bem.
Lucas:
– E já estás em casa?
Eu:
– Não. Eu… — fui logo interrompida.
Lucas:
– Vai para casa! Já é tarde!
Eu:
– Mas eu esqueci-me das chaves. Não posso entrar.
Lucas:
– Como é que te esqueceste?
Eu:
– Foi a pressa.
Lucas:
– E o meu turno só acaba às nove da manhã. Onde é que vais ficar?
Eu:
– Eles estão a oferecer-me estadia.
Lucas:
– Eles, quem?
Eu:
– O Daniel e o Rafael.
Lucas:
– Ah. O que saiu contigo e o irmão. Nem penses. Telefona à Anna.
Eu:
– A esta hora? E eu nem falo com ela.
Lucas:
– Está bem. Ficas aí, mas eu vou buscar-te assim que sair.
Eu:
– Está bem.
Lucas:
– Juízo! Tenho de ir trabalhar.
Eu:
– Tu sabes que eu tenho. Adeus. Beijinhos.
Desliguei o telemóvel. Não podia acreditar que ia dormir em casa do meu namorado.
– Ele deixou-me ficar. — sorri fraco para ele.
– Ótimo.
– Já estou cansada. Onde me posso deitar?
– A cama do meu quarto é de casal.
– Daniel, nem pensar.
– Eu não preciso de te tocar. É só para não dormires no sofá.
– Eu durmo no sofá. Não te preocupes. Agora deixa-me dormir.
– Tu é que sabes. — ele levantou-se, deu-me um beijo na testa e começou a subir as escadas.
– Espera! — ele virou-se logo para mim.
– Mudaste de ideias?
– Não. Queria saber se já falaste com o Will.
– Sim. Disse-lhe para ele ir para casa assim que me ligaste.
– Boa noite. — sorri para ele.
– Boa noite anjinho. — ele sorriu também.
(…)
Acordei com o Rafael a fazer-me cócegas nos pés.
– Bom dia. Eu queria pedir-te desculpa e agradecer-te por me teres ajudado ontem.
– Não tens de agradecer.
– E eu até gosto de ti. — ele sorriu.
– E eu de ti.
Fizeram-se alguns minutos de silêncio.
– O Daniel ainda está a dormir?
– Está. Ainda são sete. Ele acorda tarde.
– Já tomaste o pequeno-almoço? — levantei-me do sofá e dirige-me à cozinha, o Rafael veio atrás de mim.
– Não.
– Queres que faça alguma coisa para ti?
– Sim, pode ser. Que vais comer?
– O que tu quiseres. O que te apetece?
– Crepes com gelado.
– Parece-me bem.
Fiz seis crepes, dois para cada um. Voltei a sentir-me mais velha que Rafael, era muito estranho pensar que tínhamos a mesma idade.
Sentamo-nos à mesa a comer os crepes com gelado e predominava um silêncio.
– Não me chegaste a dizer o que aconteceu à tua mão.
– Eu cortei-me a tentar tirar o senhor Micas da gaiola. — ele não tirava os olhos do crepe.
– Sabes explicar-me onde fica a casa desses meninos?
– Fica na rua atrás da escola. É uma casa verde com um jardim grande.
Acabei de comer e lavei o meu prato e os meus talheres.
– Quando acabares lava o teu. Eu vou sair. — disse caminhando em direção à porta.
– Não vás lá. O meu irmão depois vai buscar o senhor Micas.
– Deixa o teu irmão dormir. Não o acordes. Mas se ele acordar, diz-lhe onde estão os crepes — abri a porta.
– Levas o telemóvel? — ele começava a ficar preocupado comigo.
– Levo sim. Porta-te bem. — saí.
Fui o caminho todo a pensar. A descrição da casa lembrava-me a de Robert. Tenho andado distante dele, os meus sentimentos por ele já não são os mesmos. Somos amigos, e eu ainda sinto algo por ele, mas o que sinto por Daniel agora é muito mais forte. Estava a apaixonar-me por Daniel e a esquecer Robert.
Corri a rua atrás da escola toda. A única casa verde com um jardim grande era mesmo a de Robert. Será que foi ele que roubou o gato?
Toquei à campainha. Quem abriu foi Robert.
– Olá! Eu preciso muito de falar contigo. — gritei para que ele me pudesse ouvir, pois a distância do portão da rua à porta de casa ainda era grande.
– Entra, o portão está aberto. — ele gritou também.
Entrei e fui ter com ele. Não sabia bem o que iria dizer a seguir.
– O que precisamos de falar? — ele nem me deixou entrar.
– Está tudo bem? — não queria responder já à sua pergunta.
– Está. É que o Pedro e o Marcos dormiram cá. E como é cedo, eles ainda não acordaram. -eu percebi a sua indireta, eram apenas sete e quarenta e cinco.
– Desculpa ter vindo tão cedo, mas é importante. Vocês ontem estiveram no parque? — comecei a falar muito depressa.
– Sim. Porquê?
– Roubaste um gato? — falei ainda mais depressa.
– Mais ou menos.
Dei-lhe um soco na cara, arrependi-me logo, mas desde quando ele roubava?
– Para que foi isso? — ele disse com a mão na boca, rebentei-lhe o lábio.
– O gato. Agora! — gritei, estava a perder o controle nem sem bem porque, talvez tenha sido do choque.
– Mas o gato nem é teu! — ele começou a gritar também.
– É do meu namorado!
– Namoras com aquele lingrinhas? — ele ficou surpreendido, pois ele pensava que eu iria ficar toda a vida à sua espera.
– Sim! — eu não sei bem porque disse que sim, eu referia-me a Daniel, mas acabou por parecer que era o Rafael.
– Vai lá buscar o gato. Esta ali atrás. — ele disse-me onde estava e entrou em casa, deixando-me sozinha no seu jardim.
Abri a gaiola e tirei o gato. Era bastante fofo. Trouxe-o no meu colo até casa do Daniel.
– Conseguiste! Eu pensava que não ias conseguir! Obrigado! Obrigado mesmo! – quem me abriu a porta foi Rafael, ele estava mesmo feliz por ver o seu gato de novo, ele tirou-mo do colo e abraçou com força.
Eu estava feliz também. Tinha conseguido trazer o gato.
Daniel correu pelas escadas a baixo. Já estava vestido, calçado, penteando e consegui-a sentir o seu perfume.
– Ias sair? — perguntei-lhe fechando a porta atrás de mim.
– Ia ver se estavas bem. O que te deu? — ele parecia preocupado.
– Eu fui apenas buscar o gato. — ele chegou perto de mim e agarrou a minha mão.
– O que aconteceu? — ele ficou ainda mais preocupado.
– Eu dei um soco no Robert. — sorri e soltei a minha mão.
Ele sentou-se no sofá com um ar triste. Fui sentar-me ao seu lado.
– Desculpa Clarissa, eu acordei-o. Pensei que fosses precisar de ajuda. — o Rafael parecia um pouco arrependido agora, eu assenti com a cabeça e ele foi para o seu quarto com o gato.
– Eu já nem me lembrava de Robert. Tu ainda gostas dele? — ele olhou para mim nos olhos, os seus lindos olhos verdes estavam agora muito tristes.
– Eu não te quero mentir. — fiz uma pausa e ele encostou-se para trás. — Eu ainda sinto algo por ele. Antes de tu apareceres, ele foi a única pessoa de quem eu tinha gostado. Eu gostei dele durante muitos anos. Mas não se compara ao que sinto por ti agora. Ele está quase apagado. — eu sabia que não era bonito de se ouvir, mas eu não queria mentir-lhe.
– Está bem. — ele respondeu mas não olhou para mim.
– Não vamos ficar chateados? — respirei fundo ao perceber que sim. — Eu ainda sinto algo por ele, mas eu estou a apaixonar-me por ti. Não sentes nada pela tua ex-namorada?
– Ela é um caso diferente.
– E porquê? — olhei-o nos olhos, não percebia porque estava chateado.
– Não me olhes assim. Eu não estou chateado, mas é que enquanto eu dormia tu estavas com ele.
– Foi ele que roubou o gato. E sim eu estive com ele, ele tem a marca na cara. — ele riu, apesar de eu ter falado mais alto. — Mas não respondeste à minha pergunta.
– Hoje não. — o seu sorriso desapareceu.
– Vamos ficar neste ambiente estranho? — franzi as sobrancelhas ao falar.
Ele beijou-me. Não era bem o que esperava. Mas acho que não poderia ter sido melhor. Sentia-me bem ao seu lado. Tudo em si me deixava confortável. Foi um beijo longo, até ele ficar sem respiração.
Deitei-me no seu peito.
– Parece que não. — sorri e ele também.
Tocaram à campainha. Estragaram o momento.
– Deve ser o Lucas. — ele disse.
– Já me tinha esquecido. — levantei-me do sofá e peguei nas minhas coisas.
Dei-lhe um beijo na bochecha como sempre, mas desta vez ele agarrou-me e beijou-me nos lábios, foi rápido, pois o meu irmão preocupado estava à espera.
– Adeus Rafael! — gritei antes de sair.
Entrei no carro. Só lá estava Lucas.
– O pai?
– Onde dormiste? — ele desviou a conversa.
– No sofá. Mas onde está o pai? — eu queria saber onde ele estava.
– Foi difícil de encontrar a casa. Mas segui a tua descrição. — ele ligou o carro e continuou a fugir à minha pergunta.
– Lucas. — pus a minha mão na sua perna. – o que aconteceu?
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