Notas iniciais
Espero que gostem! Boa leitura!

Sentada numa cadeira de hospital. Estava a stressar. Uma hora na mesma cadeira a bater o pé era muito. Eram dez e meia da manhã, o meu dia ia começar bem.

Lucas estava ao meu lado. Mas o silêncio permanecia já à quase uma hora.

– Os pais deles estavam lá em casa? — Lucas quebrou o silêncio.

– Não, o pai deles estava a trabalhar. — respondi olhando para o chão.

– E a mãe?

– A mãe faleceu. — olhei-o nos olhos, ele sabia o que era não ter a mãe por perto, apesar de a nossa ainda permanecer viva, era como se estivesse morta.

– Oh. Eu não sabia. — Lucas fez uma pausa. — Pelo menos, sabem onde ela está. – uma lágrima escorreu pela sua cara, mas ele enxugou logo.

Fez-me pensar que eu desabafava muito com ele, mas ele não fazia o mesmo comigo. Lucas guardava tudo para si. Não sei como aguentava, ele devia estar quase a rebentar. Neste momento ele deveria estar a pensar o que seria de nós sem o meu pai.

– Lucas. — voltei a olhá-lo nos olhos. — Vai tudo correr bem. Eu sei que vai.

Ele riu e pareceu ficar comovido, não percebi porquê.

– O que foi? — questionei franzindo as sobrancelhas.

– Custa-me a acreditar que já cresceste tanto. — ele sorriu.

– Não. Só tu é que crescias. — brinquei e rimos os dois.

O silêncio voltou. Eu não sabia o que dizer. Eu queria falar. Não sabia era sobre o quê.

– Fala comigo. Este silêncio é ensurdecedor. — disse baixinho.

– Como é esse tal Daniel? — ele sentou-se de lado na cadeira para ficarmos virados um para o outro.

– Parece-me um bom tema de conversa. — fiz uma pausa. — É um rapaz.

– Que novidade! Pensei que era uma rapariga. — ele gozou.

– Os cabelos são pretos, relativamente compridos. Tem olhos verdes, são lindos. É musculado. — fui interrompida.

– Musculado? Que idade tem ele? — não parecia estar a gostar muito da conversa.

– Vou deixar isso para o fim. — disse pronta a continuar a descreve-lo.

– Clars, que idade tem o rapaz? — ele estava mesmo a falar a sério.

– Não te zangues. — fiz uma pausa e ambos respirámos fundo. — Ele tem dezasseis.

– Tu não bates bem! — ele estava quase a gritar, mas eu sabia que este sermão viria mais cedo ou mais tarde. — Ele não tem idade para ti! Tens tantos rapazes da tua idade! Por favor, deixa-te de parvoíces! Isto é para quê? Para esqueceres o Robert.

Aquilo doeu. Não estava à espera que ele referisse o Robert. Neste momento queria sair dali.

– Olha, pensa o que quiseres. Há muitos rapazes da minha idade, é verdade. Mas eu não me dou bem com pessoas da minha idade. — levantei-me da cadeira. — Devia ter ficado calada, o silêncio era melhor.

Corri até à casa de banho. Estava a tentar conter as lágrimas. Não tinha razão para chorar. Mas assim que cheguei à casa de banho, sentei-me no chão e não as pude conter mais.

Será que estaria com Daniel só para esquecer Robert? Não, não podia ser.

Estava a sentir um grande ódio por Robert, por ter arruinado tudo, por ter virado a minha vida ao contrário. E estava irritada com ele, com o que ele se tinha tornado. Por sua causa perdi Anna, era algo que eu não poderia perdoar. Eu estava sozinha. Não tinha uma amiga para falar.

Entrou uma rapariga. Era muito bonita. O seu cabelo era comprido e ruivo, vinha atado num rabo-de-cavalo. Os seus olhos eram grandes e verdes, parecidos com os de Daniel. Vinha vestida com uma camisa branca e umas calças de ganga pretas. Tinha calçadas umas sandálias pretas.

Ela trancou a porta atrás de si e sentou-se ao meu lado.

– Não inundes a casa de banho, eu quero viver. – ela sorriu e deu-me um lenço de papel.

Enxuguei as lágrimas. Parei de chorar.

– Obrigada. – disse atirando o lenço para o lixo.

– Tens alguém aqui no hospital?

– Sim, o meu pai.

– E ele está bem?

– Eu espero que sim. Ninguém me disse o que se passou com ele. Apenas sei que é grave e que está a ser operado. E tu, porque estás no hospital?

– A minha mãe acha que está grávida.

– Gostavas que estivesse?

– Para dizer a verdade, não sei. Já há muitos anos que sou filha única. Mas não me importava de ter um maninho ou maninha. Lidarei bem, independentemente do que estiver para acontecer. — ela encostou a sua cabeça na parede.

– E ela pensa que esta grávida, porquê?

– Os médicos fizeram a mesma pergunta. — ela sorriu e olhou para mim. — É um pouco estúpido ela ter vindo ao hospital sem ter feito primeiro o teste em casa. Ela pensa que está grávida porque há dois meses que não tem menstruação.

– Qual é a idade?

– Aí está. Ela tem quarenta e nove.

– Hum… — começava a perceber o que aquela rapariga queria dizer.

– Estavas a chorar porque não sabes se o teu pai está bem? — ela não hesitou a pergunta.

– Não. — ela franziu as sobrancelhas, esperava um sim.

– E queres contar porquê?

– Se estiveres pronta para ouvir. -sorri.

– Eu aguento. — ambas rimos.

Eu contei-lhe tudo o que aconteceu desde a vídeo chamada com Anna, até agora. Demorou algum tempo. Mas foi bom. Rimos um pouco. Quase choramos. Acho que estava a fazer uma nova amiga e isso era bom.

– Gostei muito deste bocadinho, mas tenho de ir. — ela levantou-se e caminhou até à porta. — Espero voltar a ver-te. — ela despediu-se, destrancou a porta e saiu.

Lembrei-me que não sabia o seu nome, por isso levantei-me rápido e saí da casa de banho, à espera de a ver no corredor, mas ela já não estava lá.

Já me sentia melhor, e independentemente de querer ou não, tinha de ir ter com Lucas.

Ele continuava na mesma cadeira, tinha os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos na cara. Sentei-me ao seu ao seu lado.

– Lucas? — ele olhou rapidamente para mim, não tinha reparado que eu estava ao seu lado. Vais dizer-me o que aconteceu com o pai, ou não?

– Onde andaste? – ele desviou a minha pergunta.

Encostei-me para trás, cruzei os braços e virei a minha cara para o lado, parecia uma criancinha a fazer birra. Mas se ele não respondia às minha perguntas eu não tinha de responder às dele.

– Família Fortunato?

Eu e o meu irmão saltamos das cadeiras, as birras passaram logo.

– Nós! — Lucas falou alto para que a senhora nos pudesse ouvir.

Ela dirigiu-se a nós. Era diferente de todas as outras médicas que já conheci. Os seus cabelos eram azuis, os seus olhos também eram azuis e enormes, tinha um pirsing no nariz, era alta, talvez 1,85, tinha cerca de vinte anos, muito nova para ser médica e qualquer homem ficaria a olhar para o seu corpo.

Eu e Lucas olhámos um para o outro com o mesmo pensamento, ela é muito extravagante para médica.

– Olá, eu sou a Tânia. Vocês devem ser o Lucas e a Clarissa, os filhos do senhor Fernando. — a sua voz era muito doce, não tinha nada a ver com a sua aparência.

– Sim. – eu e Lucas dissemos em harmonia.

– Quem operou o vosso pai fui eu. Correu tudo bem. Ele já está consciente, está ansioso por vos ver. Apesar de já estar bem, vai ter de ficar duas semanas em observação. A queda foi muito feia.

– Pode dizer-me o que aconteceu com ele? – perguntei, Tânia e Lucas trocaram um olhar de constrangimento, ela entendeu que eu não sabia de nada.

– Eu vejo que já não és criança nenhuma. E tens o direito de saber o que se passou. — fiquei feliz por ela não me tratar como um bebé. — O senhor Fernando teve um acidente enquanto trabalhava.

– Vamos vê-lo. — o Lucas interrompeu a médica.

– Eu já lá vou ter. — queria saber o que tinha acontecido.

– Não. Vamos os dois juntos.

– Obrigada por nos informar que já o podemos ver. – disse com um sorriso falso, o meu irmão não me ia deixar saber o que aconteceu.

Fomos até ao quarto que a senhor nos disse, 258.

– Pai! — quase gritei, estava feliz por vê-lo.

Sentei-me numa cadeira ao lado da sua cama. Olhei para ele, não estava lá muito bem. Tinha cicatrizes na cara, algumas fundas, um olho nem conseguia abrir de tão inchado que estava, tinha a cabeça rapada, a maior cicatriz era na cabeça. Também tinha a mão direita engessada.

– Vejo que não estás nada bem. Não vale a pena perguntar. — sorri ao falar.

– Vou comer qualquer coisa, já venho ter com vocês. – Lucas falou e saiu logo, não acreditava, ele ia-me deixar finalmente saber o que tinha acontecido.

– O que te aconteceu?

Ele não respondeu. Pegou numa caneta e num papel e começou a escrever. Estranhei.

A caligrafia estava horrível, mas o papel dizia:

Não consigo falar.

Foi aí que percebi que tinha duas chapinhas de metal nos intervalos dos maxilares. Lucas de certeza que sabia, ele não me iria deixar saber nunca.

Não lhe pedi que escrevesse o que tinha acontecido, pois teria de escrever com a mão esquerda, esforça-se e iria ser difícil de perceber o que dizia.

O meu pai fechou os olhos e não voltou a abrir. O meu coração começou a bater mais depressa, mas sabia que tinha apenas adormecido, pois as máquinas mantinham o ritmo normal.

Lucas estava a demorar-se. Recostei-me na cadeira e deixei-me lá ficar.

(…)

Acordei na minha cama. A última coisa que me lembrava era de ter adormecido na cadeira, por isso Lucas devia ter-me trazido.

Sabia que o dia ainda não tinha acabado, não me lembrava de almoçar ou jantar, apesar de não ter fome. Levantei-me e fui até à cozinha. Vi pela janela que já estava a escurecer.

Lucas estava sentado do sofá a ver televisão.

– Bom dia Bela Adormecida. — não estava com muita paciência para o meu irmão.

– Boa noite. — fui muito rude.

– Tens fome? Há comida no frigorífico. — ele ignorou o meu mau humor.

– Obrigada.

Apesar de não ter fome, comi na mesma. A única coisa que tinha comido hoje foram crepes com gelado, há muitas horas

Peguei no telemóvel e enviei uma mensagem a Daniel.

Eu: Estás livre?

Daniel: Encontramo-nos na praia dentro de uma hora.

Eu: Até já.

Daniel: Até já.

Tomei um banho rápido, vesti o biquíni e um macacão branco. Apanhei o cabelo num coque.

– Vou sair. — disse pondo o telemóvel e uma toalha numa mala.

– Com quem?

– Com o Daniel. — disse entre um suspiro.

– Não vais não. — ele deixou de olhar para a televisão.

– Por favor. Não vamos começar. Ele é meu namorado e acabou. — resmunguei já abrindo a porta.

Ele saltou do sofá e pós a mão na porta, fechando-a.

– Não vais sair de casa. — ele estava com um ar de chateado.

– Eu volto antes das dez. — estava a modos que a implorar.

– Não.

– Lucas, tu sabes que eu vou sair de qualquer maneira.

– Se saíres vais-te arrepender.

– Vais-me pôr de castigo? Ou vais-me bater?

– Vai ser isto todos os dias? — pareceu-me que tinha cedido.

– Eu sinto-me feliz ao pé dele. — fui sincera.

– Se chegares às dez e UM, não voltas a sair. NUNCA MAIS. – ele disse saindo da frente da porta.

– Então chego às dez e dois. — ambos rimos.

Dei-lhe um abraço com força e saí.

Tinha vinte minutos para chegar à praia, não dava para ir com calma tinha de ir com passo bem acelerado.

Cheguei dentro do tempo. Ele já lá estava sentado no fim da plataforma, à minha espera. Como eu adorava aquela plataforma, era como num sonho.

Fui ter com ele devagarinho e sem fazer barulho, para não o incomodar. Eu sabia que ele estava a falar com a mãe.

Sentei-me ao seu lado. E dei-lhe um beijo na bochecha. Ele sorriu maliciosamente, o seu sorriso dizia ‘’só isso’’. Então o beijei nos lábios. Os beijos naquele local eram sempre especiais, eram sempre um sonho, como aquele lugar. Era bom termos um sítio onde ambos nos sentíamos felizes, era o nosso sítio. Foi um beijo muito longo, quando ficámos sem respiração os nossos lábios descolaram-se devagarinho, mas num espaço de três segundos, colaram-se de novo.

Deitei a minha cabeça no seu ombro. Eu sentia-me especial ao seu lado. Mas desta vez foi diferente, eu senti-a que queria ficar assim para sempre, que o queria para sempre, que eu o amava.

– Dani. — sussurrei, desencostei-me do seu ombro e olhei-o nos olhos, nunca me tinha sentido tão apaixonada. — Promete que nunca me vais destroçar. — eu queria dizer que o amava, mas não fui capaz.

– Eu prometo. — ele sorriu.

– Ainda bem, porque eu quero-te para sempre. — foi o mais parecido com ‘’eu amo-te’’ que consegui dizer.

– Eu também te amo. — foi como se ele lê-se os meus pensamentos.

– Eu ainda não te contei. — cruzei as pernas e sentei-me de frente para ele. — Depois de sair de tua casa, fui para o hospital. Parece que o meu pai teve um acidente.

– E ele está bem? — o seu olhar parecia preocupado.

– Eu não sei bem. Ele não me pode dizer. — disse olhando para os pés e depois para ele.

– E porquê?

– Porque ele não pode falar. Eu não sei o que lhe aconteceu. Mas ele estava muito mal. Tinha a mão direita partida, chapinhas de metal a segurar os maxilares e muitas cicatrizes na cara e na cabeça. — estava quase a chorar.

– Vai tudo ficar bem. — ele tentou-me confortar

– Espero que sim.

Abracei-o com força era a pessoa com quem mais queria estar.

– Tenho duas coisas para te contar. — ele esperou um pouco antes de falar.

– Diz-me.

– O Rafael falou comigo. Eu pensava que ele não ia falar, mas falou. Eu ainda não acredito.

– Eu disse-te. — ambos sorrimos.

– E a outra coisa é que faço anos para a semana, estás convidada. A festa vai ser em minha casa, sábado.

– Fazes dezassete? — fiquei triste.

– Sim. O tempo não pára.

– Eu pensei que tinhas feito dezasseis este ano.

– Não eu faço dia seis de julho. Já estamos de férias de verão. Apesar de as nossas férias serem apenas de um mês e meio, é sempre bom estar de férias. — ele parecia abstrair-se da minha tristeza.

– Temos quase quatro anos de diferença. — eu continuava a bater na mesma tecla.

– Não penses nisso. Por favor.

– Mas é importante! — estava quase a gritar.

– Não percebo! O que é importante? As idades?! — ele falou no mesmo tom que eu, estava a assustar-me.

– Sim. – disse muito baixinho.

– Não, não são! São apenas números! — ele continuava chateado, talvez tivesse razão.

– Eu sei… — não pude terminar a minha frase.

– Clars, eu amo-te. Eu não quero saber o que os outros vão pensar. Eu não quero saber da idade. Só quero saber de ti. — ele estava calmo de novo. Chegou-se perto de mim e pós a sua mão sobre a minha perna.

– Eu também te amo. — eu tinha finalmente dito e ele sorriu. — Mas tenho medo! Tenho medo que deixes de me amar por eu ser mais nova! Tenho medo que me deixes por eu ser apenas uma miudinha! — eu estava a gritar.

Ele beijou-me. Acalmou-me, nem sei explicar o quanto.

– Tu sabes que isso não vai acontecer. — ele disse baixinho.

Eu estava um pouco descontrolada e sentia-me mal por causa disso. Por o amar e ter medo. Por ele me amar e ter receio. Como podia isto não chegar para mim? Sentia-me mal por isso, por ter tudo o que queria, mas não me sentir ‘’satisfeita’’.

– Quando fazes anos?

– Dia cinco de maio.

A conversa acabou. Ficámos num silêncio absoluto entre os dois. Estávamos os dois coladinhos um ao outro. No silêncio eu pensava qual seria o meu sonho? Será que era ele?

Notas finais
Espero que tenham gostado! Vemos-nos no próximo capítulo! COMENTEM!