Diferentes idades
9 Vamos jantar?
Notas iniciais
Era quarta-feira. Estava preocupada com Robert. Ele ainda não tinha vindo às aulas. Será que estava magoado comigo? Será que não me queria ver? Estava chateada com ele, não queria que estivesse chateado comigo. Era estúpido, mas eu queria vê-lo. Apesar de tudo eu não o odiava por completo. Ele era especial e por mais parvo que fosse, por mais que o odiasse, eu sabia que assim que ele me pedisse desculpa tudo iria passar.
Saí de casa convencida que o iria ver hoje, era o último dia de aulas. Nem que tivesse de ir a sua casa para o ver, provavelmente ele não iria abrir a porta. Mas não custa tentar.
Fui a primeira a chegar à sala. A aula era de Inglês. Cada vez que entrava alguém, pensava que era ele.
Estávamos quase a chegar ao segundo tempo da aula e ele ainda não tinha aparecido. Iria faltar de novo. Não estava a prestar atenção nenhuma à aula. E estava muito cansada, não dormia de noite a pensar se Robert estaria bem.
Acabei por adormecer encostada na minha mão.
– Oi. Acorda! Ela vai ver-te! Clarissa! — estava a ouvir alguém sussurrar.
Abri os olhos devagarinho e olhei para o lado.
– Robert! — quase gritei, toda a turma ficou a olhar para nós.
– Passa-se alguma coisa? — a professora estava a falar para nós, não sabia o que responder.
– Não professora. A Clarissa estava a prestar tanta atenção à aula, que nem me viu entrar. -ele ajudou-me.
A professora sorriu e continuou a dar a aula.
– Robert, peço desculpa. — falei baixinho.
– Não faz mal. Eu também peço desculpa.
– Então estamos bem?
– Sim. Eu acho que sim.
– Ótimo.
Eu e Robert nunca prestávamos muita atenção às aulas, mas tínhamos sempre boas notas.
– Pede desculpa ao teu namorado por mim.
– Ao meu namorado? Fizeste lhe alguma coisa? — estava confusa, ele conhecia o Daniel?
– Não te lembras? O gato? — ele franziu as sobrancelhas ao falar.
– Ah, já sei. — fez-se luz na minha cabeça, da última vez que falei com ele, ficou a pensar que o meu namorado era o Rafael. — Ele não é meu namorado. Mas eu digo-lhe.
– Mas eu pensei… tu tinhas dito. — quem estava confuso agora era ele.
– Eu referia-me ao irmão dele. O irmão do rapaz do gato é meu namorado.
– O Daniel? — ficou muito surpreendido.
– Sim. Conheces?
– Já ouvi falar. Ele não tem dezasseis?
– Tem. — tentei falar como se fosse normal.
– E-e não é muito velho para ti? — ele parecia estranhar a minha normalidade.
– A idade é apenas um número. — sorri ao dizer, lembrei-me de Daniel.
– Tu é que sabes. — pareceu chateado.
– Estás com ciúmes? — disse entre risinhos.
– E se estiver? — ele respondeu torto.
– Vou ficar triste.
– E porquê? — ele voltou a falar torto.
– Porque já é tarde. — não estava com vergonha de o dizer, ele sabia que eu tinha gostado dele, não havia razão para me esconder.
– Como se gostasses mesmo dele. — ele revirou os olhos.
– Sim. Gosto mesmo dele! — aumentei o meu tom de voz, mas ninguém reparou.
– E se te perguntar se queres ir sair? — ele fez um olhar engatatão o que me fez rir.
– Desde que seja como amigos.
– Sábado?
– O Daniel faz anos.
– Domingo?
– Vou passar o dia com o Daniel.
– Hoje à tarde.
– Feito.
Não sabia se seria correto ir sair com o Robert. Não queria chatices com Daniel. Mas Robert era meu amigo.
Desde que me aproximei de Daniel, afastei-me dos meus amigos. Não é que agora tivesse muitos amigos.
(…)
Terminaram todas as aulas de hoje. Ia dar uma volta com Robert. Saímos juntos da escola. Parámos em frente ao portão.
– Onde queres ir? — ele perguntou.
– Não sei, comer um gelado?
– Por mim pode ser.
Seguimos caminho. Nenhum de nós falava. Eu peguei no telemóvel e enviei uma mensagem ao Daniel.
Eu: Oi mor. Não te zangues. Vim dar uma volta com Robert.
Daniel: Está bem. Às 19 na praia. Vamos jantar. O meu irmão e uma amiga minha vão.
O meu namorado era muito rápido a responder às mensagens.
Eu: Até lá.
Daniel: Até lá.
– Eu sei que não me deves justificações, mas porque não vieste às aulas nos outros dias? -interrompi o silêncio, se vínhamos sair, pelo menos tínhamos falar.
– Não queria vir para as aulas com a boca inchada. — ele sorriu, mas eu comecei a rir-me às gargalhadas.
Finalmente consegui conter-me.
– Ficou assim tão mau?
– Sim. Tens mais força do que eu pensava.
– Parece que sim. — soltei um pequeno riso.
– Porque temos andado tão afastados? — ele perguntou.
– Não sei bem. Desde que beijaste a Anna e eu comecei a namorar. Tentei afastar-me. — falei olhando para o chão.
– E tens falado com Anna?
– Não. — continuei a olhar para o chão.
Ele deu-me a mão. Senti um arrepio em todo o meu corpo. Mas não soltei a mão.
– Tu não gostas dele. É só para me esqueceres, não é?
– Desculpa?! — quase gritei e soltei a minha mão.
– Ele é só para me esqueceres.
– Não!
– Clarissa. Eu não tive coragem para dizer mais cedo. E quando me disseste que estavas a namorar, eu fiquei meio estranho. Porque eu gosto de ti muito mais do que amiga… eu gosto mesmo de ti.
– Ótimo. — falei sarcasticamente. — Desculpa, mas a tua janela da oportunidade fechou. Tiveste muito tempo. Agora eu já não estou apaixonada por ti. Vamos ser amigos. — tentei falar com calma.
– Não me podes ter esquecido tão depressa. — ele puxou-me pela mão e sentámo-nos num banco.
– Tens razão. Eu não te esqueci completamente. Mas o que eu sinto por ti — fiz uma pausa — não é igual ao que sentia.
– Vamos tentar. Por favor. — ele estava a suplicar-me.
– Eu não vou namorar contigo por favor. Não vou mesmo. — estava a começar a ficar irritada.
– Clarissa eu amo-te.
– Mas eu não te amo! — gritei. – Tu não vês que estás a estragar tudo! Assim não vamos poder ser amigos, não vamos poder ser nada!
– Clarissa. — ele estava quase a chorar.
– Desculpa. Eu vou embora. Se eu me passar vais ouvir coisas feias. – levantei-me do banco e comecei a caminhar em direção da minha casa.
– E o gelado? – ele correu até mim e agarrou-me no braço.
– Se formos como amigos…
– Então vamos.
Nunca me tinha sentido tão constrangida ao seu lado. Eu nunca imaginei que iria negar Robert. Estava em estado de choque. Como em tão pouco tempo, fiquei tão apaixonada por Daniel? Como poderia negar o rapaz que amei toda a minha vida? Como poderia ter esquecido Robert tão facilmente?
Enquanto pensava, Robert falava, apesar de eu não estar a ouvir nada. Não conseguia parar de pensar que Robert se tinha declarado.
– Robert, desculpa. Mas eu não consigo prestar atenção ao que dizes. Não, até o assunto ficar claro na minha cabeça. — ele começou a prestar muita atenção ao que eu dizia. — Porquê agora?
– Só depois de te imaginar com outro é que percebi o que sentia por ti. — ele olhava para o chão ao falar.
– E achas isso justo?
– Eu pensei que talvez ainda gostasses de mim.
Chegámos à gelataria. Sentámo-nos e ficámos a olhar um para o outro. Não consegui deixar de olhar para os seus olhos azuis, eram lindos. Mas já não me sentia apaixonada.
– Olá meninos. — era a empregada. — Que vão querer?
– Um crepe com três sabores. — não hesitei ao pedir, eu costumava ir àquela gelataria com Robert e pedíamos sempre o mesmo.
– Com que sabores? — a senhora disse pegando numa caneta e num papel.
– Menta. — eu disse.
– Chocolate. — disse Robert.
– E doce de leite. — dissemos ao mesmo tempo.
Ambos soltamos um pequeno riso.
– Estava com saudades tuas. — sorri ao falar.
– Ainda bem.
– Não tiveste minhas?
– Tendo em conta que levei um soco da última vez que nos vimos. Não muitas. – ele falou ironicamente e ambos rimos.
Era o que mais gostava em Robert, sempre me fazia rir.
Falámos e rimos. Nem demos pelo tempo passar. Quando olhei para às horas eram seis e meia. Tinha de estar na praia às sete.
– Robert tenho mesmo de ir. Adeus. — dei-lhe um beijo na bochecha e comecei a correr.
A praia ficava mais longe da escola do que da minha casa. Mas cheguei a horas.
Daniel estava à minha espera, sentado no fim da plataforma. Corri até ele e sentei-me ao seu lado. Cumprimentei-o com um beijinho.
– Estás tão arranjadinho! E eu aqui toda suja.
Ele vinha de camisa branca, calças de ganga pretas e trazia calçados uns vans pretos. Eu tinha uma camisa preta, umas calças de ganga com alguns rasgões nos joelhos e umas sandálias pretas com um pouco de salto.
– Estás linda.
– Pensei que ficarias chateado comigo.
– E porquê?
– Porque fui sair com Robert.
– Ele não é teu amigo?
– És mesmo o namorado perfeito. — deitei-me em cima do seu peito de forma a que ele se deita-se.
Ele tentou beijar-me mas eu virei a cara, por isso franziu as sobrancelhas.
– O teu irmão está ali a ver-nos.
O Rafael estava à nossa espera sentado na areia.
– E depois?
– Eu não me sinto à vontade.
Ele revirou os olhos e levantou-se.
– Vamos jantar? — ele perguntou estendendo-me a mão para me ajudar a levantar.
– E a tua amiga? — disse agarrando a sua mão.
– Ela está lá à nossa espera. Eu queria muito que a conhecesses.
– Então porquê? É a tua outra namorada? — gozei.
– É. — ele entrou na brincadeira.
– E é mais bonita?
– Isso não é impossível? — ele agarrou-me na cintura e puxou-me de modo a que ficássemos frente a frente.
Aí ele me beijou e eu não disse que não. Não foi um beijo muito longo, mas foi perfeito.
Quando estava com ele tudo era perfeito. Tudo era mágico. E os momentos em que nos beijávamos eram impossíveis de esquecer.
– E o que tu e Robert foram fazer? — ele perguntou quando voltámos a andar.
– Falámos disso depois. Agora eu quero saber quem é a tua amiga.
– Chamasse Sammanta. Tem catorze. Eu queria que a conhecesses. Ela é única. Vais gostar muito dela.
– E ela vai querer me conhecer?
– Não sejas parva. Vai sim. Eu liguei-lhe na mesma noite em que conheceste o Will e combinámos o jantar.
– Por falar em Will. Tenho de ligar ao meu pai e ao meu irmão. Ainda não os avisei.
– Não vais ligar ao teu pai.
– E porquê?
– Não disseste que ele não fala.
– Pois é! — bati com a mão na testa, tinha-me esquecido por completo.
Peguei no telemóvel e comecei a escrever para o meu pai.
– Will? — ele perguntou porque o número do meu pai estava identificado como Will.
– Sim. É o nome do meu pai.
– E porque não tens simplesmente pai?
– Porque se me roubarem o telemóvel, não sabem quem é a minha família. — sorri e enviei a mensagem.
Eu: Oi pai! Espero que estejas melhor! Hoje vou jantar fora. Era só para te avisar. Beijinhos.
Depois enviei uma mensagem para Lucas.
Eu: Oi maninho! Não te passes, mas vou jantar fora, com o Daniel, o irmão e uma amiga. Beijinhos.
– Vamos a pé? — perguntei pondo o telemóvel no bolso.
– Não.
– Tu conduzes? — perguntei surpreendida.
– Sim. — ele sorriu.
– Clarissa! – cumprimentou-me o Rafael.
– Olá Rafa!
– Vocês andam muito devagar! Vamos depressa. – ele correu até ao carro.
Era um carro bem bonito e moderno. Era um mercedes preto.
– É teu? — perguntei mirando o carro.
– Gostas?
– Eu adoro!
Sentámo-nos. Daniel no banco do condutor (óbvio), eu no banco do pendura e o Rafael ia atrás no banco do meio. Pusemos os cintos e Daniel ligou o carro. Fomos o caminho todo em silêncio.
Chegámos ao restaurante. Era lindo, moderno, encantador. Era todo de vidro, até o telhado. Era espantoso.
Entrámos e eu vi a menina do hospital.
– Daniel, eu vou só ali. — disse afastando-me dele.
Cheguei perto da rapariga.
– Olá!
– Olá! – ela disse abrindo muitos os olhos.
Abraçamo-nos, não nos conhecíamos muito bem, mas era como se conhecessemos.
– Então, o teu pai está melhor?
– Eu penso que sim.
– Ainda não sabes o que aconteceu?
– Não. Mas e a tua mãe. Ela sempre está grávida?
– Sim! Está! – ela disse com um sorriso enorme na cara.
– Fico feliz.
– Eu também.
– Olha eu vou jantar com aquele rapaz ali ao fundo. — ela apontou para Daniel.
– Vais? Eu também.
– Não brinques!
– Estou a falar a sério!
– És a namorada dele?
– Sou. Tu deves ser a Sammanta.
– Sou. Que idade tens? Quinze?
– Não, sou até mais nova que tu, tenho treze. — ela arregalou muito as sobrancelhas com o que eu disse.
– Se gostam um do outro. É o que importa. — ela sorriu ao falar.
– Qual é a nossa mesa?
– É esta aqui. Senta que eu vou chamá-los.
Sentei-me. Estava espantada com a coincidência.
– Eu sento-me ao lado da Clarissa. — o Rafael gritou e sentou-se ao meu lado.
– Não há problema Daniel. Frente a frente é a posição de engate. — Sammanta brincou e piscou o olho a Daniel.
Daniel sentou-se à minha frente e Sammanta à frente do Rafael.
– Sabes eu já conhecia esta rapariga. Ela estava toda chorona na casa de banho do hospital. — Sammanta parecia conhecer à muito tempo o Daniel.
– É? E gostaste dela? — Daniel entrou na brincadeira com ela.
– Foi amizade à primeira vista. — ela disse pegando no menu.
– O que sugeres para comer? — Daniel perguntou.
– O que há de melhor para mim são os lombinhos com natas e cogumelos. — Sammanta sugeriu e pousou o menu.
– Por mim está ótimo. — eu disse.
– Por mim também. — os dois irmão disseram ao mesmo tempo.
– E para beber? — perguntou o empregado de mesa que estava a ouvir a conversa.
– Boa noite senhor Santos. Hoje está de serviço? — Daniel meteu conversa com o homem, talvez o conhece-se.
– Vim certificar-me de que não tocavas na minha filha. — o senhor Santos brincou.
– Não se preocupe. Eu porto-me bem.
– Pai, acho que podem ser quatro colas. — todos assentimos com a cabeça.
O empregado saiu. Pelo que percebi era o pai da Sammanta e trabalhava no restaurante.
– O teu pai trabalha aqui? — quis ter a certeza.
– É o dono. E sempre que queremos jantar vimos aqui. Assim quem paga é ele. — ela sorriu ao responder.
– Vocês conhecem-se há muito tempo? — perguntei.
– Os nossos pais são muito amigos. Por isso eu conheço-a desde bebé. – ele sorriu. – Como ela cresceu.
– Tá. Vamos falar do Rafael que está muito calado. – ela tentou desviar a conversa.
– Eu sou um anjo. Não há mais nada a dizer.
– Quando acabarem as aulas vamos os quatro às compras. — Sammanta disse empolga.
– Eu? Nas compras? — Rafael perguntou surpreendido.
– Sim. Vamos comprar coisas fashions para ti! — ela estava super ansiosa.
Senti-me um pouco desencaixada. Mas foi bom estar com eles.
(…)
Saímos do restaurante, e o Daniel pegou na minha mão.
– Gostaste? — ele sussurrou.
– Eu adorei, obrigada. — sussurrei também.
– Clarissa! Nós não falámos muito as duas! Hoje vens dormir a minha casa. – Sammanta quase gritou.
– Sammanta, eu não posso.
– Amanhã entramos de férias!
– Eu não posso! O meu irmão não deixava.
– E o teu pai?
– Continua no hospital. — disse abraçando-me a Daniel
– Tu disseste que ele estava melhor. — ela baixou o tom da voz.
– Mas continua em observação.
– Mas tenta convencer o teu irmão. — ela estava quase a suplicar.
– Falas tu com ele?
– Falo! — ela estava mais feliz.
Tirei o telemóvel do bolso, marquei o número e passei-lhe o telemóvel.
– O teu irmão é um gato. – ela disse quando olhou para a sua fotográfia.
A Sammanta afastou-se para que não ouvíssemos a conversa.
– Tu queres ir? — Daniel perguntou-me, ainda estamos agarradinhos.
– Sim. Eu gostei muito dela.
– Ainda bem. — ele sorriu e apertou-me.
– Vocês só me fazem ciúmes. — resmungou o Rafael.
– E porquê? — perguntei.
– Também queria uma namorada. — eu e Daniel começamos a rir com o que ele disse.
– És muito novo para isso. — Daniel disse ainda rindo.
Ele arqueou uma sobrancelha, com um olhar que dizia ‘’a sério’’. Eu percebi o que ele quis dizer, eu tinha a mesma idade que ele e isso incomodava-o.
O ambiente tornou-se um pouco constrangedor.
– Desculpa. Mas eu sou eu. E tu és tu. — disse um pouco chateada.
– Só percebeste isso agora? — o Rafael queria levar isto a mal.
– Não. Reparei quando vi que eras um rapaz. É que tive dúvidas. — eu não me deixava ficar para trás.
– Foi até abrires os olhos!
– É melhor a conversa acabar. – Daniel estava a achar piada à discussão de miúdos, por isso acabei por parar, não queria que ele me visse como uma criancinha.
– Vou para o carro. — Rafael disse virando costas.
– Não ligues. Já lhe passa. — Daniel disse baixo.
– Ele deixou! — Sammanta voltou a gritar.
– O que lhe disseste? — não podia acreditar que ele tinha cedido.
– Isso é entre mim e ele. Agora, Daniel levas-nos até minha casa?
– Ao vosso dispor! — ele brincou.
Entrámos no carro.
– Rafael! Que trombas são essas? — Sammanta perguntou assim que se sentou ao seu lado.
– As minhas. — Rafael continuava zangado.
– Liga o rádio. — Daniel pediu-me e eu liguei.
Começou a dar uma música que eu nunca tinha ouvido. Mas tornou-se a minha favorita. Não conseguia parar de pensar em Daniel. A música era linda. Houve uma parte que não saiu da minha cabeça. Traduzido:
E você é o único com quem me quero casar
Porque você é o único para mim
E eu sou a única p’ra você
Você leva ambos de nós
E nós somos o par perfeito
Nós somos o par perfeito
Nós somos o par perfeito.
Depois da música acabar Daniel desligou o rádio. Mas não me saiu da cabeça, por isso comecei a cantar, e à medida que comecei, Sammanta foi-me acompanhando. Conseguimos cantar praticamente toda a canção porque as partes que eu não lembrava ela lembrava-se e visse verça.
Chegámos a casa da Sammanta. Despedi-me dos dois irmãos e sai do carro com a minha nova amiga. A casa era grande, por fora e por dentro. Parece-se que para ela e para Daniel o dinheiro não era um problema.
– Vamos ver o meu quarto! — ela disse subindo as escadas.
Fui atrás dela.
Descalçamo-nos e sentamo-nos na cama de pernas cruzadas.
– Eu achei engraçada a coincidência de tu seres a namorada do Daniel.
– É. Eu fiquei feliz por te ver.
– Eu não queria tocar no assunto, mas… o Daniel não é muito velho para ti?
– Sammanta…
– Fala logo!
– É. É demasiado velho! Mas eu amo-o mesmo! — estava quase a gritar, mas também não estava ninguém em casa.
– Eu também já tive uma paixoneta pelo Daniel. — ela olhou para os pés ao falar.
– E ainda sentes alguma coisa? — perguntei com receio.
– Eu não sei. — ele fez uma pausa e olhou-me nos olhos. — Fazia-te diferença?
– Sim! Não me sentiria bem.
– Eu acho que já não sinto nada.
– Desde quando gostas dele?
– Acho que desde de sempre. Ele nem sempre foi musculado, mas sempre foi lindo. Aqueles olhos, aquele sorriso… — ela parecia estar a entrar noutro mundo. — e sempre foi engraçado e fofo.
– Já falaste com ele?
– Nunca lhe disse nada. Ele sempre me viu como uma melhor amiga. — ela estava quase a chorar.
– Não há mais nenhum rapaz?
– Não. — escorreu-lhe uma lágrima pela cara.
– Ficas triste por ele estar comigo?
– Eu não posso prende-lo. — ela disse entre um suspiro.
– Agora sinto-me mal.
– Não sintas. Ele ama-te. Vê-se na maneira como olha para ti.
– E tu ama-lo…
– A vida não é perfeita. — outra lágrima escorreu pela sua cara.
Abracei-a com força. Sentia-me mal comigo própria. Ela amava-o há mais tempo. Eu não sei se merecia estar com ele. Quer dizer… já não me consigo imaginar sem ele. Ele é tudo para mim.
– Neste momento deves sentir raiva de mim.
– Não! — ela gritou afastando-se de mim.
– Sentes sim. É intencionalmente, mas sentes. É o mesmo que senti por Anna.
– Pois é! O Robert! Temos de falar sobre ele. — ela pareceu esquecer-se do que estava a falar.
– Queres mudar assim de tema?
– Quero. Sempre me faz mais feliz. — ela disse sorrindo fraco.
– Ele hoje convidou-me para ir sair.
– E tu foste?
– Sim. Mas avisei o Daniel.
– A sério?
– Continuando. — fiz uma pausa. — Ele declarou-se a mim. Disse que me amava e que não estava à espera que eu fosse arranjar namorado.
– E tu? — ela parecia interessada e preocupada com o que eu ia dizer a seguir.
– Eu disse que já não o amava. Que queria que fossemos apenas amigos.
– E é isso que sentes?
– Ele ainda mexe comigo, mas não o amo.
Ela atirou-me com uma almofada.
– Como pudeste esquecê-lo tão rápido!
– Já te disse. Eu amo Daniel, ele é o tal.
– Talvez eu só precise de conhecer pessoas novas.
– Queres conhecer o Robert?
Atirei-lhe uma almofada à cabeça, porque ela estava em transe.
– Porque não?
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