Diferentes

1 O Despertar


Hum... Oi?!

Eu realmente não sei como começar um diário. Foi tudo ideia da Carolyn (Nós, eu e o Russell, a chamamos de Carol). Não sei como explicar bem a minha situação aqui, acho melhor contar a história desde o início.


Me chamo Isaac, sou órfão desde os meus quatro anos. Meus pais biológicos não podiam me sustentar, então me mandaram para o orfanato. Fui adotado pela sra. Venetia um ano depois.

Ela já tinha outros dois filhos, também adotados. Carolyn e Raymond. Sim, a mesma Carolyn que eu mencionei antes. Quanto a Russell, eu o conheci na escola, no meu primeiro dia e desde então somos bem amigos. Ah! Tenho 17 anos, se isso ajuda em alguma coisa...


A sra. Venetia sempre foi muito confidencial com seus passatempos, mas sempre arrumava tempo para nós. Ela não gosta muito de Russell… Acha que ele é um mau exemplo para mim. É muito religiosa, mas eu não sei exatamente qual a sua religião. Ela fala coisas estranhas de tempos em tempos e tem uns amuletos estranhos.

Russell fica quase o tempo todo em nossa casa. Ele é muito normal, e deve ser exatamente por isso que a sra. Venetia não gosta dele.

Carol gosta de sair à noite com os amigos. Na verdade, ela sai todas as noites, mas a sra. Venetia parece não se importar.

Raymond é o mais velho e gosta de qualquer tipo de música. Quase todos os dias ele compra um CD novo sem nem conhecer a banda e sempre acaba gostando.

E eu vivo o dia inteiro em casa, conversando com Russell ou vendo filmes. Não sei bem o que escrever sobre mim, sou meio antissocial, mas não ligo para essas coisas.


Acho que é aqui que a história realmente começa.

No início eu não gostava muito da sra. Venetia, odiava ser adotado. Acho que ninguém realmente gosta, mas você acaba se acostumando. Tive uma vida muito normal desde que Venetia me adotou. Bom, pelo menos boa parte da minha vida foi normal. Vou explicar melhor: Um dia, quando eu tinha uns 6 anos, eu me lembro de ter ido falar com a sra. Venetia em seu quarto. Ela estava deitada em sua cama, lendo um livro estranho. Assim que eu entrei pela porta, ela fechou o livro e escondeu-o rapidamente.

“Mãe, o correio chegou. E tem uma grande caixa para a senhora.”
 Falei.

“Ah, obrigada, querido! Já estou indo.” Ela respondeu.

Como eu sempre fui uma criança curiosa, desde que vi o “livro secreto” da sra. Venetia, eu tento achá-lo. Nunca consegui. Depois desse dia, nunca mais a vi lendo-o novamente, o que eu sempre estranhei. Acho que esse dia é um dos que mais me lembro, porque foi o mesmo dia em que entrei na escola nova e conheci Russell. Também nunca soube o que estava na caixa que Venetia recebeu, até 11 anos depois.


Eu estava com 16, Carolyn com 17 e Raymond com 19. Era um dia normal de férias. Russell e eu estávamos jogando video-games, Carol estava escutando uma música alta e Raymond tinha saído para comprar algumas coisas no supermercado. No fim da tarde, duas pessoas vieram nos visitar, Cassandra e Thomas, amigos da sra. Venetia. Eles nos olhavam de uma maneira estranha. “Vai ver eles não gostam de adolescentes.” pensei. Eu estava redondamente enganado.
 Eram quase três horas da manhã, quando eu escuto um grito familiar vindo do sótão. Acordei Carol, que reclamou pelo fato de eu a ter acordado, e fomos para o sótão, para descobrir que Venetia, Cassandra e Thomas estavam fazendo um sacrifício. Raymond. Vi uma lágrima no rosto de Carol, que logo começou a chorar ainda mais em meu ombro. Eu fiquei paralisado, não sabia o que fazer.

O corpo de Raymond estava sobre uma mesa grande que temos no sótão, junto a um livro, que logo reconheci. O “livro secreto” da sra. Venetia. Thomas foi quem matou Raymond, com uma faca enorme, cheia de símbolos estranhos. Enquanto Venetia e Cassandra seguravam suas mãos e pés.
 “Venetia!” gritou Thomas, “Pegue-os!”
 Venetia e Cassandra nos seguraram. Eu tentava escapar, mas Carol estava muito aflita com a morte de nosso irmão para se mexer.


“Por quê?” Perguntou com a voz baixa. Mas antes de Venetia responder, Thomas a interrompeu.
“Um sacrifício é sempre necessário para agradar aos superiores.”


“Vocês são doentes! Problemáticos!” Gritei enquanto tentava me livrar de Cassandra, que me segurava. Consegui me soltar não muito depois. Corri para meu quarto, tranquei a porta e peguei o telefone. “Para quem irei ligar?!” pensei “Polícia?! Eu não quero que a sra. Venetia seja presa! Ela é a minha mãe! Talvez esteja só passando por uma fase. É, é só uma fase... Espero.”


Depois de pensar um pouco, pulei pela janela do quarto. Corri o mais rápido possível em direção à casa de Russell, que não morava muito longe dali. Assim que cheguei, toquei a campainha freneticamente até a avó dele atender. Passei direto, ignorando-a, andando para o quarto de Russell, que estava assistindo TV.


“Isaac? O que você está fazendo aqui?”


“A sra. Venetia é uma satânica louca de um grupo secreto que faz sacrifícios e ela sacrificou meu irmão para um demônio!”

“Que?! Como assim, cara?”
Ele riu.

“Eu não estou de brincadeira! É verdade!” Gritei.

“Demônios não existem!”
 Ele continuou a rir.


“Eu não ligo se demônios existem ou não, ela matou o Raymond!”

“Você... tá falando sério?” Eu concordei com a cabeça.
 “E você ainda não ligou para a polícia?”


“Eu não tive coragem! Não quero que a sra. Venetia seja presa!”


“Mas ela matou seu irmão! Se você não fizer nada, você ou a Carol poderão ser os próximos!” Ouvimos a campainha tocar.

“Já vai!” Disse a avó de Russell.


“Como foi quando os seus pais...?” Perguntei. Seu olhar passou de nervoso para deprimido logo em seguida. Os pais de Russell tinham morrido num acidente de carro no ano anterior ao ano em que eu o conheci. A avó dele disse que eu era o “anjo da guarda” de Russell. Ele nunca teve um amigo de verdade antes de mim.


Ele não respondeu à minha pergunta, não porque não queria, mas sim porque quem estava na porta era a sra. Venetia. Ela entrou no quarto e disse “Isaac, deixe-me explicar!”

O susto ao vê-la foi tão grande que eu e Russell saímos correndo pela porta do banheiro, que é interligado à sala. Passamos direto pela porta de entrada e vimos que Thomas e Cassandra estavam nos esperando do outro lado da rua, com uma van atrás deles. Tentamos correr, mas eles conseguiram nos pegar. Nos colocaram na van e nos levaram de volta para casa.


Quando chegamos, vimos que Carolyn já estava lá, suas mãos presas com uma corda. Lágrimas caíam de seu rosto como se estivesse sendo atormentada. Além de Carolyn, havia outro homem e um grande cachorro na sala. O homem era alto e usava um terno preto.


“Finalmente!” disse ele “Amarrem os outros também.”

Venetia e Cassandra começaram a nos amarrar.


“Posso falar com você, em particular?” Disse Thomas para o homem. Eles foram para o canto da sala e conversaram. Consegui ouvir um pouco.

“Quando percebemos, ele conseguiu fugir e...”
 Dois minutos de conversa até que o homem colocou a mão na boca de Thomas, para ele ficar quieto, e andou em nossa direção. Chegou perto de mim e da Carol e se abaixou para falar conosco.


“Diabinhos! Espiando o que a mamãe fazia tarde da noite?” Ele balançou a cabeça para os lados enquanto fez um muxoxo.

“Que feio! Bom,” ele se levantou e ficou de costas, enquanto nos olhava por cima de seus ombros “acho que terei de matá-los também!”

Não reagimos. Não conseguimos reagir. Parecia que tudo era uma grande brincadeira para eles. Russell nem se mexeu, o que me surpreendeu. Ele sempre foi uma pessoa exagerada. O homem riu.


“Ora, vamos! Tenham um pouco de senso de humor!” Carol não olhava nos olhos dele, olhava para o chão, estava paralisada desde que chegamos. Russell o olhou com grande desprezo.

“Eu acho que já está na hora de eu me apresentar! Mas isso não será necessário para um de vocês.” Eu não entendi o que ele quis dizer, até uns dias depois. “Meu nome é Baal, e este” ele apontou para seu cachorro “é Buer.” O cachorro latiu e ajustou sua postura. “O quê? Nada? Nem um sorrisinho? Bom, acho que realmente terei de matá-los! Buer, a comida já esta servida.”


“Não!” gritou Venetia, para minha grande surpresa, “Não, eles... Nós precisamos deles vivos! Para os outros sacrifícios. Certo?”


“Venetia! Cale sua boca!” disse Thomas.


“Não! Cale você a sua boca!" gritou Carol "Você não tem o direito de falar assim com ela! É a minha mãe e eu irei protegê-la, não importa o que aconteça!”

“Carolyn, não. Não precisa, está tudo bem. Mil desculpas, Baal.” Ela voltou a olhar para baixo.


“Não diga meu nome, já estou farto de você! Fique quieta, ou haverá consequências. Se bem que… O que você disse é verdade, precisamos deles vivos. E vocês me trouxeram um grande espécime hoje, não podemos deixar essa chance passar. Até porque,” Disse Baal, se agachando na frente de Russell, “esse espertinho é único.”


Russell abriu a boca, achei que um grande palavrão iria sair, mas ele cuspiu flamas azuis na cara de Baal, que caiu no chão com a dor.


“Vamos, rápido!” Russell conseguiu se livrar das cordas rapidamente e depois me soltou logo em seguida. Thomas, Cassandra e Venetia não se atreveriam a confrontar Russell, que já estava cortando as cordas que prendiam Carolyn. Quando ela estava livre, corremos para a sala principal e fomos para a porta.


“Está trancada!” Russell chutou a porta com tal força que ela voou para o outro lado da rua. Eu e Carolyn agíamos como se fosse a coisa mais normal do mundo. Não corremos nem dois quarteirões, e vimos um carro da polícia.


“São eles! Ah, graças a Deus!” Disse a mulher que estava sentada no banco de passageiro. O carro parou, ela saiu e abraçou a mim e a Russell.


“Esta moça reportou duas mulheres e um homem forçando-os a entrarem em uma van. Procede?” Perguntou o policial. Nos entreolhamos.

“Não, fazemos parte de um grupo de RPG. Nós refazemos cenas de nossos filmes favoritos. Vocês sabem como nós, jovens, somos, não é?” Eu forcei um pouco minha risada, “Aqueles eram nossos pais, só... fazendo o que pedimos.” O policial parecia desconfiado, mas não perguntou mais nada.


“Certo. Então, qualquer problema, liguem para mim.”


“Ok, policial. Muito obrigado. E obrigado por se importar, senhora.”


“Ah, querido, não tem de quê!” Ela beijou minha cabeça, e entrou no carro. Quando eles já estavam longe, voltamos a correr.

Corremos até achar que despistamos Venetia e os outros. Chegamos em um shopping, entramos para comer alguma coisa. Nos sentamos enquanto comíamos pizza.

“Russell, só me responde uma coisa... Que porra foi aquela?!” Foi a primeira coisa que a Carol falou e, se ela não falasse, eu iria.


“É... Bom, é complicado.”


“É, também deve ser complicado como aquele tal de Baal conhece você e como você lançou fogo azul na cara dele pela sua boca!”


“Sim! É complicado! E envolve a morte dos meus pais, então prefiro não falar disso em público!” Carol não falou mais nada.

“Para onde iremos agora?” Perguntei. Não fazíamos a menor ideia.


“Casa do Russell?” Sugeriu Carol.
 “Não, eles sabem onde ele mora. Devem estar nos procurando lá nesse momento.”


“A gente podia passar a noite fora, na casa de alguém da escola.”

“Ou na casa do meu namorado.”


“Carol, você não tem namorado!”


“Isso é o que você pensa.”


“E onde ele mora?”


“Não muito longe daqui. Talvez duas vezes o que a gente andou para chegar nesse shopping.”

Terminamos de comer e fomos para casa do namorado de Carolyn. Chegamos depois de uns quarenta e cinco minutos. Carol tocou a campainha e um garoto alto, muito alto, com cabelo espetado atendeu a porta.


“Florzinha!”


“Gigante!” Eles se beijaram.

“Podemos ficar aqui essa noite?”


“Uh... Claro!” Percebi que ele não era muito esperto. “Vocês querem pedir uma pizza ou...?” Ele perguntou enquanto nós entrávamos em seu pequeno apartamento.


“Não precisa, já comemos. Eric, esses são Isaac, meu irmão e seu amigo, Russell.”

“E aí?” disse Eric.

“Oi.” Respondemos.


“Vocês podem dormir nos sofás, se quiserem.”


“E a Carol?” Perguntou Russell.


“Sério? Mesmo?”
 eu perguntei.

“Quê? O que foi?”
respondeu Russell.

“Então, boa noite!” Eric e Carolyn foram para o quarto e fecharam a porta.


“Oh! Ah... Tá!”


No dia seguinte, acordei às seis horas. Estava com dor nas costas, então me levantei.

Pensei um pouco, Venetia deve estar dormindo. Thomas, Cassandra e Baal já devem estar em suas casas, dormindo, também. Se fossemos para casa agora, daria para pegarmos dinheiro, roupa e talvez até comida, para podermos ficar em um hotel ou um lugar mais adequado.

Acordei Russell e contei minha ideia a ele. Em seguida acordei Carol, e fomos. Ninguém falou nada enquanto andávamos. Acho que nós três estávamos preocupados. E se a Venetia não estivesse dormindo? E se ela acordar? E se Thomas e Cassandra ainda estiverem lá? Mas talvez esses fossem perigos que devíamos enfrentar.


Quando chegamos em casa, notei que a porta havia sido colocada de volta no lugar, mas não aparafusada, uma vez que a empurramos e ela saiu. Subimos as escadas e não escutamos nenhum barulho vindo do sótão, o que era um bom sinal. Pegamos roupas e dinheiro. Russell foi pegar comida na cozinha e colocá-la em uma mochila.


“Não está... Quieto demais lá em cima?” Perguntou Carol. Eu balancei minha cabeça para os lados. Mas como ela nunca me ouve, subiu para checar.
 Pouco depois eu ouvi um grito muito alto vindo da Carol. Corri o mais rápido que pude, esperando o pior. Cheguei no sótão e a vi deitada no chão, chorando. Cheguei perto, e vi um corpo deitado ao seu lado. Era Venetia. Ajoelhei ao lado de Carol e comecei a chorar. Russell chegou um pouco depois, mas nos esperou perto da porta com a cabeça baixa. Não havia nenhuma ferida no corpo, nem um arranhão. “Ela deve ter sido envenenada.” Pensei, mas só me fazia ficar mais triste.


Depois de terminar de colocar roupas e comidas nas mochilas, Russell e eu demos uma última olhada no sótão. Dois corpos. Raymond e Venetia. Acabei vendo o “livro secreto” perto do corpo de Raymond e fiquei curioso. Guardei-o em minha mochila e saímos de casa.
 Quando já estávamos bem longe, ligamos para polícia, anonimamente, e reportamos os corpos.

Fomos para a casa de Eric. Carol disse que ficaria um tempo fora, que ia viajar.
 Eram oito horas, estávamos comendo café da manhã em um restaurante no shopping, que abre cedo. Carol respirou fundo.


“Então,” ela limpou as lágrimas em seu rosto, “para onde iremos? Agora que temos dinheiro, roupas e comida.”


“Eu... Ainda não sei.”
 Saímos do shopping e andamos para qualquer direção. Esperando achar um lugar antes do anoitecer.