Diferentes

2 Motel Lynwood


Nós andamos muito. Muito, mesmo. Andamos tanto que tivemos de parar e sentar no chão.


“Nada! Andamos tanto e nada!” Exclamou Carolyn.


“Nós poderíamos chamar um táxi, não? Temos dinheiro suficiente?” Perguntei. Carol abriu sua mochila, que estava com todo o dinheiro que tínhamos, e o contou.


“É, temos dinheiro o suficiente para um táxi.”


Então, depois de alguns minutos descansando, nós levantamos e fomos à rua mais movimentada — e com maior possibilidade de passar táxis — da cidade. Que, para a nossa sorte, não era muito longe de onde estávamos.


Chamamos vários táxis, mas demorou um pouco até um parar. Não conversamos muito, tanto fora do táxi quanto dentro. O clima estava bem tenso. Percebi que a Carol olhava o Russell com uma cara estranha às vezes, como se não confiasse nele totalmente.


Durante a viagem, olhando pela janela, vi um motel. Um motel tão ruim que nós talvez pudéssemos pagar. Pedimos ao motorista para parar, pagamos e saímos do táxi.


“Há-há!” Riu Carol ironicamente “Nem de graça eu fico nessa merda!”


“Mas essa 'merda' deve ser a única que podemos pagar!” Respondi “E ainda deve sobrar um pouco de dinheiro...” Disse enquanto analisava melhor o hotel.


Era bem grande, mas todo acabado. Como se fosse um grande cubo que caiu do céu. Tinha uma grande placa na frente, onde se lia “Motel Lynwood” em vermelho forte. Não havia muitas janelas, só algumas, em pontos aleatórios do prédio.


Fomos chegando perto, passando pelo grande estacionamento — que estava completamente vazio — e chegamos perto da porta principal. Assim que entramos, senti um cheiro forte muito ruim. Como se alguém tivesse nos avistado e passado desodorante por tudo quanto é lado.


"Ugh" Gemeu Carol. Eu olhei para ela com um olhar de desaprovamento.


Andamos mais um pouco para chegarmos a recepção, onde havia um jovem com o cabelo banhado em gel e todo penteado para trás nos esperando.


"Olá! Bem-vindos ao Motel Lynwood! Onde seu espírito será libertado da prisão construída pela sociedade!"

Nós o encaramos por um tempo com expressões estranhas, exceto Russell, que desandou a rir.


"Eu tô fora, tchau!" Sussurrou Carol em meu ouvido e saiu correndo em direção da porta. Eu e o Russell fomos mais rápidos que ela, e a puxamos pela camisa.


"Caralho! Eu já disse que não quero ficar nesse lugar de merda! Vamos embora daqui antes que eu mate vocês!"


"Mas, mas..." Murmurou o recepcionista "Nós estamos com um grande desconto de verão e... Podemos dar um quarto extra, se quiserem!"

Obviamente a Carolyn acabou ficando com o quarto extra só para ela. E eu e Russell dividimos o outro quarto.


Carol só pegou as roupas dela e deixou sua mochila em nosso quarto. Assim que ela arrumou suas coisas, voltou para conversarmos.


 "Vamos ficar aqui até quando?" Perguntou Russell.


"Até acharmos um lugar melhor, suponho." Respondi.


"Só espero que..." Russell foi interrompido pelo celular de Carol, que começou a tocar.


"Alô? Quem? Ah, sim. Posso, onde é? Ok, nos encontramos lá. Tchau, beijos!"


"Deixa eu adivinhar, festa?"


"Aham," ela concordou com a cabeça "oito horas, hoje à noite."


"Não, sério?" Perguntei sarcasticamente, "Achei que fosse oito horas da manhã de amanhã!"


"Nossa, Isaac, como você é engraçado!" Respondeu Carol, também ironicamente. Ela me bateu com um travesseiro e saiu do quarto, batendo a porta bem forte.


"Wow," disse Russell, "que dramática."


Eu ri e disse “E você nem convive com ela a tanto tempo quanto eu. Toda as noites ela vai para alguma festa! Eu não estou exagerando.”


 A noite chegou, e eu e Russell passamos o dia conversando. Eram oito horas e bateram na porta.


“Sou eu, abre aí!” Gritou Carol do outro lado do corredor. Russell abriu a porta. Ela estava com um vestido curto e com bastante maquiagem. “Bom, eu estou indo para a festa. Devo voltar bem tarde, então não me esperem.”


“Tudo bem. Estaremos dormindo, então não nos acorde.” Disse.


“Há-há!” Eu e Carol estávamos bem sarcásticos aquele dia.


Ela saiu do quarto e foi para a festa. Nós continuamos a conversar. Um assunto levou ao outro, e quando percebi, estávamos falando sobre a Carol.


“Sei lá, eu achei-a meio estranha desde o que aconteceu...”

“Cara, ela é a sua irmã. Se você acha isso, conversa com ela.” Disse Russell. Eu demorei um pouco para responder.


“Ugh,” eu fiquei nervoso, por me lembrar das mortes, “eu vou lá fora. Respirar um ar fresco, andar um pouco...”

Eu saí do quarto, e andei pelos corredores do motel. Eram um pouco estreitos demais para mim, que tenho claustrofobia. Decidi ir andar pelo amplo estacionamento, mesmo sendo uma noite fria.




Saí do motel e escutei um barulho estranho. Vinha do lado esquerdo do prédio. Dei a volta e a vi, sentada no chão e em prantos. Carolyn. Eu realmente me senti muito mal por ela. Ouvi a voz de Russell na minha cabeça, “Conversa com ela.”. Ela ainda não havia percebido que eu estava ali.


“Hum, Carol...?” Ela me viu, e limpou as lágrimas com as mangas de seu casaco.


“Isaac. Oi.” Ela respondeu, soluçando. Eu me sentei ao lado dela.


 “Está tudo bem?” Perguntei “Como sou idiota, é claro que não está tudo bem!” Pensei. Ela limpou um pouco mais a maquiagem borrada.


 “Uh, sim, sim. Está... Tudo bem...” Ficamos ambos quietos por uns segundos. Os segundos mais demorados de minha vida.


“Olha, eu... Me desculpa! Eu deveria ter conversado mais com você sobre o que aconteceu, e... Eu não...”


“Não precisa. Eu não estou chateada com você, e eu acho que nunca vou ficar. Você é meu irmão.”


“Mas, o Raymond também era.” Falei e na mesma hora me dei conta da idiotice que tinha dito.

“Viu? Por isso que a gente não conversa muito! Você é um grande babaca insensível.” Ela se levantou e foi para dentro do motel. Eu a segui, enquanto ela ia para seu quarto. Ela entrou e fechou a porta. Eu cheguei perto e bati.


“Deixa eu entrar, por favor! Me desculpa! Eu realmente não queria ter falado aquilo! Eu não pensei, eu... Eu nunca penso! Por favor...”
 Ela não me respondeu.

Eu falava coisas parecidas de tempo em tempo, mas fui cansando. Acabei sentando apoiado na porta, falando sozinho. “Lembra quando você disse que nunca iria ficar chateada comigo?”


Depois de alguns minutos, ela abriu a porta e me deixou entrar. Nos sentamos na cama e eu disse:


“É, o seu quarto é bem melhor do que o meu...” Carol riu um pouco.


“Você é um idiota, sabia?”


“É, eu também te amo.” Ela riu um pouco mais “Olha, me desculpa por antes, eu realmente não pensei antes de falar aquilo. Eu estava muito nervoso, nunca tinha visto você chorar.”

“Não tem problema, eu é que estava nervosa e acabei exagerando um pouco.”


“Mas, por que você não foi à festa?”


“Eu não queria ir à festa, queria era um tempo para mim mesma. Decidi fingir que ia me divertir, já que vocês não iriam me deixar em paz.”


Ouvimos uma mulher gemendo no quarto ao lado, o que fez o clima ficar estranho.


“Uhn... Então, vamos para o meu quarto?” Perguntei.


“Sim.” Carol se levantou na mesma hora.


Demos a volta no corredor, passamos por quatro portas e chegamos em meu quarto. Quando abrimos a porta, vimos Russell com uma cara estranha, ele estava muito desconfortável. Também havia uma mulher gemendo no quarto ao lado do meu.
 Russell se levantou assim que abrimos a porta e falou:


“Vamos sair para jantar.”


Eu e Carol seguimos Russell enquanto íamos à recepção.


“Com licença, recepcionista?” Chamou Russell.


“Podem me chamar de Jerry.”


“Não, obrigado. O restaurante do motel está aberto?”


“Nós não temos um restaurante, senhor. Mas posso lhe dar ótimas recomendações de restaurantes perto daqui.” Russell não respondeu, só saiu da recepção e veio falar comigo e com a Carol.


“Bom, a gente morava perto daqui, então... Vamos jantar no shopping?” Sugeri.


“Por mim, pode ser. Mas como vamos chegar até lá?, não estamos perto o suficiente para irmos andando.”


“Querem que eu ligue para o Eric? Ele pode nos buscar e ir jantar com a gente.”
 Concordei.

“Ele deve demorar um pouco para chegar aqui, não?”
Perguntei.

“Ah, uns quarenta minutos.”


“A gente espera.” Disse Russell “Qualquer lugar é melhor do que aquele quarto, nesse momento.”


“Ok.” Carol pegou o celular e ligou, “Oi, amor! Lembra que eu disse que ia viajar? Então, eu estou naquele motel, Lynwood, uns quarenta minutos depois do shopping perto da sua casa. Eu, meu irmão e o amigo dele queremos jantar, mas não temos carro. Você não pode nos buscar e, se quiser, jantar com a gente? Ah, ok. Muito obrigada, meu gigante! Hahaha. Tchau, beijos!” Ela guardou o celular “Ele já vem!” anunciou.


Enquanto Eric não chegava, ficamos sentados nos sofás da recepção conversando. Vinte minutos se passaram e ouvimos a buzina de um carro, vindo do grande estacionamento — que estava com somente três carros parados.


“É ele!” Disse Carol e saiu correndo para falar com Eric.


Assim que entramos no carro, ele perguntou:


“Carolyn, podemos jantar em um lugar diferente do que o seu irmão e o amigo dele?”


“Russell, meu nome é Russell!” Disse o próprio, que foi totalmente ignorado.


“Mas… Por quê?” Perguntou Carol, que já não estava mais sorrindo.


“Eu quero conversar com você, só isso.” Eric sorriu, mas eu pude sentir falsidade em seu rosto.


A viagem foi longa, ninguém falou nada. Parecia que a viagem de táxi estava acontecendo novamente.


Assim que chegamos no shopping, eu e Russell fomos a um restaurante italiano, perto da entrada, enquanto Carol e Eric foram a um restaurante do outro lado do prédio.


“O que será que ele quer conversar com a Carol?” Perguntou Russell. Eu dei de ombros e chamei o garçom para pedir minha comida. Dividimos uma pizza, já que amamos pizza.


“Hum, Isaac?”


“Sim?”


“Eu... Acho que já está na hora de te contar o que... Bom, o que eu sou.”


“Tá....” Disse, desconfiado “Fale.”


“Isso vai soar meio... Na verdade, vai soar muito estranho!, mas, por favor, não se apavore.” Ele fez uma breve pausa “Você sabe que eu sou seu amigo e nunca faria nada para te machucar, não é?”


“Sim.”


“Bom, é, bom.... Hum… Acho que não há maneira melhor de contar isso se não diretamente, então lá vai...” Ele fechou os olhos e inclinou um pouco sua cabeça para baixo, se preparando para dizer, baixinho “Um demônio”
 Eu quase não escutei, e achei que tinha entendido errado.

“Um o quê?”


“É, eu sei.” Disse Russell, que não entendeu o sentido da minha pergunta “Não faz muito sentido, e você deve estar achando que eu estou maluco, ou estou inventando isso, mas é verdade. E, por ser... ‘Isso’, eu tenho uns 'truques'.”


“Mas… Eu não ouvi o que você disse que é!”


“Ah...” Ele pareceu surpreso, “Bom, é... Eu sou um demônio.” Ele falou baixo de novo, mas consegui ouvir.


“Um o quê!?!” Perguntei assustado.


“Um demônio! Meu Deus, você tá surdo?”



“Eu escutei! Só estou surpreso!” Gritei “Por que você não me disse isso antes? Isso não é coisa que se guarde do melhor amigo!”


“Isaac, para de gritar!” Disse Russell olhando em volta “Você está chamando atenção!”
 Olhei para os lados e vi, no mínimo, sete pessoas nos olhando. Então percebi que eu estava de pé, então sentei.
 “Olha, me desculpa! Eu sempre quis te contar isso, mas achei que ia estragar nossa amizade ou sei lá!”


“Como você é um demônio? Eu sempre achei que demônios fossem criaturas baixinhas e vermelhas com chifres e rabos pontudos.”


“Meu pai era um demônio, minha mãe, não. Graças a Deus, senão eu teria a aparência dele!”


Eu já não estava entendendo mais nada, e Russell percebeu isso pela minha expressão.


“Deixa eu explicar melhor.” Ele se endireitou na cadeira e curvou-se em minha direção “Você já ouviu falar no Jack Saltos-de-Mola?” Eu fiz que não com a cabeça “Era uma lenda do sul de Londres, de um homem grande que podia pular muito alto e tinha a cara medonha. Olhos que pareciam bolas de fogo, mãos com grandes garras e conseguia cuspir chamas azuis e brancas.” Lembrei-me de quando Russell havia cuspido chamas azuis na cara de Baal “Mas o que eles não contavam nas lendas era o fato de ele ter se apaixonado.” Ele pareceu pensativo “Mas acho que ninguém sabia dessa parte. Jane Foster era o nome da esposa de Jack, ela não ligava para o fato de sua pele ser azul, muito menos para o fato de ele ter chifres. Ele a achava especial. Do amor deles, floresceu o demônio mais bonito que existe, eu.” Russell sorriu brevemente “Mas um dia, quando eu tinha cinco anos, meu pai e minha mãe morreram em um acidente de carro. Uma morte um tanto que comum para um demônio. E, aqui estou, cuspindo fogo e pulando alto.”


“Mas como você é filho de um demônio com uma humana?! Isso não lhe faz um híbrido ou algo parecido?!”


“Não. Não existem híbridos que sejam metade demônio, não que eu tenha ouvido falar.”



“E o que Baal quis dizer quando disse que você é único?”


 “Existem muitas raças de demônios. O meu pai era o último da sua, fazendo com que eu seja o último demônio da raça Salit.”


“Wow.” Joguei meu corpo para trás, incrédulo “Isso é... Digo... Sinto muito pelo seu pai, tenho certeza de que ele era uma ótima pessoa. Ou demônio.”


“Não, não era! Ele maltratava a minha mãe, batia nela, a arranhava! Ele merecia morrer, ela, não! Ele era um demônio, só pelo fato de ser meu pai não lhe faz uma boa pessoa.”


“Sua mãe realmente o amava, né?”


“Com certeza.”
 Um silêncio estranho foi se formando, até que o meu celular vibrou.


“É uma mensagem da Carol.” Disse, desbloqueei o celular e comecei a ler

“'Isaac & Russell, se quiserem, já podem voltar para o Motel. Eu já estou aqui. O Eric está esperando vocês no estacionamento para trazê-los de volta. XOXO, Carol.' Por mim, a gente já pode ir.”
 Russell concordou. Pagamos a conta e fomos para o estacionamento.

Eric estava nos esperando do lado de fora do carro, com uma cara estranha. Entramos no carro e fomos. Eric não parecia querer falar nada, pelo menos não conosco.


A viagem de volta para o Motel Lynwood foi mais rápida do que a ida. Subimos as escadas até o andar do quarto de Carol, para avisar que chegamos.
 Batemos na porta, mas ela não atendeu.


“Ela deve estar dormindo.” Disse Russell, então fomos para o nosso quarto. Eu sabia que havia alguma coisa errada com Carol, mas decidi falar com ela no dia seguinte.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.