Dies Illa
18 Capítulo XVII - De Gravatas Azuis -

O primeiro dia de aula era significante porque nele é que se estabelecia tudo o que se seguiria no ano letivo. Novos professores eram apresentados, alunos eram encarregados de determinadas tarefas, os lugares nas carteiras eram organizados e tudo o mais que se poderia relacionar. Rihito gostava de chegar cedo sempre em tão fatídico dia, porém um pequeno imprevisto fê-lo beirar perder a hora.
Aconteceu-lhe uma certa situação, muito comum para garotos desta difícil e hormonalmente desequilibrada idade, mas que ainda assim trazia grande desonra e humilhação para nosso menino. Ao abrir seus olhos invernais, ainda entorpecido pelo sono matutino e virar-se de lado na cama, sentiu algo desagradavelmente molhado em seu pijama. A desconfiança do que poderia ser o obrigou a levantar imediatamente, dirigindo-se ao banheiro da suíte que dividia com Morgan. Este também despertou com toda comoção.
"Que droga, eu... Dormi de barriga para baixo? Eu... Eu..?" Vasculhava sua memória em busca de uma justificativa para aquilo. Algo roçava um pouco abaixo de seu umbigo, quente e intrometido. O elástico do cós de sua calça já não o continha. Estava ereto. Rihito apoiava as mãos na pia.
Polução noturna, o nome vexatório pulsava em seu cérebro. Polução noturna, quando vierem falar com você, você vai se lembrar disso, olhe bem pra isso! Droga, Rihito dizia para si mesmo em silêncio enquanto livrava-se de suas roupas de baixo a fim de lavá-las na mesma pia na qual se apoiava. Ainda--- Ah, olha quanto!
Uma onda de desânimo inundou-o. Sentou-se no vaso sanitário e esfregou ambos os olhos por debaixo de seus óculos, suspirando profundamente. Tomara que minha cama não tenha sido suja também...
– Hey Rihito, está tudo bem? — Morgan se postara ao batente da porta.
– Não entre aqui!! — Ele alarmou-se, escondendo suas partes íntimas por baixo da camisa e até cruzando as pernas.
O louro o viu no entanto, por poucas frações de segundo e compreendeu o que havia se passado após encontrar as cuecas do amigo meladas com sêmen e atiradas ao chão. Rihito se encolhia todo e pedia para que ele saísse, poderia chorar de tanta vergonha.
Morgan arfou. Ele estava tão indefeso naquele momento que um sentimento protetor o invadiu, tinha esperança de que talvez naquela situação ele o aceitasse.
– Me deixa te ajudar?
– Eu não preciso de ajuda, por favor, só saia! — O garoto cobria até a cabeça com as mãos.
O louro agachou-se em frente aos joelhos do amigo e pousou seus delicados dedos sobre eles. Estava um pouco nervoso pelo que planejava fazer. Rihito virou-se bruscamente para o lado oposto e novamente rejeitou qualquer tipo de intervenção do outro. Que absurdo, ele não me deixa em paz! E esse maldito cheiro de rosas!
Com aquilo, ele retirou-se, um tanto frustrado ou até magoado e o menino dos óculos pôs-se a lavar suas roupas em baixo d'água, o que realmente não era tão simples como parecia. Isso por que, o próprio Rihito sabia, esperma tende a ficar espesso e pegajoso ao contato com outros líquidos por questões fisiológicas, originalmente com a finalidade de ter maior aderência no útero das fêmeas.
Gastou um período adicional esperando que seu inconveniente e lascivo corpo voltasse ao normal e vestiu seu uniforme, desta vez completando-o com uma gravata azul, característica dos segundos anos. Pensou que deveria desculpar-se com Morgan depois já que o garoto não se encontrava mais lá. "E isso quer dizer que eu estou atrasado! Gah!"
–-- ♪ ---
Chegara ofegante após ter esbarrado em alguns alunos novos pelo caminho. Não tinha perdido muito, afinal. Ao adentrar sua nova sala, teve uma surpresa quando avistou um bolinho preto sobre uma carteira com cabelos ondulados fartamente derramados por cima. Ele parecia já estar dormindo ali há tempos.
"Ehh..? Quem é aquele com a cara na mesa? Hey, não é o tal menino da sala do seu amigo? Credo, aquele nojento? Ah, não.. Sério que ele está na nossa sala agora? Psiu, ele vai te ouvir desse jeito, seu burro!"
Rihito correu até ele.
– Simon? — Ele chamou, tocando-lhe no ombro.
"Olha só, o geniozinho é amigo dele... Hahaha! Dele e do gay!"
Rihito sentou-se ao seu lado, com o coração ainda acelerado pela descoberta. Simon o assistia, debruçado sobre a mesa. As pontas de seus dedos e suas unhas, tanto quanto seus lábios, estavam arroxeados. Rihito espantou-se ao encostar a mão em seu rosto e senti-lo gélido.
– Pro-- professor! — Ele exclamou — O Simon não está passando bem!
O menino dos olhos azuis já apoiara o outro sobre seus ombros e segurava-o pela cintura. Todos olhavam para eles.
– Leve-o para a enfermaria, meu filho! — O velho professor consentiu.
Rihito fez como o recomendado, mas a senhora que cuidava dos alunos doentes ou machucados não estava presente.
– Fique aqui que eu já volto!
Ele sabia que hipotermia, do mesmo modo que a febre, poderia ser letal, contudo a primeira era muito mais difícil de se estabilizar que a última. Bateu à porta da sala de Norman e entrou.
– Sr. Norman, eu--
– Rihito... Estou ocupado no momento, poderia voltar em outra hora?
Nem havia notado que alguns adultos desconhecidos preenchiam o local.
– Mas o Simon está passando mal!
O homem ficou em silêncio e levantou-se de sua mesa com um suspiro.
– Aguardem um momento, senhores.
Rihito andava na frente como se guiasse o caminho, impaciente com a demora dos passos do coordenador. Ao voltarem à enfermaria, Norman fechou a porta e sentou-se na beirada da cama do sobrinho.
– Eu acho que ele tem hipotermia! — Exclamou o menino, aflito.
– De fato.
Norman passou os dedos por seus lisíssimos cabelos castanhos antes de iniciar a despir o garoto.
– Mas que criança problemática que você é...
Ele lentamente desabotoou sua camisa e abriu-a, revelando seu pálido torso levemente azulado pela baixa temperatura. Seus mamilos estavam como seus lábios e suas unhas. O homem então tirou seu cinto e abaixou suas calças, deixando-o apenas com suas roupas íntimas. Simon não relutava, apenas deixava seu tio fazer como bem entendesse.
Ao terminar, ele subiu em seu colo e circulou seus longos braços ao redor do pescoço de Norman que, como era de costume nessas ocasiões, doava-lhe o calor do próprio corpo. A expressão apática no rosto de Simon aterrorizava seu companheiro a que tudo observava sem dizer palavra. Teve o ímpeto de sair dali, mas conteve-se. Devia intervir de alguma forma.
– Hey! V--você não me disse que era tio do Simon!?
Norman desenterrou seu rosto do pescoço do garoto para responder-lhe. Seus olhos castanhos eram indiferentes.
– Disse.
– Então pare de tocá-lo assim! Ele é da sua família!
Todas palavras do mundo não seriam suficientes para expressar a indignação que ele sentiu naquele momento. Norman riu e puxou-o para perto pela sua nova gravata azul, obrigando seu rosto a encostar nas costas do garoto das pintas.
– Acho que algumas coisinhas foram omitidas de você, não foram, meu nobre aluno? — Um sorriso malicioso estampava o rosto do homem.
Fizera Rihito abraçar Simon por trás enquanto ele, ainda sentado, abraçava ambos pela frente. Simon arrepiava-se de quando em quando. De que ele estava falando?
– Este garoto, meu sobrinho... Ele é considerado entre nossa raça uma anomalia, uma falha e um motivo de desgraça. Sua mãe era humana e portanto já morreu há muito tempo. Seu pai é meu irmão e este não quer carregar o fardo de ter algo desprezível feito um híbrido como seu filho.
Aquelas palavras hostis que tanto depreciavam Simon feriam os ouvidos de Rihito, que inconscientemente abraçava-o mais fortemente ainda.
– O pior de tudo é que a maioria dos híbridos nascidos de que temos registro são vítimas de doenças congênitas que os levam a ter hábitos, deficiências e características diferenciadas de vampiros puros. Simon não é uma exceção.
Nosso menino arregalou seus olhos glaciais.
– Que dizer que ele tem uma doença de vampiro?
– Pondo em termos simplificados, sim. Seu organismo é instável, o que significa que seu metabolismo não sabe se deve agir como o de um humano ou o de um vampiro. — Norman deu uma pequena pausa — E eu venho criando ele desde novo porque achei injusto com esse pobre diabo tudo que lhe fizeram.
O coordenador deitou seu sobrinho na cama e virou-se para Rihito novamente, dizendo
– Ele precisa de sangue e contato físico. Agora vá lá e cubra-se com ele até que se esquente direito, eu o deixo aos seus cuidados. Apenas não se excedam, vocês dois.
E com isso regressou à sua sala. Rihito estava confuso demais, um caminhão de informações havia sido despejado sobre ele. Fez como o aconselhado, deitou-se ao lado de Simon e pousou a mão sobre seu peito. Seus dedos encontraram seus mamilos de diâmetro avantajado sob as cobertas. Tinha muito calor, queria beijá-lo. Sua pele novamente era branca como a neve e suas pintas sobressaltavam-se como dantes, mas seus lábios ainda permaneciam lilases. Rihito montara em seu companheiro. Poderia ele ter se excitado ao ver Norman incestuosamente despindo e interagindo com o garoto? Ou seriam apenas ciúmes?
Suas línguas acariciavam-se mutuamente enquanto ele procurava aquecer cada centímetro da pele de Simon.
–-- ♪ ---
Mais tarde, o professor de latim disse-lhes que anunciaria o presidente de sala, que normalmente todos eles entravam em consenso sobre o assunto, mas que naquele caso havia sido uma indicação expressa do Sr. Norman sobre sua eleição e que o escolhido seria "Rihito, por seu grande senso de responsabilidade e comprometimento", segundo suas próprias palavras. O menino de óculos debalde tentou recusar, mas não havia como.
Rihito fora eleito presidente de sua classe, sua e do garoto de pintas sedutoras e olhos negros como os de um gamo.
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