Dies Illa
19 Capítulo XVIII - Do Elogio à Loucura -
Era hora da aula de educação física em Kensington Academy e um jogo competitivo interclasses de vôlei seria realizado. Desta vez, Rihito não estava a participar da partida em si. Ele seria, no caso, juntamente com o professor a auxiliá-lo, uma espécie de juiz. Costumeiramente muito introvertido como o era, aquela posição na qual fora colocado não lhe seria lá muito agradável. Simon, como não queria jogar, foi simplesmente posto no banco dos reservas. E dos reservas, o valetudinário certamente seria o último a ser escolhido. Já Morgan, esse sim jogaria com eles. O garoto dos olhos azuis secretamente torcia pelo amigo, mesmo que ele fosse adversário de sua própria sala. O louro usava sempre um uniforme de tamanho menor, mais justo e curto, porém agora Rihito não mais estranhava. Achava interessante, até.
As partidas travadas praticamente eram iguais, com as mesmas faltas ou nenhuma. As pontuações eram irrelevantes também, ninguém se destacava. Aparentemente não havia aluno algum, ao menos dos segundos anos, que fizesse o estilo atlético do esportista ideal. Rihito sentia-se muito indeferente até que Morgan entrou em campo. Havia algo de muito errado ali e era visível. Aguardou o avanço do jogo esperando alguma mudança e nada: os rapazes de seu time claramente deixaram-no de lado, excluído. Semelhava algum tipo de boicote, não o desejavam ali. Nosso jovem juiz interferiu, queixando-se quase histericamente.
– Vocês são idiotas? Vocês têm de se ajudar, se não pelo time, por vocês mesmos! Ou vocês realmente acreditam que podem vencer num jogo de vôlei abandonando um companheiro de equipe dessa forma? Dá licença! Todo mundo perde assim! Inadmitível!
Eles o olhavam todos com uma ponta de desprezo. Disseram-lhe que nisso ele não devia de se intrometer. Naquele dia foi muito difícil continuar no campo, insistir naquela aula, naquele jogo estúpido.
Quando no vestiário, Morgan parecia prestes a sucumbir.
– Eu acho ridículo o modo como andam te tratando! — Rihito bateu a porta de seu armário.
– E eu acho ridículo o modo como você me trata! — Retrucou o louro.
Rihito ficou perplexo.
– Você se enche de cuidados comigo como se eu fosse uma criança, mas na verdade você só se importa com o Simon! Você é maldoso! — Lamuriou-se.
– Morgan, você está sendo irracional.
– Eu fiquei sabendo do que aconteceu na sala de vocês. — Sua voz era sombria.
O louro se referia ao incidente do primeiro dia de aula.
– As informações se alastram fácil, sabe?
Com isso, ele saiu. Aquele grupo de rapazes que viera mexer com ele antes das férias, cujo Morgan acreditavam ter sido o responsável pela quebra dos óculos de Rihito no ano passado estava lá a observá-lo quando este deixou o local sozinho. No momento em que Rihito saiu, eles disseram alguma coisa a respeito dele ser muito esnobe e achar-se superior só por ser o protegido dos professores do internato.
O garoto achou providencial não responder, absolutamente. Passaria por eles rapidamente fingindo não os ver, mas um dos meninos achou por bem por o pé para ele tropeçar enquanto seu colega o empurraria violentamente por cima. Rihto foi ao chão e eles riram muito.
Simon se aproximara, vindo do lado oposto. Agachou-se no chão e seus olhos perdidos procuravam os olhos gélidos de seu companheiro, como se só ele estivesse presente.
– Simon, eu --- Ah! — O garoto tentava se levantar, mas sem sucesso. Seus joelhos doíam demais para tal.
O tecido havia se partido, rasgando seu uniforme no local atritado com o chão. Rihito internamente desesperou-se.
– Eh, o que ele está fazendo? — Um deles perguntou, torcendo o nariz.
O menino das pintas observava ternamente o furo formado nas pernas das calças do outro. Ele escondia parcialmente a sangrenta ferida em sua pele que tanto ardia e ainda estava suja de terra. Ele lentamente penetrou o dedo indicador na fenda do tecido, afastando-o e expondo propriamente o machucado o quanto fosse possível. Trouxe o rosto para perto e inseriu sua língua no buraco do uniforme de Rihito.
Via-se muito empenhando em sua tarefa, virtuosamente lambendo e chupando a pele rompida, mas de olhos fechados como estava e com a expressão de solene prazer que tinha no rosto, remetia ao grupo de garotos a prática de sexo oral em uma mulher. Todos eles sentiram-se muito estranhos. Como uma coisa tão sem relação como lamber uma ferida por um buraco de calça conseguia lembrá-los de algo tão erótico?
– Que nojo!
– Po-- pois é, muito... Nojento!
– Esse cara é doente!
– Lambendo ferida dos outros, toda imunda de terra ainda!
E indignados com o espetáculo, os encrenqueiros partiram, deixando-os para trás.
–-- ♪ ---
Rihito tinha as faces enrubescidas, também notara a semelhança das ações de Simon. Levou o pulso ao rosto automaticamente para esconder-se, revelando que suas mãos também haviam sido machucadas no impacto. Seu companheiro não as negligenciou e passou a lambê-las. Onde quer que um novo hematoma aparecesse, Simon certamente o levaria à boca.
Algo perturbava o menino dos óculos. Seus joelhos já não doíam como antes, possibilitando-o levantar-se. Timidamente tomou as mãos de Simon nas suas e, evitando olhá-lo nos olhos, guiou-o até a floresta. O garoto-vampiro reparou na mudança de comportamento de seu namorado, mas não o questionou uma vez sequer. Rihito afrouxava sua gravata e abria seu colarinho, o pequeno já estava ofegante. Enfiou os dedos nos ondulados cabelos de Simon e trouxe sua cabeça para próximo de si, obrigando os lábios dele a tocarem seu pescoço.
Rihito já não sabia por que fazia aquilo, apenas pedia para o garoto das pintas mordê-lo. Ele sorriu maliciosamente quando entendeu o que o menino desamparado desejava e depressa afundou os dentes em sua carne o máximo que podia, fazendo o outro gemer baixinho de... Dor?
Aos poucos, carregar aquelas feridas tornara-se prazeroso a Rihito, ele mesmo procurava aquele que as infligia para repetir esse hábito: ele mesmo pedia por isso. Ter de escondê-las constantemente dos colegas e professores, as dores cortantes que fatalmente sentia ao se mover, o pequeno desespero que sobre ele se abatia quando suas camisas manchavam-se ao colarem o tecido em suas lesões. Tudo isso, somado ao fato de que o seu autor ainda o estimulava sexualmente durante suas refeições agora lhe causavam prazer.
– M--me morde de novo... — O menino contorcia-se nas mãos de Simon.
Ele o encarava deliciado.
– Por favor...
Simon piscou os olhos algumas vezes diante do pedido, até que por fim também suas bochechas coraram-se. Ele beijou toda extensão de seu pescoço e respirou em seus cabelos antes de atendê-lo. Era como se Simon houvesse treinado o corpo do garoto não só para aceitar, mas como para ansiar ser sua presa e se submeter aos seus caprichos.
Em meio a todo torpor de seu cérebro, Rihito se deu conta do tipo de pessoa que era. Sentiu como se estivesse caindo, lenta e continuamente. Uma sensação de puro pavor o sufocou. Ficou subitamente nauseado.
– N--nós devíamos voltar, o intervalo está prestes a terminar...
O menino ajeitou os óculos, subiu a gola de sua camisa e fechou a gravata sobre as novas meias-luas que decoravam sua pele. Elas causavam cócegas no âmago de seu ser.
–-- ♪ ---
À noite, Simon visitou o quarto dos dois amigos para deixar uma de suas calças de uniforme para Rihito. Teria sido muito louvável, não fosse o fato dele ter tirado as que vestia no próprio corpo para entregá-lo.
As calças de Simon eram bem mais compridas que as suas, mas ele as usaria com um orgulho do qual ninguém mais sabia.
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