Dias de chuva
15 Verdades certeiras.
Notas iniciais
Laís via muito CSI só pode. Pois ela sabia bem que o porteiro colocaria objeção na nossa entrada, já que havíamos saído para ‘cabular’ aula. Então sorrateiramente ela nos conduziu a uma passagem secreta para a escola. Que menina esperta!
Entramos na escola e fomos direto a sala C que era a dela. Por sorte a cínica estava lá. Laís entrou sem nenhuma cerimonia e a arrastou pelo braço. Sem entender nada ela não teve outra opção, se não nos seguir. Quando chegamos no pátio ela fez aquela cara de quem não entende nada.
— Vamos desembucha, conta logo todas as coisas que você armou, é bem melhor e bem mais fácil do que omitir. – Laís começou.
— Eu não sei do que vocês estão falando. – ela quis sair, mas minha irmã puxou seu braço.
Eu não conseguia fazer nada a não ser olhar. Estava perplexo e isso era muito pra mim. A pessoa que eu ainda gostava estava ali na minha frente, mentindo e enganando. Tudo isso por um mero capricho.
— Sabemos que você não esta grávida. – Kevin disse calmamente.
Aquela noticia arrancou a expressão calma do rosto dela, que descruzou os braços e desfez a postura de poder. Estava contra a parede. Sabíamos das suas tramas e ela não tinha pra onde fugir.
— Não há pra onde fugir. Nem adianta querer negar. – o loiro continuou.
Eu percebi que ela queria chorar, seus planos ruíram e ela não podia fazer nada em relação a eles. Senti um misto de pena com raiva. Ao mesmo tempo em que eu queria abraça-la queria empurra-la pra longe de mim.
— Certo,certo. Eu confesso. Seus idiotas. Eu droguei o Kevin sim. Eu o deixei quase nu e disse a ele que tínhamos transado. Mas não fizemos porra nenhuma, por que esse tapado é apaixonado demais por essa dai. – ela apontou pra minha irmã. – Eu não queria mais esse namoro idiota que não servia pra nada. Sabe de uma coisa Leonardo? – ela me olhou por fim. – Eu acho você um babaca, um trouxa. Que é sentimental demais ama demais, quer demais e no fim é isso ai. Vai ser enganado e tratado como um verdadeiro objeto que você é.
Eu não consegui dizer nada, os outros dois estavam estáticos me olhando. Como quem dissesse: vai deixar isso barato? Mas eles não entendiam, que por mais que eu fosse um homem, por mais que o meu dever seria de não deixar que pisassem em cima de mim. Eu amei verdadeiramente aquela garota. Passamos um tempo incrível juntos. Eu fui feliz. Imensamente feliz. E não podia acreditar que o tempo juntos foi apenas uma mentira dela. Não, não era verdade. Eu demorei a cair em mim e entender que aquela garota que estava ali na minha frente não era mais o amor da minha vida. Era apenas uma pessoas frustrada por algum motivo que eu não sei qual. Respirei fundo. Não podia cair.
Mas me sentia tão sem rumo. Senti que a coragem que eu tinha estava sumindo aos poucos e eu iria chorar. Porem eu senti um toque que me tirou daquele desespero que estava inundando a minha mente. Quando virei pra trás Tayla estava lá, segurou a minha mão de maneira gentil. Entrelaçamos os dedos e eu pude ver nos seus olhos a coragem que eu precisava pra dizer alguma coisa. Quando eu pensei que estava pronto para falar, foi ela quem tomou a palavra.
— Sinto muito por você. Por não saber amar, não saber ser amada. Jogou fora um amor que era unicamente seu, por um capricho qualquer. Mais na frente eu tenho certeza de que você vai se arrepender disso. Amargamente. Não digo essas palavras somente pelo Leonardo, mas por todos que um dia pensaram em ver em você algo bom. Um dia você vai olhar pra trás e perceber que o que perdeu não vai voltar e quando isso acontecer seu vazio será dez mil vezes maior do que a sua soberba. E ai? O que vai restar? Apenas alguém que um dia quis ser melhor do que os outros e no fim, nunca foi nada.
Eu engoli em seco. Que palavras, eu não poderia dizer nada melhor. Nunca. Sorri sem perceber e ela afagou ainda mais a mão na minha. Sem que eu notasse uma lágrima me escapou e essa foi enxugada por ela. Que gentilmente me retirou desses dias de chuva.
...
Quando menos percebi estava andando de mãos dadas com ela em direção a sua casa. Larissa começou a chorar descontroladamente e Laís e Kevin ficaram encarando-a. Depois disso minha irmã disse que estava cansada, Kevin se ofereceu pra deixa-la em casa e caminhamos todos os quatro. Quando chegamos a minha casa ela entrou e o loiro foi embora. Fiquei pensando em Daniel. Quando ele finalmente consegue chegar próximo a ela tudo isso acontece.
Tayla ficou calada o caminho todo. Não soltou a minha mão. Eu sabia que se ela me soltasse eu desabaria. Chegamos em sua casa e nos sentamos em uma cadeira de balanço. Fiquei olhando seu rosto, me passava uma calma habitual.
— Obrigada por tudo. Não haviam palavras melhores pra ela do que essas que você disse. – eu comecei.
— Ela merecia isso. É uma garota muito soberba. Já vi vocês juntos por diversas vezes e dava pra notar de longe que quem amava era você e não ela. Mulheres são bem mais sensitivas do que os homens e podíamos ver ela de olho no seu amigo. – ela parou um pouco e começou a balançar. Fiz o mesmo e olhei pro horizonte.
— Em parte ela tem razão. Eu sou idiota, não é?
— Na realidade eu acho que você é uma pessoa sensível e rara. Eu nunca conheci um rapaz assim. Na realidade, eu apenas conheci homens idiotas.
Me passou pela mente o que minha irmã me disse. Não queria que ela tocasse nesse assunto agora, mas ela começou a falar.
— Aconteceu a um tempo atrás, sua irmã era minha amiga. Na realidade ela sempre me ajudava e eu gostava dela. Foi idiotice a minha me afastar das pessoas por medo. Nem todos são iguais. Mas enfim. Eu namorava um cara. Ele meio que me conquistou fácil. Eu era daquelas garotas que se apaixonava logo. Uma bailarina sensível. Logo cai nas suas mãos. Nosso relacionamento não era dos melhores, as vezes ele era muito ignorante e me destratava. Porém eu achava que tudo ia mudar e permaneci ao lado dele. O tempo foi passando e ele não melhorava em nada. Um belo dia houve uma festa na casa de amigos dele. Eu fui convidada. Me lembro que levei Andreia. Ela fazia ballet comigo, minha melhor amiga. Estávamos animadas, nunca tínhamos ido pra esse tipo de festa. Não sei se você se lembra daquelas garotas que estavam implicando comigo naquele dia?
— Lembro sim.
— Pois é, elas estavam lá também. Na festa havia cerca de umas vinte pessoas. Seus amigos mais íntimos e algumas meninas fúteis. Me senti um peixe fora da água. Quando eu estava cansando daquele ambiente eu quis ir embora. Mas ele me puxou e começou a me beijar de forma bruta e violenta. Eu quis me soltar, mas ele tinha tanta força. – nesse momento ela parou de balançar e fitou o chão. – Ele começou a arrancar as minhas roupas. Andreia ate quis me ajudar, mas a seguraram. Que idiotas. – ela começou a chorar.
— Se quiser parar, não precisa lembrar disso tudo. – eu quis que ela parasse, mas ela fez que não com a cabeça.
— Eu preciso que você saiba. Bem ele me...- ela hesitou e respirou fundo. – ele me violentou. Simplesmente na frente daquelas pessoas horríveis que riam como se fosse a coisa mais engraçada do mundo. Eu gritava e gritava, pedia ajuda, mas ninguém me socorria. Ninguém veio pra me tirar dali. Pensei que Laís estaria lá, mas ela não estava. Tenho certeza que ela teria me ajudado.
— Eu também. – completei.
— Mas não foi assim. Depois que ele se satisfez eu fiquei sentindo a dor que tudo aquilo estava me proporcionando. Me senti mal como pessoa, como mulher. A dor que meu corpo sentia não era tão grande quanto a do meu ser. Andreia me acolheu e chamou a policia. Logo o local foi tomado e a festa parada. Ele ainda teve o descaramento de me ofender e me chamar de mulher fácil. Não havia mais motivos pra ficar ali. Minha vergonha era tanta que não contei pra minha mãe. Fiquei um tempo sem ir pra aula e quando voltei conheci o clube de boxe. Eles me convidaram pra treinar e eu fui. Aprendi como me defender. Dois deles souberam do que me ocorreu, eles conheciam esse cara e sabiam que ele não tinha escrúpulo. Me ajudaram com palavras de força e não me deixaram cair. O treinador foi um deles. Sempre ali presente. Me dando força e com o tempo eu era temida. As pessoas não comentavam mais sobre o incidente e eu me afastei de todos e de tudo, menos do boxe do ballet. No dia em que você jogou as flores em mim eu estava voltando de um treino em outra academia. – as lagrimas deram lugar a um sorriso. – Que idiota eu pensei, vi você chorando e no dia seguinte eu entendi o que realmente houve. Depois quando li o cartão que você escreveu pra ela. Vi um pouco de mim em você. Não da mesma maneira, mas você foi usado o tempo inteiro e seu amor era tão grande que te cegou.
Ela parou e ficou olhando o teto, aquela garota sofreu muito e inda tinha forças pra me apoiar. Definitivamente ela era incrível.
— Quando dei por mim eu queria urgentemente te proteger. Estranho isso eu sei. Mas...
— Você me protegeu muito, eu agradeço. – completei.
Ela apenas sorriu e me olhou, acariciou o meu rosto e devagar se aproximou e me beijou. A sensação era única. Algo bem delicado e gentil. Ela realmente se apaixonava rápido demais. Isso era um defeito? Eu não sei, já que eu também estava apaixonado.
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