Dias Imprevisíveis
7 Capítulo 7 -Festa à vista
Notas iniciais
Hoje tudo poderia ser perfeito, mas o amanhã guarda sempre um mistério, por trás de mais um dia que achamos que será cotidiano. E, nos perguntamos: como isso pôde ter acontecido? E a resposta é simples e objetiva: aconteceu. Infelizmente, cada um de nós está sujeitos a tudo.
–Arraste uma cadeira e se sente a meu lado. Quero saber tudo sobre você.
Fiz o que a senhora Scott pediu. Nervosa, sentei-me de frente para ela, esperando a primeira pergunta. Se tinha uma coisa que eu destetava fazer, era falar de mim mesma. Eu nunca achei minha vida interessante o bastante para narrar a alguém, principalmente naqueles dias onde o mundo parecia me engolir aos poucos. Mas compreendi seu interesse, pois ela precisava de mais detalhes sobre a garota que estava hospedada em sua casa.
–Quantos anos você tem, Claire?
–Vinte anos. Fiz há pouco tempo.
–Uh. – murmurou pensativa, deixando-me mais nervosa. –Onde estão seus pais?
–Eles morreram. Meu pai faleceu há alguns meses.
Nada era mais incômodo que aquilo, embora o olhar da senhora Scott não fosse de pena, mas de uma mulher curiosa, e conscientemente analisadora.
–Como você e Megan se conheceram?
–Bem, parece loucura, mas nos conhecemos em um ponto de ônibus, em Houston por que eu sou de lá. Megan convidou-me para vir com ela para New York e, apesar de eu ter achado o convite inusitado, acabei aceitando.
Nem um pouco surpresa, a senhora Scott lançou um olhar reprovador à filha.
–Sabe, Megan sempre teve esse tipo de comportamento. É admirável o fato de ela ainda não ter levado um mendigo para casa. – Megan sorriu com o comentário da mãe. –Desculpe minha sinceridade, mas não podemos confiar em todo mundo que é simpático e diz coisas bonitas. O mundo está cheio de malucos e aproveitadores.
–Tudo bem. Meus pais costumavam dizer as mesmas coisas. – sorri para ela.
–Mas... O que a fez tomar uma decisão tão radical e seguir uma pessoa desconhecida?
Olhei Megan, que me olhava também, depois a senhora Scott.
–Eu não estava mais aguentando viver sozinha e eu sentia que iria enlouquecer se eu não saísse da minha casa.
–Compreendo. – suspirou alto, pensativa, e coçou o queixo. –E você acha que conseguirá viver na minha casa? Se habituar a uma nova vida? Interagir dia a dia com pessoas que você mal conhece?
–Eu já me fiz essas perguntas diversas vezes e, pra falar a verdade, eu ainda não tenho respostas para elas. Mas sei que o tempo vai se encarregar disso.
Surpreendentemente ela sorriu e segurou minha mão.
–Eu nunca gostei muito de pessoas premeditadas, que se planejam antes de falar ou fazer qualquer coisa. Mas eu admiro as pessoas que esperam ou deixam as coisas acontecer no seu tempo certo.
Megan pôs a mão no meu ombro e sorriu.
–Eu tenho mais algumas coisinhas para lhe perguntar. – continuou ela. –Você estuda ou trabalha?
–Eu fiz um semestre de Psicologia, mas tive que parar por que a situação financeira do meu pai não estava muito boa, e tínhamos que economizar o pouco que ainda restava no banco. Além do mais, nunca esteve nos meus planos fazer Psicologia, ainda assim eu quis agradar minha mãe.
–E não há nada que você queira estudar por vontade própria? – perguntou curiosa.
–Eu gosto de escrever quando não tenho nada para fazer, mas... É apenas um passatempo.
–O tempo dirá, não é mesmo? – piscou para mim. –Agora é minha vez de falar um pouquinho sobre mim.
–Tudo bem se a senhora não quiser.
–Eu quero. – parecia está à vontade e visivelmente mais animada. –Eu tenho quarenta e dois anos. Criei Ethan e Megan sozinha e passei a maior parte da minha vida tentando entender o que eu fazia de errado para as coisas nunca darem certo. Bem, eu nunca descobrir onde está o erro, por isso nunca mais me preocupei com o que era certo ou poderia ser certo. – ela sorriu tristemente. –Eu sou uma mulher alcóolatra e uso drogas às vezes.
Megan se levantou da cama assim que a mãe terminou de falar e, entristecida, ficou observando a vista da janela. O silêncio pairou sobre elas e, com os olhos lacrimejados, a senhora Scott olhava as costas da filha.
–Percebe-se que você teve uma educação diferente da maioria das pessoas de sua idade, por isso ficará a seu critério permanecer na minha casa.
Ela sorriu docemente, deixando-me questionar se uma pessoa com uma vida tão conturbada poderia ser o inverso do que aparentava ser. Ela era uma mulher vivida, tinha suas amarguras e desilusões. Mas também era lúcida, gentil, amável, e sabia compreender o outro sem que um terço de sua vida fosse decifrado.
–Eu não sou melhor que a senhora.
Apertei sua mão, sorrindo para ela, e o ato chamou a atenção de Megan.
–Muito bem. Eu só tenho um pedido a lhe fazer.
–Pode dizer.
–Não me chame mais de senhora, ainda não sou uma velha reumática. – Megan e eu rimos do seu disparate. –Meu nome é Melissa.
–É um nome lindo. Combina muito com a senho... – ela me olhou feio. –Combina muito com você.
–Obrigada. – animada, ela deu atenção à Megan. –Onde está o Ethan e meu sobrinho desajuizado?
–O Ethan saiu logo cedo e o Nicholas ficou dormindo. Eles mandaram um beijo.
–Uh. – murmurou sem muito aceitar a explicação de Megan.
–Com licença. – a enfermeira Carmen tinha adentrado o quarto carregando uma bandeja com um copo de água e alguns comprimidos. –É hora de tomar os remédios.
–Eu adoro você Carmen, mas tenho vontade de expulsá-la daqui quando a vejo com remédios.
Melissa tinha um grande senso de humor.
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Deixamos o táxi um pouco distante da nossa rua. Megan quis comprar sorvete pra gente no caminho e disse que não havia sorveteria melhor que a do tio Max; assim ela chamava o dono da sorveteria, mostrando que passara a vida toda frequentando o lugar.
Andávamos devagar pelas calçadas enquanto conversámos e saboreávamos os sorvetes. Chegamos a entrar em três ou quatro lojinhas e compramos algumas pulseiras e anéis, de três e noventa e nove. Paramos diversas vezes para cumprimentar os amigos de Megan, o que me deixou impressionada a popularidade dela. Também me vi fascinada por que seus amigos eram bem diferentes um dos outros, cada qual com estilos, jeito e vocabulário diferentes. Aquela diversidade era bem a cara de Megan.
–Você é bem popular.
–Isso acontece quando você frequenta vários lugares. São quase sempre as mesmas pessoas e se torna difícil você não se apegar a elas. Sabe o que é mais legal? – perguntou sorridente. –Uma boa parte deles são meus amigos de verdade.
–Deve ser maravilhoso poder contar com várias pessoas ao mesmo tempo.
–Sem dúvidas. – enquanto andava, Megan experimentava o que tinha comprado. –Minha mãe adorou você.
–Mesmo?
–Claro! Minha mãe é pirada às vezes, mas ela é a pessoa mais sincera que conheço na vida. – Megan sorriu orgulhosa. –Eu sonho com o dia que vou poder pagar um tratamento bom para ela. – seu semblante era pensativo. –Por isso eu faço tudo o que estiver ao meu alcance para ajudá-la.
–Pode contar comigo.
Ela sorriu ao me ouvir.
–Quem é Sarah Willians, Megan? – perguntei sem mais me aguentar de curiosidade. –Parece que você a odeia.
Megan nada respondeu, apenas andou em silêncio. Eu, no entanto, me concentrei na vista reta da rua, porém aguardava sua resposta.
–No terceiro ano do ensino médio, Sarah era a garota perfeita que todos os garotos almejavam e noventa por cento das garotas sentiam inveja. – seu olhar era reto e os passos eram fundos. –Eu era a melhor amiga dela, pelo menos eu achava que era. Mas tudo mudou quando eu comecei a sair com o cara mais cobiçado da escola e Sarah também o queria, mas ela nunca foi o tipo de garota que fala que tá a fim de um cara, ela espera que algum idiota se arraste a seus pés. – Megan olhou-me rapidamente. –Revoltada ela não quis mais falar comigo e deu em cima do Peter até ele me trocar por ela. – fiquei boquiaberta, ela, porém, acabou rindo. –Dois meses depois ela estava saindo com meu irmão e quis reverter nossa inimizade dizendo que tinha conhecido o Ethan nas corridas de rachas, e que ela não fazia ideia de que éramos irmãos. Quanto a Peter, ela quer me fazer acreditar que ele estava usando nós duas ao mesmo tempo.
–Você não aceitou a amizade dela, claro.
–De forma alguma. Ela está com o Ethan para me provocar e por que ele está começando a fazer sucesso na pista. E eu não acredito que o Peter seria tão canalha para brincar comigo. Ele era popular e bonito, mas não era desses garotos nojentos que brincam com o sexo frágil.
Ela estava levemente irritada e mal percebia que, enquanto falava sobre o passado, apertava os punhos.
–O Ethan é daqueles caras que gostam de desafiar a vida? – perguntei a fim de mudar de assunto.
–Eu não gosto de admitir isso, mas ele é bom no volante.
Fora surpreendente saber que Ethan vivia a vida perigosamente dentro de um carro, mas não estranhei o fato de sua personalidade forte se encaixar dentro de um esporte tão aventureiro e dinâmico. Ele tinha apenas vinte anos, mas era muito maduro para a idade, e severo consigo mesmo.
–Quer ir a uma festa hoje?
–Claro. – respondi animada, pois eu adorava festas. –Eu nunca fui a uma festa de verdade. Estou empolgada!
–Então se prepare para sacudir o esqueleto. Jason é o melhor DJ de Hip Hop do mundo!
Eu mal via a hora de frequentar os mesmos lugares descolados que Megan, mas só tinha um problema: eu não sabia dançar.
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