Dias Imprevisíveis

8 Capítulo 8 -Beijo Roubado


Notas iniciais
Mais um capítulo!
Beijos!

Às vezes somos muito inseguros e nem mesmo chegamos a tentar ou arriscar algo novo. Às vezes somos seguros de si e acreditamos que passos incertos nos levarão a lugares bons. A verdade é que sempre vamos ser dependentes de nossas próprias escolhas e se falharmos ou acertamos... Isso só o amanhã dirá.

Voltamos para casa e fomos direto para a cozinha. Eu estava satisfeita com o pouco que tinha comido na rua, Megan, entretanto, parecia cada vez mais faminta.

-Eu vou fazer um sanduiche de presunto, queijo e salada. Você vai querer um?

-Não, obrigada.

Arrastei uma cadeira e me sentei. Megan andava de um lado a outro atrás dos ingredientes para o sanduiche e chegava a beliscar o que encontrava pela frente.

-Olha pra mim! Comendo igual uma porca! – suspirou alto. –Minha mãe tem razão. Andei engordando.

-Você parece bem. – comentei fazendo-a me olhar.

-Engordei dois quilos em um mês. Isso é horrível!

Mesmo lamentando, Megan preparou seu sanduiche.

-Você está bem, sério. – falei novamente. -Por que você não para de tomar essas pílulas e tenta outras?

-Eu já pensei nisso, mas não gosto de ficar desprotegida. Eu morro de medo de engravidar e, além disso, me sinto bem fazendo sexo seguro.

Megan sorriu maliciosa. Ao terminar o preparo do lanche, ela arrastou uma cadeira e se sentou de frente para mim.

-Que tipo de pílula você me recomenda?

-Eu? – indaguei surpresa.

-É. Você é magra e tem a barriga sequinha. – disse mordendo o sanduiche. –Ou você toma injeção? – perguntou duvidosa.

-Nenhum dos dois.

Respondi constrangida.

-Se você dizer que é virgem, eu não vou acreditar! – Megan sorria divertida com a própria piada, mas perdeu o humor ao notar minha falta de interação. –Oh! – murmurou boquiaberta. –Como uma garota bonita e de vinte anos pode ser virgem ainda?

Eu não sabia como responder aquela pergunta. Eu sempre fui uma garota tímida e sem muitas perspectivas de me encaixar em um grupo popular. Talvez uma ou duas vezes eu tentei ser a garota do momento e arrisquei um namoro frustrado. Mas a aventura escondida não durou mais que três dias. Acabei achando que todos os garotos que se aproximavam de mim, queriam apenas sexo.

-O primeiro cara que decidi ter como namorado, não falava de outra coisa a não ser sexo. Eu achava que seu comportamento não era tão interesseiro, afinal ele era jovem e viril. Mas aquilo não me agradava em nada. Eu me senti como uma garota qualquer e que logo seria usada e descartada. – suspirei. –Esse é o tipo de frustração que não esquece logo ou talvez eu seja boba demais para dar tanta importância a tal coisa.

-Não, você está certa. – Megan deixou o sanduiche de lado e se debruçou na mesa, apoiando os cotovelos nesta. –Dizem que as pessoas românticas são mais sensíveis quando pensam em fazer sexo. – ela sorriu pensativa. –Eu pensava no garoto perfeito para ter minha primeira experiência sexual e como ela seria.

-Que bom que você gosta muito do Jason.

Megan olhou-me um pouco surpresa e sorriu tristemente.

-Peter foi o garoto perfeito.

Peguei-me surpresa com sua confissão e muito pensativa a respeito. As confissões de Megan eram muito recentes, mas eu já estava me sentindo muito confusa com elas. Sempre que suas palavras me vinham à mente, eu pensava sobre a tal Sarah ter ferido a amizade delas por causa do Peter, e o fato de ele ter a magoado profundamente. Eu me perguntava se tinha valido a pena ter ferido a mesma pessoa duas vezes e seguir em frente como se nada tivesse acontecido.

-Eu tinha certeza que ele gostava de mim.

A voz deprimente de Megan me despertou.

-Essa Sarah... O Peter... Eu nem os conheço e já sinto nojo deles. – falei sentindo muita raiva por dentro e uma vontade anormal de conhecê-los. –O Ethan... Como ele pôde se envolver com uma garota dessas?

-Ele acha que Sarah e eu tivemos uma briguinha de escola. — deu de ombros. –E eu achei que seria melhor deixar as coisas como está. Não faz parte da minha personalidade fazer que as pessoas sintam pena de mim ou vivam suas vidas em torno da minha.

-Mas a Sarah ainda quer mais. – falei sem me importar com o que Megan acharia. –Ela continua pisando em você. E sabe o que mais? Ela quer mostrar que sempre vai estar por cima.

-Desde que ela não entre em minha casa e tente roubar meu namorado, eu não me importo.

Megan podia não se importar, mas eu me importava e muito.

-Eu me pergunto: o que deixaria a Sarah completamente arrasada?

-Ela não suporta ser enganada. – sorri ao ouvir Megan e, boquiaberta, ela sorriu incrédula. –O que você está planejando?

-Nada.

-Pode parar, mocinha! Você é uma boa garota e vai continuar assim. Eu nunca iria permitir que você se envolvesse nisso. Aliás, essa história acabou há muito tempo.

-Não se preocupe, Megan. Eu só senti vontade de fazer essa garota sofrer com os próprios erros.

-Esquece. Não vale a pena.

Megan iniciou outro assunto, esquecendo de vez a parte traumática de sua vida amorosa. Enquanto ela falava eu balançava a cabeça, fingindo entendê-la, mas meu pensamento estava longe dali.
Nunca a palavra vingança fez tanto sentido na minha vida. Eu tinha certeza absoluta de que Sarah era uma garota detestável e sem escrúpulo moral. Comecei a odiá-la sem saber ao certo quem ela era e, aquele sentimento primórdio, era um tanto consumidor e assustador. Mas pouco me importava aquilo e o fato de eu está mudando minha visão ética. Eu me sentia extremamente impulsionada a fazer algo por Megan, mesmo sem saber por onde eu deveria começar. Chegava a ser sádico minha sede de justiça, visto que eu era uma garota quase nula, e sem muitas razões justificáveis para tal coisa.

-Você ainda não me disse o que vai vestir hoje.

-Ah! – dei de ombros sem ter em mente o que vestir. –Uma calça jeans e uma blusa de alça.

-Tão básico. – Megan coçou a cabeça, pensativa. –Uma minissaia no lugar da calça.

-Uma sandália de salto médio no lugar do tênis e só.

-Uh. – murmurou inconformada. –Pensei que você quisesse arrasar pra valer.

-Talvez em um próximo convite. Eu ainda não contei que não entendo quase nada de dança, não é?

-Estou achando que você foi educada em um colégio de freiras.

Rimos juntas.

&&&&*&&&&

Sem ter nada para fazer, resolvi passar o tempo na sala, e escrever qualquer coisa que me entretece. Megan estava no quarto, vidrada na tela do computador, e de vez em quando respondia as mensagens do celular.
Espreguicei-me depois de escrever dois poemas e, ainda inspirada, virei à página do pequeno caderno. Alguém bocejou alto na cozinha e sem demoras logo descobri que se tratava do Nicholas.

-Estudando?

-Não. Estou escrevendo alguns poemas.

-Uh.

Aparentemente interessado na escrita, ele se sentou a meu lado, e sutilmente se inclinou para vê melhor o caderno.

-Fomos visitar sua tia hoje. – Nicholas olhou-me. –Adorei conhecê-la.

-A tia Melissa é bem loucona, não é? – perguntou sorrindo.

-Ela é uma mulher um pouco triste, mas também exibe seu alto-astral, simpatia, e compreensão.

Sorri ao falar de Melissa, recordando dos últimos momentos que passei ao lado dela. Nicholas estava vidrado nos meus olhos, sem se importar com o constrangimento que ele começava a causar.

-Você tem olhos lindos.

-Obrigada. – agradeci segurando o caderno e perdendo-o de foco.

-Você é muito diferente de todas as garotas que conheci, mas com certeza é a mais bonita de todas elas.

Voltei a encarar seus olhos e, um tanto atrevido, Nicholas acariciou meu cabelo.

-Eu vou voltar para o quarto.

-Calma, Claire! – pediu impedindo-me de levantar. –Você não precisa ter medo de mim. Moramos na mesma casa agora.

-Eu não tenho medo de você, só não entendo o porquê de você está dizendo essas coisas.

-Eu te acho linda. Qual é o problema? – indagou como se fosse óbvio. –Eu posso não ter a altura do Ethan, nem o porte dele, mas também não sou de se jogar fora.

Virei-me para olhá-lo, intrigada por que ele fazia tais comparações, e Nicholas tentou roubar um beijo. Enraivecida lhe dei uma bofetada e o encarei como se a qualquer momento eu fosse pular em sua garganta.

-Eu não sei o que você está pensando de mim, mas seja lá o que for nunca mais tente algo comigo!

-Eu só pensei que você... Moramos na mesma casa... Somos jovens e desimpedidos, não é?

-Isso não significa nada! – gritei me sentindo extremamente nervosa.

-O que está acontecendo?

Megan surgiu na sala e a porta atrás de nós tinha sido aberta.

-Ouvi sua voz lá de fora.

Não tive coragem para me virar e encarar o rosto de Ethan. Eu só precisava me acalmar e evitar outra crise.

-O que você fez com ela, seu imbecil?

Megan encarou Nicholas severamente.

-Nada! Quer dizer, não foi nada demais.

-Ele tentou me beijar. – falei também o encarando.

Nicholas se sentiu acuado com os olhares sobre ele.

-Qual é gente? Claire é uma garota bonita e moramos debaixo do mesmo teto. Não é nada demais tentar um lance com ela.

-Você pelo menos perguntou se ela queria o seu beijo?

A pergunta de Ethan surtiu um grande efeito no semblante de Nicholas.

-Ok. Eu errei e peço mil desculpas por isso. – olhei-o. –Claire, me desculpe por ter constrangido você.

Suspirei alto e passei os dedos apressadamente entre os fios do cabelo.

-Tudo bem, eu te desculpo. – agachei recolhendo minhas coisas.

Deixei a sala sem olhar para trás, mas ainda ouvindo o pedido de desculpa do Nicholas, e a severidade nas palavras de Megan ao se referir a ele.