Dias Imprevisíveis

14 Capítulo 14 -Equivocados


Notas iniciais
Demorei, admito!

Eu pretendia postar o capítulo amanhã, como respondi a MP da b1tch please, mas eu não teria tempo na sexta, por isso será hoje mesmo.

É isso, meninas.

Grande beijo!

Os pensamentos se acumulam todos os dias, sem descanso ou mínimas pausas. O coração bate forte a cada ato inesperado, trazendo-nos reações boas e negativas. Agimos na maioria das vezes como robores de última geração, reagindo a cada programação instantânea. Somos um projeto antigo, sem muitas novidades à mostra; criados por uma velha sábia de nome Vida.

Assustada, embora minha pose fosse completamente ao oposto.
O carro preto luxuoso prosseguia seu caminho – desconhecido para mim –, pelas ruas de New York ou talvez ainda estivéssemos no Brooklin.
Vez ou outra eu olhava bem a cara do homem apelidado de Crash, o mesmo que David mencionara no hospital. Ele devia ter uns quarenta anos. Aparentemente tinha um e setenta e cinco de altura. O corpo era magro, pele bronzeada, cabelo negro encaracolado, e olhos negros. Parecia ser um homem calmo, esperto, e atento a tudo ao seu redor. Mantinha os olhos sempre para a vista fora do carro, batia os dedos um no outro, e, de vez em quando, lançava um olhar intrigado a mim.

–Qual é seu nome?

Limitei-me a responder.

–Ele te fez uma pergunta.

Um dos seus homens encarou-me exasperado e impaciente.

–Não pedi sua ajuda para nada, Jones.

–Perdão.

Desculpou-se o homem, voltando a se acomodar no banco.

–Diga-me seu nome, querida. – insistiu ele, exibindo um sorriso galanteador.

–Claire.

–Claire... Um nome bonito para uma dona mais bonita ainda.

Baixei a cabeça quebrando o olhar. O desconforto de tê-los me observando era sufocador.

–Espere aí! – levantei a cabeça flagrando a cara confusa do tal Crash. –Claire? – olhou-me intrigado, depois virou o rosto para seus capangas. –Vocês se lembram bem da irmã do Ethan, não é? – olhou-me confuso. –Não me lembro de você com o cabelo castanho e esses olhos verdes.

–Ela pode ter mudado o visual.

Disse um deles, chamando a atenção dos outros.

–E o nome dela não começava com a letra M? – indagou o outro. –Ou era N?

–Quietos! – tomaram postura ao ouvir o berro do seu superior. –Você conhece o Ethan, né?

Suspirei emburrada. –Sim.

–Oh! – Crash sorriu satisfeito.

–Mas eu não sou irmã dele.

O sorriso do homem desapareceu drasticamente, mas o meu estava começando a ser visível.

–Que ótimo! Trouxemos a garota errada! – Crash coçou as têmporas, chateado, e ligeiramente fechou os olhos, como se estivesse com dor de cabeça. –Pelo menos você é parente dele?

–Não.

Respondi prazerosamente, como se aquela conversa de perguntas e respostas fosse um bingo e, para o azar deles, seus números não eram da sorte.

–Então, o que você é? – nada respondi. –Namorada ou amiga? – continuou ele com as perguntas.

–Nenhum dos dois.

–Alguma coisa você é dele! – gritou furioso.

–Moro na casa do Ethan, mas não somos amigos.

Crash suspirou e lançou um olhar fulminante a seus comparsas.

–Como podem ser brutamontes imbecis? – perguntou furioso. –Claire... – virou-se para mim, mantendo a calma. –Não costumo envolver pessoas inocentes em meus negócios e...

–Mas pretendia trazer a Megan com você. – o interrompi. –Megan também é uma pessoa inocente entre você e Ethan, ainda assim, ela serviria de isca para atrair o irmão.

–Sim, mas...

–Você não sabe nada sobre eles. – continuei. –Mas é só o dinheiro que importa no meio disso tudo, não é?

–Vejo que você não entende nada sobre o mundo que, pessoas como eu e Ethan, vivemos.

–Sei que ele deve muito dinheiro a você.

–Não só dinheiro, mas a palavra. – disse se inclinando no banco, calmamente. –Eu patrocino cada corrida que ele faz, ganhando ou perdendo, mas eu prefiro que ele ganhe. Mas o Ethan não quer mais manter nosso acordo e eu não vou aceitar isso depois de ter gastado muito com ele.

–Talvez ele esteja dando um tempo em tudo.

–Não entendo os problemas pessoais dos outros, apenas negócios.

Desviei meus olhos dos dele, extremamente perdida no meio de tantas palavras onde o dinheiro ditava as regras, e nada mais.
Sentia-me bloqueada pelo raciocínio interesseiro de Crash, uma vez sabendo que ele era completamente arredio a uma vida honesta, e que seus princípios eram fortalecidos por aquilo que ele acreditava cegamente: o poder.
A sensação que eu tinha era de que nós não falávamos a mesma língua, embora eu tentasse entende-lo, mesmo comprovando que era algo inútil. Então pensei muito a respeito e cheguei à única conclusão que se destinava aquele tipo de diálogo.

–Quanto o Ethan te deve?

Olhei-o interessada e ele fez o mesmo comigo.

–Doze ou treze mil dólares. Por quê?

–Eu tenho esse dinheiro. – respirei fundo. –Meu pai estava economizando para a minha faculdade e caso eu ficasse sozinha. Mas... Ethan têm mais problemas que eu no momento, por isso eu gostaria de ajuda-lo.

Crash coçou o queixo, avaliando-me pensativo.

–Você vai sacrificar tudo o que tem por causa de uma pessoa que não é seu namorado ou amigo?

Calei-me diante de sua pergunta, sem ter o que responder.

–Você tem um bom coração Claire, mas não tente muito usar isso a seu favor. As pessoas são ingratas e muitas vezes cruéis quando nem merecemos. – olhei o chão rapidamente, armazenando suas palavras. –Admiro sua coragem, mas, como eu disse... isso não é apenas pelo dinheiro.

–Você não vai aceitar?

–Não. – disse implacável. –Se eu aceitar terei que deixar o Ethan em paz e aquele garoto tem potencial para chegar longe.

–Não está vendo o sucesso dele como um saco de dinheiro, apenas? – indaguei sarcástica, ele, no entanto, sorriu divertido.

–Sim, mas garanto-lhe que a personalidade dele me agrada.

–Uh. – murmurei desconfiada. –O que você vai fazer com ele?

–Vou mantê-lo em foco. – ele revirou os bolsos do paletó até achar um celular. –Vou ligar para o Ethan e dizer que você está comigo.

–Acho que vai ser perda de tempo me usar para atrai-lo.

Crash olhou-me curioso. –Veremos.

&&&&*&&&&

Dez minutos depois chegamos a uma espécie de galpão ou poderia ser uma garagem gigantesca. Desci do carro olhando tudo a minha volta e fui encarada por homens e mulheres que trabalhavam no lugar, em computadores ou carros.
Os carros, em especial, pareciam máquinas de última geração. Os desenhos carregavam significados implícitos, como se cada qual tivesse sua própria personalidade. O que mais me intrigava era o fato daqueles carros disputar títulos quase todas as noites e está em perfeita condições, sem nenhum arranhão ou amasso na lataria.
Depois de muito pensar, enquanto seguia Crash, acabei me dando conta de que ele tinha amor por aqueles automóveis, e que não economizava para tê-los em perfeita condições. Talvez aquilo explicasse sua obsessão por ter Ethan como um piloto destemido, pois seus maiores objetivos estavam em suas máquinas potencializadas.

–Aceita beber alguma coisa?

–Água.

Chegamos a uma sala que tinha quase de tudo nela e, pelo pouco que ouvi de Crash, aquele era seu escritório. O cenário era bem parecido com uma casa de show, sendo que tinha um bar à disposição, um palco pequeno, como aqueles usados por piadistas, e algumas mesas.

–Sua água, Claire.

Antes de pegar a garrafinha, olhei bem o rosto do homem que obedecia às ordens de Crash, e estranhei sua simpatia. Como o próprio Crash tinha dito irritado, eles eram uns brutamontes, mas dócil com aquele ou aquela que não era ameaça.

–Obrigada... Jones, não é?

–Sim.

–E eu sou o Robert!

–Ok, Robert. – acenei para o outro que estava mais afastado de nós. –Quanto tempo vou ficar aqui? – perguntei a Crash que, distraído, acendia seu charuto cubano.

–Considerando a ameaça de Ethan ao saber sobre seu paradeiro... Pouco tempo.

Não acreditei na resposta dele, por que nada ouvi enquanto ele aborrecia o Ethan, e a ligação não demorou mais que dez segundos.

–Você está bem? Parece pálida. – reparou Crash soprando uma boa quantidade de fumaça.

–Às vezes entro em crise ao ficar angustiada.

–Crise de pânico? – indagou Robert.

–Não. Acho que é crise convulsiva. – concluiu Jones.

–Tudo menos epilética. – disse Crash.

–Ah!

Suspirei ignorando-os. Sentei-me a fim de tomar a água gelada, mas o estardalhaço da porta se abrindo cessou minha tentativa. Levantei de supetão ao vê Ethan cruzar a porta.

–Você está bem?

Ele se direcionou a mim, com a respiração ofegante.

–Estou.

Ethan se virou para Crash, com um semblante de quem o mataria.

–Seu covarde desgraçado!

–Era a única maneira de você vir. – ele acenou ligeiramente para Jones e Robert, deixando-os longe dele. –Não fizemos nada com ela, nem mesmo dissemos algo desrespeitoso. – disse Crash se sentando.

–Trazê-la à força não é um desrespeito? – perguntou Ethan mantendo o olhar duro.

–Ethan – toquei seu braço de leve, tentando chamar sua atenção. –, por favor, escute o que ele tem a dizer.

–Escute o que Claire lhe diz, ela é uma garota muito sensata.

Ethan respirou fundo mais de duas vezes, tentando se controlar.

–O que quer de mim?

–Você sabe muito bem o que eu quero.

–Eu já disse que vou pagar a merda do seu dinheiro!

–E quanto às disputas?

–Não estou em condições para correr, você sabe disso.

–E desde quando seu lado emocional paralisa seus objetivos?

Ethan se desvencilhou da minha mão e andou até ficar cara a cara com Crash.

–Vou dar um jeito de devolver seu dinheiro. Quanto às corridas... Eu decido quando vou entrar numa disputa.

–Não brinque com as palavras, Ethan.

–Por quê? Você vai me matar?

Fiquei paralisada ao ouvir seu sarcasmo ao pôr a própria em jogo.

–Você acha que eu não conseguiria? – perguntou Crash, com a expressão tão séria que dava até medo de encarar.

–Claro que consegue, afinal isso não é difícil para ninguém, não é? – perguntou tão sério quanto Crash.

Ethan deu as costas ao homem de expressão malévola e, sem nada dizer, agarrou-me pelo braço, tirando-me de lá.

–Ethan!

Ele parou ao ouvir a voz de Crash, falando seu nome em tom autoritário, mas não se virou para vê-lo.

–Não vou ser tolerante sempre, por isso guarde essas palavras quando quiser me contrariar de novo.

–Eu já te disse que não tenho medo da morte.

Meu braço foi puxado novamente, obrigando-me a segui-lo. Enquanto nossos passos largos andavam em busca da saída, recebíamos olhares curiosos de quem nos vissem pelo caminho. E fora assim que chegamos ao ar livre, pisando fundo, guardando todas as perguntas para nós mesmos, e dividindo os mesmos sentimentos conturbados daquela manhã.

–Ele não te fez nada, não é?

–Eu já disse que estou bem.

Foi tudo o que dissemos antes de nos aproximar do carro vermelho, estacionado a dez metros da garagem.

–O que você estava tentando fazer? Levar um tiro? – perguntei irritada. –Por quê? Você vai me matar? Como você faz essa pergunta estúpida a um homem que moveu céus e terra para te achar?

–Você não entende, Claire.

–Tudo bem! – parei chamando atenção. –Eu não entendo nada! Sou idiota demais para entender a droga desse mundo que você vive! – ele se virou para mim. –Sou burra demais para entender a real situação disso! – Ethan se aproximou, mas não lhe dei importância. –Como uma garota chorona ia entender a droga disso tudo?

E, quando eu achei que iniciaríamos uma discussão, Ethan calou-me com um beijo. Aquela reação inesperada ia contra todas as minhas forças, até mesmo contra a raiva que dominava cada gota do meu sangue. Eu o queria. Queria seu beijo e o leve roçar de sua pele contra minha. Queria sentir seu cheiro e o desejo que o possuía naqueles momentos impulsivos.
Não restavam mais perguntas para eu fazer a mim mesma. Eu estava perdidamente apaixonada por Ethan Scott, mesmo sabendo que eu ia me arrepender depois. Por que... Por que eu não fazia parte do seu mundo, nem dos seus sentimentos reservados.

–Ethan. — murmurei quebrando o beijo. –Não está certo.

–Claire...

–Será como da última vez. Vamos nos arrepender, nos magoar, e decepcionar sua namorada. – engoli a seco, olhando-o firmemente sob a sensação desesperada de que ele me via como um refúgio, e nada mais. –Não faça mais isso, por favor.

–Desculpe. – ele respirou fundo, desviando o olhar. –Vamos embora. Megan está preocupada com você.

Era melhor assim. Que nenhum de nós se enganasse.