Dias Imprevisíveis

15 Capítulo 15 -Um menino enjaulado


Notas iniciais
Oi, gente!
Esse capítulo está bem grande e emocionante, na minha opinião.

Beijos, beijos!

‘Como saber se, cada decisão que tomamos, foi o certo a fazer? E, por que nos perguntamos isso sempre depois de tomar uma atitude? Será que, por baixo de uma postura decisiva, existe uma pobre pessoa perdida nas próprias palavras?
Na verdade, todos têm medo de seguir a própria intuição, por que é ela que está sempre nos impulsionando; soprando o certo e o errado. Não há ninguém que goste de errar sabendo que escolheu a direção errada, por que... No final do dia ou do ano, vamos pensar naquele caminho que não seguimos, e chorar por imaginar o que poderia ter sido o certo.’

Então era assim que tudo terminaria?
Depois de descobrir que eu estava perdidamente apaixonada por Ethan, acabei desprezando seu beijo e, consequentemente, o afastei de mim.
Era lamentavelmente engraçado entender minhas atitudes, mas era complexo aceita-las. Uma parte de mim se questionava a todo segundo, procurando razões em meio à clareza dos meus sentimentos, enquanto outra parte mantinha-se firme nas próprias convicções.

–Vou te pedir um favor.

O carro parou no semáforo e Ethan aproveitou o curto tempo para trocar algumas palavras comigo.

–O que é?

–Tente driblar as perguntas de Megan.

–Você acha que eu vou conseguir? – perguntei duvidosa. –Ela é curiosa de nascença e seu dom multiplica quando há algo visivelmente intrigante. – falei levemente humorada. –Também considere o fato de que essa manhã foi bastante agitada e muito conturbada.

–Uh. – murmurou voltando a atenção para os carros à nossa frente, que começaram a se movimentar. –Pelo menos tente.

Mantive os olhos nele, esperando que nosso diálogo prosseguisse ou, por algum motivo, evoluísse. Mas Ethan não me olhou mais, nem mesmo murmurou algo que denunciasse sua vontade de dizer uma simples palavrinha.
Entristecida, apoiei a cabeça no vidro da janela, e me entreguei aos devaneios que, a cada segundo, tornavam-se intolerantes.

&&&&*&&&&

–Claire!

Megan abraçou-me fortemente. Ao se afastar, ela segurou minhas mãos, deixando-me notar que as suas mãos estavam frias, e levemente trêmulas.

–Estou bem, Megan.

–Não te machucaram, não é? – balancei a cabeça negativamente. –Não está mentindo por que eles te ameaçaram?

–Não. Eles não me fizeram nada. – olhei Ethan de esguelha. –Eles são até simpáticos, um pouco humorados, e pateticamente atrapalhados, às vezes.

–Graças a Deus! – ela suspirou alto, coçando as têmporas ligeiramente. –Ethan... – virou-se para ele, com seus olhos castanhos inquietos. –Eu vou à polícia fazer uma queixa.

–O quê? – Ethan olhou-a completamente estagnado com a confissão de Megan. –Você ficou louca?

–Ah! Então agora eu sou a louca? – sem se conter, ela gritou histérica. –Eu não vou deixar barato aquele filho da mãe vir aqui e levar a Claire como se ela fizesse parte do seu rolo com ele!

–Você não vai se envolver com eles! – gritou Ethan, fazendo Megan se calar. –O que você acha que a polícia pode fazer?

–Eu...

–Cuide da sua vida e do seu namorado, Megan. Eu cuido da minha!

–Cuida? – ela sorriu tristemente, baixando o tom de voz. –Você não sabe como eu me sinto por vê-lo tão infeliz, Ethan.

Meu coração se apertou no mesmo instante que o olhei. Assim como Megan, eu enxergava o grande abismo sob os pés dele e, assim como ela, eu estava mobilizada diante dele.

–Infeliz... – Ethan sorriu debochado. –Você acha que eu sou o único miserável na face da terra?

–Eu não quis dizer isso.

–Quis, Megan. Você sempre diz, mas não tem coragem de usar as palavras certas. – Megan encarou o chão ligeiramente, tendo que engolir cada palavra. –Eu estou cansado de você, da minha mãe, do David, e dessa casa. – Megan levantou a cabeça ao ouvi-lo. –Estou cansado de todos vocês! E quer saber? Eu quero que vocês se danem!

–Ethan...

–Eu vou competir como Crash quer. – disse convicto, para a minha surpresa. –Vou dá um show que ele não vai esquecer.

Aquelas foram suas palavras de promessa antes de sair. Atordoadas, ouvimos a porta do quarto bater fortemente, e o barulho da chave contra a fechadura.
Megan se sentou no sofá, pensativa, e visivelmente abalada. Surpresa, por que eu nunca tinha visto tanta melancolia em seus olhos, sentei-me ao seu lado, recebendo sua atenção.

–O que está acontecendo com ele, Claire? O que o Ethan está tentando fazer?

‘Por quê? Você vai me matar?’ ‘Eu não tenho medo da morte.’ ‘Você não entende, Claire.’

–Megan... – respirei pesadamente, como se tivesse me esquecido de como era simples fazer tal coisa. –Ethan... Ele não se importa com a própria vida. É como se ele estivesse tentando...

–Se matar. – completou Megan, se levantando em seguida. –Eu sei. – ela respirou fundo, andando de um lado a outro. –As corridas arriscadas... Um patrocinador movido a dinheiro... E uma realidade complexa fora das pistas. É um jogo de aventura para o Ethan, cheio de adrenalina, e consequências mortais, mas ele não se importa. Para ele, tanto faz.

–E o que podemos fazer? – levantei um tanto desesperada e completamente movida pela vontade de fazer algo útil. –Não podemos cruzar os braços. Se fizermos isso, será como se fôssemos condescendentes a essa loucura!

–Você acha que eu já não tentei ajuda-lo? Eu já fiz de tudo para dar outro significado à vida do Ethan, mas ele é imune a todo tipo de palavra ou frases bonitas! Ele tem um coração impenetrável e uma cabeça oca! Tudo o que você disser ou fazer para o bem dele será ignorado como um monte de lixo.

O que se pode fazer quando todas as suas tentativas são bloqueadas por uma dúzia de palavras negativas?
Megan estava certa. Penetrar o coração de Ethan era mais difícil que enfiar algo na cabeça dele, mas não devia ser impossível. O que me fazia crer naquilo? Talvez as poucas vezes que decifrei os códigos secretos de sua vulnerabilidade. E, caso eu me esquecesse de um único detalhe que tornasse frustrante minhas tentativas, eu só precisava lembrar que ele era apenas uma pessoa com um coração quase intocável; o que não o tornava um caso perdido.

–Eu não posso me dá por vencida.

Megan olhou-me, intrigada.

–O que você pode fazer, Claire?

–Não sei, mas tenho certeza que eu vou descobrir.

&&&&*&&&&

Acordei ouvindo o barulho de coisas caindo. Sonolenta, sentei na cama piscando os olhos várias vezes, até enxergar perfeitamente bem a bagunça de roupa no chão, e a impaciência de Megan tentando organizá-las.

–Desculpe, eu fiz de tudo para não te acordar.

–Tudo bem. – bocejei esticando os braços. –Que horas são?

–Quase sete da noite.

–Dormi tanto assim?

–Você estava precisando.

Ela guardou as roupas de qualquer jeito e, terminando, atravessou o quarto quase correndo. No caminho do pequeno percurso, Megan tropeçou no par de sapatos esquecido no pé da cama, e por pouco não soltou um sonoro palavrão.

–Por que você não ligou a luz? – perguntei saindo da cama e fui direto ligar a lâmpada do teto. –Vai sair?

–Vou. – respondeu calcando a bota de cano longo. –Ethan vai competir hoje.

–Como você sabe? – indaguei curiosa.

–Nicholas me disse agora a pouco. – assim que terminou de calçar os pés, Megan correu para ajeitar o cabelo. –Jason não vai demorar a chegar.

–Eu vou com você.

Sem esperar o consentimento dela, arranquei as roupas do corpo, e procurei qualquer coisa para vestir.

–Tem certeza?

–Claro.

Passei a dividir o espelho com Megan. Apressada, penteei o cabelo acima da cabeça, e o amarrei com um elástico. Procurei pelo par de all star preto, o mesmo que vivia enfiado nos meus pés, e o encontrei debaixo da cama.

–Onde ele está agora?

–Saiu às quatro. – respondeu Megan pronta para sair. –Não falou comigo quando nos esbarramos na cozinha, nem me olhou com importância.

–Ele precisa de um tempo.

Pus o cinto na calça jeans azul e, finalizando, vesti a camiseta xadrez.

–Ethan está cheio de ira e vai descontar essa raiva na pista. – olhei-a. –Pode ser que ele só queira competir, mas eu não acredito nisso.

–Você acha que...

–Eu não quero pensar no pior, mas eu serei muito irrealista se não encarar os fatos.

Respirei fundo, pensativa, e observei um ponto imaginário enquanto terminava de me vestir.

&&&&*&&&&

O lugar onde aconteciam as corridas proibidas estava lotado.
Havia jovens e pessoas de mais idade espalhados por todos os lados. Alguns gritando alto, cobrando pela diversão. Outros pareciam mais interessados em azarar o sexo oposto, e outra parte deles estavam plenamente comprometidos a fazer uma boa aposta.

–Eu nunca vi esse lugar tão cheio.

Comentou Jason se esticando para avistar conhecidos.

–Talvez seja por causa dos novos competidores. – disse Nicholas animado. –O Crash está apostando alto no Ethan, de novo.

–Ele faz isso para pressionar meu irmão. É um jogo psicológico para encorajar o Ethan ou só para mostrar que ele tem muito poder. – falou Megan em tom de raiva.

–No final das contas, o Crash usa isso para manter o Ethan sob seu controle. – Jason parecia conhecê-lo bem. –Às vezes eu penso que Ethan não tem noção do que está fazendo, mas considero firmemente a hipótese de que ele está apenas tirando proveito dessa situação. Ele não tem nada de ingênuo.

–Uh. – Megan olhou-me ligeiramente, como se guardássemos um grande segredo.

–A Sarah está incrível!

O comentário de Nicholas chamou nossa atenção que, curiosos, olhamos mais à frente. E, no centro de muitas pessoas, e de carros enfileirados, estava Sarah, com os braços em volta do pescoço de Ethan, enquanto as mãos dele apalpavam o traseiro apertado na minissaia jeans.
Eles sorriam em meio aos beijos que davam em público. Falavam, olhavam as pessoas ao redor, cumprimentavam e eram cumprimentados. Estavam felizes e, em nenhum momento, vi raiva ou tristeza nos olhos de Ethan. Ao vê-lo tão bem, perguntei-me se era Sarah o motivo de seu bem estar ou se ela simplesmente conseguia muda-lo.

–Claire?

Foquei o rosto de Megan um pouco surpresa.

–Os carros... Eles são lindos.

–São. – Megan sorriu. –Não se deixe enganar. – Megan ficou ao meu lado, sem tirar os olhos do casal a poucos metros de nós. –Sabe o que significa aquele sorrisão do Ethan? – balancei a cabeça. –Significa que, logo, logo ele vai despir a vagabunda da Sarah e vai trata-la como uma vadia. – Megan suspirou alto, virando o rosto para mim. –A única felicidade que ela pode dar a Ethan é o prazer sexual, sem isso, a relação deles é oca.

–Como essa garota é extremamente crítica!

Brincou Jason.

–É a verdade. – mesmo possuída pela seriedade, Megan deu um pequeno sorriso. –Vamos falar com Ethan.

–Megan! – a chamei antes que ela desse mais um passo. –Eu vou ficar aqui.

–Tudo bem. Qualquer coisa é só gritar. – piscou ela se afastando na companhia de Jason e Nicholas.

Encostei-me à parede, de cima abaixo pinchada, e cruzei os braços esperando o tempo passar.
Megan fora a primeira a chegar perto de Ethan e, pela cara desagradável de Sarah, a barulhenta Scott disse algo que a desagradou. Megan continuou falando e falando, até que Sarah bufou de raiva e suspirou alto, abraçando Ethan pelo ombro. Jason tentava conter a namorada e Nicholas estava mais preocupado com as garotas que passavam por ele, de shortinho.
Poucos minutos depois, Megan decididamente arrastou Ethan para longe de Sarah, e iniciou uma discussão entre eles. Apesar do falatório de Megan, ele não se exaltou, nem ignorou seus reclames e conselhos.

–Ethan Scott... Você é um garoto quase indecifrável.

Como se minhas palavras tivessem sido sopradas no ouvido dele, Ethan olhou-me sem dar atenção à Megan, que não parava de falar.
Fiquei paralisada sob a expectativa do seu olhar e quase cheguei a olhar para os lados, só para confirmar que minha figura esquecida era seu alvo. Quando finalmente me encorajei para acenar, Sarah ficou ao lado dele, encarando-me divertida.

–Claire!

Olhei para o lado, surpresa ao ouvir meu nome sendo pronunciado tão alto.

–Crash. – disse em tom decepcionante.

–Fiquei pensando em seu rosto bonito o dia inteiro.

Aproximou-se com um pirulito na boca e um sorriso simpático escancarado.

–Está animado por que Ethan vai competir?

Perguntei um tanto séria e sarcástica.

–Oh! Se ele está aqui significa que as apostas serão altíssimas! – comemorou dançando. –Falando sério, gata. – ergui as sobrancelhas ao ouvi-lo. –Espero que você não esteja me odiando agora. Eu já disse que não era minha intenção te envolver naquilo.

–Claro que eu te odeio afinal você me deu um tremendo susto!

–Mágoas passada. – ele não conseguia ignorar a música, o que era um pouco engraçado. –Escuta. Eu conheço um pessoal gente boa que trabalha na Vogue e falei de você para eles. Está interessada em fazer um teste?

–Na Vogue? – indaguei desconfiada.

–Tá. Não é bem na Vogue, mas é uma agência onde trabalham muitos conhecidos meus, e facilmente eles poderiam abrir muitas portas para você.

–Não, obrigada. Eu não entendo quase nada de moda e passarelas. – Crash se decepcionou ao me ouvir e me perguntei se ele estava bêbado ou drogado. –Parece que você gosta de ajudar as pessoas, não é? – indaguei sarcástica, mas no fundo reconhecendo seu lado humanitário ou interesseiro mesmo.

–Eu já fui muito pobre e sei como é difícil perder pequenas batalhas no dia a dia. Por isso, se vejo alguém com potencial e deseja chegar longe, ajudo com um empurrãozinho.

Ele piscou enquanto arriscava um passo de Hip Hop.

–Crash.

–Ethan! – olhei na mesma direção que Crash. –Meu garoto prodígio!

–Estão te procurando a um tempão. É melhor você correr ou vão fazer as apostas.

Crash apressou-se a chegar ao grupo de apostadores.

–O que ele queria?

–Ele estava tentando vender meu rosto para Vogue. – sorri ao lembrar a proposta de Crash. –Então, esse é seu mundo?

–É. – respondeu desviando o olhar ligeiramente. –Eu sou outra pessoa dentro dele.

–Uma pessoa feliz ou com vontade de fazer uma besteira?

Ele sorriu exibindo dentes brancos e perfeitos.

–As duas coisas.

–Uh. – murmurei mordendo o lábio inferior, sem saber como me comportar. –Bem, acho que não posso fazer nada para impedir essa loucura, a não ser dizer boa sorte.

–Eu gosto da sua sensatez, principalmente por que ela não me obriga a começar uma discussão entre nós.

–Mesmo? – sorri surpresa com sua confissão. –Pensei que você gostasse de discutir com todo mundo.

–Com quase todo mudo – brincou ele. –, mas você não está inclusa nesta lista negra.

–E eu posso saber por quê?

–Por que você me faz ser a pessoa mais detestável do mundo quando eu te deixo magoada.

–Isso se chama culpa.

–Talvez.

Ethan se afastou sob o olhar enraivecido de Sarah, mas ele não parecia se importar com o fato.

–Parabéns, Claire. – estava tão compenetrada nos olhos furiosos de Sarah que não percebi Megan se aproximando. –Você estragou a noite de Sarah. E sabe o que é mais surpreendente? Você não precisou rebolar no colo do Ethan para chamar a atenção dele.

–Megan! – disse envergonhada com seu disparate, ela riu alto.

&&&&*&&&&

Todos saíram da frente dos carros e se aglomeram atrás deles. As pessoas gritavam o nome do seu competidor favorito, encorajando-os a enfrentar a pista mal iluminada.
Uma mulher, que arrancara assovios dos homens, se posicionou na frente dos carros com sua roupa minúscula e provocante. Os motores gritavam desesperados; como se estivessem programados para ganhar.

–Odeio essas largadas!

Disse Megan no mesmo instante que os carros deram partida, riscando seus pneus contra o asfalto.

–Aposto que o Ethan vai levar um minuto e meio para voltar. – falou Nicholas eufórico.

–Aposto duzentos que ele vai voltar em um minuto.

Nicholas deixou de lado a visão dos carros e virou o rosto para Jason.

–Eu conheço bem meu primo em uma disputa.

–E eu conheço bem meu cunhado. O que você acha disso?

–Tudo bem. Aposto duzentos que ele volta em um minuto e dez.

–Você tinha dito um minuto e meio! – reclamou Jason.

–Eu posso dizer qualquer coisa antes de fechar a aposta!

Eles continuaram a discussão, sem muito perceber que estavam ignorando a corrida, e que ela logo acabaria antes de eles chegarem a um acordo.

–Vão fazer a volta. Não quero nem vê!

Megan fechou os olhos ao vê os carros se aproximando da curva e, como se ela tivesse adivinhado que um acidente aconteceria, um dos carros bateu forte na traseira do outro, e ambos perderam o controle. O barulho do impacto surpreendeu a todos e eles pareciam mais animados com o trágico resultado.

–Ethan está vindo!

O carro voltava acelerado, arrancando gritos e assovios da multidão. Levaram poucos segundos para Ethan vencer a disputa e Crash ir a delírio, tamanha satisfação.

–É melhor irmos embora. – disse Jason atento à movimentação. –Duas pessoas estão acidentadas e a polícia pode aparecer.

–Um minuto e cinco. – Nicholas olhava o relógio no pulso, com o semblante decepcionado. –Não acredito que errei essa!

–E feio. – debochou Jason. –Um minuto e meio... De onde você tirou isso?

A multidão cercou Ethan, enquanto um grupo de pessoas ia ao encontro dos carros colididos.
Eles não estavam preocupados se alguém ia perder um braço, uma perna, se ficaria paralítico, ou se tiveram a má sorte de morrer na competição. Eles queriam adrenalina e esse desejo era maior que a própria sanidade.

–Podemos ir embora?

–Vamos sim, Claire. – respondeu Jason procurando a chave do carro.

–Eu também me senti mal quando vim aqui pela primeira vez. – Megan percebeu meu incômodo. –Eu não entendo como eles podem se arriscar tanto.

Antes de sair, olhei Ethan mais uma vez no centro daquelas pessoas, e me perguntei se a sorte sempre estaria do seu lado.

&&&&*&&&&

2h e 28 min. da madrugada.

Suspirei entediada pela milésima vez, depois de ter encarado o teto e as paredes por horas. Minha mente estava ocupada por imagens e pensamentos ruins, que assombravam o sono.
Sabendo que eu não conseguiria pregar os olhos, tampouco permanecer quieta na cama, achei que a sala ou a cozinha me fariam bem, então não tardei a chegar a uma delas.
Em passos lentos saí do quarto e preguiçosamente soltei o cabelo, que ainda estava preso ao elástico. Chegando à sala, o lugar que deveria está abandonado àquela hora, deparei-me com Ethan. Rapidamente ele levantou a cabeça, para vê quem estava lhe fazendo companhia, mas logo voltou a se concentrar no pequeno corte do braço.

–Quer que eu faça o curativo?

Ele suspirou alto, dando-se por vencido. –Quero.

Aproximei-me dele, tentando achar o motivo daquele pequeno ferimento.

–Pelo visto você comemorou demais. – falei me sentando ao lado dele.

–Sarah me acertou com uma garrafa quebrada. – olhei-o incrédula. –Estou brincando.

–Uh. – murmurei chateada. –O que houve com seu braço?

–Uma tentativa frustrada de tirar um competidor de dentro do carro capotado.

–Os homens que colidiram?

–Não. Foram outros.

–Você competiu de novo?

–Só duas vezes. – disse normalmente, para o meu espanto.

–É estúpido demais eu perguntar se você não tem medo?

–É estúpido demais se eu disser: às vezes?

Será que era a primeira vez que ele admitia seu medo?

–Então, você tem medo, como qualquer outra pessoa. – disse pensativa, voltando a pô os olhos no curativo, que estava quase pronto. –Eu gosto quando as pessoas admitem o que tentam esconder a sete chaves. Acho que elas se tornam mais humanas e sinceras consigo mesmo. – olhei-o em um curto intervalo. –Meu pai dizia que as pessoas mais duras, são as mais vulneráveis.

–O que ele era? Poeta?

Ri do seu comentário, voltando a me concentrar no braço dele.

–Talvez ele fosse um poeta anônimo, por que sempre dizia coisas bonitas, e sábias.

–Uh. Por que as pessoas perdem tempo se esforçando para dizer palavras bonitas? O que meia dúzia de palavras vai influenciar na vida de uma pessoa? – olhei-o interessada. –Não influencia em nada, absolutamente.

–Você acha? – indaguei terminando o curativo.

–Tenho certeza. – disse convicto.

–Então eu vou olhar bem dentro dos seus olhos e vou dizer um monte de besteira.

Ele ergueu as sobrancelhas, intrigado. Ajeitei-me no sofá, de forma que eu o visse de frente.

–O que eu vejo em Ethan Scott? Vejo um garotinho indefeso na figura de um homem robusto. Esse garoto grita o tempo todo como um animal enjaulado, mas ele não sabe que está livre, por que o tempo que passou na sua própria prisão fez com que ele se reprimisse, e sentisse medo de ser o que era antes. – toquei seu rosto delicadamente. –Ele sente que perdeu o sentido da vida e se refugia na ideia desprezível da morte, por que ele acha que não tem mais nada a perder. – Ethan respirou pesadamente, desviando seus olhos dos meus. –Mas como ele vai acordar desse pesadelo se seus olhos estão fechados e seu coração trancafiado em uma masmorra do passado? Ele não vê, mas há poucas pessoas acima dessa masmorra, tentando libertá-lo e...

–Chega, Claire.

Ethan se levantou em abrupto, sem levantar a cabeça, renegando a todo custo à ideia dos seus olhos ficarem à mostra. Sem ter mais o que dizer, ele me deixou sozinha, sob a expectativa avassaladora do seu coração ter sido penetrado.