Dias Escuros

3 O velório


Quinze para as quatro da tarde. Hora da minha soneca, já que eu estou de férias. Graças a Deus.

Na verdade, eu queria estar na Flórida, ou no Rio. Sei lá, em lugares ensolarados, onde eu possa ver o sol e usar protetor solar para não queimar minhas costas. Um lugar onde eu possa ir á praia ou á piscina.

Mas eu não posso. Como eu já disse, não temos dinheiro. Joanne ganha pouquíssimo, e o dinheiro da conta conjunta dos meus pais fica guardado para pagar minha faculdade.

Ás vezes eu acho que seria melhor eu pegar esse dinheiro e ir morar com Joanne em outro lugar. Mas depois eu penso melhor, e penso em fazer a faculdade, ganhar muito dinheiro, e, aí sim, me mudar para algum outro lugar com minha nova família. Mas por enquanto eu fico apenas sonhando.

Dormi por quatro horas, e fui tomar banho. Notei que Jo estava roncando no sofá, abraçada com Teddy, o ursinho de pelúcia dela.

Sempre achei que ela é muito velha para isso, mas eu não comento nada, para que ela não se magoe.

Terminei o banho e vi que Joanne ainda não havia acordado. Não quis acordá-la, então preparei uma pizza congelada e comi três pedaços. Os outros três eu deixei para ela.

Sentei-me no sofá para ver o jornal local, e quando estava chegando ouvi a notícia:

“Um corpo já em decomposição foi encontrado em uma casa nos arredores de Waverly Creek. A polícia está investigando o caso. A principal suspeita é sua esposa, Angelina Harris, que alegou estar viajando no dia do assassinato. Estamos agora ao vivo com o policial Alexander Jeeks e...”

Gelei, e, na hora olhei para Joanne, que estava dormindo. Ufa.

Desliguei a TV, e fui para o meu quarto. Estava sem sono, então voltei a jogar Luigi’s Mansion. Finalmente, depois de um mês, consegui zerá-lo. Fiquei muito feliz, e ainda mais sem sono.

Olhei pela sacada do prédio, e observei a pequena cidade. Do meu andar eu conseguia ver praticamente a cidade toda. Haviam alguns barcos na baía, perto das montanhas da costa. Vi que outro prédio estava sendo construído próximo ao centro. Isso vai melhorar a aparência da cidade, com certeza.

O sono veio, e então fui dormir. Quando acordei, Joanne já tinha ido embora, acho que ela estava atrasada, pois não deixou nenhuma panqueca pronta para mim.

Hoje eu estava sem vontade de nada, então fui ler meu novo livro do Sherlock Holmes. A única coisa que Joanne não nega são livros. Ela diz que quem tem um livro nunca está sozinho. Como ela é professora, sempre diz que ler é bom, e ela pega sempre no meu pé. Com sete anos, eu odiava ler, mas fui tomando gosto e hoje, devoro vários livros, sempre que posso.

Li até as dez, mais ou menos, e fui interrompido pela campainha.

Coloquei as pantufas de Joanne, que eram quentinhas, número quarenta e um. Só dois números abaixo do meu, então fiquei confortável. Corri até a porta e atendi. Era April.

-Oi, Andy. Quer ir ao supermercado junto comigo? Minha mãe pediu que eu comprasse açúcar e farinha, então eu vim te chamar, porque eu não gosto de ir sozinha.

-Claro, só um instante. – fui olhar na porta da geladeira para ver se Jo pediu para comprar alguma coisa

-Pronto.

Coloquei minha capa de chuva, e fomos caminhando até o supermercado. Na metade do caminho, passamos por um daqueles lugares onde fazem velórios de gente mais simples.

Isso chamou a atenção de April, que ficou olhando e avistou uma placa: Em memória de George Harris

-Olha, Andrew, o nome dele é George Harris. – disse ela com um certo entusiasmo

Na hora, eu liguei os pontos em minha cabeça. George... Velório. Só podia ser. Aquilo despertou minha curiosidade. Eu tinha que entrar.

-April, eu vou entrar lá. – eu disse, bastante determinado

-Você está louco?

-Não. – entrei meio cabisbaixo, como se estivesse chorando

Olhei ao redor e vi Angelina Harris, debruçada sobre o caixão soluçando. Eu a reconheci porque a vi na televisão.

O caixão tinha uma tampa sem o vidro, e eu suspeitei que o corpo não estivesse lá.

Olhei para a porta e vi April me apressando, mas eu tinha que ver mais. Não havia ninguém que eu conhecesse lá, então me virei para ir embora. Mas quando eu estava prestes a sair, uma mão tocou meu ombro, e ouvi uma voz de senhora velha dizer:

— O que você está fazendo aqui?