Dias Escuros
4 "Lá"
Na mesma hora, notei o rosto assustado de April.
–Eu... Eu vim visitar o George, é que... sabe, ele era o pai de um grande amigo meu. – menti mal, como sempre. A velha riu, e disse:–Sim, sim. Mas não volte aqui. Ou você terá que saber coisas que não gostaria, está me entendendo? – a velhota fez mistério–Claro. Eu e April saímos dali rapidamente, e, enquanto não chegávamos ao supermercado, nós conversamos sobre a casa.–April, como você achou aquela casa?–Bem... Há mais ou menos três dias, eu fui com minha mãe fazer nossa caminhada matinal. Corremos bastante, e, na volta, reparei nessa casa. Só isso. –Só? Nesse caso, tudo bem. Compramos tudo que tínhamos que comprar e voltamos. Subi até meu apartamento, e vi que Joanne ainda não tinha chegado, então fiquei lá relaxando. Minutos depois, Joanne chegou. Tirou suas galochas e sua capa de chuva.–Oi Andy. Alguém ligou?–Não. – como se eu estivesse ali a manhã toda A campainha tocou, e Joanne atendeu. Ela me olhou, meio assustada, e fechou a porta. Eu tentei enxergar quem eram as duas pessoas que estavam ali na frente. Eu quase não acreditei. Um era um homem alto e magro de olhos castanhos com uma cicatriz no rosto. A outra, bem... A outra era a senhora que me tocou no velório. Ainda bem que Joanne fechou a porta enquanto falava com eles. Fiquei tentando ouvir a conversa dos três, e esperava que Joanne os expulsasse logo, mas não foi isso que aconteceu. Pude ouvir tudo isso:–(...) Ele estava lá, fique de olho, filha(...) Você está deixando pistas demais. Já trocou o sapato? – a voz idosa disse–Ninguém pode descobrir, cuidado(...) vá me fazer uma visita lá ainda hoje, ouviu? – disse a voz grossa do homem–Sim, mãe. Vou ficar de olho, pode deixar – finalizou Joanne–Continue o bom trabalho. – despediu-se a velha Quando ouvi isso, perdi o chão. Joanne... Filha daquela... Mulher? Por que essa velha estava no velório do George, e, ela é mãe de Joanne? Quem é o homem, e onde fica “lá”? Eu tinha que descobrir. Joanne voltou para dentro de casa e trancou a porta.–Quem era, Jo? – perguntei como se não soubesse de nada–Era uma conhecida minha, e o marido dela.–Nossa, uma senhora tão velha com um marido tão novo... Ele tem idade para ser filho dela! Filho! É óbvio. Joanne é filha da velha e irmã do homem.–É, né... Bem, quer o que de almoço? – Joanne desconversou–Hoje não vou querer nada mesmo. Vou para o meu quarto.–Tudo bem então. Fui até meu quarto e pensei onde poderia ser “lá”. Na casa abandonada? Na casa dele? Decidi que iria seguir Joanne quando ela saísse. Fiquei pensando nisso por muito tempo e caí no sono. Quando acordei, fui até a sala ver se Joanne já tinha saído, e, para meu azar, não tinha ninguém lá além de mim, claro. Olhei pela sacada e vi o grande corpo dela correndo para pegar o ônibus. Desci correndo as escadas o mais rápido que eu pude, três degraus por vez. Vi na esquina Joanne fazendo sinal com a mão enquanto o ônibus parava. Corri e consegui entrar pela porta de trás. Me escondi no último banco e cobri minha cabeça com um jornal que alguém abandonou. Esperei por uns 10 minutos e consegui ver Joanne descendo. Desci pela porta de trás normalmente, mesmo sem pagar. Olhei a fachada do edifício, e vi que parei no Hospital Geral de Waverly Creek. Seria o hospital “lá”?
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