Dias Escuros
2 Galocha branca
- Ok. – eu disse, mas já tinha esquecido do cachorro.
-Vamos? – disse ela, um pouco impaciente.
-Vamos.
Ela pegou sua capa de chuva roxa e foi comigo até minha casa deixar o Lucky. Joanne ainda estava começando a fazer o macarrão, então eu deduzi que daria tempo de ver o que April iria me mostrar e voltar para o almoço.
Descemos pelo elevador, e ficamos parados em frente a porta de vidro, pois o porteiro estava dormindo e não a abriu.
-Wilson, por favor, a porta. – disse eu com um tom meio ríspido
-Oh, claro, Sr. Harris. – ele acordou, um pouco assustado e envergonhado
-Obrigado.
Saímos, e andamos por mais ou menos sete quilômetros, até sairmos da cidade. Eu tenho medo de sair da cidade, mas não podia deixar isso transparecer, então eu perguntei:
-April, você não vai dizer onde vamos? – eu disse, tentando segurar o meu medo
-Não. Já estamos quase chegando.
Andamos por mais um quilômetro, e chegamos. Era uma casa amarela, parecia abandonada. Sua pintura estava descascando, e havia muito lodo. A casa estava sem porta, então, presumi que foi arrombada.
-N-nós vamos entrar nessa casa, April? – disse eu, com o tom mais
apavorado ainda
-Mas é claro. Você está com medo? – ela me provocou
-Não... não estou com medo.
-Mas parece. – disse ela, já prestes a adentrar a casa
Tomei coragem e entrei junto. Lá eu pude ver que havia uma lareira, e acima dela, haviam cacos de vidro e um porta retratos vazio. A pintura interna estava muito pior do que a externa. Uma parede estava quase sem pintura, parece que alguém foi descascando até tirar tudo. A parede que ficava atrás de uma estante de livros carbonizada estava cheia de infiltrações e musgo.
-April, tem certeza de que quer entrar aqui? Pode ser perigoso.- tentei alertá-la
-Que nada, é só uma casa abandonada.
Ás vezes, eu admiro a coragem dela, mas será que ela não está indo longe demais? Essa casa era assustadora.
Avancei pelo corredor, que tinha alguns quadros de arte moderna, aquelas pinturas sem sentido. Uma era de dois riscos com uma mancha de tinta vermelha e outra azul. Dá para compreender?
Isso me fez lembrar da minha professora de Artes, Srta. Thompson. Ela falava que você pode dizer: “Ah, até eu faço isso”, mas o difícil é ter a ideia.
Bem, voltemos a casa abandonada. No corredor, o chão era de madeira, ao contrário do chão dos outros cômodos, que era de cerâmica.
April abriu a porta do banheiro. Na privada, tinha o excremento de alguém. Eu poderia falar aqui que tinha algumas coisas amarelinhas no meio, provavelmente milho, mas não vale a pena. Ela ficou com nojo, e eu também, então decidimos sair logo dali.
Entramos em um quarto cheio de bugigangas, como troféus, guarda-sol, uma bóia e um colchão. Fechamos e abrimos a última porta do corredor.
O que nós vimos foi assustador. Foi chocante.
Havia um corpo, um corpo grande e em decomposição deitado na cama. Ele tinha um buraco na região do intestino, e estava com uma roupa normal, parecia um vendedor. Pude ver em seu crachá que o nome dele era George. Eu estava certo quanto a ele ser um vendedor. Era do setor de eletrônicos das lojas B&C Magazines. A mesma loja em que Joanne trabalhava há um ano e meio atrás. April gritou, e parece que chamou a atenção de alguém.
-Quem quer que esteja aí, saia com as mãos ao alto! Aqui é a polícia! – dizia um homem de voz grossa num megafone
-April, vamos sair pela porta dos fundos, e nos escondemos na floresta. Rápido. –sussurrei, com um tom muito assustado.
Nós corremos muito, e, quando passei pelo quintal, tropecei em uma galocha branca. Levantei-me, e corri, corri, corri, até encontrar com April, que estava bem escondida nas árvores.
Ao seu lado, uma coisa me intrigou. Uma galocha branca, igualzinha aquela outra, provavelmente seu par, estava ali.
Examinei-a, e vi que eram número quarenta e um.
-Andrew, vamos! Vai ficar olhando essa coisa aí? – ela se levantou para correr
-Vamos.
Corremos bastante, e percorremos a distância de sete quilômetros em apenas meia hora. Deixei April em frente da casa dela, pois seu pai acha que somos namorados, e proibiu a filha de me ver.
-Tchau, Andrew
-Tchau, April
Ela me deu um beijo no rosto, e eu fui embora feliz.
Cheguei em casa eram duas e meia em ponto. Joanne brigou comigo, mas eu nem escutei direito, pois estava comendo, e, depois daquela corrida toda, eu estava faminto.
-Tem mais, Jo?
-Não, Andy. Infelizmente, você comeu os três pratos que sobraram – Joanne franziu o cenho – Agora me diga, onde você estava, garoto?
-Eu?... Bem... – gaguejei, e é claro que Joanne suspeitou
-Fale, menino. Anda! – ela aumentou ainda mais a voz
Eu não sei mentir, e uma hora ou outra eu iria me entregar, então falei logo a verdade.
-Eu fui até uma casa abandonada, fora da cidade.
-Hum... uma casa abandonada. Como ela era? – disse ela, mais calma
-Era amarela, e, por dentro, tinha uma lareira, sei lá – tentei fugir do assunto
Joanne estalou os olhos e parecia surpresa. Ficou pensativa e depois me proibiu de ir lá novamente, como se lá fosse o inferno.
-Andy. Por favor, não vá mais até lá. Pro seu bem e para meu também. – Joanne agora falava baixo
-Pro seu bem, Jo?
-Hum... Claro, né... Imagina o que seria de mim sem você? Você promete que não vai mais chegar perto de lá?
-Sim, Joanne.
Ela se acalmou e foi assistir televisão. Me senti mal por ter omitido a informação sobre o cadáver, mas acho que é melhor assim.
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