Dias Escuros

1 Estranho convite


Levantei-me da cama, desci as escadas e fui em direção a cozinha, para tomar meu café da manhã. Qual não foi minha surpresa ao ver que Joanne havia preparado panquecas deliciosas para o meu café!

Passei rapidamente o olho pela porta da geladeira para ver se havia alguma anotação de Joanne. E tinha. Acho que ela me ama, porque escreve anotações desse tipo: “Comprar ovos e manteiga para hoje. Beijos.” E, ocasionalmente, deixa panquecas prontas para mim.

É, certamente ela me ama.

Subi as escadas de mármore para o andar de cima do meu apartamento, que é um luxuoso duplex no único prédio da cidade ( a não ser o dos correios). Meus pais nunca tiveram e talvez nunca tivessem condições de comprar um duplex grande e luxuoso assim, mas foi um presente do meu avô, que era um rico empresário. Era, porque ele morreu num triste acidente com o iate dele, que eu conto depois.

Fui em direção ao meu quarto, que é o maior, sem contar o de mamãe e papai. No quarto deles eu não entro quase nunca. Joanne só entra para fazer a limpeza. E eu, toda vez que entro, choro de saudades.

Meu quarto tem uma pintura verde, que está descascando em alguns pontos por conta de infiltrações, mas eu não ligo, e se ligasse, não teríamos dinheiro para consertar.

Sentei em minha cama, de modo que eu pudesse olhar a TV confortavelmente, enquanto eu jogava. Coloquei o prato com as panquecas entre minhas pernas e peguei o controle do videogame.

Infelizmente o disco do game não estava lá, então eu tive que voltar lá e colocar o Luigi’s Mansion.

Mas eu não conseguia enxergar o jogo, pois minha visão estava embaçada. Então tive que, relutantemente, pegar meus óculos.

Eu só uso meus óculos em casos extremos, como quando não consigo ver o jogo. Na escola, eu não o uso, pois sento na primeira fileira, que é encostada no quadro. Joanne sempre pega no meu pé quanto a isso, então, saio de casa de óculos, mas o guardo na caixinha e escondo sobre meus casacos na bolsa. Quando é hora de voltar para casa, eu coloco meus óculos de volta.

A única pessoa que sabe que eu uso óculos é a April, minha amiga, pois ela sempre volta para casa comigo, e quando eu estou prestes a entrar no prédio, coloco os óculos.

Joguei bastante, mas fiquei entediado. Não por causa do jogo, mas por causa da chuva, que nunca parava. As vezes eu penso que vou ficar preso nessa chuva pra sempre, e esse pensamento vai me sufocando, sufocando, e eu entro em desespero.

A campainha tocou, e eu fui atender. Era Joanne, com sua capa de chuva vermelha e suas galochas negras. Achei estranho, pois suas galochas normalmente eram brancas.

-Galochas novas, Jo? — disse, intrigado

-Sim, as minhas antigas... é... atolaram na lama.

Joanne era bem gorda, e por isso ela não deve sentir tanto frio como eu. Ela tem o cabelo meio curto e usa óculos, que são fundo-de-garrafa bem redondos. Eu já disse para ela que isso é cafona, mas ela nem liga.

-Acordou tarde?

-Não, não muito.

-Vai querer o quê de almoço? – ela tirou sua capa e colocou-a no cabide.

-Eu... eu não sei... acho que vou querer macarrão. Joanne, vou passear com o Lucky. – corri pegar a coleira

-Mas, espere! Andy! Está chovendo! – gritou Joanne.

Parei e fez uma cara tipo: O que você está dizendo? E Joanne percebeu a besteira que havia dito, já que estamos em junho, apenas o início das chuvas.

Lucky era um cachorro que eu salvei da enchente que devastou a cidade no ano passado. O cachorro estava prestes a ser engolido por um bueiro, quando pulei na água suja e o salvei. Ele é um lindo Retriever, e eu certamente queria ficar com ele, mas Joanne não permitiu. Ela disse que tínhamos que procurar o dono, já que ele estava de coleira. Ligamos para o número que ali estava, e nada. Então eu pude ficar com o cão. O nome antigo dele era Baby Bieber. Troquei na hora.

Coloquei minha capa de chuva e desci com ele. Pela escada, claro. A regra do condomínio era bem clara. Nada de cachorros no elevador.

Cumprimentei Wilson, o bigodudo porteiro, de descendência italiana, que estava lendo o jornal. Nem preciso dizer quem ele me lembra, não é? Abri a grande porta de vidro e saí. Fui até a mansão de April e toquei a campainha.

A empregada atendeu.

-Pois não? – disse ela com sotaque hispânico

-Eu gostaria de falar com a April. Ela se encontra? – falei com minha linguagem mais educada

-Sim, vou chamar. – ela fechou a porta, e eu pude ouvir April gritando: -Mas o que é isso? Vai fechar a porta na cara do garoto, Maria? O que ele vai pensar!?

April abriu a porta e deu um sorriso. O sorriso dela é lindo. Não só o sorriso, mas o corpo e o rosto. Ela é loira, e seu cabelo vai até o peito. Seus olhos, azuis, parecem duas bolas de gude. Ela não é baixa, mas é mais baixa que eu. Já tentei namorar com ela, mas ela não quis, disse que queria apenas ser minha amiga, que eu era engraçado e que gostava da minha companhia. Mas então por que diabos ela não fica comigo? Uma hora ela vai ceder, tenho certeza.

Acho que ela me acha feio. Sei lá. Sou alto, magro, mas não sou daquela magreza extrema. Sou normal. Meus olhos são cor de mel e meu cabelo é castanho claro e muito liso. Sou igualzinho a minha mãe.

-Oi. – eu disse, meio envergonhado por ela ter dado bronca na Maria por minha culpa.

-Oi. Você veio na hora certa. Tenho uma coisa pra te mostrar. Mas o cão não vai poder ir. – disse ela com um sorriso malicioso.