Diary of a Savior
7 Sonhos Reais?
Notas iniciais
"Porque a liberdade queima minhas memórias
Mas eu sei que você ainda irá assombrar tudo
E embora talvez algum dia vá ficar bem
Eu não posso escapar agora (...)
Eu estava no meu caminho para a cura..."
( On My Way, Foxes)
Naquela noite, sonhei que corria arfante, ferida e ensanguentada por uma floresta, aos trancos e barrancos, tropeçando e caindo muitas vezes, enquanto ouvia o som da horda atrás de mim. As minhas pernas doíam e fraquejavam e a cada queda eu continuava em um ritmo mais lento, mais lento. Até que as minhas forças foram dizimadas e se tornou impossível seguir e adiar o destino inevitável. Caía e não conseguia me erguer novamente do chão.
Sentia o meu corpo sendo dilacerado pelos monstros enquanto me contorcia fracamante e sons guturais escapavam da minha boca. Tudo era a dor, apenas a dor, em sua forma mais excruciante e bruta.
Parem, pensava, atordoada. Parem.
A situação se dissolvia num piscar de olhos e quando me dava conta estava novamente no primeiro acampamento nas imediações de Atlanta. As barracas, os trailers, os carros e até mesmo a fogueira: tudo estava intacto exatamente como me lembrava antes de vir a manada que ceifaria mais da metade dos sobreviventes e espalharia o restante. Não via ninguém no acampamento ou nas proximidades dele; o lugar parecia estar renegado ao silêncio e ao abandono.
E então, eu os vi, quase imperceptíveis nos vidros dos veículos, nas paredes das barracas e até no tronco das árvores ao redor: o "S" pixado grosseiramente com sangue.
— Mia — Uma voz sentimental e familiar ecoou pelo ambiente. Um calafrio percorreu o meu corpo me fazendo estremecer.
Eu olhava para os lados procurando onde estaria a dona daquela voz, mas não havia ninguém por perto.
— Mia — Repetiu com mais urgência — Mia.
O desespero começava a crescer progressivamente e meus olhos marejavam.
— Cadê você, mãe? — Eu soluçava — Mãe?
— Mia — A voz dela estava mais clara e audível. Virei de costas e me deparei com uma mulher alta e com um lado da cabeça raspado e parada perto da fogueira fumaçante. Sua expressão era de um misto de tristeza, abatimento e agonia. Um "S" mutilado sangrava no meio de sua testa.
— Mamãe...
Ela balançava a cabeça negativamente.
— Você não pode, Mia — dizia ela, rouca. Franzi o cenho, confusa e atordoada. O que eu não podia? Dei alguns passos em sua direção, mas estranhamente ela se afastou ainda mais — Você não pode.
— O que eu não posso, mãe?
— Você não pode salvar a si mesma e a quem você ama. Quando chegar a hora, terá de fazer uma escolha — avisou Dana Marshall — Eles estão chegando.
Antes que eu pudesse perguntar quem estava chegando, um jato de sangue espirrou no meu rosto. Quando olhei novamente, o corpo pálido da minha mãe estava de pé e sua cabeça caída ao chão.
Um grito de horror escapou da minha boca.
Ao sair da minha cela, topei com Carl dando mamadeira a Judith fofamente no corredor do bloco. A princípio, não me importei de encontrá-lo tão cedo; não depois de termos nos acertado na noite anterior e ouvirmos músicas juntos. Mas depois, ao pensar o quanto eu devia estar parecendo instável e perturbada depois de uma noite de insônia e pesadelos, desejei que qualquer outro desconhecido da prisão estivesse por ali. Murmurei um bom dia rapidamente disposta a ir tomar o café da manhã sem responder a perguntas sobre o meu estado emocional.
Nunca fui o tipo de pessoa que conseguia esconder o que estava sentindo; ao contrário, quase era possível ler as minhas preocupações escritas na testa.
Há dias em que simplesmente gostaríamos que o mundo fosse só nosso.
— ... E, como sabemos, em pouco mais de um mês a neve vai começar a cair e dificultar as nossas periódicas buscas por suprimentos — Era a voz de Rick vindo de uma das salas trancadas. Parei perto da porta curiosa com que ele estaria conversando sobre aquilo.
— Pelo menos tem um lado bom nisso. Os errantes vão ficar atolados na lama e não vão se acumular na cerca — ouvi a voz de Gleen.
— Temos que reforçar o portão removível antes do inverno — disse Sasha — A neve pode fazer cedê-lo.
Aquela parecia ser uma espécie de reunião entre membros da prisão. Lembrei-me do que Beth havia comentado sobre a existência de um conselho que votava e tomava as decisões, indiretamente lideradas por Rick.
— Dia — respondeu Carl. Podia sentir o seu olhar em mim mesmo estando de costas — Mia?
Ele chamou quando eu já estava no meio das escadas. Não podia ignorá-lo, não; a panaca seria eu se o fizesse. Por isso, parei e virei para ver de uma vez o que queria.
E lá estava Carl com as roupas amarrotadas e o chapéu ridículo, mas o moleque continuava estupidamente bonito. Mia Dixon, pare com isso, já.
— Oi?
— O seu iPod está comigo — Judith puxou um dos botões de sua camisa e o mordiscou.
Eu me lembrava claramente de ter deixado o aparelho com Carl para que ele escutasse música quando quisesse, uma gentileza de firmação do acordo de paz. Notei que os dois irmãos, Carl e Judith, eram muito parecidos; deveria ter notado que eram parentes mesmo que Beth não tivesse me contado.
— Pode ficar com ele. Vai aproveitar mais do que eu — Forcei um sorriso. Carl gostava mais de rock clássico do que eu e, embora também houvessem músicas mais atuais de que eu gostasse no aparelho, pouco me importava sua existência ou não.
Ele assentiu parecendo um pouco surpreso pela minha bondade sem precedentes. Nossa, acho que devo ser tão ruim que as pessoas estranham quando sou boa.
Ouvimos o som de passos ecoarem no corredor e, segundos depois, Rick e Michonne apareceram. Aquela era a segunda vez que os via juntos por aí. Será que eles eram apenas amigos ou estavam namorando ou ralando e rolando por aí as escondidas?
— Carl, Mia, que bom que se acertaram — disse Rick Grimes fazendo o filho revirar os olhos.
Um sorrisinho sugestivo surgiu nos lábios da Michonne ao passo que seu olhar alternava entre o projeto de cowboy e eu.
— Então já aprendeu mesmo a suportar o babaca do Carl? — zombou ela
Esse foi aquele momento em que, preferindo o silêncio, apenas ri da piada como se tivesse achado engraçada. Ele fez uma expressão fingindo estar ofendido, mas logo em seguida sorriu.
— Ei! Eu não sou babaca! — disse Carl.
— Só na maior parte do tempo.
Os dois fingiram se fuzilar mutuamente com o olhar. Só a Michonne, descobri, era capaz de suavizar a expressão de Carl e melhorar consideravelmente seu humor.
— Tomaremos providências pra fazer isso — concordou Rick.
— Estocar mais alimento significa fazer mais buscas. Arriscaremos as nossas vidas passando muito tempo do lado de fora — disse Maggie. Ela não estava doente, só em reunião— Vale mesmo a pena fazer isso?
— Não temos outra escolha. Podemos revezar as pessoas que sairão nas buscas e treinar os que não sabem se defender pra matar errantes — Carol me surpreendeu com seu comentário. Se ela comentou aquilo deveria saber mesmo do que estava falando — Rick tem razão. Não poderemos sair tantas vezes no inverno sem enfrentar problemas com os carros no caminho.
Judith deu um gritinho.
— Amanhã nós vamos buscar suprimentos. Tyreese, Daryl, Carl e Mia vão comigo.
Eu. Nem pra alguém abrir a porta e encontrar você bisbilhotando a reunião alheia.
— Vamos levar mesmo crianças, Rick? — Havia um quê de incredulidade e desprezo na voz de Daryl.
Tive vontade de abrir a porta e gritar pra ele que eu era uma criança que havia matado mais pessoas do que os meus dedos eram capazes de contar, embora aquilo não era algo de que se orgulhar mas na hora da raiva a gente faz merda.
— O Carl sabe se defender sozinho e estou vendo a hora dele perder um parafuso trabalhando obscessivamente dia e noite na horta — disse Rick firmemente, porém a preocupação estava em evidência na sua fala. Ele já perdeu, Rick— Ele precisa se distrair e fazer algo diferente.
— Amanhã de manhã cedo vamos buscar suprimentos nas redondezas daqui — começou Rick — O tempo está começando a esfriar e temos que estocar o suficiente pra quando a neve começar a cair, além de procurar roupas de frio pra todos. Vocês querem ir?
— Sim — Nós dois respondemos ansiosos em uníssono. Nos entreolhamos rapidamente e Rick pareceu achar graça naquilo mesmo que não tenha rido.
— Ansiosa pra voltar lá fora, Mia? — perguntou Michonne se encostando na parede.
— Eu não precisava me preocupar em perder peso quando vivia correndo de hordas zumbis — disse humoradamente.
Rick e Michonne riram enquanto Mr. Carl se segurou pra não fazer o mesmo. O garoto tentava a todo custo manter a postura séria e impassiva e a carranca vinte quatro horas por dia.
Por mais que estar na prisão fosse um presente fantástico, julgava que ficar presa sem correr riscos me deixaria acomodada em relação a sobrevivência.
— Está bem então — Rick colocou as mãos na cintura com a típica pose autoritária — A propósito, os dois vão fazer turnos de vigília de agora em diante.
Eu e o Carl não respondemos nada, mas desconfiei que os nossos pensamentos deveriam ser semelhantes: mais que merda.
— Arriscar o pescoço entre errantes? Chama isso de se distrair e fazer algo diferente? — Sasha apoiou.
Prestei mais atenção a conversa.
— É evidente que ele ainda não superou o ocorrido — disse Maggie compassivamente.
— O garoto sabe como usar um facão e uma arma melhor do que muitos na prisão. Não é uma criancinha — defendeu Michonne. Não era a toa que os dois eram amigos.
— Eu já disse e não vou repetir outra vez. O Carl vai conosco — disse Rick, decidido — Posso tomar conta dele nem que tenha que morrer pra fazer isso.
Todos ficaram em silêncio — alguns deveriam estar insatisfeitos — e cheguei a conclusão que o Rick faria qualquer coisa por Carl, mesmo que o garoto desse uma canseira e agisse como um aborrecente e panaca na grande maioria das vezes.
— E a Mia também — completou.
— O que é que estão olhando? — perguntou Daryl grosseiramente — Por mim a fedelha fica, eu não vou ser a babá dela.
E você é um grande cuzão, pensei. Um dia ainda digo isso na sua cara.
— Vão tomar café antes que o Daryl coma toda a carne de esquilo — disse Michonne piscando pra mim. Rick pegou Judith de Carl e beijou-lhe ternamente a testa; a garota estava agitada desde a sua chegada e soltando gritinhos pra chamar sua atenção — Os mais velhos precisam fazer a parte chata.
Os dois foram embora deixando o cowboy no corredor. Desconfiei que não faria vigílias com Carl simplesmente por ter provado o meu valor nos serviços prestados; nem se queria realmente tê-lo por perto por tanto tempo. Quase podia sentir que Carl decidia o mesmo que eu.
— Eu já vou. Hora de alimentar o monstro.
Dei as costas e comecei a andar antes que o meu estômago começasse a se manifestar, quando escutei o garoto falar novamente.
— Espera, Mia — disse ele subindo as escadas.
Esperei e seguimos em direção ao refeitório juntos, sem dizermos nada um para o outro na metade do caminho. Primeiro, por que a minha mente insistia em reviver aquele sonho, mesmo que eu tentasse me convencer de que tinha sido apenas um sonho; me sentia cansada e perturbada por mais uma noite de pesadelos conflitantes. Segundo, eu já tinha reparado que Carl não era muito bom em iniciar conversas, embora não fosse exatamente alguém tímido.
— Mia?
— Hum?
— Tudo bem? — Os olhos de Carl encontraram os meus e conscientemente fiz algo que entregava o que estava sentindo: vacilei. Droga.
— Eu... Estou sim.
— É que você não muito parece bem — Carl me analisou quase imperceptivelmente.
— É que não tomo banho desde ontem.
— Sabe que não estou falando disso, mas tudo bem — disse Carl me fazendo sentir como um trasgo montanhês do Harry Potter. E é assim que, tentando fazer graça, acabo fazendo papel de idiota.
— Eu sei — respondi e pude sentir um quê de cansaço na minha voz.
Nos separamos ao chegarmos ao refeitório, cada um sentando numa mesa do lado oposto. Enquanto engolia o meu café da manhã sem sentir o gosto de nada, Lizzie e Mika tagarelavam sobre a última colheita de milho da prisão destruída pelas pragas domésticas. Mika disse que havia chorado, mesmo depois de Carol ter lhe dito que plantariam outra safra novamente.
Eles estão chegando, ouvi. Eles estão chegando.
Michonne soltou uma risada.
— Ela é corajosa e durona. Tão Dixon quanto você — passei a gostar mais da Michonne depois de dizer isso — Se sobreviveu lá foram sozinha é por que sabe de alguma coisa.
— Ela é sua sobrinha, Daryl — lembrou Glenn.
— Eu sei e não preciso que ninguém fique me lembrando disso — cuspiu ele — Ao invés de discutirem se os fedelhos vão ou não, deveríamos estar procurando quem quer que seja "S" por aí. Pelas minhas contas, deve estar explorando a região e uma hora pode acabar visitando a gente por aqui.
Senti o meu rosto empalidecer no hora. Então eu não era a única que tinha percebido aquilo; só um cego não enxergaria e desconfiaria de uma letra pixada com sangue em tantas testas de errantes e lugares por aí. E para mim, também nos meus sonhos.
Eles estão chegando.
Não avistei Beth em lugar nenhum e lembrei que Judith estava com Rick. Será Maggie havia ficado mesmo doente? Vivendo entre zumbis, era fácil esquecer que as doenças ainda existiam no mundo.
Terá de fazer uma escolha.
Patrick acenou pra mim com a mão e sorriu. Mal-educadamente Retribui com um aceno de cabeça sem graça. Daryl e Glenn também não estavam por ali.
Você não pode salvar a si mesma e a quem você ama.
— Mia? — Do outro lado do refeitório, Cal estava me encarando. Mia — Mia?
Voltei à vida real ao ouvir o meu nome ser repetido várias vezes. Lizzie e Mika me olhavam com expressões interrogativas e só então me dei conta que deveria estar fora do ar já há algum tempo parecendo uma retardada, pois não me lembrava da última coisa que tinham dito. Eu precisava urgentemente procurar algo pra fazer antes que enlouquecesse.
— Oi?
— Vai ou não? — perguntou Lizzie. Respirei fundo e tentei fingir que não estava pirando legal.
— Desculpe, meninas. É que fiquei com vontade mesmo de comer milho — disse com um sorriso não-verdadeiro eufemismo, pra não dizer falso e completei — Vai ou não pra onde, Lizzie?
— Ler na biblioteca depois que sairmos daqui. Chegaram alguns livros novos que nós ainda não lemos.
— A história do soldadinho de chumbo — Mika fez uma expressão sonhadora — Você pode ler pra nós, Mia?
Concordei rapidamente com a cabeça aliviada por ter algo com que me distrair, mesmo que isso significasse ler livros infantis pra crianças no meio do apocalipse.
— Claro.
— Ninguém perde tempo riscando letras na testa de errantes. Essas pessoas devem ter sido mutiladas antes de morrer — disse Sasha.
— Parece algum tipo de marcação de território. "S" deve ter um significado ou ser a inicial de um nome — comentou Glenn.
— Ou amedrontar — disse Maggie — Um outro grupo de sobreviventes que está por aí.
— Não saberemos quem é até toparmos com eles por aí. A única coisa que podemos fazer é intensificar o que já fazemos — disse Rick — Aumentar o armamento, vigiar o arsenal e colocar mais pessoas de vigia. Se eles chegarem, temos que estar prontos pra lutar por esse lugar.
Eles estão chegando, disse ela. O suor frio começou a encharcar as minhas mãos.
— Lutar pela nossa vida e por aqueles que amamos — disse Rick autoritariamente.
Não pode salvar a si mesma e as pessoas que você ama, disse ela. Quando chegar a hora, terá de fazer uma escolha.
Elas ficaram muito animadas e, assim que terminei o meu café da manhã e Karen recusou a minha ajuda com a louça (Carol não estava presente), me arrastaram pra biblioteca cada uma segurando numa mão. Mas antes, talvez por estar ainda tão aérea e retardada, decidir chamar Carl e Patrick pra ir conosco. Como julguei desde o início, Pat aceitou prontamente e agradeceu o convite, dizendo que apenas iria limpar as lentes dos óculos antes pra não enxergar buracos nos livros, enquanto Carl arqueou uma sobrancelha — ato que descobrir odiar imensamente — como se tivesse dito algo idiota demais pra ser verdade.
— Você tá brincando, não é? Isso é coisa pra crianças — Ele balançou a cabeça negativamente.
— Desculpa, eu tinha esquecido que você tem trinta anos e dois filhos, Carl — A resposta vem na ponta língua mesmo no meu pior estado de espírito. Uma vez Mia sarcástica e ironica, sempre Mia sarcátisca e irônica, baby— Mas sem ressentimentos. Patrick vai nos fazer uma boa companhia.
Ele pareceu ficar irritado com o meu comentário comparativo e, tenho de confessar, não pude deixar de sentir satisfação por aquilo. Irritar Carl Grimes quando ele estava ligado no modo "eu sou um panaca, grande idiota" estava na minha lista de melhores coisas a ser feitas no fim do mundo.
Os choques de personalidade entre nós dois estavam distantes de acabar.
Lizzie e Mika assistiam o show a certa distância boquiabertas.
— Eles estão chegando— disse Daryl. Eles estão chegando.
Aquela pequena frase ecoou várias vezes na minha cabeça. Um milhão de imagens de ataques humanos inimigos aos grupos a que tinha pertencido passaram pelos meus olhos; caos, corpos no chão e perdas importantes sempre viam no pacote. A tensão, o medo e a raiva se espalharam pelos membros do meu corpo e quando dei por mim estava andando rapidamente pelos corredores da prisão. Gotas de suor se acumularam na minha testa até começarem a escorrer, enquanto eu considerava para onde estava indo.
— Há muito trabalho na horta a ser feito e, quanto mais pessoas chegam aqui, de mais suprimentos precisamos — A indireta não poderia ter sido mais direta — Eu não posso simplesmente sentar, ler um livro e fingir que está tudo bem.
— Age como se fosse um adulto, embora acho que deva ter quase a mesma idade que eu — disparei cruzando os braços. Novento por cento das vezes em que fico irritada faço isso — É uma pena que a existência de alguns gire em torno do apocalipse.
— Eu não sou criança e não vou voltar a ser. Não depois de tudo o que aconteceu — disse Carl com uma carranca.
— Deveria começar a se preocupar em deixar de ser tão panaca.
E dei as costas a Mr. Carl por quê a palavra final quase sempre é a feminina. Mais uma vez, fiquei de cabelo em pé com o filho do Rick, mas no fundo sabia que aquela pequena discussão havia tido alguma serventia: eu me distraíra momentaneamente dos meus reais problemas. Comparado a eles, minhas brigas com o babaca ocupavam a última posição do ranking.
Fiquei surpresa ao ver que a prisão tinha mesmo uma biblioteca e não apenas uma sala onde as crianças liam livros como eu tinha pensado. O lugar tinha um enorme balcão de madeira em um dos cantos e quatro estantes com prateleiras cheias de livros enfileiradas uma após a outra, além de mesas com cadeiras espalhadas pela sala. Se ali antigamente tinha sido realmente uma prisão com detentos, por que existia um lugar como aquele ali?
Perguntei isso a Patrick — que já estava por lá lendo um livro quando cheguei com as meninas — e ele respondeu ajeitando os óculos:
— Ele não existia. Haviam apenas as prateleiras vazias com arquivos sobre os detentos — explicou ele desviando os olhos de O Sol É Para Todos — Jogamos tudo fora e fomos enchendo com livros que encontravam nas buscas por suprimentos. Foi ideia da Carol organizar um lugar assim pros jovens da prisão.
— Se antes eu já gostava dela, agora a amo de verdade — disse e completei lembrando de alguém — É fácil se esquecer da infância quando vivemos entre errantes.
Lizzie e Mika voltaram trazendo três livros grossos e surrados, mas ainda em boas condições para a leitura. Olhei os títulos de cada um (Os Contos dos Irmãos Grimm, Fábulas de Voltaire e Histórias Para Dormir) e perguntei qual deles elas queriam primeiro. Mika apontou para o terceiro e repetiu o seu desejo de ouvir a história do soldadinho de chumbo. Olhei o índice e abri na historinha escrita nas primeiras páginas do exemplar.
Pigarreei e as meninas me olharam com ansiedade; percebi que até Patrick tinha abaixado o livro que estava lendo para prestar atenção em mim. Eu me sentiria uma pessoa ridícula fazendo um papel ridículo se Patrick fosse um Mr. Grimes da vida, mas ao contrário, estava a vontade em tê-lo por perto e por não ser um completo idiota.
— Era uma vez vinte e cinco soldados, todos feitos de uma colher de cozinha, de chumbo. Como o chumbo não chegou, o vigésimo quinto soldadinho ficou sem uma arma... Perna, melhor dizendo — O que os errantes não fazem com a gente. As meninas ficaram com pena e murmuraram um oh — À noite, quando toda a gente se ia deitar, os soldadinhos saltavam e brincavam. O soldadinho ficou apaixonado por uma bailarina feita de papel, que vivia num castelo — As garotas sorriram e fizeram uma expressão sonhadora. Estranhamente, os olhos de Patrick brilharam e ele enrubesceu. Não, não pode ser— Um duende muito malvado, ao ver o soldadinho parado a olhar para a bailarina...
Até o metade da história, observei Lizzie e Mika (e as outras crianças que chegaram depois) vibrarem com o soldadinho de chumbo e torcerem a cara para o duendo malvado como se estivessem assistindo a um filme na televisão. Lembrei do quanto era fácil dar asas a imaginação quando era criança e desejei involuntariamente poder voltar aquela época em que o meu maior problema era um brinquedo quebrado. Amaldiçoei a natureza por privar aquelas crianças tão puras de viver uma fase tão mágica plenamente.
Minha arma, pensei. O meu extinto de defesa falava mais alto. Eu preciso da minha arma de volta.
Desci as escadas quase caindo dos degraus e perambulei até o lado de fora do bloco.
Eles estão chegando.
Contar histórias pra elas foi mais divertido do que eu imaginava.
— O que aconteceu depois? — Lizzie perguntou e percebi que tinha parado de ler pra viver o meu momento de introspecção interna.
— Então uma coisa estranha aconteceu, não se sabe se foi obra do duende ou do mero acaso. Um menino pegou o soldadinho e atirou-o para o lume da lareira — Alguns arregalaram os olhos — logo em seguida, a janela abriu-se e a bailarina foi parar também à lareira.
— Ambos arderam no lume, o soldadinho derreteu e ficou na forma de um coração. Da bailarina apenas restou uma lantejoula, toda queimada, que ela usava no pescoço.
Pessoas me cumprimentaram pelo caminho e algumas chegaram a me lançar olhares arregalados, mas ignorei a todos eles e fui direto pro arsenal de armas disposta a recuperar minha fiel amiga a qualquer custo.
Não pode salvar a si mesma e as pessoas que você ama, podia ouvir uma voz dizer nos meus ouvidos
As crianças e Patrick bateram palmas e algumas choraram pelo final triste da história do soldadinho de chumbo. Lizzie consolava a irmã dizendo-lhe que o soldado tinha sido muito feliz apenas pela bailarina ter o olhado, mas Mika soluçou que eles deviam ter sido felizes para sempre. Fechei cuidadosamente o livro, pensando naquela curta e icônica história repassada nas gerações.
Felizes para sempre.
Talvez as histórias infantis não fossem inteiramente fantasiosas. Talvez copiassem a realidade difícil da vida humana que não possuía um final feliz, apenas momentos felizes. Cabia a cada um de nós saber aproveitar esses momentos da melhor maneira possível, vivendo cada dia como se fosse o último. O apocalipse e o velho mundo tinham uma verdade existencial em comum: ninguém sabia quando e nem como a própria morte viria.
Levantei da mesa num salto ao sentir o clima ficar nostalgico demais resolvendo que precisava tomar um banho pra esfriar a cabeça que queimava muitos neurônios pensando demais.
— Ei, Mia! Já vai embora? — perguntou Patrick.
— Preciso fazer algo lá embaixo, mas volto pra cá depois.
— Está bom. Parece que as crianças gostaram muito da sua leitura dramática — disse ele sorrindo e completou — Eu também.
A porta do arsenal estava com uma corrente trancada com cadeado no buraco onde deveria estar a fechadura. Num acesso de ira incontrolável, bati os punhos na porta e a chutei várias vezes sem sentir dor alguma. Eu deveria estar parecendo uma louca agindo perceptivelmente como uma.
Quando chegar a hora, terá de fazer uma escolha.
Dei um sorrisinho desconfiada e saí da biblioteca decidindo que não deveria vacilar com Patrick ou acabaria dando a impressão errada. Coração partido era e sempre continuaria sendo uma droga, algo que eu não desejava pra ninguém. A última coisa que eu queria era deixar alguém tão legal como Pat (que parecia sensível) caindo aos pedaços por interesse românticos não correspondidos.
Andei pelo corredor vazio perdida em meus próprios pensamentos e, por isso, só percebi que errei o caminho (eu sou muito lerda) quando não reconheci a bifurcação que havia chegado e não me lembrava de ter passado com as meninas.
Parei e respirei fundo tentando recuperar o fôlego. Insanamente, uma ideia surgiu na minha cabeça perturbada. Precisava descontar o que estava sentindo antes de explodir e pirar de vez. Precisava fazer aquilo pra enfrentar os meus demônios anteriores e me convencer de que, não importava o que acontecesse, eu saberia me defender e seria uma sobrevivente até a morte.
— Esquerda ou direta? — perguntei pra mim mesma.
Eles estão chegando.
Escolhi a direção da mão que eu usava pra escrever por nenhum motivo especial e segui andando pelo longo corredor acinzentado e úmido. Tentei me concentrar no som dos meus passos contra o piso para não pensar no que eu não queria pensar, mas outra coisa chamou minha atenção e desviou o meu foco.
Era a voz de Rick Grimmes.
— E, como sabemos, em pouco mais de um mês a neve vai começar a cair e...
(…)
Peguei uma faca na tenda de armas brancas e comecei a andar em direção a cerca.
Você não pode salvar a si mesma e a quem você ama. Quando chegar a hora, terá de fazer uma escolha, avisou Dana Marshall, Eles estão chegando.
Os errantes batiam e se acumulavam nas cercas de metal da prisão, se agitando ainda mais ao ver carne humana tão próxima. Enfiei a faca com força na cabeça do primeiro e uma insana onda de prazer percorreu o meu corpo. Matei o segundo, o terceiro e o quarto e, vendo os cair um após o outro, sentia vontade de matar mais e mais, por que a raiva, a tensão e os pensamentos conflitantes ainda estavam lá.
O medo tinha ido embora ao matar o primeiro errante.
Continuei derrubando os zumbis dando golpes cada vez mais violentos e brutais pelas gretas da cerca. Cheguei até mesmo a partir a cara de alguns no meio. O apocalipse nos atacava mesmo quando os errantes não eram os culpados.
Alguém bateu na cerca pelo lado de dentro e um errante tombou no chão. Era Carl que tinha o matado e havia se juntado a minha terapia pessoal. Não perdi tempo trocando olhares ou brigando com ele; apenas me concentrei em matar o maior número de errantes que conseguia.
— O que pensa que está fazendo?
Não respondi. Apenas matei outro e outro e outro...
— Eu percebi que não estava bem assim que saiu da sua cela mais cedo — disse ele matando outro errante — Além de uma péssima mentirosa, por mais que tente não sabe esconder os seus sentimentos.
Ignorei-o novamente. Ele insistiu:
— Teve pesadelos na noite passada e está se sentindo perturbada pelo que viu — Parei e o encarei ofegante. Ele também parou — Eu ouvi você repetir coisas enquanto dormia. Está tentando descontar o que tá sentindo agora matando esse errantes.
Meus olhos marejaram inevitavelmente. Não, pensei. Não não nâo não não não!
— Mas eu te digo uma coisa, Mia — O tom dele era calmo e o seu olhar compreensivo — Isso não vai adiantar nada. Por mais que sinta um espécie de adrenalina e prazer fazendo isso, o que te assusta e te amedronta vai continuar bem aí. E, se não aprender a lidar com isso, vai chegar uma hora em que não vai aguentar mais e estourar como uma bomba-relógio.
Inclinei e apoiei as mãos nos joelhos para que Carl não me visse chorar como uma criança que acabou de ralar o joelho. As lágrimas vieram com força total e eu já não sabia mais pelo quê estava chorando; se era pelo pesadelo tão doloroso e real, pelo meu surto psicótico de matança ou por Carl ter descrito tudo o que eu estava sentindo e passando naquele momento de fragilidade emocional.
Ele me abraçou me pegando totalmente desprevinida. Eu solucei ainda mais encharcando os ombros de sua camisa com as minhas lágrimas e baba. Ele alisou o meu cabelo com uma das mãos e repetiu:
— Vai ficar tudo bem. Agora você está conosco e não vamos deixar que nada aconteça com você.
Fungando, contei a ele sobre o pesadelo da noite anterior e o que tinha ouvido na reunião do conselho sem omitir nenhuma fala ou detalhe importante, pouco me importando em soar covarde ou bisbilhoteira aos seus olhos.
— Mia, olha pra mim — Os nossos olhares se encontraram muito próximos. Ele enxugou os meus olhos — Foi só um sonho ruim. Eu também vejo coisas terríveis quando fecho os olhos, mas esse é o efeito colateral de estar vivo no apocalipse zumbi. Vai ficar tudo bem.
Assenti com a cabeça acreditando sinceramente nele. E, no fim das contas, o que eu precisava era de alguém que me desse a garantia que Carl estava me dando.
A garantia de que tudo iria ficar bem.
— Eu prometo — completou ele.
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