Diary of a Savior
8 Entendimentos
Notas iniciais
“Eu te perdôo
Éramos apenas duas crianças
Tentando descobrir como viver
Fazendo do nosso jeito
Nenhuma vergonha, nenhuma culpa
Porque o dano está feito
E eu te perdôo
Eu te perdoo, eu me perdoo
Agora eu começo a sentir novamente
Se eu te odeio, o que é verdade
Então eu respiro e conto até 10..."
(I Forgive You, Kelly Clarkson)
Naquela noite, Sasha e Karen substituíram Carl e eu no turno de vigília a pedido de Rick para que pudéssemos descansar o suficiente e sair cedo na manhã seguinte pra buscar os suprimentos. Sentada à mesa do refeitório, eu enfrentava um dilema inquietante e silencioso por dentro: parte de mim sentia-se ansiosa pra estar do lado de fora de novo e experimentar novamente o gosto da liberdade; a outra, temia que o pior acontecesse e, ou eu não voltasse para prisão com vida — isto é, se resolvessem trazer o meu cadáver — ou me perdesse dos outros e acabasse sozinha no inferno outra vez. Eu pertencia a um grupo forte de sobreviventes e tinha um lugar seguro pra descansar o traseiro todas as noites; não poderia me dar o luxo de perder o pescoço ou qualquer outra parte do corpo naquela altura do campeonato. Por isso, tomaria o máximo de cuidado do outro lado da cerca e me certificaria de estar armada até os dentes como garantia de que a minha luta pela sobrevivência não chegasse tragicamente ao fim.
Tentei me distanciar desses pensamentos durante o jantar e deliciar a minha sopa de legumes na companhia de Beth.
— Passei o dia com o Zach. Ele vive reclamando que dou mais atenção pra Judith do que pra ele — explicou Beth.
— Ele é o seu namorado?
Ela assentiu positivamente. Não poderia imaginar que Beth namorava alguém da prisão; na verdade, não me lembrava de tê-lo conhecido ou visto por ali. De qualquer forma, deveria ser um pé no saco ter alguém reclamando a sua atenção, motivo pelo qual evitava o envolvimento físico e emocional com garotos.
— Sim. Namoramos desde que o Daryl encontrou ele e a família dele por aí. Infelizmente, o pai foi mordido numa das buscas por suprimentos e a mãe era diabética — disse Beth sem transparecer amargura. Aquela era uma história de perdas tristes pra alguém que tinha encontrado um lugar sossegado no meio do inferno — A única pessoa da família que restou foi a irmã mais velha, Lucia.
— Ela parece ser forte e determinada.
— E é, sim. Só não é legal. Pelo menos, não comigo — disse Beth com o olhar perdido. Quase sentir a alegria por não ser a única com problemas de relacionamento na prisão. Uma epidemia se alastrava pelo globo ameaçando a descontinuação da humanidade e as pessoas ainda arranjavam tempo pra brigar entre si. Humanos. Não conseguia imaginar como qualquer pessoa poderia conseguir não gostar de alguém como Beth Greene.
— Rixa entre cunhadas que não se suportam? — perguntei com humor — Se você quiser, podemos matá-la enquanto dorme e plantar falsas provas de suicídio.
Ela deu uma risadinha.
— Apenas apresentando a você o meu lado psicopata, pra depois não dizer que não avisei.
— Nunca tive e não tenho nada contra ela, mas a Lucia me odeia simplesmente por namorar o irmão dela. Ela acha que vou magoá-lo e que não o amo de verdade.
Dei uma colherada na sopa adicionando o nome da cunhada da Beth na minha lista negea. Como eu queria poder repetí-la o prato mais dez vezes.
— Ela tem ciúmes ou não quer ver que ele está namorando você?
— Acho que os dois — A resposta de Beth me surpreendeu — Ela acha que sabe de tudo.
— Você o ama? — Só percebi que a pergunta era pessoal demais depois que tinha soltado. Beth arqueoou as sobrancelhas — Desculpa. Não precisa responder isso se não quiser.
O amor era um assunto desconhecido pra mim. O que uma garota de quinze anos vivendo há quase dois no fim do mundo poderia ter tido tempo de descobrir? Uma e outra paixonite de infância e pré adolescência não me tornavam uma expert em romances e os filmes eram tão fantasiosos quanto as histórias de princesas da disney. Tudo o que eu sabia baseava-se no relacionamento dos meus pais; eles tinham sido casados por treze anos e, pelas fotografias espalhadas pela casa, era perceptível que eram muito felizes juntos. Eu tinha consciência de que observar era diferente de viver uma experiência completa e sabia que estava longe e talvez nunca chegasse a experimentar o amor verdadeiro.
Beth respirou profudamente com uma expressão pensativa como se estivesse considerando a questão.
— Eu admiro muito o Zach. Ele é forte, amável e corajoso, uma das qualidades notáveis que mais gosto nele. Ele faz valer todo o tempo que passamos juntos e tem profundo respeito por mim e pelos meus sentimentos. Não poderia magoá-lo nem se eu realmente quisesse — Ela negou com a cabeça. Assenti e esperei que Beth continuasse. Será que alguém falaria daquele jeito sobre mim do jeito que Beth falava do namorado? — Mas eu não o amo. Com certeza não. O que eu sinto por ele está muito longe da minha ideia do que é amor.
— O que é o amor pra você?
Ela sorriu graciosamente. Comecei a raspar o resto dos legumos do prato sem me importar em parecer uma morta de fome. Encher o meu estômago era muito mais importante do que a impressão das pessoas sobre mim.
— Você sabe o que é amor quando tudo o que quer é ficar perto pessoa e quando estão distantes sente como se um pedaço seu estivesse faltando. Quando cada segundo do seu tempo ao lado dela vira uma eternidade. Quando sabe todos as suas qualidades e seus defeitos e mesmo assim ama a ambos. Quando esquece como se respira quando está perto da pessoa e tem a certeza de que, não importa o que aconteça, os obstáculos e dificuldades no caminho sempre serão superados por amá-la profundamente — disse Beth sonhadoramente e distante — Você só saberá realmente o que é amor, quando lhe perguntarem sobre ele e você não pensar em uma definição, mas em um nome.
Pensei um pouco sobre aquilo. Nenhum nome me vinha a cabeça ao pensar no que era o amor. Nunca tinha sequer beijado um garoto ou uma garota, como poderia saber qualquer coisa sobre aquilo?
— Acho que nunca vou descobrir isso.
— O amanhã é um mistério, Mia — disse Beth — E o melhor da sua vida pode acontecer ainda hoje.
***
Caminhei pelo longo corredor do bloco C rumo ao lado de fora da prisão. Não me lembrava a última vez que havia tido oportunidade de respirar o ar noturno e olhar as estrelas sem me preocupar em estar alerta ao perigo. Eu estaria do lado de fora em poucas horas e, mesmo que não fosse sozinha, não poderia deixar de pensar que poderia ser a minha última vez naquele lugar. Ninguém me avisara sobre regras de proibição a saídas furtivas para fora dos blocos à noite; os vigias viriam, mas quem decretou que todos os sobreviventes precisavam necessariamente dormir cedo e passar o tempo em que não estivessem fazendo atrás das grades?
Fiz o contorno pelo bloco D e segui pela parte de trás decidindo pegar o caminho mais distante das torres de vigilância. Sentei atrás do A, pouco me importando com a escuridão e o ventro frio (estava previnida com uma segunda blusa de mangas), numa parte árida e silenciosa em que os muros protegiam do mundo exterior.
O céu estava lindamente estrelado e a lua cheia brilhava iluminando e clareando as nuvens mais próximas; as coisas simples continuavam sendo as melhores da vida humana. Tive vontade de deitar no chão para observar a bela paisagem noturna, mas pretendia não ficar por ali muito tempo e correr o risco de pegar um resfriado. Por isso, apenas inspirei e expirei o ar permitindo que a tranquilidade e calmaria me contagiassem e afastassem os meus irreais maus pressentimentos.
Vai ficar tudo bem, disse Carl. Eu prometo.
O barulho crescente da grama sendo pisada desviou minha atenção e instantaneamente virei a cabeça pro lado. O barulho da grama sendo pisada indicava que alguém estava se aproximando e, nas sombras detrás do longo anexo de celas, demorei a distinguir a silhueta da pessoa que vinha na minha direção. Quando a figura ultrapassou o limite iluminado entre o B e o A, discernir que não era ninguém menos que Carl Grimes, para minha surpresa e estranhamento. Não desviei o olhar até que perceber que se sentaria próximo a mim. Não sei porquê, mas acho que meu coração deu uma aceleradinha básica sem motivos.
Esse garoto não morre nunca mais, pensei.
— Não deveria estar aqui — disse Carl — Precisar estar bem descansada para amanhã.
— Você também não — respondi com calma. Sem sarcasmo, sem ironia, algo inédito no meu relacionamento com o projeto de cowboy. A verdade era que muita coisa tinha mudado entre nós em apenas um dia depois do meu surto. O meu surto, aliás, era algo totalmente inédito da série Desventuras de Uma Adolescente no Apocalipse. E Carl Grimes ter me consolado e conseguido me acalmar era um extra de mais um episódio traumático e marcante do seriado da vida de Mia Dixon.
Logo depois de quase derrubar ou abrir um buraco na cerca matando errantes e Mr. Carl ter conseguido fazer com que eu parasse a terapia, nós continuamos abraçados pelo que pareceu uma pequena eternidade; tão próximos que eu podia sentir os seus batimentos cardíacos e sua respiração no meu pescoço. Quando minha sanidade voltou ao estado quase normal, percebi que tinha perdido às estribeiras ao tentar recuperar a minha arma de volta quando o Rick havia sido claro quantas as regras da casa e enlouquecido ao ter chorado como um bebê na frente de seu filho, cujas discussões aconteciam com frequência. O mesmo Carl que tinha chamado de babaca mais cedo e outros adjetivos feios mentalmente, era o mesmo que me prometera que tudo ficaria bem. Pouco me importava que várias pessoas estivessem observando a cena ou acompanhando a novela inteira: o abraço dele foi a coisa mais reconfortante que me aconteceu em muito tempo e não podia simplesmente ignorar o que estava sentindo. Passei a considerar que poderíamos ser amigos se pusessemos as diferenças de lado e dessemos uma chance a uma crescente amizade.
Quando finalmente nos soltamos, nenhum de nós sabia o que dizer pro outro. Carl desviou o olhar e fingiu que nada tinha acabado de acontecer enquanto recolhia as nossas facas ensanguentadas do chão. Ele virou e começou a andar na direção do arsenal, quando resolvi que se não falasse de uma vez, talvez não nos entenderíamos nunca mais.
— Carl, espera! — Corri até ele. O que eu vou falar? O que eu vou falar? O que eu vou falar?— Quer ouvir música comigo?
Direito demais, pensei. Que droga.
— Eu tenho que terminar o trabalho na horta — disse Carl seriamente — Até mais tarde.
A indiferença dele fez com que algo me ruísse por dentro indicando que aquele era um sinal de desinteresse da parte de Carl. Numa hora, o garoto me consola e promete que vai ficar tudo bem; no outro, não corresponde aos meus esforços de aproximação. Preciso conversar com Rick sobre procurar um(a) sobrevivente que tenha exercido psiquiatria no velho mundo pra prestar atendimento ao filho com sintomas de transtorno bipolar.
— Tudo certo, cowboy — Assenti com a cabeça como se não fizesse diferença nenhuma.
E seguimos caminhos diferentes como se ainda estivéssemos no estágio inicial, naquele onde quase acabei com a minha cabeça estourada por uma bala. Por esse motivo, estranhei ao ter a sua companhia naquele momento. O que ele fazia por ali quando visivelmente me dispensara mais cedo?
— Eu vi você saindo do refeitório e decidir ver para onde estava indo. O meu pai não gosta que as pessoas fiquem do lado de fora a uma hora dessas, então ninguém saí de dentro dos blocos de noite. Por isso que às venho venho pra cá — disse Carl pensativamente. Rick era o tipo de líder, cujas ordens poucos ousariam desobedecer, embora aquela não fosse uma regra específica; era novidade seu filho estar admitindo isso pra mim — Por que ninguém mais vem. Todos preferem a segurança de paredes de concreto e grades de ferro. Às vezes desejo estar do outro lado da cerca ao invés de estar aqui. Pode me achar um louco e provavelmente eu deva parecer mesmo um, mas vivemos em um mundo louco.
Eu surtei e você é o louco. Sério, Mr. Grimes?, pensei.
— Profundamente, podia entender aquele desejo inconsciente de ser livre. De poder lidar com as consequências dos próprios atos sem pensar em como refletiriam nos outros membros do grupo; ter a possibilidade de agir quando julgasse ser a hora de agir em prol da sobrevivência. Nunca esperar a segunda ordem.
— Liberdade. Nós queremos a liberdade — disse simplesmente.
— Eu quero ser livre pra ser quem eu quero ser. E a pessoa que eu quero ser não quer ter medo de se apegar as pessoas e vê-las morrer depois.
— Por que veio até aqui, Carl? Pra me dizer essas coisas profundas e depois esfriar e agir como uma pedra de gelo? Me prometer que vai ficar tudo bem e fingir que isso não significa nada pra você? — confrontei encarando-o — Ou realmente quer a minha amizade? Por que eu acho que podemos ser amigos se dermos uma chance um pro outro.
Ele me analisou rapidamente e assentiu com a cabeça como se estivesse entendendo.
— Eu sou ousada e digo coisas sem pensar na maioria das vezes, Carl. Defendo com unhas e dentes as pessoas que eu amo. Sou sarcástica, impetulosa, impulsiva e tenho a mania de ironizar as situações sérias por que rir é mais fácil do que chorar. Tenho um lado mais sensível e emocional — disse pra ele — Mas é o que sou e terá de aceitar que essa sou eu e posso fazer o mesmo por você se quiser que nos tornemos amigos de verdade.
— Acredite, eu quero muito ser seu amigo, Mia Dixon — disse Carl com o olhar mim.
Soltei um longo suspiro, cansada.
— É bom sermos logo isso porque a sua bipolaridade já está me matando.
— Admita que brigar comigo é a parte mais interessante da sua vida monótona.
— Falou o garoto que passa dia e noite trabalhando na horta — ironizei — Pelo menos eu sempre venço as discussões.
— Só que não, garota. Acha que tem a palavra final por sair pisando duro, mas a verdade é que isso apenas prova que prefere desistir a continuar.
— Não tenho muito paciência pra panaquice e afins.
— Ei! Eu não panaca.
— Se você não é panaca, eu sou a Arlequina do Esquadrão Suicida.
Começamos a rir e fizemos mais algumas piadas e trocadilhos sobre heróis e vilões. O clima tenso se dissipou entre nós.
— Carl?
— Sim?
— Está com medo do que pode acontecer amanhã?
Ele balançou a cabeça quase imperceptível.
— Mesmo com o portão da minha cela trancado, sinto medo de que alguma coisa acabe com isso tudo — Ele olhou ao redor. Engoli seco — Mas não deixo que isso me controle. Não deixe que o medo domine você.
— Não, nunca. Eu me recuso a fazer isso.
Ficamos em silêncio por um tempo, observando o céu magnífico. Poderia dormir admirando aquela pequena parte do universo mesmo que corresse o risco de ser mordida pelas formigas do mato. Ao pensar que enfrentaria mais uma noite de insônia e possíveis pesadelos, desejei que houvesse uma forma de permanecer ali com Carl até a manhã seguinte. Mais a mente e o corpo rogavam por descanso ou não estaria alerta o suficiente e aos cacos do outro lado da cerca.
— É melhor entrarmos antes que o meu pai comece a procurar pela gente — disse Carl levantando e aquilo parecia visivelmente incomodá-lo. Ele estendeu a mão pra mim e eu a aceitei sem hesitar nem por um segundo. Caminhamos lado a lado rumo ao bloco C sem conversarmos um com o outro até o corredor deserto das nossas celas. Paramos em frente ao meu quarto e nos entreolhamos um pouco sem graça esperando que alguém dissesse alguma coisa.
— Então é isso, cowboy.
— Espero não brigar mais com você.
Dei um sorrisinho provocador e arqueei uma sobrancelha divertidamente.
— Eu não prometo nada.
Ele arqueoou outra em retribuição como que para dizer "É mesmo? Não esperaria menos de alguém como você".
— Boa noite, Carl.
— Boa noite, Mia.
Ele começou a se dirigir a cela dele enquanto o observava. Lembrei-me de algo que queria perguntar desde a manhã e num súbito ímpeto de coragem o chamei novamente.
— Carl? — Ele veio até mim — Quando me disse que ficaria tudo bem... Sim, estava agindo como uma louca tentando arrombar o arsenal e matar todos os zumbis pela frente... — Respirei profundamente — Enfim. Por que fez aquilo se não éramos amigos oficialmente e estávamos brigados?
— Por que desde que vi você pela primeira vez tive certeza de que era forte e única, uma verdadeira lutadora. O mundo não pode perder Mia Dixon — disse Carl firmemente — Eu não vou deixar isso acontecer. É uma promessa.
Não agradeci ou fiz promessas de amizade verdadeira e proteção em retribuição. Apenas lhe dei um beijo na bochecha tão rápido como um piscar de olhos e adentrei dentro da minha cela a tempo de ver o rubor que coloriu o seu rosto.
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