Diary of a Savior

9 Do Lado de Fora


Notas iniciais
Promessa é dívida, mesmo que cumprida um pouco tarde. Mais uma vez peço desculpas pelo sumiço repentino, espero que a maioria tenha visto o meu aviso e que o capítulo compense toda a espera. Eis aqui o momento que muitos esperavam e não se esqueçam de clamar pra autora o que acharam e as sugestões nos comentários que respondo com o maior carinho. Não posso de deixar de agradecer a pessoa chamada Calvin Harris. Sim, esse mesmo, o namorado da Taytay (até o dado momento desta publicação rsrsrs). Dedico o capítulo a você, Sr. Djzão, a música que você gravou com a Ellie Goulding me inspira desde o início dessa fanfic e finalmente poderia usá-la como trilha sonora sem fugir do tema. Chega de enrolação, não basta o sumiço, dona Amara? Boa leitura, caros leitores! P.S. (pra não perder o costume): Eu não me sinto psicologicamente, mentalmente, emocionalmente e fisicamente preparada pra final da sexta temporada de The Walking Dead amanhã. E se alguém que eu amo morrer pela temida lucille? Mas você sabe, vou assistir, por quê fã que é fã é só drama e drama mesmo.

Olhe o que você fez

Fica aí parado, se distanciando de mim

Quando demora demais

O fogo acaba, o que você quer ser?

Estou suportando

Só eu mesma nunca foi o bastante para mim

Devo ser muito forte

Há um poder naquilo que você faz

Agora dia a dia estarei de olho em você

Te mostrarei como é

Agora que estou do lado de fora (...)”

(Outside, Ellie Goulding)

A floresta serpenteou pela estrada deserta e esburacada ao tempo em que o sol surgia preguiçosamente no horizonte. As paisagens modificaram-se pouco a pouco como um filme em preto e branco que muda a sequência de imagens e como consequência dá vida ao atos dos personagens e criam a história em questão de segundos. Árvores esguias ou altas, frondosas ou curtas deram lugar ao matagal cada vez menos espesso e mais íngremes e as residências que surgiam em ambos os lados. O padrão ficou mais curto, e mais curto, até que a placa de um supermercado, uma mercearia, uma oficina e as casas uma pós a outra indicaram que finalmente o esquadrão suicida, opa, grupo de buscas tinham chegado ao destino.

A viagem transcorrera sem acidentes ou imprevistos, hordas de zumbis ou grupos de beira de estrada prontos para marcar território matando os invasores. Rick chegou a colocar um cd em volume baixo do Mumford and Sons — os olhos azuis estavam na genética assim como o gosto pelo rock moderno — e cantar um trecho ou outro das músicas de vez em quando, talvez para quebrar o clima de 'Caminhando para Morte — O Grande Talvez' Marshall and Dixon Pictures ou apenas pra se distrair do mundo inóspito e entediante ao volante. Era estranho pisar os pés do lado de fora sem o trá trá trá pega a metralhadora pá pá pafu pufu habitual ou o amontoado dos nossos amiguinhos mais queridos querendo fazer lanche da carne fresca chamada você. Esse é aquele momento em que o indívuo respira tanto a desgraça que a descrença é grande quando se está tudo bem, por que o normal é se ferrar e dar tudo errado, sempre. Entre resto de humanidade e zumbis, viver a vida positivamente ainda é uma barra e tanto.

— Merda — Murmurei pra mim mesma tão perdida nos próprios pensamentos que quase me assustei quando me dei conta de que o carro perdia velocidade. No modo automático, os meus olhos investigaram rapidamente as janelas em busca de sinais de problemas e peguei a arma com tanta rapidez que o coreano rá descobri a origem olhou pra mim. Glenn, o marido de Maggie Greene, estava ao meu lado separando a sobrinha de Daryl do filho de Rick. Durante o que pareceram horas de mato e mato à dentro, Carl tinha se revezado entre mexer no iPod em mecânico on ou encarar a janela vagamente como se assistisse a um filme interessante do outro lado. Ele dissera um bom dia e mesmo depois de ontem isso era um começo, vamos combinar.

— Tudo bem?

— Quase — A verdade escapou da minha boca e veio como um balde de água pra fria pra fora de um poço fundo.

Glenn deu um sorriso fraco e compreensivo, respondeu que ficaríamos todos bem ao que assenti querendo me apegar firmemente a esperança de dias melhores.

Mas isso não funciona facilmente quando os seus olhos viram coisas piores do que os pesadelos mais horríveis são capazes de registrar.

Quando o Rick estacionou o carro debaixo de um aglomerado de árvores na esquina de uma vizinhança, me certifiquei de sair do veículo ligando o modo 'sobrevivência' e encostando a porta da picape com cuidado. Não tinha visto muitos errantes no caminho até ali, mas isso não significava que uma horda não poderia aparecer do nada e começar o filme de ação. Além disso, mantive as armas prontas, embora não destravadas, considerando que era a primeira vez em muito tempo que me sentia uma verdadeira terrorista. Era consolador estar do lado de fora com uma metralhadora carregada pendurada no meu ombro, uma faca no cinto e um revolver no coldre, além dos bolsos atolados de munição. Eu era um verdadeiro arsenal ambulante, obrigada.

E antes armada até os dentes do que só com os dentes pra se defender.

— Precisamos levar gasosa pra casa. Os carros estão ficando tão secos quantos reservatórios de água — disse tio Daryl com uma flecha engatada na besta, pronta, embora a área estivesse limpa.Muros estendiam-se pela rua altos demais para uma escalada, eliminando a praticidade da entrada pelos quintais das casas facilitação de missão que é bom nada— Tem alguns postos de gasolina ao sul daqui. Podemos passar por lá, encher alguns galões de gasolina e fazer o contorno na volta, cortando caminho pela principal.

— Nossa prioridade são os suprimentos. Depois veremos o que mais podemos fazer — decidiu Rick segurando um martelo afiado numa mão e quatro mochilas vazias na outra — Agora vamos nos dividir e vasculhar essas casas. Elas são grandes e podem ter errantes escondidos, fora que pedir socorro pros outros seria mais complicado sem os walk-talkies, então melhor dois juntos do que um só. Saímos em duplas e combinamos um ponto de encontro.

— Pai, posso ir com a Mia? — interrompeu Carl me pegando de surpresa. O clima não estava mais pesado e estranho entre nós dois e tínhamos até feito as pazes de novo, chutem nos comentários por quantos capítulos o acordo irá durar, mas a iniciativa do cowboy foi tão inesperada quanto o apocalipse zumbi.

O olhar do Rick alternou entre eu e o filho, a apreensão estampada em seu rosto. Era visível que preferia manter Carl por perto e garantir pessoalmente sua segurança do que deixá-lo se aventurar sozinho com outra pessoa nada pessoal, mas cadê a confiança?. Pela primeira vez, Daryl me olhou por alguns segundos, a cara feia demonstrando falta de total apoio a ideia.

Rick deu um suspiro e deu o veredicto como se agisse contra a própria vontade:

— Tudo bem, mas tenham cuidado e não atirem a não ser que seja realmente necessário. Um tiro sem querer e uma horda aparece em questão de minutos — avisou Rick. E ali estava a liderança que inspirava respeito na prisão combinada as ordens claras de um homem anteriormente servidor da lei. Não é por nada não, mas vê-lo com raiva ou receber ameaças não deveria ser exatamente a visão do paraíso. Rick jogou uma dos mochilas para o filho — Não vão pra muito longe. Esperem por perto da mercearia no cruzamento. E, especialmente você, Carl, não faça nada de imprudente e idiota.

Nós assentimos e começamos a andar pela rua deserta e inabitada, contornando para a frente do condomínio de luxo com os facões amolados nas mãos. Nenhum errante passeava, mancava ou se reunia com outros da mesma espécie pelas proximidades, o que era uma deixa em tanto numa cidade de médio porte. Talvez por saber tanto quanto eu que os outros três nos vigiariam ou por estarmos concentrados demais na missão não trocamos palavras até os devidos passos terem sido dados. Primeiro, observar a propriedade de um local estratégico e certificar de que não há visitantes — vulgo prováveis inimigos — pela residência. Segundo, invadir como um tanque de guerra pronto a disparar ao qualquer sinal de perigo. Terceiro, pegar o que tem de pegar, fazer o que tem de fazer e cair fora o mais rápido possível e de preferência para um lugar seguro, do tipo com muros, cercas e paredes de concreto.

Se não fosse por essa merda toda teria seguido com sucesso a carreira no exército, na agência de inteligência internacional do pentágono ou como atriz de um dos CSI's.

Carl arqueou as sobrancelha como se tivesse o surpreendido completamente quando terminei de contar o meu protocolo militante-invasivo e não questionou a minha sugestão e usar como esconderijo uma cerca viva.

— Com quem aprendeu tudo isso?

— Meu pai. Ele era um membro ativo do exército antes da mamãe engravidar e passou anos sobrevivendo no meio do deserto. Quando essa porcaria começou, virei um membro do seu treinamento particular — O meu olhar perdido denunciou a nostalgia — E mesmo assim não aprendi metade das coisas que o papai sabia.

— Não é simplesmente por ser a sobrinha do Daryl Dixon, não, é muito mais do que isso. As pessoas olham pra você com admiração e respeito por ser uma verdadeira sobrevivente. Seu pai deve ter sido um homem incrível.

Dei um sorriso sincero e, em uma atitude extremamente rara, Carl retribuiu. Eu amava a capacidade que algumas pessoas tinham de sorrir com os lábios e ao mesmo tempo com os olhos de forma genuína e Carl Grimes era uma dessas pessoas. Ali, entre uma cerca viva e um muro, o mundo ganhou mais sentido e a vontade de viver mais força, por que simplesmente a felicidade me veio ao constatar um fato desconhecido desde a minha chegada a prisão: tinha valido a pena passar por todos os maus bocados e respirar pra ver a cor daqueles olhos e o brilho daquele sorriso. Dei um suspiro como se procurando e procurando as palavras certas, mas não devo ter encontrado, uma vez que soltei algo que não diria nem a pau a um garoto.

— É um crime alguém ter olhos tão bonitos e mesmo assim ser tão panaca. Pra quê você precisa desses olhos, garoto?

Carl deu dois passos na minha direção e os nossos rostos ficaram tão próximos que quase podia respirar um ao outro. Uma sensação estranha e engraçada dançou no meu estômago combinado a um nervosismo repentino e sem explicação. Ficamos cada vez mais próximos, e mais próximos. O meu coração batia tão forte que me perguntei se o garoto não poderia estar ouvindo as pancadas no meu peito.

— Mia? — Era quase como se estivesse pedindo permissão.

— Na dúvida, siga os seus instintos sem pensar duas vezes.

Os meus instintos me disseram que era é a oportunidade de prosseguir, hora de agir e acabar de uma vez com isso.

Por isso, corri furtivamente pela rua como nos velhos tempos, com a faca numa mão e o revolver na outra, os sentidos alertas e pronta para agir ao menor sinal de movimento. A rua está silenciosa, as casas possuem o terrível ar de abandono e solidão; algumas ainda carregam os sinais da fuga de seus antigos moradores. Talvez, no fim, o mundo todo tivesse a mesma aparência de desolação e declínio pela ausência da maioria da humanidade.

Paramos na soleira de uma casa com uma bicicleta rosa enferrujada e suja jogada no jardim da frente. Quando eu tinha cinco anos, ganhei uma roxa no meu aniversário; ela tinha rodinhas e uma cestinha na frente onde levei as minhas bonecas pra passear por vários anos. Levaria aquela para as crianças da prisão se a prioridade não fosse os nossos estômagos vazios.

— Mas que droga! Está trancada por dentro! — disse ele tentando abrir a porta com urgência. Incomodava-o ficar do lado de fora exposto tanto quanto eu — Eu disse que não era uma boa ideia tentar entrar pela frente. É óbvio que ninguém deixaria...

— Você perde tempo demais falando, quando poderia pensar mais rápido. Me dá cobertura, deixa que eu faço isso — Guardo a arma no coldre e pego um canivete dentro do bolso da calça. Com apenas alguns movimentos rápidos, ouço o trinco destravar com um estalo baixo e um sorrisinho vitorioso surge em meus lábios. Ainda bem que o papai me ensinou a usar essa belezinha — Pronto.

Ele bufou. Peguei o meu revolver novamente e destravei.

— Podíamos ter poupado tempo e entrado por uma das janelas.

— De nada.

— Deixa que eu vou na frente. Sua vez de me dar cobertura, Dixon.

Carl abandonou o posto de guarda e tomou a dianteira com a arma empunhada. O silêncio apenas serviu para aumentar a tensão e, por alguns segundos, nem me atrevi a respirar até que a porta fosse escancarada com um estrépido e visse que a barra estava mesmo limpa. Nós dois entramos e apenas quando encosto a porta novamente, o metido a major solta um suspiro e abaixa o revolver.

— Olha isso aqui — Ele indica com a cabeça as marcas de sangue seco no tapete e no piso de mogno. A casa está inteiramente arrumada e intacta, exceto por aquele detalhe; as cortinas de tecido branco e fino que cobrem as janelas ainda conservam a boa aparência de cuidado e limpeza e as paredes estão repletas de fotos da família que morava ali. Todas as vezes que paro numa residência contemplo essas relíquias como um pedido de desculpas pela invasão e homenagem as pessoas que provavelmente estão mortas ou zumbificadas por aí; Mas é claro que isso não será possível na companhia de Mr. Carl. E então, como se tivesse acordado de um sonho para vida real, distinguo as formas grotescas de um S no meio da poça ressecada — Vamos subir as escadas e vasculhar logo o andar de cima.

Mia, você não pode. Não pode salvar a si mesma e as pessoas que ama. Quando chegar a hora, terá de fazer uma escolha. Eles estão chegando.

— Mia?

Eles estão chegando.

Flashback On

Era uma vez duas melhores amigas feito unha e carne que apoiavam e cuidavam uma da outra como se fossem do mesmo sangue, transformando o evento apocalíptico em um drama menos sem graça e sofrido do que realmente era. Lindo, não é?

Só que não. Sempre esquecem de acrescentar a parte em que às vezes você tem que suportar a outra pessoa pra não esganá-la até cuspir as tripas pela boca. E que, não raramente, ocultar verdades podem ser fatal para uma amizade saudável.

— Mia, não adianta ficar com essa cara de quem comeu e não gostou que isso não funciona comigo. Eu sou a sua melhor amiga e não aceito que você, logo você, Milena Marshall, vai ficar com a bunda colada aí sem fazer nada.

Kate cruzou os braços com aquela expressão que finge estar zangada demais com você, como se a sua atitude fosse uma das maldições imperdoáveis dignas do beijo do dementador. Os cabelos loiros platinados tecidos numa trança lateral realçavam a tentativa de uma postura impassiva e teria funcionado se não conhecesse os dramas excepcionais de Katelyn Evan.

Revirei os olhos e ignorei a introdução do show que começaria naquela hora.

— Não finge que não está me escutando, não. Eu vou gritar bem alto, mais tão alto, que os errantes de Nova York a Atlanta vão me escutar e vir comer essa sua carne podre de vaca e a minha de vadia! Então começa a gritar comigo de volta de uma vez, Mia!

Ele vai morrer, pensei.

— Liam não mata nem passarinho e você vai perder a chance de ficar com ele, só por quê ele está triste o suficiente pra se arriscar numa missão suicida. Ele acha que é forte, corajoso e esperto, o verdadeiro Bruce Wayne do fim do mundo, mas é um babacão e ele gosta de você — Ela gesticulava freneticamente — Não deixa ele fazer isso. O cara pode ser o amor da sua vida. Qual é a probabilidade de alguém ter metade da sua sorte quando o mundo todo virou canibal?

Soltei uma risada por que era ridículo, muito ridículo. Eu, Milena Marshall, encontrando o amor da minha vida no meio do apocalipse e apaixonada por Liam Hunt? E, além disso, eu sabia. Sabia o que Kate não queria me contar e fingia não saber por que a minha melhor amiga não queria admitir.

— Eu não posso ditar o que ele deve ou não fazer — Encostei na árvore e balancei a cabeça como se negasse alguma coisa. Estava preocupada com o garoto que havia se tornado um grande amigo, que não era um lutador e estava sofrendo demais com a morte trágica do irmão mais novo. E, numa tentativa impensada de provar qualquer coisa, tinha se oferecido pra resgatar estranhos com um grupo de buscas numa metrópole infestada de errantes.

— Você é a melhor amiga dele, a única pessoa que restou que o cara ama. Até quando vai deixar que as pessoas decidam ir embora da sua vida sem mais nem menos? É assim que as pessoas morrem. Você virou uma iceberg, Milena. Ele sabe que vai morrer e só está fazendo isso por causa do próprio sofrimento!

A amizade significa perdoar os erros dos outros quando é necessário e enxergar o que há de melhor em sua personalidade. Mas o emocional abalado de alguém que acaba de perder a própria mãe tragicamente não fica muito melhor depois de ouvir que deixa as pessoa irem embora da vida por não lutar por elas. O meu primeiro erro naquele dia foi levar ao pé da letra a frase da minha amiga e estourar a tristeza, raiva e a revolta como uma bomba cronometrada.

— Acha mesmo que eu não sei? Que se fingisse que não sente nada eu não iria perceber o quanto está apaixonada por ele? — Balancei a cabeça negativamente como se não acreditasse que aquilo estava acontecendo. Os olhos dela se arregalaram e o rosto empalideceu como se estivesse prestes a desmaiar — Pare de agir como uma vadia sabe-tudo e como se se importasse com alguma coisa além do seu pescoço ou massagear o seu ego. Você não quer que eu o convença a ficar por ser amiga dele, mas por quê quer fazer com que ele corra trás de você como um cachorrinho como todos os outros.

— Mia...

— Não sabe como é tentar fechar os olhos todos os dias e reviver a cena da decapitação dela sem poder fazer nada — Vociferei e as lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto — Eu lutei pelo papai, pela mamãe e vinguei a morte de todos os dois. Eu arrisquei o meu pescoço procurando comida e matando um por um pra que pessoas como você continuassem com o seu inteiro. Só está viva por sorte e pela existência de gente como Liam e eu.

O segundo erro foi me distrair o suficiente pra não perceber que alguém havia se aproximado de nós quando deveria vigiar o acampamento com olhos atentos. O tiro ecoou no acampamento vazio e perfurou a testa de Kate deixando sem ação ou emoção. O terceiro erro foi ter poupado a vida de seu assassino tempos antes quando poderia tê-lo matado sem dificuldades.

Nunca deixei de pensar que tudo aconteceu como num jogo de dominó em que peça rente peça derruba uma por outra até que todas estejam caídas. Eu poupei a garota da morte, descumprir o meu dever de vigilância e Emmelyn disparou aquele tiro.

Eu matei minha melhor amiga.

Flashback Off

Eles estão chegando. Sentia que uma ameaça se aproximava rapidamente e não pouparia esforços pra dizimá-la antes que fosse vítima novamente do efeito borboleta. É difícil conviver com a morte da sua melhor amiga quando se julga ter uma parcela de culpa.

— Mia? — A voz de Carl me arrancou do mundo das lembranças.

— Hum? — Fingi que não tinha viajado na maionese.

— Tudo bem?

— Você vasculhar a sala e a cozinha e eu fico com o andar de cima. Não podemos perder tempo em um único lugar — Destravei a arma e comecei a andar.

— Espera!

— Não, vamos subir. Você não tá bem.

Ignorei. Alguém puxou o meu braço.

— Mia!

— Desde quando é você quem dá as ordens? — perguntei rispidamente.

No fim das contas a paz não durou nem metade um capítulo. Quem aí acertou?

Merda. Carl parou no meio da escadaria.

— Eu pedi pro meu pai pra você ficar comigo, então te quero perto de mim, entendeu? Pode não ter ninguém nessa casa, ninguém nessa vizinhança, mas precisamos ficar perto um do outro pra caso aconteça alguma coisa. Juntos temos mais chances de sobreviver do que separados. E, quando voltarmos pra casa e estivermos seguros, pode gritar comigo o quanto quiser — Okay, quem está se sentindo mal agora sou eu. Dei um suspiro me sentindo uma pilha de nervos — É isso o que os amigos fazem: protegem e cuidam um do outro. Não estou te dando ordens, Mia.

O silêncio que pairou entre nós apenas acentuou o peso na minha consciência gradativamente. Era a segunda vez que o cowboy me surpreendia com provas de que o lance da amizade entre nós era pra valer e o que é que Mia Dixon faz? Age como uma babaca paranoica prestes a surtar geral. Eu precisava aliviar a barra e abandonar o orgulho se quisesse colaborar com o filho do Rick. Quando chegamos ao quarto de Julio — todos tinham nomes escritos em plaquinhas penduradas nas portas: John e Jessica, Joanne, Jane e Julio (nota para a criatividade pra nomes com uma única letra) e a mochila pesava com os suprimentos para Judith e roupas de frio para as crianças, decidir que não valia pena agir como se a culpa só daquela vez não fosse minha.

O garoto tirava uma maleta de primeiros socorros do armário, a mina de ouro no mundo em que vivíamos.

— Me desculpe, Carl. Eu...

Por um momento, pensei que me ignoraria completamente, mas depositou o utensílio em cima da cama e virou pra mim.

— É difícil ignorar todos átomos do seu corpo dizendo que algo muito ruim irá acontecer quando "S"s desenhados com sangue aparecem em placas, paredes e na testa de errantes. Estamos no meio do apocalipse, perdemos as pessoas que amamos das formas horríveis, mas mesmo assim nem o pior dos pesadelos consegue ser mais horroroso do que isso tudo. Eu me deparo com alguém que trato com piedade e a pessoa mata alguém que amo tempos depois. A ameça pode ser contida quando descoberta no estágio inicial — Respirou fundo. Os olhos de Carl estavam fixos nos meus — Não sou o tipo de pessoa que acredita em pressentimentos e pode parecer loucura, mas o mundo em que vivemos é que é louco.

— Eu também acho que pode ser uma ameaça, mas não sabemos quem é ou onde está.

— Vamos esperar que venham até nós e acabem com tudo?

— Iremos lutar até que não reste mais nada. E quando o nada for o que sobrar, nos ergueremos das cinzas e seremos fortes juntos de novo.

Tomei a iniciativa de abraçá-lo por que Carl era primeira pessoa em muito tempo que me dava esperança de continuar sobrevivendo todos os dias. Que me fazia acreditar que a luta era árdua e desesperada, a vitória incerta e o caminho cheio de perdas, mas a união era o que sustentava cada batalha da vida. Lutar, por acaso, era um efeito colateral de estar respirando. O aconchego dos braços dele parecia crescer a cada segundo, duas, cinco, dez vezes mais e desejei que não precisasse largá-lo nunca mais, enquanto sentisse o medo e os pressentimentos evocassem as lembranças e os pensamentos ruins.

O abraço do filho do Rick era melhor do chocolate e olha que eu sou chocólatra assumida, mas era o lado de fora e o lado de fora é o lado de fora. Vocês são inteligentes, vão me entender.

Será que o garoto podia sentir o quanto o meu coração estava estranhamente acelerado de novo?

— Espera — Carl pediu quando fiz menção de soltá-lo — Me conte alguma história da sua vida que te deixa feliz toda vez que lembra dela.

— Por quê?

— Conta, garota.

— Seu panaca. Quando eu tinha sete anos torci o tornozelo durante o espetáculo de balé do meu grupo de teatro e chorei rios no camarim por que aquele era o meu primeiro grande dia de bailarina. O papai e a mamãe não sabiam mais o que fazer pra que eu parasse de chorar tanto — Sorri a lembrança de um vestido branco cintilante e os meus pais repetindo o quanto me amavam e continuava sendo uma bailarina incrível — Então meu pai disse pra mamãe que sabia o que me faria me sentir melhor. Ele me carregou até um shopping e me levou na lanchonete Bob's, comprou um mini sundae de morango e colocou com a colherinha na minha boca até terminar. Quando o meu sundae acabou, não chorava mais e me sentia bem melhor. Era o meu primeiro de muitos mini sundaes do Bob's.

— Está definitivamente comprovado que doces melhoram o humor feminino.

— Vai me dizer que não ama chocolate? Ou escolheria um mini sundae?

Olhei-o nos olhos. Azul é uma cor quente.

— Na dúvida, sigo os meus instintos sem pensar duas vezes.

Talvez fosse a proximidade entre os nossos rostos, ou quem sabe o clima de confraternização de amizade — de novo- ou simplesmente se tornou insuportável demais respirarmos o mesmo ar a uma distância tão mínima. Era como se o tempo passasse em câmera lenta e tudo o que existisse fosse Carl Grimes e a sua boca a minha frente. A sensação de bailarinas rodopiando no meu estómago foi algo totalmente incomum e inesperado. Descobri que os livros e filmes não chegam nem perto de descrever o turbilhão de sentimentos que o famoso boca a boca produz nas pessoas envolvidas.

Os lábios de Carl eram macios e doces e o beijo foi calmo e leve como se explorássemos novos horizontes e alçássemos uma aventura no desconhecido.

Era o meu primeiro beijo, numa hora errada é verdade, mas guardaria na memória que o momento não poderia ter sido mais improvável, mais estranho, mais perfeito. Na verdade, na teoria das probabilidades da vida de Mia Dixon, beijar um garoto não ocupava nem o último lugar da lista. E aconteceu só pra o universo provar que mais uma idiota não consegue desafiar as leis naturais do diga uma coisa e provo o contrário.

Poucos segundos devem ter se passado naquele nosso momento. O barulho dos tiros começou pouco tempo depois.

Notas finais
Não esqueci a parte em que prometi mais suspense e ação. É por quê quem é escritor vai entender o que digo: a inspiração vem e quando nos damos conta... Capítulo longo e o medo de ficar massivo bate. Mas o próximo será uma continuação direta desse, então... vocês podem imaginar. Até mais. Milhões de abraços.