Diary of a Savior
10 Resgate
Notas iniciais
“Sou uma durona, pulando do trem em movimento
Sou Jane Bond, deixando todos os caras envergonhados
Sou um curinga, e vou roubar o seu jogo
É melhor tomar cuidado...”
(Fire Starter, Demi Lovato)
Querido Diário,
A repetição do barulho dos disparos distantes confirmaram os nossos medos conjuntos e temores imagináveis. Era impossível não distinguir a sequência de tiros das metralhadoras e os solos de armas extravasarem pelo ar a distâncias mínimas demais de onde estávamos. Pelos meus cálculos, não demoraria para que errantes e mais errantes aparecessem pelas próximas horas e quando pensássemos em fugir estaríamos mortos, seja baleados ou comidos (nesse sentido não, naquele seus maldosos). Aquele era o sinal de que algo havia dado errado e a contagem regressiva tinha terminado dando início aos jogos vorazes. O perigo é real e as suas possibilidades de iminência altas, mas a gente sempre torce pra que aconteça o melhor e, no fim das contas, tem de lidar com aquilo que recebe.
Carl e eu juntos, dois adolescentes sem supervisão adulta, perdidos nas delimitações de uma guerra que teve início nas buscas por suprimentos em um antigo condomínio de luxo. Mas que maravilha, essa é uma ótima maneira de descarregar as emoções depois do seu primeiro beijo com um garoto. E o momento ideal para agradecer por ser tão porra louca ou molharia as calças de tanto medo.
O olhar que troquei com Carl valia mais do que mil palavras. Seria arriscar as nossas vidas no meio de um tiroteio ou se esconder como crianças amedrontadas pelos montros de outro mundo. Pode parecer insanidade da minha parte, e na verdade é, mas escolhi a primeira opção sem pensar que a minha hora talvez pudesse estar chegando.
— Não — Carl balançou a cabeça negando o que estava acontecendo. O garoto correu para fora do quarto e não tive outra escolha a não ser seguí-lo escada abaixo, dessa vez trocando o revolver pela metralhadora pendurada no ombro. Pulei os últimos degraus e só quando estava com a mão na maçaneta ele parou — Você fica aqui.
— O quê?! — Não, eu tinha certeza de que não tinha ouvido aquilo.
— Um de nós tem que ficar. Se estiverem encurralados ou formos pegos não vai haver uma saída tão fácil. Não vai ter resgate, por que as pessoas da prisão não vão saber onde procurar e nem se estamos vivos. Alguém tem que ficar e se certificar de que teremos uma vantagem — explicou Carl — Acredite, Mia: eu sei que não é apenas uma horda que apareceu do nada.
— De jeito nenhum, Carl. Os outros estão lá fora trocando tiros com os visitantes ou matando dezenas de zumbis sozinhos e precisam de ajuda. Eu não posso simplesmente ficar aqui sentada sem saber o que tá acontecendo!
— Mia, eu conheço o meu pai melhor do que ninguém. Se um milhão de zumbis aparecessem, ele enfrentaria tantos quanto conseguisse, mas não usaria as armas até que fosse realmente necessário e não tivesse uma outra opção. São pessoas — Afirmou — São pessoas ruins e você será o nosso trunfo, a carta branca do baralho. Estou pedindo, por favor, que fique aqui e, se demorar muito pra aparecer um de nós, faça o que já provou que sabe fazer muito bem. Sobreviva e nos resgate.
O nosso trunfo, a carta branca do baralho. Eu poderia listar todos os prós de acompanhá-lo no fogo cruzado e os contras de ficar escondida dentro de uma casa, enquanto outros arriscavam a vida do lado de fora contra sabe-se lá o quê. Mas a experiência provava o quanto ter um plano B C, D e assim sucessivamente era melhor do que arriscar todas as possibilidades de uma única vez. Não deixei de pensar que talvez Carl pudesse estar querendo me proteger de um banho de sangue, e em outras circunstâncias vomitaria arco-irís e cuspiria nuvens coloridas por causa disso, se não fosse os sentimentos de impotência e raiva que tomassem conta de mim por completo. Não era contra Carl, mas com a minha tendência nata a atrair desgraças as pessoas. Por isso, cruzando os braços, mandei a real realíssima:
— Eu aceito, mas vamos deixar algumas coisas bem claras. Eu não fujo de brigas, não tenho medo de levar um tiro, sei me defender sozinha e não recebo ordens suas.
Carl me olhou com uma careta impagável de céus, essa garota é muito cabeçuda, mas ao invés de revidar apenas se concentrou em observar a movimentação pela janela.
— Se demorar muito tempo pra algum de nós aparecer dê um jeito de nos encontrar. Se caso conseguirmos dar o nosso jeito, voltamos pra buscar você — Ele empunhou a metralhadora e virou pra mim. Aí a pessoa acaba de dizer que não recebe ordens sua e você usa os verbos no imperativo mesmo assim. Ta serto— Não saia daqui a não ser que seja realmente necessário.
— Okay.
Por alguns segundos, nos encaramos em silêncio como se as palavras inevitáveis pudessem ser ditas daquele jeito, apenas com o olhar. Três dias de discussões, brigas infantis e surtos psicóticos e estava com medo de que Mr. Grimes se machucasse, ou levasse um tiro, ou morresse pelas mãos de humanos ou pelas bocas de zumbis. Era impossível não estranhar que era pouco tempo para sentir todas essas coisas por alguém que quase matei sem querer e possuía um relacionamento conturbado demais pra uma medida considerável de apego. Não que eu fosse chorar, ficar de joelhos e implorar que ele ficasse por favor, pelo céus e pela terra, e todo aquele blá blá blá sentimental que não se aplica a garotas que sabem o que querem como eu. Era só que... Merda, aquela não podia ser a última vez, não ainda.
E é vivendo a vida que se aprende uma das lições mais difíceis da condição humana: não se pode imortalizar as pessoas só por que não quer que elas morram e faça com que tenha de aprender a viver sem elas. E, é claro, não podemos nos esquecer do beijo. Descobriria algum dia o seu significado ou tudo acabava ali sem mais e nem menos?
— Eu proíbo você de morrer. Mate eles, mate todos eles sem pensar duas vezes, mas não morra, por favor — Tentei dizer com o máximo de seriedade e insensibilidade possível e como se não significasse nada. Amaldiçoeei silenciosamente por ser quem eu sou e por sentir o que sentia: ou Carl vazava ou iria começar a chorar como uma criança que ralou o joelho andando de bicicleta — É uma ordem, cowboy.
— Estranharia se fosse o contrário. Eu não pretendo deixar você ainda, por um bom tempo.
Aconteceu em uma fração de centésimos. Grimes deu um passo na minha direção e, ai que droga, perdi o foco na extensão do azul daqueles olhos se aproximando de ninguém menos que eu. Um raio de dúvida passou em seu rosto e quem sabe um pensamento ruim tenha sido o culpado da desistência pelo que estaria por vir. Não pensava que ver o garoto partindo sem despedidas demoradas ou que o barulho da porta sendo batida sem saber se era o adeus doeria tanto. Qual foi a do meu coração que acelerou quando Carlos fez menção de se aproximar da pequena assassina em série?. Mergulhada nos meus próprios sentimentos de estou sozinha novamente e o panaca nem disse tchau, devo ter demorado alguns minutos olhando pro nada sem saber como agir, como pensar, como enfrentar. Queria escancarar a porta e correr pela rua e metralhar os idiotas que tiravam as chances de respirar em um lugar seguro e me faziam questionar se aquele lugar e os sobreviventes eram reais ou fruto da minha imaginação. Mia, Mia, morra de bala ou de mordida, mas não morra pirada.
— Quando não souber o que fazer e achar que não há mais nada a ser feito, apenas lute. Lute com todas as suas forças fingindo que se não o fizer será o fim do fim do mundo — dissera Beth no café da manhã.
As palavras da minha mais nova amiga ecoaram na cabeça pelo que pareceu uma pequena eternidade em que os membros do meu corpo ficaram parados olhando pela janelas do sótão a rua desértica e inabitada. A adrenalidade já acelerava a minha respiração tornado-a quase insuportável e o ataque repentino de claustrofobia sem sentido começou a me deixar demasiadamente aérea para estar ligada aos acontecimentos do outro lado. Carl pedira que ficasse na plateia quando era visível que eu era capaz de ser uma das protagonistas do espetáculo.
Dei ouvidos a tiros e mais tiros sendo disparados até que me perguntasse por quanto tempo mais duraria a munição que não era infinita nos bolsos de ninguém. O combate desceria de nível ao corpo a corpo se sobrasse inimigos respirando e então a horda aparecia e à medida que centésimos, milésimos, segundos e minutos se arrastavam como uma tartaruga me perguntava se era o momento de participar do show. Até que a ordem dos fatores se inverteram, mas não mudariam em nada o produto final.
Um, dois, cinco, dez, quinze errantes apontaram na esquina oposta a que o garoto tinha sumido e pouco à pouco formava-se a multidão de infectados. Era o meu agora ou nunca, uma vez que seria ou ficar ali pelo tempo que migrassem ou fugir para sabe se lá onde e não ficar encurralada onde os outros não pudessem me encontrar.
Os tiroteio parou. Corri sem olhar pra trás. Corri pelo corredor, pelas escadas, pelo jardim da frente e por fim pela rua com a bicharada agitando-se e grunhindo à visão da carne fresca desfilando. De nada adiantaria virar e atirar quando a quantidade era maior do que a soma das minhas balas multiplicados por três. Seria burrisse e uma atitude impensada demais para uma pessoa que correu de tantas hordas de andarilhos na vida. Sorte a minha ter vencido um campeonato estadual antes disso tudo. Logo, quando virei a esquina ainda tinha metros de vantagem sobre eles.
Nada de Carl, Glenn, Rick ou Daryl. Não conseguia imaginar nenhum dos quatro me deixando para trás, principalmente Carl ou mesmo o meu tio que parecia me odiar, mas quando os meus olhos não avistaram nenhum deles, hesitei.
Iria dobrar outra esquina e cometer o erro que poderia ter matado a todos nós, mas refreei os passos tempo suficiente ao ouvir uma voz desconhecida. Pulei o cercada da casa da esquina tomando cuidado para não fazer barulho e caminhei rente a parede pra ouvir melhor a conversa de sabe se lá quem sem ser pega em flagrante.
— Acho que descobri quem é o líder, no fim das contas. Tem essa coisa de liderar que destaca uma pessoa no meio das demais e é um pouco chato quando descobrem a gente, sabe? A primeira pessoa que matam somos nós e se tivermos feito merda pode acontecer muito pior do que apenas a morte. Ela é um ato de misericórdia — disse com uma calma psicopata — O que você acha de morrer, Rick? Não demore de responder. Estou ouvindo o barulho da hora vindo pra cá e quero que vocês tenham uma morte rápida.
— Acho que você irá prová-la muito em breve. E então saberá se o que dizem por aí sobre morrer é mesmo verdade — Era uma afronta. Uma afronta ousada, mas aquele era Rick Grimes.
Preciso fazer alguma coisa, pensei. Pensa pensa pensa pensa!
Uma escada a minha direita que subia pro telhado da residência me deu uma ideia brilhante. Se eles estavam encurralados, então não havia apenas um inimigo ameaçando-os. Se os inimigos estavam ameaçaundo, viriam assim que eu apontasse na esquina e atirariam em mim sem pensar duas vezes. Mas, do alto e em silêncio, poderia mirar de um bom ângulo e matar sem correr o risco de morta ou provocar a morte dos meus companheiros, desde que não errasse a pontaria. Falem que a inteligência de Mia Dixon é fenomenal, por favor.
Uma risada soou gélida pelo ambiente. Eu já estou indo te pegar, psicopata, pensei. Ajeitei a metralhadora no ombro e comecei a escalada com o suor escorrendo pela testa e pensando que se sobrevivêssemos mataria Mr. Grimes por me colocar numa situação tão inusitada de resgate.
Um. Dois. Três. Quatro.
— Corajoso, Rick. Idiota, mas corajoso. Como pessoas civilizadas e sobreviventes, façamos um acordo em que ambos os lados saem ganhando: escolho você pra ser a pessoa a contar onde moram e o que sabem sobre esses "S"s que aparecem pixados com sangue por aí. Se demorar demais, arranco o coração do seu amigo e salvo sua a vida apenas para obrigá-lo a comê-lo — Oito. Nove. Esse cara me dá nojo. Dez. Por que uma casa precisa ser tão alta? — Se não falar tudo o que precisamos saber, mandarei que os meus homens estuprem o seu filho até vê-lo sangrar. Se recusar a falar, corto a garganta do japonês e o garoto vai beber o sangue ou terá a garganta cortada também.
As minhas mãos soaram ao imaginar as cenas da tortura e, por um triz, quase estraguei o plano vomitando de lá de cima ou escorregando. Pensei que aquele cara seria o primeiro que estouraria os miolos quando pisasse os pés no telhado.
Quinze. Dezesseis.
— Podemos resolver isso fora daqui. Quando os errantes se amotoarem por esse lugar não vai conseguir sair — disse Rick com urgência. Dezessete. Era o medo de um homem autoritário em ação, o medo de perder as pessoas que amava. Dezoito.
— Não, não faça isso! Não precisa ser assim! — Faltam quatro. Era a voz desesperada de Glenn.
— Cinco segundos pra largarem a putaria e responderem as minhas dúvidas — Três. Os zumbis estão se aproximando, rápido — Cinco.
O degrau se rompeu com um estrondo e desci pro degrau inferior por pouco não caindo no chão lá em baixo.
— Tem alguém aí do lado — disse uma voz feminina e juvenil. Meu coração deu verdadeiro saltos mortais dentro do peito, as pernas bambearam terminando o percurso o rapidamente. O tempo estava esgotado e não havia como pensar mais, só agir e mandar ver naquela merda — Cuidado, Eliott!
Descarreguei a metralhadora naquele cara repudiante e nos comparsas em considerável número tomando o cuidado de não matar um dos meus sem querer. Miolos estouraram e o recomeçou o banho de sangue dessa vez por uma pequena assassina em série no telhado de uma casa. Meus olhos vasculharam rapidamente o local e procurei pela pessoas mais improvável que pensaria em um momento crucial de riscos. Onde estaria o Daryl?
Pá, pá, pá, pá. Uma, duas, três telhas estouraram perto demais de onde estava para ser outra coisa que não fosse alguém atirando em mim. Levantei o mais rápido que pude aos trancos e escorregões e andei pelo telhado com os tiros acertando as telhas perto dos meus pés. Meu palpite era que a vadia que me denunciara era quem estava errando as balas, uma vez que não me lembrava de tê-la apagado no meio do meu genocídio calculado. Acabei escorrendo pelo lado do telhado e caindo do outro lado... Aquele seria o meu fim trágico quebrando o esqueleto inteiro ao cair no chão, mas sorte que piscina no quintal da casa amorteceu a queda. Os meus órgãos, por lado, deviam estar estourados por dentro.
Engoli água o suficiente pra sair da água tonta e esgotada. Uma garota de cabelos negros corria na minha direção com a ferocidade estampada no rosto e comprimindo um sangramento do lado direito do abdômen com uma mão. Ouvi o barulho do tiroteio recomeçar do outro lado e entendi que o meu esforço não tinha colocado o fim ao combate entre grupos inimigos.
Não, seria fácil demais.
Procurei pela minha metralhadora e a avistei perto da piscina, perto da minha inimiga, perdida no momento da queda na água. Quando ela a pegou, não restava outra saída a não ser fugir desarmada torcendo pra que ela fosse tão ruim em terra plana quanto era atirando pro alto.
Pulei a cerca com tudo ouvindo barulhos dos tiros ricocheteando atrás de mim, amaldiçoando e agradecendo ao mesmo tempo por nem todas as residências serem muradas; poderia não conseguir escalar e ser estourada no meio do caminho, assim como pular e salvar a minha vida mais rápido. Corri em zigue-zague o mais rápido que pude terreno florestado à dentro, o braço ardendo e sangrando sem saber aonde tinha me cortato, até que os tiros cessassem atrás de mim e a garota continuasse reunindo forças pra continuar na saga vou matar você. Como em todo filme de suspense e terror, tropecei em alguma coisa e caí outra vez, dessa lascando a testa ao bater com força a cuca numa árvore que materializou do nada.
E foi aí que o corpo a corpo começou, Diário. Entre tapas, socos, xingamentos e quase asfixiamentos, a garota acabou com uma faca cravada no olho que quase sufocada lembrei que estava no meu cinto. Passou perto, muito perto.
Mas a ação não acabou aí, por que os zumbis vieram em uma quantidade maior do que qualquer um seria capaz de contar. Novamente, a corrida foi a saída e a estrada foi um lugar onde parei.
Nos momentos que julgamos ser os finais de nossas vidas, aqueles em que os sentimentos de terror e suspense se misturam como os componentes do ar, qual é o nosso primeiro pensamento? Uma lembrança, um lugar, um nome? A esperança aliada a descrença de que o fim não está, de fato, se aproxima? Ou a certeza de que não importando o que aconteça e mesmo que a vitória não seja certa, sobreviver significa lutar até o último suspiro? A teoria de que a sua vida inteira passa diante dos seus olhos quando a morte se aproxima não é inteiramente verdadeira ou inteiramente falsa. O meio-termo é a opção que melhor descreve as sensaçãos invasivas e intensas. Sei disso por quê estou vendo novamente o papai andando na minha direção como se uma força superior lhe tivesse devolvido a vida, mas isso não, não é real. É uma memória antiga de um passado antigo que não voltará nunca mais. O que me convence da irrealidade da situação é o barulho inconfundível e irregular atrás de mim e o som dos meus batimentos mais pra pancadas acelerados pulsando nos ouvidos. Se a morte é como um sono profundo, é possível que esses sejam os meus pesadelos anteriores em vida?
Agora consigo entender o que dizem sobre a causa final e o cume de todas as coisas. Eu vou morrer ou devo já estar morta.
A velocidade em que eu, Milena Dixon Marshall, corria era de tirar o fôlego e deixar qualquer velocista ou atleta com inveja. A adrenalina e o medo combinados em sua forma mais rigorosa produzem efeitos que ultrapassam os limites da natureza, do complexo e do inacreditável, do possível e do impossível. Nem o vento seco e denso que entrava pelos meus pulmões e queimava o meu peito, nem o calor angustiante e arredio, nem as pontadas no estômago e o corte que cuspia sangue pelo meu rosto. A força veio como uma resposta vaga a iminência do que estava por vir, mas logo as minhas pernas começaram a fraquejar e em questão de poucos minutos não corria, mas andava.
Quando comecei a parar de lutar contra o inevitável, quando prosseguir se tornou insuportável demais.
Acabou.
Fale com o autor