Diary of a Savior
11 Eu Estou Viva Pt.1
Notas iniciais
“Adeus, adeus
Adeus, meu amor
Eu não posso esconder, não posso esconder
Não posso esconder, o que veio
Tenho que ir, tenho que ir
Tenho que ir e deixá-lo sozinho
Mas sempre saiba, sempre saiba
Sempre saiba que eu te amo tanto
Eu te amo tanto
(Goodbye, Avril Lavigne)
Querido Diário,
Mudar de um lugar após o outro, buscar suprimentos e ter pesadelos horríveis com as lembranças do passado. Respirar direito é ainda mais difícil quando se está sozinha no mundo apocalíptico lutando pela vida apenas para evitar o tanto quanto possível a sua própria morte. Em muitos casos, a morte é preferível quando as perspectivas de sobrevida na mais profunda solidão são duras demais para querer seguir em frente. Quando é, exatamente, que a esperança de dias melhores acaba e a fé não encontra mais no que se agarrar? Quando o mundo ao nosso redor nada mais é do que a soma de todos os nossos medos e pesadelos ou quando as pessoas que amamos já não existem mais?
Uma prisão de muros e cercados com um arsenal de armas e pessoas que cumprimentavam umas as outras nos corredores como velhos amigos no antigo mundo. Um garoto com uma história sombria atrás dos olhos mais tristes e bonitos que vi na vida, cujas ações o definiam como um panaca nato, mas que acabou por se tornar o meu panaca predileto. Com um beijo que me fez questionar as minhas defesas do certo e errado, o limite entre o desejo e o proibido, e em um futuro distante, um querido e impossível amor.
Acabou, Diário. Ou tudo não passou de um sonho.
Estou perdida no meio de uma floresta, deitada sobre as folhas secas outonais espalhadas no chão. A luz que irradia da copa das árvores é amena e fraca, a aparência das primeiras nuvens de chuva que se formam lentamente nos céus. Em pouco tempo irá chover e o vento gélido e macio que acaricia o meu rosto é mais um indicativo de que uma grande tempestade está por vir. Em outras situações, isso significaria matar errantes e procurar abrigo onde pudesse me esconder da escuridão da noite -e não molhar você- e dos perigos de ataques canibais. Mas não quero me levantar, não quero sair sem rumo, não quero fugir. Quero apenas respirar o ar que enche os meus pulmões e sentir o fôlego da vida.
— Kate — Minha melhor amiga está deitada ao meu lado com as mesmas feições suaves e delicadas das minhas lembranças. Os olhos verdes e vívidos pareciam ainda mais radiantes no brilho da luz da manhã. Ela sorriu pra mim. Sorriu genuínamente como se nada tivesse mudado e ainda fôssemos as garotinhas de sete anos que brincavam de bonecas e trocavam doces e segredos infantis.
— Oi.
— Eu estou sonhando?
— Sonhar significa viver e você está viva.
— Por que estou vendo você?
— Por que não abandonamos as pessoas que amamos, nunca. A morte não é o fim e nem o começo, Mia. Em nossos corações, as pessoas nunca morrem, mas vivem eternamente.
— Me perdoe, Kate. Eu não matei ela quando tive oportunidade, não vigiei o acampamento como deveria ter feito. Eu te disse coisas horríveis, me desculpe — Os meus olhos marejaram em resposta ao peso da dor e da culpa.
— Agir com misericórdia não foi um sinal de fraqueza, Mia. São várias as escolhas que levam aos mesmos lugares e caminhos. Eu te amo e sempre irei amar você.
— Eu também te amo, Kate.
— Está seguindo em frente, Mia. Tem uma nova melhor amiga loira e de olhos verdes, não mais maravilhosa do que eu, é claro, mas um pouquinho menos dramática. Ela será uma boa amiga tanto quanto você foi pra mim.
Pisquei os olhos.
Mamãe.
— Mãe?
— Querida — respondeu ela, emocionada — Minha linda garotinha está tão crescida, parece que foi ontem que eu segurei o meu bebê nos braços.
— Onde estou, mamãe? Cadê a Kate?
— Ela seguiu o caminho dela, filha. Todas as pessoas precisam seguir os seus caminhos quando as barreiras que nos prendem no mesmo lugar são quebradas. Esse não é o seu sonho, não é o meu sonho ou o sonho da Kate. Somos nós, querida.
— Eu não sei o que isso significa. Eu não sei qual é o meu caminho e como posso estar viva se estou vendo você ao meu lado.
— Sempre estive e sempre estarei ao seu lado, minha filhinha. Quando abrir os olhos de novo saberá que encontrou o seu caminho e estará pronta pro que há de vir.
— Estou com medo, mamãe. Não me ensinou a viver sem você. Eu penso em você todos os dias da minha vida.
A mão macia dela acariciou os meus cabelos suavemente. Podia sentir o seu toque e aquele gesto era real demais para ser um sonho ou uma ilusão.
— Todas as vezes que sentir medo e achar que nâo é mais capaz de lutar, que chegou a hora de desistir e não há nada mais a ser feito, feche os olhos e saiba que nós estamos com você. E então abra-os de novo e sobreviva, filha.
— Não posso salvar a mim mesma e as pessoas que eu amo. Quando chegar a hora, terei de fazer uma escolha. Eles... eles estão chegando.
— Somos nós quem construímos as nossas escolhas. Você pode muito mais do que imagina e é mais do que o que pensa ser — Ela sorriu daquela forma que parecia iluminar a escuridão e florir jardins de ervas daninhas — Encontrou uma nova família e juntos são mais fortes do que separados. Encontrou alguém para amar e o amor é a força que nos sustenta nos momentos bons e nos momentos mais difíceis. Não tenha medo de amar, de se entregar por completo ou...
— ... viver com a intensidade que a aventura chamada vida deve ser vivida. A linha que separa a dor do prazer é fina demais para nos concentrarmos apenas nas coisas negativas. Sinta a alegria, Mia. Sinta o amor que tem o direito de viver — disse o papai com carinho.
— E se doer muito forte? Doer como se não conseguisse mais respirar?
— Então vai saber que está amando de verdade, Mia. O que temos é o agora, a história ainda está sendo escrita e o futuro é um mistério. Você tem muitas perguntas, mas nem sempre encontrará todas as respostas.
— Isso é real?
— Real é o que você acredita e no que tem fé, querida. Feche os olhos e procure dentro de si mesma a sua realidade.
Fechei os olhos e escutei as suas últimas palavras se distanciando de mim.
— Viva, Mia.
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