Diary of a Savior
12 Eu Estou Viva Pt.2
Notas iniciais
“É a sensação mais estranha
Me sentir assim por você
Há algo na maneira que você se mexe
Algo na maneira como você se mexe
Com você, nunca curarei
Essa dor no coração completamente
Algo na maneira como você se mexe
Eu não sei o que é que você faz…
Não há nada que eu possa fazer
Para mudar seu jeito
Mas não posso ficar sentada
Encarando os dias solitários
Quando nossos olhos se encontram
Eu só consigo ver o fim
Mas esta noite a chuva cai novamente...”
(Something In The Way You Move, Ellie Goulding)
Pisco os olhos. Incandescência.
Essa é a palavra que melhor descreve o brilho bem diante dos meus olhos que ofusca a minha visão e agrava a dor de cabeça latejante que sinto pulsar dolorosamente nos miolos. Os olhos não se habituam a receber tamanha luminosidade sem cegueira momentânea, isso significa que a luz que estou vendo não é aquela luz, não ainda. É apenas a lâmpada de um aposento pendurada em um teto acinzentado que não reconheço a que lugar pertence.
Fecho os olhos e inspiro e expiro várias vezes ao mesmo tempo numa tentativa frustrante de me situar no mundo dos vivos, espero. O meu corpo fraco está deitado numa superfície macia demais para ser o galho de uma árvore ou o chåo asfaltado da estrada que me lembro de ter estado na minha última memória nítida. É difícil acreditar que se está vivo quando a morte pareceu certa demais aos nossos olhos e a mulher da capa preta com a foice estava praticamente na sua frente. Ouço o barulho de passos ecoarem num ambiente fechado.
— Você acordou. Como está sentindo, Mia?
Com esforço, virei um pouco a cabeça de lado para encarar a Karen com milhares de perguntas na ponta da língua, mas incapacitada de formar palavras avançadas demais. A teoria era simples e convincente, só precisava de provas para concluir que tudo não passava de uma alucinação ou mais um episódio mirabolante da cuca de Mia Dixon. Karen estava na prisão na manhã em que saímos para a missão fracassada de buscas dos suprimentos. Se Karen está ao meu lado nesse exato momento, logo estou sã e salva na prisão.
— Eu...
— Não, fique deitada! Você precisa descansar. Espere um pouco que vou chamar o Hershell e avisar aos outros que a nossa pequena heroína acordou — Ela me deteu com uma mão e com um sorriso no rosto. Se não estivesse com a barriga doendo, desceria da maca e literalmente rolaria de rir com a piada. Só se for a versão feminina do superman depois de fumar um baseado de kriptonita. Quero dizer, quem não mata quando a escolha é matar ou morrer?
Não demorou muito para que ouvisse os passos se aproximando mais e mais até que Rick, Hershell, Maggie e Beth (com Judith no colo) chegassem na grande sala com macas espalhadas e armários de metal, um verdadeiro paraíso para tratar doentes no fim do mundo. Os quatro pararam ao lado da maca alinhados e, confesso, não é muito legal ter tanta gente olhando pra você quando se está nas atuais circunstâncias. Mas no fundo nos sentimos felizes quando as pessoas provam o quanto se preocupam com a pequena assassina em série.
— Oi, Mia. Você nos deu um baita susto. Beth quase desmaiou quando chegou sendo carregada pelo Rick cheia de sangue — Maggie foi a primeira a falar. Alguém me carregou? Cheguei coberta de sangue? Como foi que eu sobrevivi mesmo?— Como está se sentindo?
Dei um suspiro. Reparei que o olhar de Rick poderia ser descrito quase como... afetuoso. Ele passou a mão nos meus cabelos, ato parecido com o que Carl costumava fazer. Merda, estou toda lascada e ainda assim não posso evitar sentir a falta do meu panaca predileto por perto.
— Estou bem. Só... Dolorida.
Beth me olhou com pena e acariciou gentilmente a mão prometendo que ficaria tudo bem. Sorri, pensando como era bom vê-la de novo.
— O que você fez foi muito corajoso. Se não fosse por você provavelmente estaríamos mortos uma hora dessas. Obrigado por nos salvar — agradeceu Rick Grimes. Queria ter dito que não precisava agradecer, que sabia que fariam o mesmo por mim, mas ele disse que me deixaria descansar e tomaria conta da Judith para que Beth me fizesse companhia. Hershell aplicou mais uma dose de analgésicos e deixou uma cartela de comprimidos para o caso de as dores no corpo persistirem por mais um dia. Rick pegou a garotinha no colo e os dois saíram nos deixando a sós. Um pensamento me ocorreu repentinamente e decidir que aquela era hora de descobrir os acontecimentos que tinha perdido.
— Beth? Por quanto tempo eu fiquei apagada?
Ela desviou o olhar como se escolhesse as palavras certas e os pensamentos estivessem distantes demais para focar no que estava å frente. Uma fuga da realidade significava que as notícias não deveriam ser nada boas. Beth Green pegou uma das cadeiras encostadas na parede e se sentou perto mim.
— Rick nos contou que vocês toparam com outro grupo de sobreviventes durante as buscas. Que se dividiram para procurar os suprimentos e que você estava com o Carl quando começou. O líder deles confrontou o Rick e o Glenn mandando entregarem as armas e o que tinham encontrado nas casas, mas você sabe, eles simplesmente se recusaram e, a distância, o Daryl começou o tiroteio. Vários do grupos deles caíram mortos — contou Beth e era bom saber o outro lado da história, mas aquela ainda não era a resposta que eu queria — Mas o Carl foi emboscado e usaram-no como refém. Você salvou os três de serem torturados e mortos, o tiroteio recomeçou outra vez e, segundo o Glenn, perderam você de vista. Ele tomou um tiro de raspão. Quando conseguíram derrubar a maioria, o Daryl chegou carregando você ensanguentada nos braços e eles vieram embora o mais rápido possível. Uma pessoa matou um cara que iria atirar no Daryl e ele agora está aqui na prisão.
— O Daryl? — Não fui capaz de esconder a incredulidade. Mas ele me odeia, me segurei para não dizer.
— Sim, o Daryl. Isso foi há dois dias.
— Onde ficamos nesse meio tempo?
Ela negou com a cabeça.
— Daryl disse que encontrou você caída na estrada e a horda vindo na sua direção. Mia, as suas feridas... Você chegou na prisão queimando de febre e com cortes infeccionados espalhados pelo corpo. O papai aplicou doses e mais doses de morfina para aliviar a dor. Sinto muito por tudo isso, mas você ficou desacordada por dois dias inteiros tendo delírios — Foi como um baque. Uma queda bem pior do que a tomada do telhado daquela casa. Eu estive perto de partir dessa pra uma melhor por causa de todas as feridas que acumulara durante o massacre... E não me lembrava de nada a não ser cair na estrada desértica e esfaltada — Mia, não fica assim, não. Pensa na Judith, Maggie, Carol e nas outras pessoas que estariam arrasadas se não tivessem voltado. Lembra do que me disse sobre desde o início perceber que o Rick é o nosso líder? Pois bem, nada disso aqui seria possível se não fosse por ele. Existe um conselho que vota as decisões, mas as pessoas escutam alguém que não tem medo de enfrentar os perigos e já provou que sabe o que é melhor para todos. Esse alguém é o Rick. Sem ele nåo somos quem somos, não somos fortes o bastante.
Fiquei em silêncio, mas não posso dizer que não revisei todos os detalhes na cabeça.
— Quem foi a pessoa que salvou o Daryl?
— Um homem que se autodenomina Jesus.
— O quê?
— Jesus. O nome dele é Jesus. Bem, não é exatamente como ele se chama, mas é como gosta de ser chamado — disse Beth — Ele está sendo feito refém. Pelo que parece, veio de uma cidade murada onde vivem outros sobreviventes.
Era muita informação para assimilar de uma única vez. Por isso, decidir que não faria mais perguntas até que a minha cabeça saísse do modo bomba-relógio.
— O que aconteceu, Mia?
Contei tudo a ela, desde o pedido de parceira de Carl, passando pela experiência do primeiro beijo sem despedidas, e por fim, no cair na estrada esperando pela morte certa. Quando terminei aquela história que daria um filme digno de um oscar, Beth estava numa mistura de êxtase contida e tristeza parcional quase que impossível de ser descrita e entendida. Olha a little Greene mostrando o lado drama queen.
— Céus, Mia — comentou ela com a mão no peito — O Carl... Você... Eu sabia desde o início...
— Beth, você está me assustando.
— Eu sabia que ele gostava de você. Não, ele não gosta. Não é isso, nâo! — Ela levantou da cadeira e começou a gesticular como se faltasse as palavras que queria — Ele está apaixonada por você, Mia. Não sabe o que isso significa vindo de alguém tão traumatizado como Carl. E você está apaixonada por ele também.
— Beth... — Comecei a me levantar da cama mas uma pontada atingiu em cheio o meu abdômen — Ai!
— Não pode levantar da cama, Mia. Pode me explicar como arrumou esse corte na barriga? — Ela levantou a minha blusa e examinou o curativo que não tinha me dado conta da existência cuidadosamente. Ela soltou um suspiro, parecendo muito preocupada. — Não abriu os pontos. Por favor, não faça isso de novo.
— Pelo menos agora você está me escutando — disse pra ela — Beth, de onde tirou essa ideia maluca de que eu e o Carl...
Balancei a cabeça por que era ridículo demais pensar em eu e Carl. Eu e Carl.
Mr. Grimes e Mrs. Dixon.
— Primeiro, admita pra si mesma que o que existe entre vocês dois é mais do que uma amizade e vai entender o que está sentindo. Depois, considere todos os fatos, Mia. Ele queria manter você por perto pra garantir que ficaria em segurança. Nunca existiu plano algum, exceto aquele em que Carl garante que você sobreviva — explicou Beth como se explica para uma criança que sabão é para comer — Ninguém se beija sem que aja algum tipo de atração ou sentimento. Rebobine a fita e vai ver que a situação era improvável, mas o sentimento recíproco da parte de ambos. A indiferença dele se chama medo de perder você. Será que não consegue enxergar isso ou está fingindo que não existe nada?
— Então por que ele não tá aqui? — Rebati — Quando uma pessoa se importa ela não está sempre por perto?
— Ele estava, Mia, mas não se lembra de nada. Foram dois dias de febre, delírios e reclamações de dor, e Carl segurou a sua mão, chorou e pediu que não o abandonasse nesse mundo sofrido e vazio. Que a vida dele ganhou mais sentido depois da sua chegada. Que não podia, não, não podia perder você — disse Beth e eu simplesmente paralisei em descrença — Consegue entender o que eu estou dizendo? Eu achava que poderia ser mais do que uma amizade e vejo que me enganei. É muito mais do que uma paixão que se baseia na atração física e logo acaba. Arriscaria dizer que...
— Isso muda tudo — interrompi antes que ela dissesse a palavra que faltava.
— Só muda se você quiser mudar — O tom dela era calmo e paciente — O mundo é incerto, viver é incerto. Tudo pode acabar amanhã ou agora mesmo. Acha que o tempo passa ao nosso favor? Acha que a oportunidade vai surgir e existir pra sempre?
Eu não sabia o que sentir nem o que dizer, por que não havia nada mais a ser sentido e a ser dito do que o que já estava no meu peito e as palavras na minha boca. Era confuso demais, doloroso demais, emocional demais, um turbilhão de emoções e sensações bombeados dentro de mim. Carl Grimes estava apaixonado por mim. E eu... O que eu poderia fazer?
— Eu não sei o que fazer, Beth — As lágrimas inundaram os meus olhos. Maldita, morfina. Corta essa, Milena— Não dá pra viver nesse mundo se apegando as pessoas, amando as pessoas. Nada é para sempre.
— Mais um motivo pelo qual deve lutar. Lutar por você, lutar pelo Carl, lutar por todos nós — disse ela, alisando os meus cabelos — Descansa um pouco. Eu sei o quanto isso tudo deve estar sendo demais pra você. Quando acordar, vai se sentir melhor.
Concordei com ela e fechei os olhos.
Pela primeira vez em muito tempo, durmo profundamente sem sonhar com o passado ou ter pesadelos horríveis com o presente. O meu corpo parece se recuperar dos traumas sofridos depois de horas em descanso, pois ao acordar novamente me sinto mais forte e menos dolorida dos ferimentos. Quando abro os olhos percebo que a escuridão na enfermaria improvisada indica que as luzes estão apagadas, apenas a luz silenciosa do luar que entra pelas frestas na parede iluminam partes da grande sala. Junto forças e me levanto da maca pensando que se passar mais um dia deitada irei enferrujar e imediatamente sinto o corte na barriga pinicar de leve pelo esforço. Solto um sonoro ai e só então percebo que alguém está deitado no sofá verde limão ao ver se levantar de modo repentino e brusco. Ergo a cabeça a tempo de discernir as feições familiares do garoto que vem na minha direção ao passar pela claridade rapidamente.
E, como se os sentimentos voltassem com força total, o meu coração dispara como se estivesse prestes a entrar em estado de fibrilação atrial (popular coração acelerado; vide Google ou dicionário de cardiologia). Mesmo na escuridão, os olhos do miserável Carl continuavam brilhando semelhantes aos vagalumes que voavam pelo jardim florido da mamãe na minha antiga casa. Estava feliz por ser a pessoa que vivia para ver aquele rosto entre milhares que existiam na humanidade. Era sortuda por viver quando muitos estavam mortos, era verdade, mas me considerava a garota mais sortuda do apocalipse por reencontrar aquele garoto panaca outra vez.
— Mia, o que foi? O que você tá sentindo? Deita de novo, você precisa descansar — Ele disparou sem se aproximar muito ou esperar uma resposta, a preocupação mais que evidente na entonação da voz. Queria gritar que não precisava se preocupar com mais nada a não ser me abraçar forte o suficiente para as dores irem embora como os medos costumavam fazer. Mas mesmo depois da experiência de quase morte preciso manter a compustura e a pose de garota decidida que não quer demonstra o que está sentindo.
— Eu...
— O Hershell disse que os cortes vão cicatrizar mais rápido se mantiver o repouso absoluto. Deita e descansa um pouco mais, não vai poder fazer nada esses dias e...
— Carl... — A minha paciência estava se esgotando. Ela era night, mas desde que conheci esse garoto mudou pra zero. Por que ele não podia simplesmente me ouvir? É por isso que nós brigamos e brigamos e brigamos de novo e passamos mais tempo fazendo as pazes do que as coisas mais importantes.
— ... Acha que pode fazer tudo, mas não pode. Tem que aceitar que não é invencível e...
Chega. Esqueçam o que eu disse sobre não gritar.
— Eu escalei e despenquei de um telhado, me afoguei em uma piscina rasa, fugi de uma psicopata com uma metralhadora que quase me matou asfixiada e depois de passar por isso tudo, por muito pouco, escapei de morrer de febre e louca. Mas adivinha só? Eu estou viva — vociferei tão alto que a garganta doeu — Eu estou viva, Carl Grimes. Agora será que pode fazer o favor de calar a porcaria da boca e me escutar? Eu estou respirando, estou bem na sua frente, seu babaca. Por que quando desabei naquela estrada, quando achei que iria morrer ali... Eu...
Os meus olhos marejaram e um nó se formou no gogó. Choro em sonho, choro nas alucinações, choro na vida real... Eu estou virando um bebê de novo, sério.
— Eu... eu pensei em você, seu idiota. Você saiu daquela casa e me deixou sozinha e... Nem se despediu de mim quando aquela poderia ter sido a nossa última vez juntos — gritei.
Droga droga droga droga droga!, pensei, enquanto enxugava os olhos com as costas da mão. Eu precisava aprender a controlar as emoções ou acabaria desidratada no mundo em que as pessoas morrem por quê são a comida. Abaixei a cabeça, humilhada demais para olhar para o garoto a minha frente. E como se não bastasse, o grand finale escapa da minha boca sem permissão. Acho que vou decepar a minha língua.
— Não pode simplesmente fazer as coisas que faz comigo e depois fingir que não significo nada pra você.
O silêncio que se seguiu pareceu uma pequena eternidade pra mim. Carl não falou nada, eu não falei mais nada amém, apenas o som entrecortados dos meus soluços ecoavam na sala.
— Você é a única pessoa que acaba com todas as minhas defesas mais rápido que um piscar de olhos. Sabe o que isso significa no meio do apocalipse? Outra pessoa que vou ter medo de perder, que terei de proteger com a minha vida. Eu não imaginava que o nosso plano fosse ser concreto, a ideia era manter você em segurança desde o início, Mia. Eu sou egoísta assim mesmo quando se trata das pessoas que... Das pessoas que são importantes demais na minha vida. Não queria ver você morrer, nem que pra isso tivesse que ser eu no seu lugar. O que aconteceu com a minha mãe... Quero dar a minha vida pelo meu pai, pela Judith e por você, mas não quero sentir de novo o que eu senti quando ela se foi — Eu estava sem fôlego depois daquelas palavras. Não conseguia respirar por quê as lágrimas, a confissão, o momento... Eram demais pra aguentar — Entende o porquê eu faço e o que eu quero dizer? Vai doer como se arracassem um pedaço de mim viver em um mundo sem você, Mia Dixon. Foram dois dias segurando a sua mão implorando que melhorasse e voltasse pra mim. Se em cinco dias consegue causar tanto estrago, o que vai ser de mim em uma semana, um mês? Você não tem ideia do efeito que causa.
— O agora é o que importa.
Ele balançou a cabeça e se aproximou furtivamente de mim com o olhos fixos nos meus. Pela primeira vez na vida, provei do que os livros chamam de fogo no olhar, intenso. Quase podia vê-los queimando e queimando, e me causavam arrepios capazes de estremecer do fio de cabelo a unha do pé. Era uma sensação engraçada e esquisita no estômago, a ansiedade que antecipa o grande momento, as borboletas que batem asas sem conseguir alçar vôo. Quando os nosso lábios se tocaram foi como se o mundo tivesse entrado em confusão e nòs dois, em perfeita sincronia. Nada mais importava do que a urgência das nossas bocas unidas em um conjunto de obra suave e intenso. As pancadas que o meu coração davam no meu peito eram inevitáveis, assim como as mãos de Carl ora nas minhas costas, ora na minha nuca, as minhas pernas entrelaçadas em sua cintura e os braços ao redor de seu pescoço.
Minha feridas pinicavam e cargas elétricas atravessavam o meu corpo inteiro apartir do ponto em que ele me tocava. Era loucura, era a insanidade tomando conta e posso culpar até a terceira lei de Newton (eu aprendi alguma coisa nas aulas de Física), mas desejei que a distância restante entre nós acabasse, logo, agora.
— Mia... Não podemos... — A voz de Carl era quase uma súplica.
Não posso, pensei. O afrouxar dos meus braços indicou que era hora de acionar o modo stop e resetar o disco antes que o vírus entrasse. Por uma tonelada de segundos apenas nos concentramos em recuperar o fôlego com as testas encostada uma na outra. Céus, esse garoto está me deixando louca, não acredito que quase....
Um sorrisinho surgiu espontâneamente nos nossos lábios, mas logo deram vazão a seriedade que seria se... Se tivesse acontecido o que poderia acontecer. Carl se afastou desviando o olhar e apoiou as mãos na maca como se tentasse pensar a respeito de uma decisão difícil.
— Carl?
Ele olhou novamente para mim, mas era como se olhasse para Carol, Tyreese ou Judith. Sem faíscas ou sinal de fogo.
— Vou chamar a Beth pra passar a noite com você.
— Não! Não vai embora não. Fica aqui comigo — disse pra ele, sincera. Ele pestanejou — Por favor.
— Mia...
— Se você não ficar, vou com você. Qual é, Carl, vai me fazer implorar de joelhos?
Ele suspirou.
— Tudo bem.
— Eu sempre consigo o que eu quero quando se trata de você, cowboy — A provocação foi direta.
— Melhor parar com a pirraça, garota, ou mudo de ideia e deixo você aqui sozinha — A provocação era mútua, mas a moleza unitária.
Estava mesmo enferrujada.
— Estou com sono e me cansando com mais facilidade do que o normal.
— Precisa descansar.
Deitei novamente na cama e Carl ajeitou os cobertores para que eu não sentisse o frio de fim de outono que começava a invadir a prisão. Ele puxou uma cadeira para perto da maca e se sentou de maneira que os nossos rostos ficassem próximos um do outro. Eu não conseguia parar de olhar aquele rosto nem que realmente quisesse fazê-lo. Se adormecesse todos os dias olhando pra ele não teria pesadelos, não, nunca mais.
— O que vai acontecer agora, Carl? — sussurrei. Ele colocou uma mecha solta atrás da minha orelha e acariciou os meus cabelos.
— Nós vamos ficar bem.
— Não respondeu a minha pergunta. Nunca responde a nenhuma delas, e ao invés disso, aparece com mais um punhado de perguntas sem respostas.
— Shh — disse ele — Não fala mais nada, garota.
— Até quando não estamos brigando estamos brigando, cowboy.
Nós sorrimos.
— Precisa fechar os olhos ou não vai dormir.
— Só depois que me disser o que quero saber.
— O que quer saber? Bem, vamos a lista das coisas que talvez queira saber. Se eu acredito que um dia isso tudo vai acabar? Não, não acredito. Mas acredito que podemos recomeçar apartir do mundo que temos agora. Um novo início, é no que acredito — sussurrou ele pra mim — Se eu me acho um pouco panaca como tanto pensa? Reconheço que às vezes sou um pouco, mas estou lutando contra essa minha qualidade que você ama com todas as suas forças. Você desconfia do novo membro? Sim, com certeza. Desconfiaria de qualquer pessoa que adota um nome como o dele. Agora é a sua vez.
— O que quer saber, cowboy? Eu não sou muito boa com palavras.
— Eu posso te ajudar com elas. Faço uma pergunta e responde 'sim' ou 'não', okay?
— Okay.
A culpa não é minha, é das estrelas.
— Acredita em vida após a morte?
— Não.
— Existe uma cura para o zumbirismo?
— Zumbirismo? — Dei risada — De onde tirou essa palavra?
— Sim ou não?
— Sim.
— Quer ser a minha garota?
Meu coração entrou em fibrilação ventricular (popular 'perdeu o compasso'; novamente vide Google ou dicionário de cardiologia).
— O quê? — Franzi as sobrancelhas embora tivesse entendido perfeitamente, porque é sempre bom tirar a prova dos nove e fingir que não ouviu direito, não é? Carl arqueoou uma sobrancelha entrando no mesmo jogo que eu.
— Você ouviu o que eu disse, garota.
— Hum. Posso responder amanhã? Acho que preciso pensar um pouco.
— Responda apenas 'sim' ou 'não'. É pegar ou largar, não tem o meio termo.
— Carl, eu... — Forcei um tom sério que quase acabou com a brincadeira — Sim.
— Sim?
— Sim.
Carl encostou os lábios dele nos meus e moveu-os suavemente. Era quase como se carimbássemos um novo e melhor acordo de paz, só que com muitos mais beneficios para ambos os autorgados (vide dicionário de advocacia).
— Não abra os olhos. Mantenha-os fechados.
— O que vai fazer, cowboy?
Ele começou a cantar Bombs On Monday ao seu próprio modo, numa mistura de tons suaves e graves. Transmitia a paz e a tranquilidade como se, não importava o que tivesse acontecido, o amor permaneceria e seria o nosso refúgio, sempre. Decidi que não abriria os olhos, apenas deixaria que a voz do garoto que me causava problemas cardíacos momentâneos embalasse o meu sono como uma canção de ninar.
Bombas estão caindo numa manhã de Segunda
Esperando pelas notícias, juntos
Uma explosão a qualquer momento
Você faz momentos durarem pra sempre e sempre...
Olhos como avelãs, cintilam na luz das estrelas
Mesmo quando choram, mesmo quando choram
Constelações formando cicatrizes
Mesmo quando estiverem morrendo, o amor ainda tentará
Nunca pensei que algo
Algo são trágico poderia acontecer
À nossa família perfeitinha
Eu prometo, eu prometo amar você
Você e as crianças, carrossel girando
Nossa vizinhança sempre será linda assim...
Playlist 002
Bombs On Monday— Melanie Martinez
Moving Mountains— Skylar Grey ♥
Goodbye— Avril Lavigne
Believe— Mumford & Sons
Something In The Way You Move— Ellie Goulding
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