Diary of a Savior
6 Estamos Quites
Notas iniciais
"Isto é um estado de graça
Esta é uma briga pela qual vale a pena lutar
O amor é um jogo cruel
A não ser que você o jogue direito
Estas são as mãos do destino
Você é meu calcanhar de Aquiles
Esta é a era de ouro de algo bom
E certo e real."
(State Grace, Taylor Swift)
Perdi o fôlego instantaneamente e o meu coração descompassou. Os olhos de Carl encontraram os meus na escuridão da torre e distinguir o quão estavam arregalados e seu rosto inexpressivo.
— Mas que merda— Abaixei o revolver e travei-o — Que ideia estúpida foi essa de chegar assim?
— Eu não queria te assustar.
— Droga! Eu quase... — Parei antes de terminar a frase. A última coisa que eu precisava era de Carl por perto — O que você quer aqui?
A aspereza na minha voz surpreendeu até a mim mesma. Ele deu um suspiro.
— Vou cobrir o posto da Maggie. Ela não está se sentindo muito bem.
— Eu também não — retruquei. Era verdade, não me sentia mal fisicamente; só estressada demais pelo meu mais recente ataque de estresse pós traumático e por quase tê-lo matado sem querer.
Carl arqueou uma sobrancelha irritante e os nossos olhares fixaram-se silenciosos um no outro por alguns segundos. Aceitei, derrotada, que perderia a discussão só daquele vez, pois não estava humorada o suficiente para brigar com Carl Grimmes. Por isso, dei as costas a ele, fingindo que não estava ali, e me voltei para a janela da torre tentando me concentrar nos muros da prisão.
Naquele mesmo dia, Carl havia dito que não queria conversar comigo e era pra eu deixá-lo em paz. Pensei em por que ele estaria ali depois daquilo, quando qualquer outra pessoa poderia ter ido no seu lugar. Não deveria ser pelo prazer da minha companhia.
— Quem mandou você aqui? — perguntei um pouco mais calma — Rick? Michonne? Maggie?
— Ninguém. Eu vim por vontade própria.
Passos ecoaram vagarosamente atrás de mim.
— Com certeza não é por que gosta de mim.
— Eu vim pra vigiar — O seu tom não era grosso ou arrogante. Ele apoiou os cotovelos na janela, a menos de meio metro de onde eu estava.
— Ótimo — comentei com sarcasmo.
Ficamos em silêncio pelo que pareceu uma pequena eternidade, ambos com o olhar perdido do lado de fora; não havia nada a ser observado além dos malditos errantes na cerca e os blocos adormecidos. Nada nos muros. Resistir ao impulso de olhar sua expressão e decidir o que estaria pensando naquele momento. Será que estava preocupado em sondar os muros ou tenso demais ao ouvir o som da minha respiração, assim como eu da dele?
— Eu não disse que não gostava de você, Mia — Era a primeira vez que falava o meu nome. Não esperava que isso fosse acontecer algum dia, muito menos ouvir aquelas palavras, mesmo não me deixando levar por nenhuma das duas coisas.
— Pediu pra eu te deixar em paz. Essa é a sua forma de dizer eu te amo? — rebati.
— Não, não é. Eu só... — Ele hesitou. Ouvi um suspiro audível — Você me fez admitir em voz alta algo que eu vinha negando a muito tempo. Ninguém nunca conseguiu isso de mim.
Não respondi nada.
— Eu fiz o que tinha de ser feito. Ela estava morrendo e não queria esperar que ela virasse uma dessas coisas. Passei todo esse tempo acreditando que não tinha a matado, só impedido de voltar como um zimbi — confessou Carl — Neguei, neguei e neguei, até você me fazer admitir a verdade. Eu matei a minha mãe.
Senti algo se mexer no meu peito, o sentimento de compaixão e reconhecimento. Quanto tempo eu tinha passado em entorpecimento e negação da perda da mamãe?
— Eu te odiei por ter feito isso comigo. Mas estranhamente me senti melhor ao dizer a verdade para que os meus ouvidos escutassem.
Eu tinha quase certeza que ele estava me olhando. O meu rosto esquentou involuntariamente.
— Obrigado por isso — Lá estavam as palavras que eu menos esperava dele.
A brisa fria ricocheteou levemente no meu rosto e eu inspirei fundo o ar noturno. Uma sensação de tranquilidade e calmaria tomaram conta de mim. Talvez fosse estar respirando o mesmo oxigênio que os errantes que estivesse mexendo comigo ou aquele era realmente o pedido de desculpas de Carl Grimmes.
Como eu disse, eu sou uma bruta sentimental.
— A perda é para sempre. A saudade também. Mas a dor não. Essa dor insuportável vai passar. Você vai se sentir melhor — Pela primeira vez, decidir encará-lo. Dois olhos azuis iluminados pela lua me olhavam fixamente — Pode até ser que a dor não passe totalmente, mas ela vai se tornar suportável. Vai diminuir a um ponto que nos deixe respirar novamente.
Ele assentiu e desviou o olhar para o céu estrelado, pensativo. Tentei enxergar o que quer que estivesse vendo nas estrelas.
— Quem você perdeu?
— Meus pais. Minha melhor amiga. Muitos amigos — respondi me recordando de vários rostos — Eu ainda me lembro deles. De todos eles.
— É algo que dificilmente se esquece.
Engoli em seco.
— Mesmo antes disso tudo... Mesmo antes do fim do mundo, as pessoas já morriam, mas nem por isso deixavam de viver a vida. É o segundo motivo pelo qual temos que seguir em frente.
— E qual é o primeiro?
Os nossos olhares se encontraram novamente.
— Pelo quê ainda vivemos. Por tudo aquilo que daríamos as nossas vidas. Pelas coisas bonitas que existem. Pelas pessoas que amamos. Pela esperança de que o amanhã pode ser bem melhor do que hoje — disse a Carl — Tem que descobrir pelo que vai viver, cowboy. Não apenas existir, mas viver. É o que nos diferencia dos nossos amiguinhos na cerca.
Ele deu um meio sorriso e pensei que aquele pequeno gesto era uma das melhores coisas que pelas quais havia valido a pena viver para ver.
— Acho que nunca conheci uma garota tão sarcástica na minha vida.
— E eu um tão carrancudo — Dei um sorrisinho convencido e lá estava a carranca um pouco mais suave- Eu sei o quão encantadora e apaixonante é a minha personalidade bruto-emocional.
— Nunca tinha ouvido essa palavra.
— É por que ela não existe.
Nós dois rimos sonoramente. Quem diria, dona Milena, diria Kate.
— Agora estamos quites.
— Anh? — disse confusa.
— Estamos quites — repetiu ele — Você quase atirou em mim.
— Eu não ia atirar em você — Então me dei conta do que tinha tido. Ele ergueu uma sobrancelha como se tivesse toda a razão do mundo — Ah! Não!
— Não o quê?
— Era mais provável você me matar do que eu matar você! — retruquei.
— Não vamos discutir por causa disso. Vamos discutir algo mais interessante, tipo o seu iPod jogado no canto desta sala como se não fosse uma relíquia no fim do mundo — disse Carl.
— Recém-adquirido — disse orgulhosamente — Na verdade, recém-roubado. Mas quem liga quando a maioria das coisas são roubadas hoje em dia? Não é como se os donos fossem exigir de volta — Carl concordou — E então, cowboy? Vai pedir de uma vez ou fingir que não quer pegar e usar até perfurar os tímpanos?
Concluí que, no fim das contas, Beth tinha razão: Carl poderia parecer à primeira vista muitas das coisas que demonstrava ser. Mas haviam motivos suficientes para aquele primeira camada ser tão dura de se penetrar, mas que revestiam uma segunda muito mais luminosa e atraente. Panaca, é claro, pois essa era uma das características mais evidentes de sua personalidade, porém a panacagem de uma forma que eu, Mia Dixon alter-ego de Milena Marshall, pudesse passar a gostar. Enquanto vigiávamos os muros da prisão e discutíamos as músicas do iPod e os nossos gostos musicais, pensei no quanto algumas coisas não mudavam nem no apocalipse zumbi. Uma hora brigando, na outra quase-atirando e depois fazendo coisas juntos como se nada tivesse acontecido. É a vida em sua verdadeira forma: uma eterna ironia.
Aquela era uma ironia que eu apreciaria por um bom tempo.
Playlist 001
Heaven and Hell— Black Sabbath
Sweet Child O Mine— Guns N' Roses
Carlifonication— Red Hot Chili Peppers
Yellow— Coldplay
Ordinary World— Duran Duran
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