Diary of a Savior
5 Amigos Pt.2
Notas iniciais
“Outra pessoa perto dos outros
Você está cauteloso, como se não conseguisse relaxar
Você está tentando ser legal, mas parece um idiota para mim
Diga-me
Por que você tem que deixar as coisas tão complicadas?
Veja, o jeito que você age, como se fosse outra pessoa
Me deixa frustrada!
A vida é assim
E você cai, e você rasteja, e você quebra
E você pega o que você recebe e transforma isso em honestidade
E me prometa que eu nunca vou descobrir que você está fingindo…”
(Complicated, Avril Lavigne)
Querido Diário,
Talvez a porcaria de destino não exista mesmo. Talvez eu não seja um prodígio apenas por ter sobrevivido tanto tempo lá fora sozinha. Talvez estar viva seja apenas um acidente. Ou, talvez, a natureza tenha admitido que uma garota de quase dezesseis anos deveria continuar respirando apenas por ter lhe passado a perna tantas vezes.
Encarei o portão da minha cela sem realmente estar olhando-o, perdida nos meus próprios pensamentos. O que aquela grade fechada poderia roubar de mim, ainda que momentaneamente?
Não posso deixar de sentir um certo grau de estranhamento, Diário. Eu já estava acostumada ao peso da arma no meu cinto, de segurar a faca como se fosse uma extensão do meu braço, de confiar mais nos meus sentidos do que nos instintos. Aí vocês dizem: é mesmo, querida? Pula o muro e volta pro lado de fora, idiota. Não é que eu tenha sinta saudades, não, nunca.
A prontidão sempre foi um dos meus pontos fortes. Andar desarmada por ai, mesmo atrás de cercas e muros, me dá a sensação de que eu não estarei pronta se algo der errado. O meu eterno pé-atrás sempre me fará questionar o quão real a minha segurança é.
A natureza ainda leva a melhor sobre mim.
— Mia? — A garotinha que eu havia conhecido indiretamente mais cedo estava parada timidamente do lado de fora da cela. Ao lado dela, outra menina me olhava com uma ansiedade contida. Ambas eram loiras, embora fisicamente diferentes.
Inclinei um pouco e guardei o diário debaixo do travesseiro, surpresa pela visita inesperada das duas e respondi um oi pra elas.
— A... a minha irmã queria conhecer você, mas estava com vergonha de vir aqui — disse Mika parecendo ter reunido toda coragem possível pra dizer aquilo — Ela acha você bonita e quer ser sua amiga.
Vi quando a irmã cutucou-a e corou, envergonhada. Um sorriso inevitável desenhou-se nos meus lábios; ver a existência de tamanha inocência e sinceridade quase me deixou emocionada.
— Podem entrar, meninas — Os olhos das duas brilharam e sorrisos coloriram seus rostos. Elas entraram e sentaram no chão perto de mim.
— Meu nome é Mika — Ela apontou para si mesma — E ela é a Lizzie — Apontou para a irmã — Você é mesmo sobrinha do Daryl?
Desisto de não ser a sobrinha do Daryl, suspirei, quantas vezes eu vou ouvir isso hoje?
— Sou sim. Mas ele não gosta muito de ser chamado de tio, sabe? — disse pra elas. Lizzie e Mika assentiram em concordância.
— Eu tenho medo do Daryl. Ele sempre está tão zangado e mau humorado — disse Mika.
Dei risada, pensando que na visão de uma criança o meu tio deveria parecer mesmo assustador.
— Ele parece ser um homem muito mau — completou Lizzie.
— Não precisam ter medo dele. Ele só parece ser, embora esteja sempre zangado e mau humorado mesmo — tranquilizei-as.
Lizzie e Mika fizeram mais uma dúzia de perguntas sobre o Daryl, sobre mim mesma e sobre a minha antiga vida, prestando atenção a cada palavra que eu dizia ou cada história que eu contava a elas. Mesmo quando lhes falei sobre a minha família e o fato de ser órfão e não ter irmãos (Mika fungou e Lizzie murmurou um sinto muito), não me senti incomodada por tocar em tópicos tão pessoais e sigilosos. A curiosidade genuína das duas quase me fizeram acreditar que aqueles eram apenas pequenos detalhes da minha vida, um passado distante demais do tempo presente.
As duas também contaram muita coisa sobre elas mesmas: a Lizzie é alguns mais velha do que eu, estamos com o papai aqui ou a mamãe foi embora antes de virmos pra cá. Disse que sentia muito pela mãe delas e que no mundo de hoje era comum perdermos algumas das pessoas que amávamos, mas que elas eram sortudas por terem uma outra. Elas sorriram uma pra outra e disseram estar muito felizes com a minha chegada na prisão. Porém, um comentário de Lizzie me deixou sem uma resposta convincente:
— Uma dia ela pode voltar, Mia — disse Lizzie com os olhos esperançosos.
— O papai disse que ela se foi pra sempre, Lizzie — repreendeu Mika.
A irmã balançou a cabeça negativamente.
— Ela pode voltar. Todos voltam, só que um pouco diferentes de antes.
Torci para que eu tivesse entendido errado e mudei de assunto elogiando o seu penteado bonito. Ela agradeceu e se ofereceu para fazer uma traça espinha-de-peixe no meu cabelo igual a dela, enquanto Mika pediu pra ver as minhas fotografias.
Como se pode negar qualquer coisa a alguma dessas meninas?
— Mia, você brigou com o Carl? — perguntou Mika desviando o foco das fotografias.
Franzi as sobrancelhas, surpreendida pela pergunta dela.
— Ahn... De onde você tirou isso, Mika?
— Vimos o Rick brigando com ele depois que você saiu da horta — explicou Lizzie.
— Panaca— disse a irmã olhando uma foto da mamãe me segurando ainda bebê.
— O quê? — perguntei confusa.
— Foi a Michonne quem disse pro Carl. O Rick concordou — disse Mika.
Então não é só eu que acho isso, pensei, satisfeita. Embora, no fundo, tivesse pena por tudo aquilo que ele tinha me contado e achasse uma droga já ter arranjado treta com alguém no meu primeiro dia na prisão, mesmo que esse alguém fosse O Babacão.
— E eles acabaram de entrar pra minha lista de pessoas preferidas no fim do mundo — As duas olharam pra mim como se esperassem que eu dissesse mais alguma coisa. Completei rapidamente que as duas também haviam entrado; elas sorriram num misto de alívio e agradecimento.
— Você sabe o que é panaca, Mia? — perguntou Lizzie.
Essa me pegou totalmente desprevinida
— É... É o Carl. Uma espécie de apelido amigável, mas ninguém precisa saber disso, okay? — Elas concordaram sem questionamentos — Não é nada de mais. É só que eu acabei descobrindo que ele era o Panaca.
***
Depois do que pareceram horas de conversa a fio, o cheiro do jantar invadiu a minha cela e o meu estômago roncou tão sonoromante que parecia um errante ao ver carne humana. Mesmo me sentindo muito a vontade com as meninas, o meu rosto esquentou quando o pequeno monstro finalmente resolveu se manifestar. Esperava que elas me fizessem companhia até o refeitório, mas o pai das duas apareceu e chamou-as para tomar um banho antes do jantar. Elas se despediram de mim e garantiram que depois nos veríamos no refeitório, Lizzie prometendo que no dia seguinte me ensinaria o nome de todas as flores que cresciam dentro da prisão. Percebi que o movimento tinha crescido no corredor do bloco de celas; vozes e passos se misturavam e concluí que as pessoas deveriam estar indo mesmo jantar.
Embora fosse bobagem, o sentimento de apreensão tomou conta de mim; eu chegaria lá sozinha e olhando para os lados, atraindo os olhares curiosos para mim, uma vez que eu era a notícia e pelo visto as notícias se espalhavam rapidamente por ali. Principalmente uma sobrinha perdida de Daryl Dixon que foi encontrada vagando sozinha e arrumou uma pequena discussão com o filho de seu salvador em seu primeiro dia de cidadania prisioneira.
Como diria a Kate, que bafônico, hein.
A princípio, julguei que fosse apenas algum iPod ligado com musica acústica no viva-voz. Mas depois, quando uma voz genuínamente doce preencheu o ambiente, tive certeza de que era mesmo alguém que estava cantando.
Maybe I know, somewhere
Deep in my soul
That love never lasts
And we've got to find other ways
To make it alone
Or keep a straight face
A Hayley Williams teria ficado com inveja daquela voz tão suave, melódica e afinada cantando a sua música perfeitamente... The Only Exception era definitivamente uma das minhas músicas prediletas.
Contemplei o canto daquela garota, esperando que ela entoasse a minha estrofe preferida.
And I've always lived like this
Keeping a comfortable, distance
And up until now
I had sworn to myself that I'm content
With loneliness
Para o fim da minha secreta admiração, ela parou, mas algo me dizia que ainda estava por perto. Aproveitei a oportunidade e saí de uma vez da toca, eu precisa conhecer a dona daquela voz. Pelas frestas da grade vi uma garota de cabelos loiros platinados virada de costas e parecia estar segurando algo. O ranger do portão sendo aberto fez com que voltasse sua atenção para mim, me deixando um pouco sem graça inicialmente.
Ela possuía olhos tão verdes e vívidos que duvei que qualquer pessoa a descrevesse com outra palavra que fosse menos convidativa que adorável. Quase não acreditei ao ver que a garota segurava um bebê, mais precisamente uma menininha nos braços, que dormia profundamente. Talvez por estar tão estupefata as palavras acabaram se perdendo no caminho.
— Olá! Você deve ser a Mia, sobrinha do Daryl — disse ela.
Céus, quantas vezes ainda vou ouvir isso, pensei. Eu quero rasgar esse rótulo de uma vez.
— Eu sou Beth Greene. Muito prazer.
— Prazer, eu sou... — Balancei a cabeça e sorri tentando disfarçar a minha burrice — Você já sabe meu nome.
Ela sorriu gentilmente pra mim.
— Esta é a Judith. Ela lhe daria boas vindas se não estivesse tão sonolenta.
— Ela é sua filha? — Tentei parecer não muito surpresa, mas qual é a probabilidade de se encontrar bebês no fim do mundo?
Beth pareceu achar graça na minha pergunta e respondeu simplesmente que não, a Judith não era sua filha. Que ela apenas cuidava dela enquanto...
—... o Rick trabalha. Ele é o pai da Judith.
Inevitavelmente, fiquei boquiaberta ao saber daquilo. Era muita informação pra assimilar de uma única vez em um unico dia de uma hora pra outra.
O Rick tinha uma filha bebê — provavelmente a última dos Estados Unidos — e o Carl possuía uma irmã mais nova. A julgar pela idade Judith, o acontecimento trágico na vida de Carl deveria ser bem mais recente do que eu pensava.
Um bolo se formou na minha garganta. Pigarrei e o empurrei guela à baixo.
— Eu sei. Se eu tivesse vivido lá fora estaria impressionada também. Considero a Judith, no meio desse inferno todo, um milagre de sobrevivência.
— Eu... Acho a mesma coisa — respondi a ela.
— Espera eu colocar essa garotinha no berço um instante? — perguntou Beth.
Assenti com a cabeça e me obriguei a agir como alguém normal, enquanto Beth colocava a pequena Judith na cela de Rick. Eu já tinha visto e vivido tantas coisas lá fora, já deveria saber que nada mais era impossível.
— Estava ouvindo você cantar. Não saí antes por que não queria interromper — disse a ela — Você tem uma voz incrivelmente linda e afinada.
Beth agradeceu o elogio.
— Desde recém-nascida, Judy dorme mais rápido se cantarem pra ela.
— Eu não teria mais pesadelos se dormisse ouvindo você cantar — Balancei a cabeça novamente sem acreditar no que tinha dito — Que comentário idiota, eu não sei o que tá acontecendo comigo.
— Tudo bem, é bem lisonjeiro da sua parte dizer algo assim — disse Beth — Lamento que tenha pesadelos. Eu também tenho muitos, todos nós fomos afetados pela epidemia mesmo sem ter virado errantes. Mais de longe o pior é quando estamos de olhos abertos.
Era a mais pura verdade. Não importa quantos monstros povoassem os nossos pensamentos e sonhos, comparados aos errantes eles eram meros bichinhos de pelúcia. Saber um pouco das percepções de Beth Greene e descobrir que tínhamos algo em comum — mesmo que fosse as pertubações noturnas — me fez querer conhecê-la melhor e quem sabe se tornar sua amiga.
— Esta na hora do jantar. Você já jantou?
— Na verdade, ainda não.
— Mesmo depois do apocalipse, ser novato continua não sendo legal, não é mesmo?
— Sim — Sorri agradecida por alguém me entender.
— Vamos juntas, então.
Eu e Beth seguimos juntas pelos corredores do bloco em direção ao refeitório conversando como duas colegas de sala que acabaram de se conhecer. Instanteaneamente simpatizei com a babá da filha de Rick e descobri que tínhamos mais coisas em comum do que qualquer um poderia supor.
— Você é parente da Maggie?
— Somos meia-irmãs, embora não tenhamos nada em comum além do pai e do sobrenome — respondeu ela — Você e o Daryl se parecem um pouco nos traços físicos. Possuem a mesma cor de cabelo e cor dos olhos...
Ela parecia me analisar imperceptivelmente.
— Traços Dixon.
— Ele é irmão do seu pai ou da sua mãe?
— Mãe. Irmão gêmeo.
Beth arqueoou as sobrancelhas, surpresa.
— Eu não sabia. Acho que ele nunca contou a ninguém daqui sobre isso — disse Beth e completou — Na verdade, é um mistério por aqui qual era a vida dele antes disso ou qualquer detalhe sobre o seu passado. Foi uma surpresa quando a notícia de que uma sobrinha dele tinha sido trazida pra prisão.
Aquilo, ao contrário da existência de Judith, não me surpreendia ou impressionava. Mas mesmo assim, as atitudes do Daryl continuavam fazendo pouco sentindo pra mim. Batendo as informações de Patrick e Beth, o meu instinto CSI Apocalipse calculava que o Daryl deveria estar com os membros iniciais — Rick, Carl, Carol e Glenn — desde o início de tudo. Como alguém pode estar junto com pessoas que acabaram por se tornar sua família e não revelar nada sobre si mesmo? Será que ele tinha medo do que os outros pensariam sobre o seu passado criminoso? Ou ele queria fugir de quem havia sido antigamente?
Fora ele, eu era única que conhecia de cor e salteado a sujeira ligada ao nome Dixon no velho mundo. Será que o seu ódio repentino por mim logo após ter me salvado estaria ligado a isso?
— O drama familiar não acaba nunca.
Beth riu.
— Isso é verdade.
Chegamos ao refeitório lotado de gente atraindo muitos olhares curiosos e algumas conversas cessaram. Fingi que não liguei, mas sei o meu rosto mais corado do que o normal devia estar me denunciando. Tentei não olhar diretamente pra ninguém enquando caminhava com Beth; pelo canto do olho vi que Rick e Daryl estavam sentados no chão e com os pratos de lado, perto de onde Mr. Carl e Patrick comiam com Tyreese, Karen, Lucia e outras crianças; Mika e Lizzie estavam com o pai e me dirigiram sorrisos amigáveis quando me viram, assim como Maggie e Glenn, que eram mesmo um casal.
Pior do que ser o centro das atenções indesejadamente só uma horda de errantes vindo bem na sua direção.
— Aqui está o de vocês — Assim que nos sentamos Carol entregou um prato a cada uma — Espero que gostem. Os meninos conseguiram achar os temperos que você sugeriu para o molho do porco, Beth. Todos estão dizendo que está uma delícia.
O cheiro confirmava exatemente aquilo.
— Que bom, Carol. Mas você sempre faz qualquer comida ser gostosa.
A cozinheira se afastou e dei a minha primeira colherada no cozido de porco. Não pensava que viveria pra comer algo tão gostoso.
— Acho que o Carl gostou de você — comentou Beth.
Quase me engasguei. Ela ergueu uma sobrancelha e deu um sorriso convencido.
— Anh?
— Ele não para de olhar pra cá. Pra você.
Olhei na direção dele e o garoto estava mesmo olhando pra nós; ao perceber que eu tinha percebido, desviou o olhar e voltou-se para Patrick.
Pigarriei e terminei o meu jantar em silêncio.
— Ele não gosta de mim. Por ele eu estaria lá fora, sozinha e brincando de pega-pega com os errantes — disse a Beth.
— Vocês discutiram mais cedo, não foi?
Não pode ser, pensei. Será que emitiram uma alerta nacional sobre a minha briga com Carl Grimmes e só eu não sabia?
— Calma, Mia! Está tudo bem — garantiu Beth — Ninguém me disse nada. Eu vi vocês dois na horta e depois você saindo parecendo muito zangada.
— Como alguém já pode chegar arrumando encrenca? — disse meio decepcionada comigo mesma.
Por ter gostado tanto dela, acabei contando tudo, desde quando Carl me encontrou na casa dos meus avós e apontou uma arma pra mim até a nossa pequena discussão na horta mais cedo. Não ocultei fatos ou pintei a história como se eu fosse a vítima e Mr. Grimmes, o culpado; me lembrava bem do panaca estar quieto e eu ser a pessoa a ter procurado conversa, mesmo que eu tivesse perguntado algo bobo e ter recebido uma resposta como se fosse débil mental. Beth escutou com máxima atenção e só quando terminei comentou:
— Você teve um primeiro dia bem intenso.
Suspirei e concordei com a cabeça.
— Talvez esse seja o preço de não ficar lá fora. Ter os problemas de convivência com outros sobreviventes.
— Você é muito corajosa, Mia. Acho que não teria o mesmo ímpeto de tirar a minha vida se a primeira opção fosse me entregar pro inimigo. Eu conheço o Carl — disse Maggie e colocou a mão sobre a minha — Ele não ia atirar em você.
— Não foi o que pareceu, Beth.
Ela balançou a cabeça e continuo mais baixo.
— Carl pode parecer sangue frio e até arrogante às vezes, mas o excesso de desconfiança dele é apenas um instinto de autopreservação. Ele passou por muitas coisas aqui na prisão, todos nós passamos, mas Carl... Teve que fazer algo terrível que o afetou profundamente. Mesmo tendo já passado algum tempo, a ferida ainda está exposta e não começou cicatrizes — disse ela. Beth pareceu receosa de início, mas completou — Acho que posso te contar isso: Lori, a mãe do Carl, sentiu as dores do parto e a Maggie teve que fazer uma cesariana de emergência...
Apesar das palavras de Beth e daquela história terem me tocado no íntimo eu sou uma bruta sentimental, poxa, continuei achando Carl um grande babaca e quase deixei isso escapar em voz alta. Mas naquele momento, uma parte de mim estava compadecida pelo filho de Rick e o seu trágico sofrimento precoce; tive que me segurar pra não lançar um olhar de pena e compreensão a ele de onde estava.
— Quando você conhecê-lo melhor, vai ver que o Carl é apenas um menino corajoso que está lutando pela vida das pessoas que ama — explicou Beth — A propósito, o seu penteado está lindo.
Depois que as pessoas começaram a sair do refeitório, Beth se ofereceu para ajudar Carol e Karen a lavar a louça e eu lembrei que faria a vigília com Maggie logo após jantar. Me despedi da minha nova amiga e fiquei surpresa ao receber um abraço caloroso dela e a sua declaração do quanto estava feliz por me conhecer. As palavras me fugiram da boca, mas pensei que também estava feliz por conhecer a Beth Greene e se tornar sua amiga rapidamente.
— E Mia — Virei de costas — A vigília é na torre ao lado do bloco D.
Assenti e segui até a minha cela pra pegar algumas coisas antes de ir. Se passaria boa parte da noite vigiando, precisaria de utensílios básicos sentinela e de algo para passar o tempo. Coloquei a laterna no cinto, peguei o meu diário e o iPod recém adquirido, considerando se poderia passar no arsenal e pegar imprestado temporariamente a minha amiguinha; não conseguiria acertar o inimigo nos muros à distância com uma facão. Acabei topando com o Rick quando estava saindo do bloco C e ele me parou no caminho.
— Oi, Mia! Que bom que encontrei você. A Maggie me disse que você vai fazer o turno e eu precisava te entregar isso — Ele tirou um revolver do cinto e o estendeu pra mim — Use com cautela. Não vá atirar no primeiro que tiver vontade de matar — Não sei por quê mais tive a impressão de que ele queria dizer algo mais do que eu havia entendido — E se perceber que a cerca está cedendo, não hesite em avisar. Aperte o 7 — Entregou um walk-talk preto.
— Sim, senhor Capitão — Fiz uma mensura e ele deu risada.
— Boa sorte, Mia.
Eu agradeci sorrindo (mentalmente aliviada pelo clima não ter pegado entre nós por conta de Carl) e seguimos os nossos respectivos caminhos. Descobri que fazer Rick Grimmes rir era uma das melhores coisas no fim do mundo embora soubesse que qualquer mulher diria que ele por si só já era uma das melhores coisas.
Do lado de fora do bloco, a temperatura estava mais estável e fria do que dentro, me fazendo instantaneamente cruzar os braços e adiantar os passos até a torre onde, eu tinha certeza, devia estar mais quente. Andei rapidamente pela área vazia, tentando me concentrar no barulho dos grilos e cigarras cantando, ao invés do grunhido dos errantes amontoados na cerca, enquanto um súbito flash de memórias de fuga de hordas passava rapidamente pelos meus olhos.
Quando se passa tanto tempo do lado de fora acostumada com o estado de alerta ao detectar barulho zumbi, é difícil controlar o instinto de sobrevivência e se convencer de que o inimigo está inalcançável demais para pegar você.
Subi as escadas em espiral da torre e me joguei no chão úmido com o coração aos pulos. Respirei e inspirei várias até que os meus batimentos se normalizassem outra vez, internalizando que o meu medo era infundado e irracional.
— Boba — disse pra mim mesma balançando a cabeça.
Peguei o meu diário e comecei a escrever com a caneta escorregando na mão.
Querido Diário,
Eu sou uma sobrevivente.
Fugi de hordas de errantes. Matei os meus inimigos. Vivi sozinha por muito tempo. Superei as minhas perdas.
Eu sou uma sobrevivente e já não tenho mais nada por todas as minhas experiências de quase morte.
Peguei o revolver no meu cinto e verifiquei a munição antes de soltar um longo suspiro.
Não posso surtar numa altura dessa do campeonato.
Levantei do chão e fui até a janela disposta a enfrentar aquele sentimento. Lá estavam eles do outro lado da cerca, distantes demais para que eu me preocupasse.
Do outro lado da cerca. Distantes demais para que eu me preocupasse.
Desviei a atenção dos meus amiguinhos grasnentos e observei a claridade pouco perceptível na pequena janela do arsenal. Talvez uma ou duas pessoas também estivessem de vigília ali pra garantir que ninguém roubasse o armamento da prisão.
Cadê a Maggie?
Lembrei-me o porquê de estar ali e sondei minuciosamente os muros com os olhos, já que só um idiota tentaria escalar a cerca. A princípio, pensei que fosse somente o barulho do vento, mas depois, ao ouvir a minha caneta sendo chutada no chão, tive certeza.
Ou pelo menos, quase.
Num ímpeto, destravei a arma e virei, pronta para puxar o gatilho sem pensar duas vezes.
No último segundo, hesitei.
Ainda bem, por que era Carl Grimmes que estava na minha mira.
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