Diary of a Savior
4 Amigos Pt.1
Notas iniciais
"Talvez sejam as coisas que eu digo
Talvez eu devesse pensar, antes de eu falar
Mas eu pensei que eu sabia o suficiente (...)
Eu pensei que você disse que ficaria ok
Então porque estou me quebrando?"
(Don't Wanna Be Torn, Miley Cyrus)
Nunca pensei que um bom banho pudesse influenciar tão diretamente no meu humor; não me lembrava a última vez que tinha tomado um decente em muito tempo — pra não dizer muitos meses, sabe — Havia, é claro, a questão do racionamento e tudo mais, mas nada me deixou mais feliz do que sentir a água escorrer na minha pele sem estar preocupada com os queridos e indesejados errantes. Não me leve a mal, eu tomava banho quando estava lá fora, mas digamos que essa não era minha maior preocupação. Enquanto me banhava, tentei deixar que a água levasse a minha raiva do ex tio Daryl e me convencesse de que estaria bem melhor sem que ele se aproximasse muito de mim. Não deixaria que as suas palavras duras e sem sentido me afetassem de forma nenhuma.
Não é como se ele fosse o dono da prisão embora meio que se achasse ou alguém de que eu sentiria falta. Por que é que as pessoas tem sempre tanta certeza de que precisamos delas?
Assim que saí do banho, topei com Patrick no corredor do bloco e percebi que ele automaticamente corou e ficou sem graça ao me ver. Mesmo assim, me cumprimentou e se ofereceu pra me levar na lavanderia do bloco, embora ele já tivesse me mostrado o caminho.
— Não que elas estivessem sujas ou algo assim, sabe? — disse ele nervosamente — Na verdade, achei muito manero aquela sua camisa do Paramore. O novo rock não era tão ruim quantos os amantes clássicos diziam.
Antes disso tudo, eu não era uma adapta fervorosa do rock'n'roll, mas gostava de algumas músicas tanto clássicas como atuais. Rolling Stones, The Beatles, Led Zepplin, Paramore e até Mumford & Sons estavam entre os meus favoritos. Concordei com ele e fomos até a lavanderia onde algumas mulheres esfregavam roupas em pias de pedra e baldes e as estendiam em varais improvisados. Não pude evitar que o meu ego feminista ficasse ressentido por só haver mulheres fazendo aquele trabalho na prisão, mas decidi que não comentaria nada com ninguém.
Patrick me levou direto a uma mulher de meia idade com os cabelos acinzentados e feições suaves e me apresentou a ela.
— Carol, esta é a Mia, sobrinha do Daryl. Mia, esta é a Carol.
— Muito prazer, Mia — ela apertou minha mãe e sorriu gentilmente. Notei que os olhos dela sorriam genuinamente em concordância com os lábios — Fiquei muito feliz em saber que outro Dixon foi encontrado, embora não seja nenhuma surpresa pra ninguém que vocês são verdadeiros sobreviventes do apocalipse.
Agradeci o elogio mesmo não querendo ficar sendo rotulada como a sobrinha do Daryl e ela continuou:
"Quem sabe ter uma sobrinha por perto não tire aquela carranca do dele?", Carol deu uma piscadinha pra mim, "Conheço o Daryl praticamente desde que isso começou e nunca vi ele sorrir."
Vai sonhando, pensei, mas apenas sorri de volta pra ela. Ela notou as roupas que eu estava segurando e se ofereceu pra lavá-las, acrescentando que sempre que eu precisasse poderia pedir a ela. Agradeci outra vez e tive a sensação de que por trás daquela imagem de mãe e dona de casa, Carol deveria ser uma mulher forte e capaz de se defender sozinha.
Não muito tempo depois daquele dia, essas e outros suspeitas minhas com relação a Carol seriam confirmadas.
— Ei, eu estou indo trabalhar na horta agora. Quer ir também? — perguntou Patrick — Se quiser não precisa fazer nada, hoje é o seu dia de descanso.
— Eu vou e quero ajudar — disse a ele e completei humoradamente — Ser fazendeira é uma profissão bem melhor do que ser matadora de zumbis.
Ele riu e nós seguimos para fora do bloco C. Enquanto Patrick tagarelava sobre os mais variados assuntos, notei que muitas pessoas estavam ocupadas trabalhando dentro da cerca, dividas em grupos, executando diversas tarefas sem nunca ficarem parados por muito tempo. Percebi também que já havia decorado os nomes de muitos daqueles rostos também: Sasha, Tyreesee e Logan estavam matando os errantes que se acumulavam nas cercas, enquanto Lucia e Karen tiravam as vísceras de um porco e separavam em baldes o que servia ou não para alimento; Maggie e Glenn faziam consertos em um dos palanques de vigia e pude notar Daryl ainda mexendo no motor da Harley Davidson imundamente sujo de graxa. Pra não dar ousadia, fingir que nem o vi relembrando a minha promessa de esquecer a sua existência.
Nós dois fomos em direção a horta e, já de longe, pude ver Carl com o seu ridículo chapéu de cowboy capinando com uma enxada o terreno perto do chiqueiro. Apesar sol escaldante de meio de tarde tê-lo deixado-o completamente suado e avermelhado, ele continuava bonito, assim como a carranca também continuava lá.
Ele me viu, eu sei, mas assim como fiz com o Daryl fingiu que nem estava lá e me aproximando. Apenas continuou capinando o solo como se não tivesse notado em momento algum a minha existência.
— Oi, cara! Trouxe a Mia pra trabalhar com a gente! — disse Patrick entusiasticamente.
— Você demorou e ainda não chegamos nem na metade — disse Carl transparecendo uma nota de irritação na voz.
— Onde estão as enxadas, jovem?
A última bolacha do pacote suspirou pesadamente denotando impaciência. Fiquei me perguntando como pessoas como Carl e Daryl conseguiam ser tão carrancudos quando estavam num lugar que qualquer pessoa lá fora daria para estar. A forma como ele respondeu a Patrick me deixou incomodada e, concluí, aquele garoto era mesmo um grande panaca.
— Onde sempre estão. No arsenal de armas brancas — disse ele.
Se eu fosse o Patrick, pegaria uma enxada e enfiava bem na valiosa fuça dele e depois dava pros errantes comer. É, o apocalipse me deixou um pouquinho menos paciente com idiotas e mais sádica nesse mesmo sentido.
— Mia, eu vou pegar algumas ferramentas no Bloco D. Você pode ir jogando as sementes onde o Carl já cavou e quando voltar vou fecho a terra logo atrás de você — disse Patrick pegando e me entregando uma cesta de junco cheia de sementes que tinha sido colocada perto do chiqueiro — Volto num minuto.
Assenti com a cabeça e ele saiu andando a passos rápidos em direção ao bloco D. Comecei a executar o meu trabalho ignorando o silêncio constrangedor e o clima pesado entre eu e o cowboy, até que resolvi acabar com aquilo tudo sem ter um real motivo. Sabe aquela pessoa que tem conhecimento quando alguém não gosta dela e mesmo assim fala com esse alguém só pra irritar? Pois é, essa pessoa sou eu e esse alguém é Carl.
— E então, o que estamos plantando? — perguntei inocentemente.
— Sementes — respondeu ele como se fosse óbvio demais.
Respirei fundo e disse sem papas na língua:
— Perguntei por que realmente achei que fossem bolas de beisebol, mas pelo visto me enganei — disse acidamente — E achar que era eu que ia levar um tiro hoje mais cedo.
Carl parou, enxugou o suor com as costas da mão e finalmente me encarou pela primeira vez. Os seus belos olhos azuis me fitaram com firmeza e a expressão continuava séria, embora um pouco menos carrancuda quando respondeu:
— Eu já disse que não ia atirar em você — disse ele e balançou a cabeça negativamente, voltando ao trabalho — Isso não tem nada haver com você.
Primeiro, Carl tinha me dito que ia atirar em mim. Depois me lembrei que ele tinha dito que eu era uma sobrevivente, mas aquilo devia ser apenas da boca pra fora.
— Então o que é? — confrontei.
— Não é como se te conhecêssemos há séculos, garotas — disse Carl com certa rispidez.
— Não é como se eu fosse trazer um exército e acabar com uma prisão segura onde me ofereceram abrigo e as pessoas são gentis — respondi e acrescentei com sarcasmo — Pelo menos, a grande maioria.
Ele parou o que estava fazendo de novo e dessa vez me encarou longamente. Não hesitei por um segundo mesmo que o seu olhar estivesse fixo no meu quando disse:
— Muitas coisas aconteceram por aqui. Muita gente que lutou bravamente morreu por causa de outras pessoas que tentaram tomar esse lugar. Algumas pessoas que nós confiamos e vieram para cá. As coisas não são tão fáceis como você pensa que são. Patrick nem sempre esteve aqui e você não sabe um terço de tudo que já aconteceu. Não viveu e nem viu.
Larguei a cesta no chão e cruzei os braços, irritada demais pra deixar aquilo que considerei uma ofensa passar. Será que o panaca achava mesmo que só ele tinha passado por coisas terriveis?
— As coisas não são e não foram bem assim, cowboy – Ele fez uma careta — Não foi só você que viveu e viu coisas ruins acontecendo, pessoas boas morrendo e teve que lutar pra garantir um lugar seguro. Você não sabe de nada — disparei sem fazer pausas — Você julga demais as pessoas e olha pra elas como se fossem monstros sem nem saber quem elas são. É verdade, alguns errantes são mais humanos do que muitos, mas nem todo mundo lá fora quer ferrar você, Carl.
As feições sérias e carrancudas pareciam ter perdido força por um momento e, em uma fração de segundos, os olhos azuis e frios de Carl denunciaram uma guarda baixa. Então, resolvi completar, como se aquela frase fosse apenas um mero acréscimo ao meu discurso revidatório:
— Talvez elas só queiram te conhecer.
Contrariando as minhas expectativas, Carl deu a resposta menos esperada.
— Eu sei — disse ele.
— Se sabe disso, sabe também que todo mundo merece uma chance — disse eu.
Ele balançou a cabeça negativamente, como que para afastar uma ideia.
— Eu não tive uma segunda chance quando matei minha mãe. Ela também não teve uma segunda chance. As pessoas morrem e morrem e a gente é obrigado a seguir em frente querendo ou não. A nossa única certeza é a morte e no fim das contas só sobrevivemos pra morrer — disse Carl com a amargura evidente na voz – Bem vinda ao apocalipse sem ilusões.
Meu Deus, Patrick se perdeu no caminho?
Arregalei um pouco os olhos e, tenho admitir, aquelas palavras me afetaram profundamente e de uma forma imaginável e indescritível. Daquele momento em diante passei a entender a carapaça de autopreservação que Carl Grimmes vestia inconscientemente e irradiava como forma de proteção do próprio mundo cruel e injusto. E então decifrei aquela seriedade sem hesitação, a desconfiança e até a carranca que lhe dava um toque de arrogância, mas não escondia a beleza de um rosto tão bonito. Por trás daquilo tudo, havia um garoto magoado com o novo mundo que lhe tinha tirado a mãe — embora eu não soubesse como — e obrigado a fazer algo terrível com alguém que deveria ter amado tanto. A experiência pessoal não mente: você não supera facilmente a perda da pessoa que um dia representou o seu mundo inteiro. E, mesmo no apocalipse, a conformidade não vem de maneira alguma, por que um pedaço seu foi perdido, para sempre.
Aquele garoto estava tão machucado e marcado profundamente que não havia só perdido a mãe, mas a esperança, a fé e a crença em si mesmo. Não era à toa, mas como alguém vive apenas pra sobreviver e não acredita mais em nada a não ser que se está respirando no momento?
É preciso encontrar pelo que viver, se não no apocalipse você não vive, só existe. E existir é algo que até um errante faz e de quebrada comer a nossa carne vem no pacote.
Engoli em seco e caçei as palavras certas, que teriam e fariam algum significado para Carl Grimmes. Pensei na minha mãe, em sua morte e na minha dor, automaticamente sentindo um nó se formar na minha garganta.
"Carl, não pode..."
A expressão dele endureceu repentinamente e dor e raiva se misturaram em seu olhar. Quase me assustei ao constatar que aquilo era dirigido a ninguém menos do que eu.
— Eu não vou ter essa conversa com você. Será que pode por favor me deixar em paz? — disse Carl friamente.
A dor das palavras dele tiveram o efeito reverso. Ao invés de me sentir triste por ter os meus esforços de ajudá-lo negado ao descobrir que tínhamos dores tão parecidas merda, o apocalipse não acaba com a minha trouxidão, senti uma raiva descomunal e crescente dentro de mim. Engasguei uma lista de insultos e xingamentos e apenas sibilei:
— Não passa de um bebê chorão, Carl Grimmes.
E, dizendo isso, saí andando a passos pesados, ignorando os olhares e odiando o cowboy idiota duas vezes mais do que antes e pensando em quantos panacas cuzões ainda conheceria (ou reencontraria) naquela prisão.
Para um primeiro dia naquele lugar, tudo estava indo muito bem.
Quando já estava chegando ao Bloco C, ouvi alguém gritar o meu nome. Virei-me de costas e Maggie estava vindo na minha direção correndo. Glenn estava parado a uma certa distância, talvez esperando por ela, e observei que Rick e Michonne estavam com Carl na horta. Esse pessoal brotou assim, de uma hora pra outra. Rick, parecendo contrariado, parecia discutir com Mr. Carl. À distância, ele olhou pra mim, mas logo desviou o foco de volta pro filho.
Céus, tomara que eu não tenha nada haver com essa treta, pensei.
— Sei que eu disse que hoje é o seu dia de descanso, mas é que estou precisando de alguém pra fazer um dos turnos de vigilía comigo mais tarde — disse Maggie quando chegou perto de mim — Estamos seguros aqui, mas não podemos deixar de ficar de olho do lado de fora e nos errantes se acumulando na cerca.
Assenti com a cabeça ainda recuperando o fôlego do mais recente ataque de raiva.
— Claro que posso. Fico feliz em ajudar — digo pra ela.
Maggie sorriu e agradeceu.
— Nos vemos depois do jantar então — disse ela e já ia saindo quando pareceu notar algo em mim — Está tudo bem?
Fora o cowboy babaca há alguns metros de nós, sim, eu estou bem.
— Tudo sim — disse tentando parecer convincente.
— Se precisar de alguma coisa, pode procurar a mim ou o Glenn, okay?
— Obrigado — me forcei a sorrir.
Dei as costas e continuei a minha caminhada de volta para o Bloco C, cogitando se os dois não deviam ser um casal. Aquele pensamento me distraiu momentaneamente da raiva e concluí que algumas pessoas ainda viviam realmente apesar do apocalipse, das perdas e tudo mais, ao contrário de outras.
Querido Diário,
É mesmo possível odiar e sentir compaixão por alguém, as duas coisas tão intensamente e ao mesmo tempo?
Fale com o autor