Diante da neve

2 Salve-se do passado


Notas iniciais
Yo! Esse saiu bem rápido, hein? :D Pra quem estava se perguntando se os dois se conheciam... Me digam o que acharam, tá? Até o próximo! :*

Haruno. Enquanto pego a chave do carro na escrivaninha do quarto, tento vasculhar em minha mente onde ouvi esse sobrenome antes. Não é como se eu conhecesse muitas pessoas ou lembrasse o nome de todas que já conheci, mas “Haruno” não me parecia tão comum e definitivamente me lembrava algo, só me restava saber o quê.

Já estava á caminho do elevador quando percebi o que estava prestes á fazer. Aquele era, sem dúvida alguma, um dos dias mais frios do ano e ainda havia a possibilidade de enfrentar uma nevasca violenta no caminho até a delegacia, seria uma sorte tremenda chegar intacto lá e tudo isso por uma menina desconhecida ter dito meu nome ao idiota do Kouta. Acordei de meus pensamentos perturbadores com o barulho do elevador que havia chegado ao meu andar e caminhei com passos firmes para dentro. A sorte estava lançada.

Já tinha consciência de que a pista estaria muito escorregadia, mas de alguma maneira parecia melhor do que esperei. Tentei não aumentar a velocidade ao longo do trajeto e pude desviar sem aborrecimentos de alguns galhos que estavam espalhados pelo caminho. O rádio estava ligado em uma estação que eu nunca havia escutado e o locutor com uma voz alta e irritante parecia muito animado ao anunciar que aquela frente fria ficaria estacionada na cidade durante mais alguns dias.

A delegacia regional ficava á mais ou menos vinte minutos do meu prédio, mas considerando as condições da pista e a minha baixa velocidade, só consegui chegar até lá por volta de cinquenta minutos depois. Havia ido ali poucas vezes e sempre por momentos muito breves, normalmente por um ou outro caso de homicídio em que fui testemunha parcial, mas nunca me dei ao trabalho de conhecer as instalações. Do estacionamento, pude ver que apenas algumas luzes estavam acesas e pelas persianas fechadas, podia se ver as silhuetas de algumas pessoas que caminhavam pelas salas do lugar.

Segui com pressa até a recepção encontrando uma mulher de meia idade enrolada com algo muito parecido com um lençol de pano grosseiro. Sua cabeça estava baixa quando cheguei, mas ao ouvir meus passos cada vez mais próximos, levantou-se depressa e percebi que seus lábios tremiam.

– Em que posso ajudá-lo, sr...?

– Uchiha, Inspetor Sasuke Uchiha.

– Oh, o sr. Kouta me disse que você viria! Ele pediu pra que você fosse diretamente para a sala de interrogatórios quando chegasse.

– Poderia me dizer o caminho?

– Siga por esse corredor, quinta sala á direita.

Após uma breve reverência de agradecimento, fui pelo caminho que ela havia me indicado, passando por um amplo corredor de pintura desgastada. A porta da quinta sala sustentava uma pequena placa de metal com as palavras “Entrada exclusiva para pessoas autorizadas” e pela estreita fresta de baixo, notei que a luz estava acesa.

– “É apenas mais um interrogatório, Sasuke” – pensei comigo mesmo – “Isso não tem nada a ver com você.”

Após girar a maçaneta, demorei alguns segundos para acostumar minha visão com a luz do local. A primeira coisa que vi foi um homem que estava de costas para a porta de entrada, seus braços pareciam estar cruzados sobre o peito e suas pernas afastadas com uma pose típica de investigadores com práticas em interrogatórios, sem dúvida aquele era Kouta. Uma pequena mesa retangular estava no meio, cercada por quatro cadeiras de metal e em uma delas alguém estava sentado. Era uma garota.

Fios de cabelo rosa caíam sobre seu rosto baixo e dificultava ainda mais ver o que havia ali. Sua camiseta bege parecia ter sido mergulhada em sangue e a pele branca de seus braços mostravam diversas marcas de arranhões e em alguns pontos pude ver pontos arroxeados. Não havia outra constatação: Ela havia sido espancada.

– Sasuke! Que bom que conseguiu chegar! – Kouta que até então não parecia ter percebido minha entrada, virou-se para mim com um rosto amigável. – Mais uma vez, desculpe o incômodo.

– Hm. Essa é a garota que me falou?

– Sim, essa é Sakura Haruno. – Por um breve instante o olhar dele demonstrou um pouco de pesar pela figura encolhida em cima da cadeira á sua frente. – Antes que comece, poderia conversar um pouco com você lá fora?

Não precisei responder, antes mesmo que ele terminasse sua frase eu já estava me dirigindo até a porta. Aliás, ele não era o único que tinha algo para falar, eu também tinha muito o que dizer e perguntar. Seguindo até o final do corredor, parei em frente á um grande saguão, onde tive certeza que ela ou qualquer outra pessoa não pudesse escutar qualquer conteúdo daquela conversa.

– Então, Sasuke, sei que há algo que quer me perguntar. Vá em frente!

– O que você descobriu sobre o caso até agora?

– Não muito mais do que te falei pelo telefone. – disse Kouta com uma voz enfadonha – Daquela garota só consegui saber o nome e nada mais, mas há algo que talvez ajude você ao interrogá-la. Uma vizinha daquele homem nos disse que Sakura aparecia ao apartamento dele ao menos uma vez por mês.

– E todas aquelas escoriações? Afinal, quem era esse cara?

– Encontramos ela daquele jeito. Todos que estavam no plantão dessa noite tentaram arrancar alguma informação de como conseguiu os machucados, mas ela não nos disse absolutamente nada. E quanto ao falecido, ainda não conseguimos identificá-lo, era conhecido nas redondezas apenas como Kizashi.

Eis outro nome que me deu algo para pensar. Assim como “Haruno”, “Kizashi” me pareceu ainda mais familiar, mas ainda assim, não consegui lembrar de nada que pudesse ter alguma ligação comigo.

– Bem, vamos ver o que ela tem a me dizer.

Já estava virando para seguir caminho até a sala que saímos, quando a voz de Kouta chegou aos meus ouvidos calma e penetrante.

– Vá com calma, Sasuke, ela parece estar sofrendo bastante e, cá entre nós, ela não parece ter culpa de nada.

– Isso é o que vamos ver, Kouta.

Deixando ele para trás, caminhei até a sala em que estávamos e a encontrei exatamente da maneira como estava quando saímos, estática. Afastei a cadeira que estava á frente dela com um dos pés e sentei provocando um ruído alto no metal.

– Então, era você que queria me ver?

Nenhum movimento, nenhum barulho, nada. Tudo o que consegui ouvir foram meus pensamentos bagunçados, me dizendo que eu não deveria estar ali.

– Acredito que você me deve uma explicação, senhorita Haruno. Porque pediu pra que me chamassem?

Subitamente, ela levantou seu rosto e olhou em minha direção. Os cabelos curtos ainda teimavam em grudar em suas bochechas devido ás lágrimas que ainda caíam, os olhos verdes brilhavam encharcados e ao menos ali não havia nenhuma escoriação, porém, o choro daquela garota me causou algo muito pior do que machucados teriam causado: Dor.

– Você... Você é Sasuke?

– Esperava que você ao menos conhecesse meu rosto, já que parecia conhecer até mesmo meu sobrenome. De onde me conhece?

– Eu não, mas ele sim.

– Ele?

– Por favor, Sasuke, me tire daqui.

– Você não me respondeu. Quem é “ele”?

– Meu pai.

– Seu... Espere um pouco, então aquele homem que encontraram mais cedo, era seu pai?

– Ele me disse que se algo acontecesse, minha obrigação era te procurar e que você saberia o que fazer. Eu não queria depender de alguém que nem ao menos me conhece, mas você é minha única chance de salvação, Sasuke.

Tudo o que aquela garota estava dizendo me parecia tão surreal quanto um filme. Uma hora atrás o maior problema que eu tinha em minha vida era a falta de sono em uma noite fria e agora eu era encarregado de cuidar de uma garota que nunca tinha sequer visto e tudo isso por alguém que dizia me conhecer. Acho que caí em um cenário dos bons...

– Espera um pouco. Eu nem ao menos sei quem era seu pai! Como era o nome dele e como ele me conhecia?

– Kizashi Haruno... Seu padrinho.