Diante da neve
3 Relações
Notas iniciais
Até fazer cinco anos, vivi com meus pais e meu irmão mais velho em um sítio no interior. Daquela época, não me recordo de muitas coisas, apenas flashs de memória vem e vão como ondas de um mar agitado. Me esforçando um pouco, lembro de que houve um período em que eu não tinha amigos, já que não haviam crianças nas proximidades e, devido a minha saúde frágil, raramente meus pais concordavam que eu saísse de casa para brincar sozinho.
Em outros momentos, lembro que havia um homem conosco. Era alguém tão alto que meu pescoço chegava a doer se tentasse olhá-lo por muito tempo e sempre parecia estar com um grande sorriso, que na maioria das vezes me fazia sorrir também. “Pequeno Sasuke, seus pais não te deixaram sair de novo?” – ele dizia bagunçando meus cabelos – “Não se preocupe, vou tentar convencê-los.” e depois seguia para a porta da cozinha, fazendo um barulho seco no assoalho de madeira enquanto caminhava.
Minha mãe, Mikoto, sempre fazia bolos e café forte quando meu pai, Fugaku, dizia que aquele homem iria até o sítio para uma visita e logo percebi que a presença dele era digna de comemoração. Bastava ele passar pelo portão de entrada pra que meu pai abandonasse o que estava fazendo e assumisse uma expressão animada no rosto que sempre era tão duro. “Foi um longo tempo sem passar por aqui, Kizashi.” – Dizia meu pai apertando a mão do visitante – “Pensei que tinha esquecido dos velhos amigos!” e saíam através do portão em direção ao curral onde ficavam por longas horas.
Um dia, enquanto eu estava sentado embaixo de uma cerejeira que havia em nosso quintal, ele veio até mim. Usava uma roupa gasta, um chapéu de palha na cabeça e estampava no rosto um daqueles sorrisos que só ele saberia dar.
– Oh, pequeno Sasuke, estava procurando por você!
– Por mim?
– Estive na cidade ontem pela manhã e trouxe algo pra você! Mas precisa prometer que não vai contar aos seus pais que te dei isso, hein? Fugaku me mataria se soubesse que ando te dando essas coisas.
– O que é?
De sua bolsa de couro, ele tirou uma pequena caixa de metal e me entregou. Era um pouco pesada considerando seu tamanho e depois de alguma dificuldade para abrir, pude ver o que havia ali dentro. Eram doces! Pirulitos de diferentes cores, balas de goma em formatos de animais e bolinhas de chiclete. Não foi á toa que ele me avisou para não dizer aos meus pais, eles nunca me deixariam comer tanto açúcar.
– Isso é... Isso é incrível! Muito obrigada, senhor Hizashi!
– Não, não! Por favor me chame apenas de padrinho.
Eu comia os doces com um grande desespero e ele me observava como alguém que vê algo magnífico pela primeira vez. Ainda estava tentando quebrar um pirulito com os dentes, quando ele falou novamente.
– Sabe, Sasuke, acho que minha filha adoraria conhecer você.
– Filha? O senhor tem uma filha?
– Uma garotinha adorável, um pouco mais nova que você.
– E onde ela está?
– Mora com a mãe em uma outra cidade. Quem sabe um dia vocês possam se conhecer, não é? – Logo depois, ele levantou e caminhou de volta para a casa enquanto eu o seguia com o olhar. – Até mais, pequeno Sasuke!
Aquela foi a última vez que o vi pessoalmente. Alguns dias depois, minha família estava reunida na sala de estar como sempre fazíamos após o jantar, quando o jornal começou. Lembro de ver uma mulher pálida apresentando as notícias do dia, mas como uma criança qualquer, nunca dei muita atenção para aquele tipo de programa, porém algo na segunda notícia fez meu pai levantar bruscamente do sofá onde estava e até mesmo minha mãe derrubou a camisa que estava costurando em seu colo.
– “Kisashi Haruno” ... “acusação” ... “porte de armas” ... “assassinato” ... “prisão”.
– Mikoto, leve os meninos para o quarto.
– Mas pai, eu não quero dormir!
– Não discuta, Itachi! Suba com seu irmão!
Desde então, o nome de “Kizashi Haruno” foi banido de minha casa e de nossas vidas completamente. Após alguns meses, meu pai pôs o sítio á venda e com o lucro comprou uma casa extremamente grande na cidade, onde morei até ter dinheiro suficiente para comprar meu apartamento atual.
E agora, vinte anos depois, um passado que eu nem ao menos lembrava com clareza voltou para me assombrar. Sakura continuava me olhando com seus olhos ainda cercados por lágrimas e uma expressão de desespero que me incomodava profundamente.
– E então? Você lembrou?
– Um pouco, bem pouco. Ele não foi um padrinho muito presente, sabe?
– Acredite, ele tentou ver você e sua família novamente, mas depois da prisão, seus pais o evitaram sempre que tentou se aproximar. Eu estava com meu pai quando seu nome apareceu na tv como um inspetor que auxiliou em um caso de busca e apreensão de armas e vi quando ele tentou disfarçar as lágrimas de orgulho pelo que você se tornou. Ele sempre quis te ver de novo, Sasuke.
Lembrei da expressão feliz do meu pai quando Kizashi entrava pelos portões do sítio. Certamente ele tinha feito algo terrível para ser descartado por minha família dessa maneira, mas o que seria?
– Então, o que fez seu pai ir para a prisão?
– Foi uma armadilha! – Ela que até então havia mantido sua voz baixa, agora aumentava um pouco o tom. Eu havia chegado em um ponto crítico de sua vida. – Colocaram uma arma que tinha sido usada para matar alguém dentro da bolsa dele. Meu pai não teve nada a ver com aquilo e passou doze anos dentro de uma prisão por algo que não tinha feito!
– Ok, ok. Não estamos aqui para discutir sobre isso, Sakura. A questão agora é saber quem matou seu pai. Você sabe quem fez isso?
– Sim, eu sei.
– E pode me dizer?
– Não posso, não aqui. Eles estão atrás de mim! Assim como fizeram com minha mãe e meu pai, eles querem me ver morta, Sasuke.
– Sua mãe? Ela também...?
– Há alguns dias atrás. – Pela sua voz embargada, ela começaria a chorar novamente em breve, me deixando inquieto outra vez – Por isso vim morar com meu pai ontem.
– Então... Você não tem pra onde ir agora?
– Acredito que á essa altura já saiba a resposta, Sasuke.
Seu olhar sobre mim era intenso. Se houvesse algo com que pudesse ser comparado, diria que era como uma grande ventania e eu era apenas algo que se deixava levar por ela. Não aguentando mais aquele contato, levantei em um pulo da cadeira que estava sentado e caminhei até a porta, deixando a garota para trás.
– Me espere aqui.
Já no lado de fora, fui em direção á recepção, onde Kouta e a estranha recepcionista estavam conversando sobre o clima dos últimos dias. Eu não estava certo do que iria fazer, mas sabia que precisava fazer alguma coisa e essa era a única certeza que eu tinha diante de minha conversa com Sakura.
– Kouta, preciso falar com você.
– Oh, Sasuke! Estava aguardando suas informações!
– A garota é filha dele, deixe-a ir.
– Como?! E porque raios ela não nos disse isso antes?
– Estava em choque, eu acho. – Se havia realmente algum perigo para ela, aquele não era um bom momento para contar isso á ele – Dê um desconto, ela praticamente viu o pai morrer.
– Ela sabe quem são os assassinos? E porque ela mandou que chamassem você para interrogá-la?
– Não, não sabe. E bem... Parece que ela me conhecia, afinal. O pai dela era meu padrinho.
– Ah, cara! Sinto muito mesmo! Se eu ao menos soubesse...
– Na verdade, eu nem mesmo lembrava o nome dele, então pare de se desculpar.
– De qualquer forma, vou liberá-la. Peça pra que deixe seu endereço porque vamos precisar que ela preste depoimento novamente.
– Não precisa, Kouta.
– O quê? Claro que precisa, Sasuke!
– Sakura vai comigo para o meu apartamento.
...
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