Diamantina

1 Primeira parte: Paroxetina — Capítulo 1


Notas iniciais
Capítulo pequeno, mas juro compensar postando mais durante a semana. Espero que gostem, boa leitura!

Faltando três semanas para o meu tão sonhado aniversário de dezesseis anos, tive uma crise depressiva nervosa. E não apenas ficara absurdamente pior com o tempo, como após certo ponto tornara-se incontrolável e irredutível.

O primeiro dos problemas surgiu do colégio. Minhas notas despencaram de um bimestre para outro. Fora repentino e devo dizer, assustador. O até então nove em matemática mudara para seis. E este foi só o início. Passei a não ter mais tanta disposição para os trabalhos escolares, e estava (quase) sempre "ocupada" para os plantões de recuperação. E então a insônia tornou-se constante. Quando conseguia dormir antes das três da manhã (se conseguia), era miraculosamente bom. Dormia nas aulas importantes e nas não tão. Recebi inúmeros comunicados, incontáveis sermões de meus pais e professores. E de súbito os problemas não estavam apenas no colégio, mas em tudo. Nos lugares que tinha de frequentar, em todas as atividades que tentava praticar e no contato obrigatório com as pessoas que me cercavam. É, tudo dentro de três semanas.

Minha vontade de sair do quarto era tão pequena quanto a de ir para o colégio. Sentia enorme cansaço, desânimo e ansiedade. Não sentia vontade de comer, não me interessava pelos assuntos que antes deixavam-me animada e desta maneira, uma imensurável angústia tomara-me por completo.

Então vieram os delírios, o pior de todos os declines. A repentina e contínua sensação de estar sendo observada por alguém, os sussurros incessantes, os surtos psicóticos. Fora rápido e inexplicável. Como se todos os meus problemas viessem à tona de uma só vez. Algo com que definitivamente não pude lidar.

Finalmente fui diagnosticada. Uma senhora de pouco menos de cinquenta anos fora até minha casa e me avaliara, perguntando uma série de coisas das quais nem me lembro. Preencheu um papel com minhas respostas, convicta do resultado do exame. E minha nossa, eu estava um caco, literalmente. Minha terrível aparência mostrava a aparente falta de cuidado que tinha com a escovação, com os banhos e a escolha das roupas para usar.

Enquanto respondia às perguntas da psicóloga, pude ver minha mãe em pé na porta do meu quarto, chorando e extremamente abalada com tudo aquilo. Meus olhos estavam vermelhos e minhas olheiras escuras, resultado da insônia. De fato, eu não estava bem. E felizmente, não fui a única a perceber. Poucos dias depois, faltando uma semana para meu aniversário, três homens de vestimentas claras me levaram para um hospital psíquico. Não que precisassem de tantos homens, é claro, porque meu estado inconsciente permitia que qualquer ser humano de no mínimo cinquenta quilos me levasse para qualquer lugar que quisesse. Novamente, enquanto entrava no táxi, vi que minha mãe apoiava-se no ombro de meu pai e chorava incontrolavelmente.

Esperei na sala de recepção assim que cheguei ao local. Os caras de branco me puseram num sofá onde mais três meninas esperavam, em estados semelhantes ao meu. Uma delas (de aparência afável) encarava-me com pesar, parecendo não desejar estar em minha pele. Seu rosto estava pálido e seus olhos impressionantemente mais avermelhados e esbugalhados que os meus.

Encostei-me no sofá de couro, fitando o teto e as luzes claras e fracas. Suspirei.

— Fernanda? — escutei uma voz feminina chamar-me.

Encarei-a.

Vendo que não obteria resposta, optou por levantar e arrastar-me à outro cômodo. Com dificuldade, entregou uma sacola de roupas para mim e pediu para que me trocasse no banheiro feminino. Balancei a cabeça positivamente, caminhando até uma porta de madeira que apresentava um letreiro gigante escrito "mulheres", numa cor neutra e pouco chamativa. Adentrei o toalete, jogando a sacola sobre a pia num gesto impensado. Apoiei meu corpo na parede fria e plana do lugar e suspirei profundamente.

Saí do local pouco tempo depois, vestida numa calça branca extremamente larga e numa camiseta da mesma cor. A mulher que antes me chamara prendeu meu cabelo num rabo de cavalo e levou-me para outro cômodo, desta vez um quarto incomparavelmente menor, com apenas uma cama (coberta por lençóis brancos, é claro), um criado-mudo de madeira e uma enorme prateleira com livros, toalhas, pilhas de blusas e calças claras.

— Refeições de três em três horas... visitas... Pílulas vermelhas são para... e as azuis serão entregues... — escutei a mesma mulher ressaltar, com uma voz sonolenta que ecoava em minha mente.

— Obrigada — foi tudo que consegui responder.

Presa. Tratada por problemas psicológicos. Louca.

Enquanto caminhava pelo corredor até o quarto onde fora trancada, me deparei mais de uma vez com um aviso impresso que dizia: "Todas as luzes serão apagadas após as nove da noite". Como esperariam que dormíssemos tão cedo tendo a maioria de nós insônia e ansiedade como principais sintomas, não conseguia entender.

A resposta me viera mentalmente logo em seguida. Os remédios.

Notas finais
Não se esqueça de deixar seu comentário! Até a próxima.