Diamantina
2 Senhora dos Temores — Capítulo 2
Notas iniciais
Levantei-me com enorme dor de cabeça. Tudo ao meu redor parecia querer explodir, ecoando o barulho de uma sineta que me deixava tonteante. Percebi que havia um copo d'água sobre o criado-mudo, então tomei o líquido num só gole. Depois de esvaziar o recipiente, vi que haviam três comprimidos de cores diferentes ao lado do copo de plástico. Engoli-os em sequência, tentando ignorar o gosto horrível. Talvez uma das pílulas melhorasse minha dor de cabeça. Ou talvez fossem acalmantes e dopamina.
O primeiro dia de internação. Segundo, se contasse com minha chegada. Entretanto, preferi pensar que era o primeiro, assim teria um ponto zero na contagem de dias. Abri uma das gavetas do móvel e retirei de lá uma caneta já fraca, usada inúmeras vezes e com a ponta quebrada. Rabisquei na parte detrás do criado-mudo um pequeno símbolo, marcando o início de minha internação. Dezoito de agosto. Primeiro dia.
Recebi a bandeja do café da manhã minutos após, me deparando com o simpático e amigável rosto de uma das enfermeiras daquela ala.
Degluti uma porção de bolachas integrais que não tinham gosto algum e bebi uma xícara de café adoçado. Haviam frutas e um copo de suco sobre a bandeja, mas decidi não me sobrecarregar de comida (o que acredite, era tudo que eu menos queria). Enquanto mastigava pausadamente os pedaços de bolacha, encarei a enfermeira, que (devo dizer) tinha uma aparência afável. Tinha o peso acima do considerável, usava um vestido branco justo ao corpo e sapatos da mesma cor, as madeixas onduladas e escuras que lhe caíam até o ombro. Apresentara-se como Nancy, e disse que estava feliz com o novo emprego. Em seguida, dissera-me para deitar e repousar até que os remédios pudessem efetuar-se em meu organismo.
Concordei com um aceno.
— Não tome estas até que lhe ordenem — concluiu, deixando o quarto.
Quando saíra, vi que depositou uma carreira de três pílulas amarelas. Pensei que fosse esperar para ver se eu iria realmente tomá-las (como fazem as outras enfermeiras), mas Nancy apenas se virou e trancou a porta do quarto. Juntei as pílulas nas palmas de minhas mãos e as coloquei sob o travesseiro, ignorando o fato de que elas me ajudariam com o autocontrole.
Inquieta, levantei de minha cama e ajeitei a pulseira que me mandaram colocar logo que cheguei (a ponta do objeto arranhava meu pulso de um modo nada confortável). Abri o espaço que havia no centro da porta e chamei por qualquer pessoa que estivesse andando por aquele corredor. O tempo estava horrível. Mesmo num quarto tão pequeno e sem janelas, podia sentir o frio invadir-me durante a madrugada (e de manhã, o pior horário para se levantar de uma cama quente e macia). De início, não obtive respostas. Uma das pacientes que estavam próximas ao meu quarto gritaram algo que não pude definir, o que me fez ficar quieta por um tempo. Após alguns minutos, chamei por alguém novamente, e repeti o ato por cinco vezes. Por fim, obtive resposta. A psicóloga que cuidava de grande parte dos pacientes da ala C (a qual eu estava), lançou-me um olhar longínquo, que pude ver com dificuldade.
— Do que precisa? — Perguntou, olhando-me desconfiadamente.
A psicóloga era uma mulher jovem, de pouco mais de vinte e oito anos, a pele clara e os cabelos loiros que definiam-se perfeitamente num coque bem feito, o que lhe dava um aspecto sério.
— Água.
Ela assentiu brevemente, e esperei pelo momento em que finalmente poderia respirar o ar de qualquer outro lugar. Abriu a porta, examinou-me e se apresentou como Olívia. Seus olhos eram azuis como o oceano e igualmente profundos.
— Você precisa sair. — ela se aproximou vagarosamente.
Concordei com um gesto de cabeça. "Então vista-se", ela disse, como se trocar uma calça e blusa brancas por outras idênticas fossem mudar algo. Mesmo não concordando com aquilo, obedeci-a, vestindo roupas idênticas as quais eu estava vestida anteriormente. Desprendi meu rabo de cavalo e pedi para que ela fizesse outro. Meus fios de cabelo estavam embaraçados e sujos, loucos por um excelente banho. Segui-a, e Olívia nos levou para fora do prédio no qual eu estava. Atravessamos um enorme corredor (estreito, devo ressaltar) e ela trocou minha pulseira por uma que dizia "visitante". Larguei a antiga que tinha escrito num letreiro minúsculo "paciente ala c". Mesmo que por pouco tempo e de modo ridículo, sair um pouco daquele quarto era maravilhoso (o que é irônico de se dizer, porque eu daria tudo para não sair do quarto de minha casa). Andamos por mais inúmeros longos corredores e eu percebi que as outras alas eram aparentemente maiores do que a minha (mais frias também). Pacientes que surtavam num curto período de tempo eram levados para a enfermaria ou centro de psiquiatria, mas em ambos os locais recebiam o mesmo tratamento (respondiam perguntas das quais nem sequer escutavam e tomavam uma pilha de comprimidos coloridos).
Mesmo que séria, Olívia parecia ser uma boa pessoa, e eu não queria enlouquecer ao seu lado. Por isso, ignorei todas as tentativas de minha mente para levar-me ao insano (é claro que eu não poderia fazê-lo o tempo todo). Me arrependi de não ter colocado uma camiseta de manga longa, porque o frio tornou-se insuportável quando chegamos na ala B (entendi que quando ela me disse para trocar de roupas, referia-se à blusa).
Pensei ter escutado-a perguntar algo, mas só tive certeza quando a mesma repetira a pergunta pela terceira vez.
— Quer visitar o jardim?
Fale com o autor