Diamantina
5 Pesadelo das Oito e Meia — Capítulo 5
Notas iniciais
Jamais senti-me tão insegura quanto ao meu estado físico. Nestas últimas temporadas, minhas pernas bambearam diversas vezes ao tentar levantar-me da cama. Além do despreparo físico, as pupilas dilatadas e os olhos inchados demonstravam o quanto necessitava d'uma noite de sono. Quando fora a última vez que parei para reparar em meu corpo, e não em minha mente? Afinal, um não depende do outro para funcionar bem?
Depois dos primeiros seis dias, o tempo literalmente voara. Quando me dei conta, já havia anotado três semanas na folha de papel encapada, e quatro, e então percebi que se passara um mês inteiro de internação. Trinta e um dias realizando exercícios respiratórios, andando de uma ala para outra, livrando-me de comprimidos e tentando manter a sanidade o máximo que pudesse. Felizmente, vi Thomas mais nove vezes após nossa primeira visita. Infelizmente, isto significa que tive exatas mesmas quantidades de delírios. Numa noite, foram as luzes do corredor. Debati-me contra algo que poderia jurar estar ao meu flanco. Era uma senhora, e murmurava uma canção totalmente fora de seu original ritmo. E então todas as lâmpadas daquela extrema apagaram-se em seqüência. Gritei, berrei, esperneei e arranhei-me ao ápice. Thomas estava sempre por ali. Nancy também. Contavam-me o que eu precisava saber e ganhavam minha companhia como sobra (mas ainda uma companhia, certo?).
O bafejo extremamente gelado percorria-me o corpo durante a noite, uma das enormes desvantagens de estar n'um período gélido (além é claro, de ser um de meus vigorosos obstáculos para dormir ao toque de recolher). Como efeito desta estúpida regra de dormir antes das dez, minha insônia fora-se. Meus olhos não apresentavam a mesma vermelhidão e tampouco o edema, mesmo estando particularmente inchados ultimamente. Apesar das complicações para adormecer e acordar todos os dias aos meios de oito da manhã, as horas pareciam correr.
Deitei-me em minha cama e adormeci. Pela primeira vez em tempos, o sonífero fizera com que eu dormisse antes mesmo do horário mandado. Embolei-me nos lençóis e procurei ficar o mais confortável possível. As luzes do corredor ainda estavam acesas e alguns pacientes recebiam atividades psicológicas antes de se deitarem.
Levantei com dificuldade, cambaleando. Sentia uma enorme dor muscular e um cansaço irremediável. Ziguezagueei de um costado para outro, procurando saber onde diabos eu tinha me metido. Sentei-me apoiada no canto da parede e parei para analisar o local onde estava. O teto (assim como o piso e as amuradas) apresentava uma coloração escura, próxima ao total preto. Não havia nenhum sinal de iluminação, nenhuma luminária ou qualquer objeto que me transmitisse luz, entretanto o quarto estava claro o bastante para que pudesse percorrê-lo. Diferente de qualquer cômodo que eu já vira (e desta vez falo sério), naquele não avistei nenhum móvel ou utensílio sequer. Desesperadamente, corri pelas laterais do aposento e debati-me contra a imensa vontade de gritar. Não se desalente. Suspire. Respire. É apenas um sonho.
Subitamente, os quatro lados do lugar encheram-se de fogo, e a antes tintura escura se transformara numa horripilante ferrugem. Desta forma, berrei o quanto pude. Gritei até que minhas cordas vocais não agüentassem. Levei minhas mãos à cabeça e lacrimejei, desejando acordar naquele momento. Então, a chama se apagou. O quarto voltara ao normal (é, como se nada houvesse por ali). Ainda de modo desesperador, limpei minhas lágrimas com os pulsos, esperando pelo esplêndido instante em que Nancy entraria em meu cômodo e me tiraria deste horripilante sonho com uma bandeja de bolachas integrais. Entretanto, nada aconteceu. Eu ainda estava lá. Opostamente, a labareda agora me tomava o corpo, fumegando cada parte de mim. Em estado de pânico, tentei apagar a brasa que queimava minha pele, debatendo-me fisicamente. O fogo ardia e penetrava-me, mesmo que este não deixasse nenhum sinal aparente. Era apenas a dor, a agonia. Não deixara nem mesmo o início d'uma queimadura.
Despertei (de verdade, quero dizer). Reconheci a enfermaria antes mesmo de abrir os olhos. Os burburinhos e o sonolento caminhar das enfermeiras facilitavam a o repentino reconhecimento. Olívia encarava-me com pesar. Minhas unhas estavam cortadas num tamanho mínimo e havia curativos por todo o meu braço. Exaustivamente, soltei um longo suspiro e afundei-me na cadeira estofada, esperando qualquer sermão validado da psicóloga.
— Quer mesmo saber como aconteceu? — Indagou, com uma incrível calmaria, talvez imaginando minha suposta ansiedade quanto ao último surto.
— Não será necessário, receio. Sei como aconteceu. Na realidade, sonhei com isto. Era um comportamento de meu pesadelo, não tinha o propósito de reagir do mesmo jeito realmente, se é que pode me entender.
— Eu posso. Fernanda — Prosseguiu, a voz doce e suave como de hábito — É o seu terceiro impulso em semanas. Precisa ter autocontrole. Não se lembra do que me disse?
Não. Na verdade, não me lembrava de absolutamente nada.
— Claro — Respondi, afinal.
Diferente de quando não me observavam, tive de tomar os comprimidos sob vigia de Olívia (o que era um saco, devo admitir, porque eu particularmente só precisava descansar minha mente). Depois, deixara-me. E só pude perceber o quão tarde havia acordado quando Nancy trouxera-me o almoço logo após Olívia deixar a enfermaria. Um ensopado horrível com gosto de borracha, o qual tomei sem a mínima vontade.
— Um mês e dois dias. — Ela me disse, entregando o papel e a caneta de pouca tinta — O tempo está passando depressa, não acha?
— Obrigada. — Respondi, riscando o mesmo desenho de sempre — E como está.
Trinta e três dias, afinal. Contando com o fato de que o sanatório localiza-se no centro da cidade, admira-me o fato de meus pais não vierem para uma visita (já que após o primeiro mês não há horário de visita e tampouco dias em que são proibidas). Talvez Olívia recomendasse o afastamento, vendo que estou em estado de recuperação, e que o mesmo não obteve considerável avanço.
Com pouca dificuldade, terminei a sopa de ervilhas e deitei-me em minha cama, esperando calorosamente pela próxima remessa de comprimidos e repensando sobre o que acabara de vivenciar em pouco mais de um mês de internação, um tempo consideravelmente maior que imaginei passar por aqui.
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