Diamantina

6 O Trigésimo quarto Dia — Capítulo 6


Notas iniciais
Boa leitura! Nos vemos nas notas finais.

Destes tempos para cá, estive pensando. Cada faísca de desequilíbrio emocional é um passo para o início d'uma loucura. Nós tendemos ao normal, entretanto esquecemos que a caminhada para o comum é cheia de delírios. E que quanto mais normal tendermos a agir, menos teremos resistência ao surto psicótico. Afinal, quem é que supera uma vida inteira de traumas apenas evitando-os? Somos provas disto. É impossível, completamente improvável. Uma hora ou outra, não temos forças o suficiente para prosseguir com uma mente sobrecarregada por todo tipo de merda possível.

Lembro-me de minha tia Margareth, o estilo de parente que mora no interior do interior e só nos visita quando algum outro parente mais próximo falece (ou quando alguém se casava). E aos verões (ou as férias do meio do ano), mamãe me mandava para o sítio onde Margareth vivia e eu a escutava com atenção todas as vezes que tinha um desabafo para fazer. "Ninguém é completamente feliz", ela me dizia. "Sempre haverá uma lágrima guardada, um desabafo escondido, uns palavrões no entalo da garganta. Sempre. Não dá pra viver num castelo todos os dias, o dia inteiro. Todo mundo tem o que se lamentar", ela olhava dentro dos meus olhos e repetia aquilo com um sorriso enorme no rosto. E eu imaginava o quanto era louca. Só depois fui entender que aquele sorriso enorme significava o quanto tia Margareth sofria.

Então descobri que é da solidão que nascem os mais belos poemas, lendo os enormes e emocionantes textos dos clássicos livros que havia em meu quarto. Os autores (na maioria das vezes) alcançaram o sucesso em sua momentânea época de melancolia, angústia, os típicos sentimentos que nos deixam pensativos aos meios d'uma madrugada. E claro, que qualquer fragmento d'um fato pode transformar-se num pensamento e vice-versa.

Neste tsunami de vagas conclusões, vi que ninguém além de mim se importa com meu estado de recuperação. Afinal, o mundo corre tão bem e todas as pessoas parecem tão felizes, enquanto estou próxima ao canto d'um abismo.

Também perguntei por meus pais pelo resto das últimas semanas, mas nenhuma das enfermeiras tem permissão para abrir o bico. Eles não querem deixá-la me visitar, o que é totalmente maldoso (afinal, o que uma visita faria de prejudicial?). Tiraram-me da enfermaria e não vejo Thomas há um bom tempo, o que é horrível, porque agora só posso conversar com Nancy (uma enfermeira dez anos mais velha do que eu e danificada emocionalmente).

Quero dizer, antes de ser internada aqui, pensei que todos nós nascêssemos por uma razão em especial. Que tivéssemos uma missão a cumprir e que nos tornássemos especiais de alguma maneira enquanto vivos. Impressionantemente, acho que este não é um pensamento nulo. A diferença é que agora acredito que possamos mudar nosso caminho, que não precisamos simplesmente aceitar nosso destino e trilhá-lo como esperam que façamos. Thomas pode ser prova disso. Talvez até eu possa ser uma prova disto. Não sei ainda. Cada um de nós temos algo para contar, viver, presenciar. Não estamos aqui apenas por estar, certo? É o que concluo. O único problema desta conclusão, é que não posso torná-la realidade. Estou presa ao meu psicológico. Aprisionada por minha própria mente. Não sei se consigo derrotar a mim mesma.

Já que estamos ressaltando lembranças, tia Margareth certa vez entregou-me um medalhão de prata, com uma bela foto de minha família (antiga também, devo dizer), e disse-me que aquele seria o meu amuleto dali em diante. É claro que não acreditei naquilo. Pessoas tendem a encarar seus medos de maneira fácil, rápida, como a sorte em si. Como despejar toda a confiança que pode ter num cordão com uma antiga foto de sua família. É estúpido, completamente ridículo, e ainda assim, é o suficiente para podermos dormir tranquilamente. Pensar que ainda estamos vivos e que temos alguém com quem nos preocupar. Infelizmente, Margareth não conseguira basear-se nisto toda a existência. Ela morrera. Matara-se, para ser mais exata. Escrevera turbilhões de cartas despedindo-se (uma para mim, inclusive), trancou cada saída do banheiro e sufocou-se. Fora algo terrível de lidar para todos nós, mesmo que não a víssemos com freqüência. Por quê? Porque somos assim. Não nos importamos de início, não ligamos e não damos a mínima para ninguém até que este faleça. E não que faça alguma falta em nossa vida. É apenas o falecimento em si. Uma alma a menos. Impactante, claro. Para qualquer um (até para os que não se importam).

Como num faz de conta (uma enorme ironia, é claro), fui parar no local que menos imaginava vir. Um local para loucos. Destinado àqueles que nem mesmo conseguem se controlar. Sinto-me tão inútil por isso. É como se não pudesse ser o suficiente para ninguém, afinal, se não consigo cuidar de mim mesma, de quem mais poderei? Sinto como se fosse um explosivo altamente danificante para quem quer que deseja aproximar-se de mim, penso que qualquer ideia ou ato meu poderão prejudicar todos ao meu redor. Horrível, não? Ser apenas mais um no mundo. Só mais um que não obtém propósito, que caíra no final errado. Que ainda não conquistara seu final feliz.

É como o auge d'um filme. O momento em que tudo dá errado para o personagem principal, que nada parece funcionar. E então, no final perfeito, o principal descobre uma maneira de solucionar todos os seus obstáculos (não ignorá-los, e sim encará-los e destruir os mesmos), apaixona-se perdidamente por sua alma gêmea e vive feliz para sempre (ou até onde der). A diferença entre um filme e minha realidade, é que não vejo uma luz no fim do túnel. Penso numa, mas não a avisto. É como se quisesse transformar-me, entretanto não pudesse fazê-lo. Ah, e tem outra diferença também. Não tenho minha alma gêmea.

No meu caso, este é um filme de terror. Todos morrem no fim. A personagem principal é o alvo para todo e qualquer tipo de mal. O obscuro é o vencedor. A propósito, quem é forte o bastante para vencer a si mesmo?

Notas finais
Olá, o que achou do capítulo? Não se esqueça de comentar.