Diamante Negro

2 Ser negra é um crime


Notas iniciais
Viajei na história e estou tentando seguir com meu objetivo. "Negrinha de bosta" não é um preconceito meu, mas sim do personagem. Eu não sou preconceituosa e acho tudo isso uma merda!

“Meu maior erro foi ter nascido negra. Não sou criminosa, mas esse é um crime.”

Enquanto eu cantava, perdi a noção do tempo, estava terminando minhas tarefas quando ouvi o barulho da chave na porta. Agora não sei o que fazer, eu já deveria ter ido embora, me distraí. Talvez me esconder seria uma solução, mas a sentença por encostar meu corpo nas coisas dos senhores seria pior, poderia pular pela janela, mas os guardas estão lá embaixo e com certeza me levarão para os meus patrões. Não tenho o que fazer apenas arcar com as severas consequências. Abaixei minha cabeça e estava parada em posição de respeito, já sabia o que estava por vir. Ouvi a porta ser aberta, ouvi passos e vi os pés de um dos Bauer passando em minha frente, após ter pegado algo na geladeira parou na minha frente e disse:

– Por que está aí parada e de cabeça baixa menina? Pode me ver um copo?! Estou com muita sede.

Eu continuei em silêncio e de cabeça baixa, me surpreendi alguém branco estar falando comigo. Fui e direção das luvas para pegar o copo. E novamente ele disse indignado:

– O que está fazendo? Eu só pedi um copo, por que das luvas?

Eu não pude responder, pois, as consequências seriam piores, só estava esperando saber quantas chicotadas eu iria levar e estava fazendo de tudo para o número não aumentar.

– Ei! Você não vai falar nada? O que está acontecendo? Levante sua cabeça e me responde.

Eu pude perceber que este senhor não estava atualizado com a situação em Corasco, então me atrevi em dizer que não poderia levantar a cabeça porque eu era negra. Ele ficou sem entender, porque levou uns minutos em silêncio para digerir o que eu tinha dito.

– Isso é um absurdo! Meu pai aprova isso, por aqui? Meu pai precisa saber disso!

Foi quando eu levantei a cabeça já que o filho do patrão me mostrou saber de nada do que estava acontecendo por aqui e disse:

– Seu pai que decretou isto!

– Meu Deus, mas isso é um absurdo. Isso tem nada a ver. Meu pai me mandou para lutar em nome do nosso país e desde criança eu estava em treinamento, eu cresci com soldados, brancos e negros e não tinha nada disso. — Disse ele confuso com toda aquela informação. – Vim passar um tempo aqui com a minha família tem uma semana e meu pai não me disse nada sobre como governava aqui. Perdão. – Disse ele tendo compaixão com a minha situação.

– Tudo bem, agora pode, por favor, me dizer quantas chicotadas levarei? – E tornei a abaixar minha cabeça.

– Nada disso. Não existem motivos para você apanhar. – Disse ele horrorizado.

– Eu sou negra e aqui funciona assim, não era para falar com você, não era para estar olhando nos seus olhos. Você não pode mudar a situação. Eu errei por ter nascida negra. Você precisa sentenciar quantas chicotadas, porque se o seu pai descobrir vai sobrar para você. – Disse eu abaixando a cabeça após ver o Sr. Fernando, seu pai, chegando à porta.

– O que está acontecendo aqui? — Perguntou Sr. Fernando, com raiva. – Vá pro seu quarto Bruno. E quanto a você pestezinha, já sabe que vai dormir fora, até não ter mais costas. Esquece o seu salário desse mês sua negrinha de bosta. — Disse ele me arrastando pela orelha e limpando sua mão após me jogar para fora de sua residência.

Então era isso que eu tinha para essa noite, dois dos seus guardas me escoltaram até a minha casa esperando a hora para me levar na marra ou por “vontade” para eu pagar a sentença do Sr. Fernando. Expliquei a minha irmã que eu iria passar aquela noite fora, não disse que seria apanhando, mas no dia seguinte ela veria. E passei orientações a ela para trancar a porta, não abrir por nada para ninguém. Preparei uma sopa para ela jantar e expliquei que não iria jantar porque não daria para nós duas. O lado bom de não estar dando para nós duas comer é que eu estou emagrecendo, e precisamos economizar mais do que nunca esse mês porque não terei salário. Já era hora e precisava me arrumar adequadamente para tal sentença. Coloquei o pano para tampar minhas partes íntimas, o resto não deveria ter nada. E dependendo de quem for me chicotear até os panos eu vou ter que retirar, a noite é o pior momento para ser chicoteado, os serventes se aproveitam. Fui escoltada até o local, antes de entrar eu já escutava os urros de outros negros pagando a sua sentença para os Bauer’s. Era como um curral, mas ao invés de cavalos, nós éramos os cavalos.

Por sorte não pediram que eu retirasse meu pano e começou a tortura, prenderam minhas mãos e pés, me penduraram, agora um na frente e outro atrás, ao mesmo tempo... Uma... Duas...Três... Apertei meus olhos e mordi meus lábios... Cinco... Seis... Comecei a sentir o sangue escorrendo... Oito... As lágrimas escorriam queimando as feridas... Dez... Trocaram de serventes... Doze... Eles iam se revezando para não cansar os braços e não bater com mais força... Quatorze... A noite iria ser longa, abri meus olhos e saiam lágrimas involuntariamente, eu até contraia o meu corpo por causa da dor... Vinte... Trocaram de servente, me mandaram tirar os panos, aconteceu o que eu temia, enquanto um batia no chão para fazer barulho o outro me usava e exigia gemidos. Na verdade, não sei o que é melhor, ser usada e descansar de dez chicotadas ou apanhar sem direito a descanso. Aquelas mãos sujas e ásperas alisando meu corpo, ditando o que eu deveria fazer e como, me enojava me dava ânsia de vômito. Estou me sentindo suja, nem usam proteção pelo menos, estou correndo risco de ficar grávida de um lixo desses, agora invés de gastar dinheiro com comida, vou precisar comprar remédios. Sem contar que eu posso adquirir alguma doença. Não posso pensar nisso agora. Me penduraram novamente... Vinte e um... Vinte e dois...

Notas finais
Espero que gostem! Críticas? Comentários?! Me ajudem. Beijos