Diamante Negro
3 Eu quero lutar
Notas iniciais
”Não é apenas isso que me resta. Eu quero mais, eu mereço mais.”
A essa altura já perdi a conta de quantas chibatadas eu levei. Já não sinto minhas costas. Agora chegou a parte mais difícil, explicar a Maíra o que houve e o porquê, não queria que ela crescesse com vergonha de ser negra, ou com raiva, embora eu sinta tudo isso, eu sei que não é um dos melhores sentimentos. Ao chegar em casa eu abro a porta bem devagar para não acordá-la, mas me esquecera q eu pedi pra que ela colocasse algo atrás da porta e foi um fracasso a minha tentativa de entrar sem chamar atenção. Maíra veio assustada, descabelada e com um pedaço de pau na mão me atender e disse:
– Maria! Levei um susto, poderia ter levado uma paulada. — Disse minha garota irritada por eu ter a assustado.
–Essa é a garota que eu treinei. Sempre esperta e atenta. — Disse rindo pra quebrar o clima e orgulhosa.
Maíra vem ao meu encontro me dar um abraço quando eu gemi, e assim ela prestou atenção nas minhas feridas. E perguntou:
–Maria, o que fizeram com você? Disse ela começando a chorar.
– Não chore minha pequena, isso acontece mesmo. – Disse eu limpando suas lágrimas. -Agora preciso tomar mais cuidado. Volte a dormir q eu tenho q ir ao trabalho. — Disse a direcionando para o nosso quarto. Por fim, fui tomar um banho para ir ao trabalho.
No banho, conforme a água caia do chuveiro, o modo sintonizado dos pingos, me fez pensar. Eu deixava a água cair em meu corpo, ignorava a dor e repetia cenas do dia anterior na minha cabeça. Como era possível, o filho do Sr. Fernando não saber de nada? E onde eu estava com a minha cabeça ao falar com ele? Quando começou essa distinção dos brancos e negros, já que o Sr. Bruno nunca ouvira antes? Será que poderia ser feito algo pra quebrar essa parede invisível que nos separa? E aquele Sr.Bruno, o que era aquilo? Me deu uma atenção que nunca ninguém tinha me dado antes, ele me tratou como uma pessoa, já tinha esquecido como era isso. E aquela sua voz? E aqueles seus olhos? E aquela forma educada que falava? E aqueles cabelos perfeitos? Chega Maria! Seu foco não é o amor, ainda mais com um branco Bauer. Precisa focar em ser branca, em cuidar da sua irmãzinha que precisa tanto de você e em principalmente tentar enfraquecer o governo dos Bauer's. Fecho o chuveiro, me seco devagar digerindo meus pensamentos.
Coisa de criança! Eu não tenho poder em enfraquecer nem que seja um pouco o governo dos Bauer’s. Minha mãe morreu lutando e todos os que estavam com ela. Eu sozinha, não conseguirei. Em 2027 foi o maior massacre dos negros, onde famílias foram destruídas e as crianças maiores passaram a cuidar de seus irmãos menores. Eu fui uma dessas crianças e com 14 anos fui tirada da minha casa a força para me oferecer aos Brancos, de qualquer forma precisamos comer e teria de trabalhar, antes da minha irmã ser obrigada a ser oferecida a eles, eu quero comprar o direito de ser Branca, eu preciso. Porque não escolhemos o tipo de trabalho e pra onde iremos. Mas quer saber? Tenho oito anos para pensar nisso, preciso terminar de cuidar das minhas feridas e me dirigir ao trabalho, não posso vacilar hoje, porque não terei corpo para pagar a sentença.
Maria caminha em direção à casa dos Bauer’s e pensa, por um instante, se vai encontrar novamente com o Sr. Bruno, no outro instante ela volta a realidade e tem a certeza de que a casa está vazia quando abre a porta. Ela começa seu trabalho cantarolando como sempre e vai fazendo suas tarefas inacabadas de ontem, começando as de hoje. Enfim, hoje deu tempo de fazer todas as tarefas antes do retorno dos donos da casa, hoje era dia de reunião para ajustar leis, mas Maria tem a certeza de que as leis são injustas e nunca são ajustadas, exatamente porque convém aos Senhores. A Senhora Bárbara é provável que tenha ido fazer sempre, que é o que ela só sabe fazer. Ela faz compras, usa uma vez e junta pra que Maria jogue fora e é daí que ela tira roupa para sua irmã e ela mesma. Quando ela come melhor e não tem comida estragada ou já no lixo, ela leva para casa, mas ultimamente por ruindade e por imaginar que Maria levava os restos, eles passaram a jogar a comida fora. E Maria vai para casa e troca os seus curativos. Ao ver sua irmã chegando, Maíra pergunta:
– Trouxe algo para comermos? Está tudo vazio e eu estou com fome.
Essa era a pior frase que Maria poderia ouvir, ela mesma poderia sentir fome, mas jamais desejaria isso a sua irmã.
– Pegue o dinheiro do potinho e vamos ver o que dá para comprar. – Disse Maria, pensando que está cada vez mais difícil alcançar seu objetivo.
Maíra correu para pegar o potinho de moedas e o dinheiro mal dava para comprar dois pães. O bom é que hoje Maria cantará no bar do Sr. Nelson e então a sua pequenina poderia comer um pouquinho, já que carinhosamente e gentilmente o Sr. Nelson provia para elas. Foram comprar o que dava com aqueles trocadinhos.
Maria queria fazer mais. Ela merecia mais. Maíra queria comer mais. Ela merecia mais.
Maria apenas se contentou em descansar seu corpo por uma noite no mínimo.
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