Diários de uma Loira

3 Certezas Incertas


Notas iniciais
Olá gente! Quanto tempo x3 Mais uma nova história para este diário de aventuras. Espero que gostem.

Então é assim. O dia está particularmente agradável. Não está um calor que nos derrete como se fossemos gelado humano com sabor de tripas. Mas não está um frio desgraçado para nos congelarmos e quando andamos à marmelada com o nosso namorado e as nossas línguas ficam coladas para o que parece uma eternidade. -- Deve ser o puro significado de um "para sempre".

E aqui estou eu. Sentada num banco da gare à espera do meu promissor namorado. Estamos separados faz umas semanas e nem por isso me sinto deprimida ou com saudades que até fazem o coração saltar. Nada disso. Ele liga-me, eu ligo. Trocamos sms e rapidinhas pelo skype. É como se ele nunca se tivesse ido embora. E depois perguntam-me: Mas e não sentes saudades do perfume dele? Do toque dele ou a maneira como ele te abraça?. Claro, mas não ao ponto de me matar por isso. Ou ao ponto de ligar o facebook e despejar todas as tretas que passam pela minha cabeça e deixar todo o mundo a saber o quão desmiolada sou. -- Por favor, sou loira, mas não sou estúpida.

Passam por mim vários casais novos. Provavelmente, como no meu caso, os parceiros estudam longe, vivem longe, alguma coisa que assegure a palavra longe -- mas acho que já esgotei as opções do longe. Agarram-se de maneira exaustiva, os beijos metem medo quem passa -- aquilo é um nível muito bizarro, tenho quase a certeza que a língua daquela jovem já passou do esófago do namorado.

Não há sinal do seu comboio. Estou aqui há mais de uma hora. Não era suposto ele já ter chegado? Ele disse-me que vinha hoje. Bato com o pé no chão, as botas castanhas produzem um som irritante e paro quando a velhinha ao meu lado me encara com uma expressão do género: se eu fosse dez anos mais nova arrancava-te essa cabeleira, cabra. -- Não quero que ela volte a ter 10 anos a menos e me arranque seja lá o que for. Cruzo as pernas, descruzo, volto a cruzar. Agarro com força a mais o banco de plástico azul. Olho para o tecto de ferro escuro e coberto com um coberto de plástico verde escuro. Olho para o chão, para as pastilhas de várias cores que decoram de forma nojenta o chão de cimento também escuro e velho. Olho para as linhas do comboio. Imagino o som dele a chegar, a senhora com voz esganiçada a convidar o passageiros a embarcar numa nova aventura e a minha aventura a sair, com o seu cabelo bangunçado e ruivo. Um sorriso que tem apenas uma cova de um lado e o seu casaco castanho de cabedal que compramos numa feira qualquer simplesmente porque não queríamos sair dali sem comprar pelo menos um artigo. Não o imagino com flores, ele sabe que odeio isso, além disso ficariam todas murchas antes de chegar. Não o vejo com chocolates, ou outros presente qualquer. -- Só ele, os seus olhos azuis e o sorriso travesso que tanto me encanta.

Levanto-me, limpo as leggins pretas que ficaram sujas com o pó da parede e começo a andar. Aperto o meu casaco melhor e avanço em direcção a nada. Procuro por um sinal de que talvez o comboio esteja atrasado. Suspiro, alguém bate em mim, nem pede desculpa -- ignoro.

Não há pior sensação que a incerteza, estar-se e não se estar. Pensar que se sabe e afinal nunca se soube nada. E é assim que ando pela gare, esperando algo incerto. Ter uma certeza que nunca foi certa. Que ele voltaria para mim. Talvez seja por isso que aqueles adolescente se beijam de forma estranha, se agarram simplesmente para voltar a ter certeza das suas incertezas.

É melhor ficar sentada, esperar mais um pouco e decidir quando finalmente está tudo certo. E ele não vai aparecer. Encolho-me no meu casaco. Não de frio, de medo. Medo de perder algo, alguém e um sentimento. Soa estranho, não soa eu. É difícil amar alguém que até chega a doer. Eu pensei que era imune a essas coisas, a esses clichés de filmes e livros que enchem as prateleiras de livrarias e cinemas. Pelos vistos não, sou simplesmente azeda até chegar ao momento de todas as duvidas aparecerem e virar um pote de mel estragado por saudades e sentimentos não saudáveis para ninguém.

–- Aqui estás tu -- uns braços fortes rodeiam-me por trás e os seus lábios beijam o meu couro cabeludo. Uma lágrima estúpida cai no momento certo ou errado e pinga-lhe para o braço. O seu casaco castanho fica com uma nódoa escura. Ele larga-me, anda à minha roda e acocora-se à minha frente. Com um sorriso simples oferece-me a sua mão. Pousou-a em cima da dele e ele aperta-a como se quisesse passar algum tipo de mensagem. Mas não a entendo. Provavelmente com um ar confuso que faço ele abana a cabeça e deixa os seus olhos azuis observarem os meus. Tantos bons sentimentos saem desse céu escuro, desses olhos cristalinos. -- Vamos para casa. -- Levantamos-nos. Ele abre os braços e eu enterro a minha cara no peito dele num choro compulsivo -- Eu sei, também te amo.