Diários de Verônica
4 2 de Janeiro de 1989
Notas iniciais
Eu ia tentar postar na quarta, mas não deu tempo, pq eu tava cheia de provas e trabalhos >.<
Mas pra compensar eu fiz um capítulo beeeeeeem grande pra vcs!! o/
02 de Janeiro 1989
Querido diário,
Eu tinha dito poltergeist? Eu acho que além de ser médium eu virei vidente agora... Tá, tudo bem, aquilo não era um poltergeist, mas aquela coisa me deu um trabalho desgraçado! Ai, meu Deus, eu não consigo tirar uma folga!
Eu não entendo ainda direito como é que esses fantasmas conseguem exercer influência sobre uma pessoa ou até que ponto eles podem chegar, mas eu espero nunca mais ter que passar por uma situação dessas. Eu vou contar tudo pra ficar mais claro. Começando do começo então:
Saímos de casa logo depois do almoço, a viagem até lá foi chata e cansativa, uma hora e meia de estrada. Mamãe estava de mau-humor, mas ainda tentava quebrar o clima ruim conversando um pouco comigo. Então nós passamos a viagem falando sobre a amiga viúva dela, a quem estávamos indo visitar, chamada Tânia, que entrara em depressão após o casamento de sua única filha. Não que depressão seja uma doença(*), mas já estava afetando seriamente a saúde dela. É bom escutar a mamãe de vez em quando, o humor dela melhora consideravelmente quando ela recebe atenção.
Mas assim que nós chegamos lá, assim que entrei naquela casa, eu percebi que havia algo de errado, talvez o problema daquela mulher fosse mais que uma simples depressão. Eu podia sentir naquele clima pesado que pairava na casa qualquer coisa de mal, e ela gritava. O que quer que estivesse lá nos queria fora daquela casa. Foi aí que eu percebi que qualquer coisa ali precisava da minha ajuda, querendo ou não. Então eu decidi que iria investigar.
Enquanto mamãe foi para o quarto de Tânia para conversarem um pouco, eu seguia a empregada até o quarto que eu iria ocupar com minha mãe. Depois comecei a andar pela casa, explorando, observando cada detalhe, procurando sinais que eu nem sabia direito quais eram. Parei em um canto da sala, aonde estavam a maioria das fotos da família. Haviam fotos muito antigas, de Tânia com seu marido e a filha ainda pequena, de Tânia com os pais, com os primos e com amigos também. As fotos mais recentes eram as do casamento da filha. Como não achei nada, fiquei na sala lendo um livro que, eu trouxera comigo, até a hora do jantar.
Com muito esforço, mamãe conseguiu fazer Tânia juntar-se a nós na mesa. A velha cozinheira ficou muito feliz, pois a mulher não saía mais do quarto nem para comer. Mas Tânia ficou apática durante toda a refeição, não falava nada e mal comia. Até eu tentei puxar assunto, falar alguma coisa para animá-la, perguntei sobre a filha e sobre o casamento, mas ela falou pouco. Mal terminara de comer e já quis voltar para o quarto, ela estava debilitada por causa da febre, então mamão foi ajudá-la, eu acompanhei as duas até o quarto caso mamãe também precisasse de ajuda.
O que aconteceu quando eu entrei naquele quarto? O meu primeiro impulso foi fazer Tânia dar meia volta, mas eu não consegui. Sabe por quê? Assim que pus o meu primeiro pé naquele quarto eu pude sentir uma aura maligna. Eu não sabia o que era, mas dava ao aposento um clima pesado e eu comecei a me sentir mal a ponto de não conseguir respirar. Eu não estava mais conseguindo ficar em pé, estava com as costas apoiadas na parede. Então olhei para mamãe, queria saber se elas estavam, bem, e eu fiquei surpresa pelo fato de elas não estarem sentindo nada. Mamãe ainda estava guiando Tânia até a cama calmamente, eu tentei gritar que ela parasse, que a tirasse daquele quarto agora, mas eu não conseguia.
Controlando a falta de ar, saí do quarto e tentei colocar os pensamentos em ordem. Claro que mamãe não sentiria nada, ela não tem nenhuma sensibilidade! Mas como diabos eu falaria para ela que Tânia não podia mais ficar naquele quarto? E como diabos eu ia descobrir o que estava lá? Eu decidi que era melhor ir dormir e tentar relaxar a mente. Eu até tentei, mas quando me dei conta ainda estava revirando na cama e o galo já estava cantando.
E no dia seguinte tentei fazer o que estava ao meu alcance: Tentar manter Tânia longe do quarto o máximo possível. Tentei entrar no quarto dela novamente, comecei a sentir aquele mal estar novamente, então fiquei apenas na porta enquanto mamãe a ajudava. Observando atentamente o quarto, eu pude ver algo. Não chegava a ser um espírito, não... Não estava nítido, era um vulto, estava envolto em uma aura negra tão espessa e tão concentrado em Tânia, que a minha tentativa de manter um contato foi falha. Enquanto eu não descobrisse o que era aquilo eu não poderia deixar Tânia lá, então depois do café da manhã eu a arrastei a te a sala e forcei um conversa simpática com ela.
Nós estávamos observando as fotos e ela me falava de sua família, acho que realmente tinha conseguido animá-la enfim. Ela estava me falando sobre o casamento da filha quando uma rajada de vento fez a janela de madeira abrir-se repentinamente e fez um dos porta-retratos caírem no chão. Era um porta-retratos grande, eu o peguei com cuidado, pois havia vidro quebrado espalhado no chão, eu o observei de perto, reparando nos rostos de todos os que apareciam na foto. E ela me disse o nome de todos, primos, primas, tios... Todo mundo, menos um.
-E que é esse aqui ai seu lado? – perguntei meio curiosa.
-Ah... Só um amigo da família, o nome dele é Adriano – Ela falou. Então ela pareceu sair de foco por alguns instantes, estava pensativa, talvez revendo algumas lembranças, até que finalmente continuou – Você pode coloca essa foto ali, por favor? Próxima da foto do Alberto, isso.
Enquanto eu recolocava o porta-retratos no lugar eu observava bem a foto de Alberto, o falecido.
-Sabe, mocinha, o Alberto e o Adriano eram muito amigos... – ela falou em um tom meio nostálgico – acho que eles se conheciam desde sempre, foi um choque pro Adriano quando o Alberto morreu. Acho que o Alberto ia ficar feliz de saber que o Adriano não perdeu o contato com a nossa família apesar de tudo...
E durante aquele dia eu consegui mantê-la longe do quarto por um bom tempo. Mamãe e eu conversamos com ela por um bom tempo e eu fiquei sabendo muitas coisas sobre a família dela.
À tarde, então, eu tentei fazer com que ela saísse, mais que do quarto, da casa. Então dei a idéia de visitar a filha dela, apenas ela e mamãe, claro, eu não queria ser um incômodo. Tânia não sabia se deveria ir, estava doente e por certo preocuparia a filha, mas mamãe tanto fez que conseguiu. Disse que faria bem a ela, que a filha deveria estar com saudades e que essa era uma época de estar com a família. E enquanto elas se arrumavam eu organizava meus pensamentos, talvez tivesse alguma idéia do que estava acontecendo ali.
Como era sábado e já estava relativamente tarde, os empregados já haviam ido embora, portanto eu fiquei sozinha na casa depois que elas saíram. Fiquei algum tempo ponderando sobre o que eu faria, e depois decidi simplesmente não pensar nisso. Fui até o quarto de Tânia e sem pensar abri a porta e soltei:
-Então, Alberto, você está com ciúmes por que Tânia está namorando com o seu melhor amigo?
E antes que eu pudesse falar mais alguma coisa, senti aquela súbita falta de ar novamente, como se garras estivessem apertando meus pulmões. Mas juntei todas as forças que tinha para continuar a falar.
-Ela não pode viver presa a você, você está morto. Ela tem o direito de ser feliz com quem ela quiser, a vida dela, ao contrário da sua, continua, e ela tem que seguir em frente. Vá descansar e a deixe viver em paz.
Senti uma forte pressão sobre o meu corpo, e por um instante pensei que não fosse mais conseguir me mover. Só que, como um milagre, o ar estava voltando aos meus pulmões e, com muito esforço, eu consegui sair daquele quarto. Eu juro que havia uma luz lá! Quando eu saí do quarto, um estrondo na sala chamou minha atenção. Quando eu cheguei lá, vi a porta da rua aberta, era um amigável convite do meu amigo Alberto: Saia daqui.
Não, eu não ia sair até convencê-lo a descansar.
Agora eu tinha voltado à estaca zero. Ele não ia me ouvir, estava cego pela raiva e pelo ciúme. Então eu desisti de fazer mais alguma coisa por aquele dia.
De repente eu percebi que eu estava com fome, mas que hora! Bom, mamãe havia prometido que traria alguma coisa para mim quando voltasse, então eu decidi esperar. Fui até a cozinha apenas para pegar um copo de água. Eu sinceramente não sei que foi que teve essa idéia de guardar os copos na prateleira mais alta do armário, mas eu já odiei.
Então eu estava lá na ponta dos pés, morrendo para alcançar um copo. Eu já estava quase conseguindo, eu já estava puxando com muita dificuldade o primeiro copo que alcançara. De repente meu corpo ficou rígido. Eu estava paralisada, na ponta dos pés e com aquele copo mal colocado em minha mão ameaçando cair a qualquer momento. Eu já sabia que quem estava fazendo aquilo comigo era aquela alma penada cretina!
E tão rápido quanto me paralisou, ele me deixou relaxar. E nesse momento eu deixei o copo cair e se estilhaçar no chão e em seguida eu mesma caí por cima do copo quebrado. Resultado: minha perna estava sangrando pra caramba. Peguei o primeiro pedaço de pano que eu vi para tentar estancar o sangramento, e continuei lá no chão, sentada, apertando minha perna.
Sabe o que acontece como se fosse mágica? O fato de as pessoas aparecerem nas horas mais oportunas. Eu não fiquei nem 5 minutos sentada no chão da cozinha quando minha mãe chegou. Ela ficou desesperada, logicamente, e eu explicava pra ela que havia simplesmente tropeçado. Tânia disse que era melhor eu ir a um médico, mas eu disse que não, que estava bem. Eu não queria que ela ficasse sozinha ali. Mamãe providenciara os primeiros socorros e me deu um analgésico. Eu dormi cedo àquela noite.
No dia Seguinte, Tânia estava até melhor. Descobri que a filha a havia chamado para a festa da virada de ano na casa dela, e achei uma ótima idéia que ela fosse com mamãe. Eu decidi ficar em casa, pois minha perna ainda incomodava um pouco (e eu queria tentar falar com Alberto de novo).
Então à noite, quando eu estava sozinha em casa novamente, voltei a pensar em alguma coisa que pudesse amenizar a raiva de Alberto. Depois de algum tempo só havia conseguido pensar em uma coisa, e foi isso que fiz. Decidi rezar por ele. E foi lá, naquele quarto, o quarto de Tânia, que fui fazer minhas preces.
Tentei ignorar o clima pesado, o mal estar e até a relativa falta de ar. Com muita dificuldade, caminhei até um retrato dele que estava à mesa de cabeceira da cama e me ajoelhei defronte a ele. Nas mãos eu levava um terço que havia pegue das coisas da minha mãe.
E comecei a rezar. Rezava pela alma dele, para que a alma perdida dele encontrasse a paz, encontrasse seu lugar e pudesse descansar em paz. Rezei pela felicidade de Tânia, para que ela pudesse ser feliz e seguisse a vida dela pensando no futuro e não no passado.
De repente comecei a sentir de novo. Meus músculos enrijeceram e eu estava paralisada. Eu podia sentir, nitidamente, as mãos em volta do meu pescoço e o ar fugindo de meus pulmões. Tentei ignorar e voltar a rezar por ele, mas quando me dei conta, só estava pedindo a Deus que não me deixasse morrer ali.
O quarto começou a brilhar. Eu até pensei que alguém tinha acendido a luz, mas não havia mais ninguém lá. Era uma luz branca e forte, cobri os olhos instintivamente. Só aí percebi que estava me movendo novamente e eu estava sentindo algo totalmente diferente do que havia sentido há segundos atrás, estava me sentindo leve. E calma. Eu finalmente vi o espírito de Alberto, ele estava lutando contra alguma coisa, mas não estava mais com raiva, e sim com medo. Mas não consegui ver contra quem ele estava lutando, por que depois disso tudo o que me lembro é de ter acordado na manhã seguinte, na minha cama.
Mamãe não comentou nada comigo sobre ter me carregado para a minha cama e nem sobre eu ter caído no sono no outro quarto. Ela até achou estranho o fato de eu ter perguntado a ela como eu havia ido parar na minha cama, então decidi não falar mais no assunto.
Depois do café, quando conversei com Tânia novamente, ela parecia bem mais alegre. Falava da festa e das pessoas que havia reencontrado, quando perguntei se ela havia visto Adriano ela me pareceu corar um pouco. Foi no meio daquele clima de felicidade que parecia surgir que eu percebi que não havia mais nada de ruim naquela casa. No final da tarde fui até o quarto de Tânia sob o pretexto de ver se ela estava melhor de fato. E ela estava melhor, a febre não voltara e ela não precisava mais de remédios. E mais importante: eu consegui andar livremente pelo quarto, o que significava que ele não estava mais por lá. Ela me deixou abrir as janelas e deixar o ar frio entrar no quarto. Estava tudo bem, finalmente.
E finalmente eu ia voltar para casa. Depois de uma noite muito bem dormida, mamãe e eu pegamos a estrada de volta. Tânia parecia não querer que nós fôssemos embora, e nem mamãe parecia querer ir, mas depois de uma longa despedidas com muitos agradecimentos e recomendações e de mais uma hora e meia de estrada eu mal podia acreditar que estava em casa novamente! E nunca gostei tanto do meu quarto e do espírito inofensivo que mora com a gente. Talvez eu até converse com ele qualquer dia desses.
Eu realmente estava feliz por ter acabado tudo bem com Tânia, mas eu saí de lá com muitas perguntas não respondidas. Por que eu sei que não foram apenas as minhas orações que fizeram Alberto descansar. Eu não sei o que era aquela luz e nem como na manhã seguinte eu acordara na minha cama, só sei que não fui eu quem levou o espírito dele de lá.
Notas finais
Povoooooo, esse capítulo ficou muuuuuito maior do que eu tinha planejado! Mas eram cinco dias de viagem que tinham de ser escritos em um dia só...
Também, quem foi que mandou a Verônica viajar e deixar o diário em casa?!
Então é isso XD
Muito obrigada pelos reviews, eu amo todos vcs!! o/
P.S.: Por favor relevem qualquer erro que possa ter aparecido, é que eu tava com pressa e não deu pra revisar direitinho a história.
bjosmil =**
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