Diários de Verônica
5 03 de Janeiro de 1989
03 de Janeiro de 1989
Querido diário,
Sabe o que é pior do que passar as férias em casa? É passar as férias em casa com a perna machucada... Agora além de tudo eu tenho que ficar sentada ou deitada direto, e isso é um saco. Às vezes eu acho um saco ter que ficar andando de um lado para o outro, mas quando a gente não pode mais fazer isso a gente sente uma falta danada.
E mamãe tinha me proibido expressamente de levantar da cama, mas como à tarde eu fiquei sozinha em casa eu fui passear no quintal. Eu gosto de ir para lá conversar com a minha avó, mas hoje papai a havia levado ao médico por que ela estava com umas dores de cabeça esquisitas, então eu fui sozinha mesmo. E fiquei lá sozinha mesmo observando a árvores e sentindo o vento.
Eu gosto do meu quintal, ele é digno de uma casa grande colonial. É grande e espaçoso e tem muitas roseiras, pois minha avó adora. Na época das chuvas elas ficam floridas e o quintal fica muito colorido, uma coisa linda de se ver. Meu quintal também parece um pomar, a maioria das árvores é frutífera. Logo perto da porta se vê uma goiabeira e em seguida um enorme pé de seriguela. Esse é o meu xodó, eu realmente amo essa frutinha! Perdi as contas de quantas vezes mamãe brigou comigo por eu estar em cima da árvore comendo seriguelas verdes com sal ao invés de estar estudando! E é uma árvore enorme, acho que existe desde antes do vovô nascer. Mas continuando com o desfile de frutas do meu quintal, há também um limoeiro, por sinal, os limões mais gostosos que já comi, uma laranjeira, uma bananeira, um grande pé de azeitona preta, um pé de berinjela, um de acerola e até um coqueiro além de uma hortinha muito charmosa com alface, repolho tomate e cenoura e a planta trepadeira que dá maracujás que se alastrava pelo muro dos fundos. Eu acho que se a minha avó colocasse um galinheiro no quintal a gente não ia precisar de mais nada!
Bom, então estava lá eu, no quintal, impedida de subir no meu pezinho de seriguela querido, cortesia do colega Alberto da cidade vizinha, fazendo nada, apenas vendo o tempo passar. Então ele apareceu lá. Exatamente, o fantasminha camarada que mora aqui em casa. Ele é velho, parece ter a mesma idade que a minha avó, e também é sereno, nunca o vi com outra expressão a não ser essa de calma e paciência que ele sempre carrega. Ele tem uma barba muito branca e os ombros curvados e eu arrisco dizer que ele já estava tendo certa dificuldade para andar na época em que morreu, seja lá qual for essa época. Eu não sei bem dizer qual é, mas as roupas dele são de um tempo bem anterior ao meu.
E ele ficou lá, parado embaixo da goiabeira, olhando para mim e só. Eu não sei se fantasmas podem adivinhar esse tipo de coisa, mas parecia que ele sabia que havia acontecido algo durante a viagem, e não era só pelo fato de eu estar com a perna machucada.
E então eu decidi falar com ele pela primeira vez na minha vida, e eu não fui muito amigável.
-O que você ta olhando, nunca viu? – perguntei da maneira mais ríspida que consegui.
Então ele se aproximou mais de mim, como se ainda estivesse com medo de dizer alguma coisa. Mas logo perdeu o medo e abriu a boca para falar comigo. E disse:
-Você não tem medo de fazer o que faz?
Sim, ele abriu a boca. Eu senti as palavras saírem claramente de lá. E não, isso não é normal.
Tem um motivo para os fantasmas serem fantasmas. Eles não são humanos. São muito parecidos com humanos, mas não são. Sabe o que é esquisito sobre conversar com fantasmas? Eles não falam, não como esse velho acabou de fazer. Normalmente quando eu estou falando com eles eu escuto as vozes deles como se fossem telepatia. Eu as escuto como se fossem parte do meu pensamento. Às vezes elas parecem sussurros, às vezes parecem gritos, às vezes é qualquer coisa tão estranha que não dá pra manter uma comunicação. Mas eu aprendi que é raro ele falarem de fato. Mas esse cara falava, e eu fiquei sem palavras naquele momento, eu realmente estava surpresa, para não dizer assustada.
Só que eu não quis deixá-lo perceber isso. Eu sou uma garota destemida, não tenho medo de nada!
-Não tenho, não! Se não eu não faria isso.
Ele continuava calmo e sereno, como se não ligasse para minhas reações e continuou falando mais para si mesmo que para mim:
-Eu conheci uma pessoa que tinha medo... Muito medo. Você deveria ter medo também, mocinha, é saudável.
-Há quanto tempo você está aqui? – perguntei tentando tirá-lo de seus devaneios.
-Acho que há uns cinco minutos – ele respondeu e sorriu para a cara feia que eu fiz ao ouvir essa resposta.
Se ele fosse material eu com certeza já teria jogado uma pedra nele sem me importar se ele ia agüentar ou não. Aquele velho tinha entendido o que eu queria perguntar.
-Você parece muito o seu avô quando fica com raiva... – ele disse com outro sorriso.
Eu dei um pulo da cadeira e comecei uma série de perguntas.
-Vo-vo-você conheceu meu avô! Peraí, você conheceu o meu avô? Tá falando sério? Quantos anos você tem, então? E como é o seu nome? Você era amigo dele? Você morava aqui também? Como era meu avô quando era mais novo? Ele era mesmo safado como a minha avó diz que ele era, ou ele era quietinho e a minha avó que era ciumenta? Ele gostava de viver aqui? Sim, pois a vovó também diz que apesar de tudo ele não fazia muita questão de vir aqui e...
E ele me interrompeu. Ele me interrompeu com a risada dele. Era uma risada daquela de gente velha, contagiante, me fez lembrar meu avô. E ele ficou rindo mais um pouco antes de tentar responder a todas as minhas perguntas.
-Eu me chamo Jorge. E posso dizer que vi o seu avô crescer. Eu era, sim, um grande amigo dele e vivia aqui com ele. E eu não sei como era a vida pessoal dele com a sua avó, por que ele se mudou quando casou. E ele não era safado, só um pouquinho saidinho com as garotas, eu acho que sua avó só aumentou um pouco as histórias por que ela também era bastante ciumenta. E... Eu acho que ele gostava daqui sim, mas não sei a quais lembranças ele se apegou mais. Pronto, você está satisfeita agora, verônica?
-Como você sabe meu nome? – eu perguntei quase em um grito.
-Eu moro aqui também, oras! — E piscou para mim.
E durante toda a tarde ele, pacientemente, me contou muitas coisas que eu queria saber sobre o meu avô. E me contava muitas histórias da infância de vovô, falava de como meu avô também deixava de estudar para ficar em cima das árvores, de como ele inventava desculpas para não ir à escola e muitas outras coisas que eles vivenciaram juntos.
Até que um barulho na porta da frente me chamou a atenção. Eu me virei para ver o que era e quando voltei, ele tinha desaparecido. Deve ter sido por que ele estava adivinhando que era mamãe que estava chegando e que eu ia levar uma senhora bronca por ter levantado da cama e ido justamente para o quintal. Para completar tudo, papai chegou praticamente na mesma hora e também brigou comigo, disse que eu não deveria ir para o quintal por que a areia poderia inflamar meu ferimento, mas eu simplesmente não vejo como, já que mamãe fez questão de colocar três camadas de gaze na minha perna.
E agora aqui estou eu, na minha cama, esperando o sono chegar. Talvez amanhã o velho Jorge venha me visitar no meu quarto para falar mais do meu avô, quem sabe...
Notas finais
Então Galerinha, mais um dia na vida de Verônica!! XD
Eu não sou de pedir reviews não, mas se você quiser pode deixar um review aqui ^^
Eles fazzem bem pra inspiração do autor, rsrsrs
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