Diários de Verônica

11 13 de Janeiro de 1989


Notas iniciais
Me processem, eu demorei pra postar! De novo... u.ú Mas esse capítulo ficou enooooooooooorme. Deus Abençoe *________* Have fun o/

13 de Janeiro de 1989

Estou com medo.

Hoje de manhã vovó não estava muito bem de novo, e meu pai andava para um lado e para o outro dizendo que o resultado das radiografias estavam erradas por que continuavam dizendo que ela não tinha nada. E eu fiquei com medo. Fiquei com medo por ela, pelo que o Velho Jorge me disse hoje e pelo que meu pai falou depois.

O dia foi terrivelmente tedioso. Depois do almoço papai saiu, foi novamente até o consultório médico, e disse que não saía de lá sem respostas, então eu continuei em casa sozinha com minha mãe tentando me convencer a fazer uma festa de aniversário e quando eu pensei que fosse melhorar por que Lílian apareceu aqui em casa, não melhorou. Nós conversamos muito pouco e depois ela foi namorar em algum lugar onde eu, nem mais ninguém, pudesse ver.

Então estava eu, sozinha, deitada no sofá da sala olhando para o teto quando o Velho Jorge apareceu sentado na poltrona ao meu lado.

-Você veio alegrar minha tarde?

-Se eu disser que não você ainda vai me ouvir?

-Talvez... – eu respondi – Depende, se você parar de emanar essa coisa ruim eu posso até te ouvir – desde o momento em que ele aparecera ali eu senti qualquer coisa de ruim vindo dele. Eu sempre soube que não era bom sentir o que eles sentem.

-Verônica – ele parecia estranhamente hesitante – Eu tenho algo muito importante para falar.

Eu sentei e o encarei.

-Importante como?

-É sobre a sua avó.

A aura ruim que emanava dele estava ficando cada vez mais densa. Eu comecei a pensar que seria melhor não ouvir o que ele tinha a falar, mas eu acho que ele ia falar mesmo se eu não quisesse ouvir.

-Não é bom, é? – eu perguntei mesmo já sabendo a resposta.

-Você sabe que não.

Ele ficou lá, sentado na poltrona, calado. Aquele clima pesado estava acabando comigo. Não era só isso, era a preocupação dele, ele estava com medo de me dizer aquilo.

-Você quer parar com isso? Eu já entendi que você está preocupado comigo, e com minha avó também, eu acho, mas pode soltar a bomba, eu agüento – na verdade eu não sabia se agüentaria, eu só queria que ele falasse logo.

-Verônica, você já pensou que o fato de vocês não descobrirem o que sua avó tem pode ser só porque vocês estão fazendo os exames errados?

-Como assim os exames errados? Nós fizemos o que o médico mandou, oras!

-Talvez eles não sejam os certos.

Ótimo, ele tinha virado médico agora! E eu não sabia aonde ele queria chegar com aquela conversa.

-E por que você está questionando o médico agora? Não é uma boa coisa ela não ter nada?

-É impossível ela não ter nada.

Ele disse aquela frase com uma segurança tão grande que eu não pude duvidar. Agora eu só olhava para ele, morrendo de medo do que ele diria em seguida.

-Hoje, quando eu a vi, eu... Eu senti algo... Isso não é normal, mas às vezes pessoas como eu conseguem sentir isso e eu não sei como explicar, eu... Eu só sei que o tempo dela está acabando.

Claro que eu não consegui falar nada na hora (essa uma das maneiras de se reagir quando te dizem que sua avó tem pouco tempo de vida), eu só fiquei lá com a boca aberta encarando aquele velho cretino. Não sei exatamente quanto tempo se passou, mas acho que não foi só um minuto ou dois, até que eu conseguisse falar de novo.

-E você me fala isso com essa naturalidade toda? – eu gritei, ignorando o fato de que teoricamente eu estava falando sozinha.

Lílian veio correndo de... Onde quer que ela estivesse. Ela apareceu na porta, seguida por Evandro.

-Vé? – pode rir o quanto quiser, ela me chama assim desde sempre. Ela queria me chamar de Vera, mas eu não gosto que me chamem assim, é um nome totalmente diferente do meu – Vé, você estava me chamando? Mamãe ligou ou alguma coisa do tipo?

-O quê? Eu... Não, eu... Eu estava só... – Eu ainda estava um pouco atônita, caso não tenha percebido, e ainda tinha que fingir que não tinha um fantasma na minha frente. Respirei fundo e finalmente respondi – Não, não foi nada. Pode Voltar a namorar em paz — Eu nem tentei sorrir, eu não ia ter conseguido mesmo.

-Você tem certeza? – ela perguntou.

-Sim, eu tenho – Sim, eu tinha certeza que estava tudo um caos total!

Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Lílian foi arrastada por Evandro de volta para... Onde quer que eles estivessem, e eu voltei minha atenção para o Velho Jorge.

-Você está vendo alguma naturalidade em mim? – ele disse num tom de protesto – Não pense que está sendo fácil ter que te dizer isso, porque não está. Nem um pouco!

E não estava sendo nem um pouco fácil aceitar aquilo. Na verdade estava sendo impossível. Ele pode estar errado, não é? Afinal, até os fantasmas erram. Principalmente eles.

-Oh, me desculpe a indelicadeza – eu respondi ironicamente – o que você queria que eu fizesse, que soltasse fogos?

-Eu não queria nada, mas agora eu quero que você se acalme! Eu sei que isso não é o que gostaria de ouvir, mas eu me senti na obrigação de te dizer. Talvez você consiga fazer alguma coisa a respeito.

-Como se eu pudesse fazer alguma coisa contra a morte... – eu respondi derrotada.

-Verônica, eu sinto muito... – a voz dele estava tão baixa que nem eu sei como consegui ouvir aquilo.

-Então... – talvez eu já estivesse controlada o suficiente pra conseguir falar sobre aquilo – Quanto tempo? Quanto tempo ela ainda tem.

-Eu não sei dizer. Não foi uma coisa nítida, nem uma visão ou previsão... Foi só um sentimento, como um mau pressentimento. Pode parecer vago pra você, mas eu sei o que significava.

-Então se eu te perguntasse como você também não ia saber me responder... – na verdade, isso deveria ter sido uma pergunta, mas acabou saindo mais como uma afirmação.

E eu não queria falar sobre aquilo e não queria mais ficar na presença dele. Era um daqueles momentos em que eu desejava mais que tudo no mundo não poder vê-los, não ter nascido anormal desse jeito. E Doía muito.

Não falei mais nada para o Velho Jorge, simplesmente levantei, fui para o meu quarto e chorei até dormir.

Devo ter dormido durante umas três horas, mais ou menos. Quando acordei, Lílian já havia ido embora e meu pai já estava em casa. Ele estava no escritório, fazendo qualquer coisa que não me interessava no momento. Saí do quarto em direção ao escritório, mas parei no meio do caminho. Eu sabia o que tinha que fazer, mas eu não queria fazer: eu tinha que falar com meu pai, mesmo sabendo que ele ia achar que eu estava louca.

Enquanto eu ia até meu pai, andando mais devagar que uma lesma em câmera lenta, minha mente tentava encontrar alguma coisa que me fizesse dar meia-volta, qualquer coisa! Podia ter sido a lição de casa que eu me esqueci de fazer, ou a cama que eu não arrumei, ou um telefonema que eu precisasse fazer para alguém, qualquer coisa, mas eu não achei nada... E antes que eu percebesse, eu já estava batendo na porta. Instantaneamente ouvi papai responder que eu podia entrar.

Ele estava sentado à mesa, concentrado no trabalho, nem levantou os olhos para me olhar quando eu entrei. E eu fiquei lá parada, olhando pra ele, sem coragem de quebrar aquele silêncio. Mas eu tinha que falar alguma coisa. Tinha mesmo? Não... Eu tinha era que sair dli, antes que eu fizesse uma besteira. Dei um passo pra trás e comecei a falar:

-Então... Parece que o senhor está muito ocupado, não é? Talvez fosse melhor eu voltar em outra hora. É, é isso que eu vou fazer – disse dando meia volta e começando a abrir a porta – eu vou voltar depois e...

-Verônica – pude ouvi-lo chamar atrás de mim. Da maneira que eu estava eu parei. Não movi nem um dedo.

-Sim?

-O que você quer me falar?

-Eu? – perguntei nervosa – Eu não... Não era nada de importante, eu posso falar depois, não quero atrapalhar o senhor.

-Verônica? – ele chamou de novo. Ele não usava um tom autoritário, mas aquilo estava me matando – Você, alguma vez, já me interrompeu para falar alguma coisa que não fosse importante?

-Hmmm... Não – eu respondi num sussurro.

-Então eu suponho que você queira me dizer algo importante. E não negue, você não estaria nervosa assim se fosse alguma coisa à toa.

Então era isso, não dá pra fugir dele. Então eu sentei de frente para ele, mas não comecei a falar. E ele não perguntava nada, ficava só me observando enquanto eu brincava com meus dedos e pensava em como começar aquela conversa.

-Não se preocupe – disse ele depois de um tempo – eu não estava realmente fazendo algo importante, eu só estava tentando ocupar a mente.

Eu acho que ele disse aquilo por que ele pensava que eu estava com peso na consciência por ter atrapalhado ele ou coisa assim. Mas realmente fiquei mais aliviada em saber que não estava realmente atrapalhando.

-Ah? Que bom, então... – eu disse vagamente. E depois não falei mais nada.

Foi papai que quebrou o silêncio novamente.

-E você? Vai falar ou eu vou ter que adivinhar o que te trouxe aqui?

-Bom, eu... – é, não teve jeito – eu vim aqui por que... Por que eu estou preocupada.

-Com..?

-Com a vovó.

As feições do rosto dele suavizaram um pouco. Falando daquela maneira realmente não parecia nada importante. Ele pôs a mão sobre a minha e disse:

-Não precisa se preocupar com a sua avó, Verônica. Olha, vai ficar tudo bem com ela.

-Não, não vai! – eu quase gritei. Depois abaixei a cabeça e fiquei esperando ele falar mais alguma coisa. Mas ele ficou calado, acho que estava esperando eu explicar o que eu tinha dito.

Talvez eu devesse ter dito que um fantasma me disse que passou perto dela e sentiu que ela ia morrer, mas eu achei melhor não fazer isso.

-É... Que... Eu sei que você também está preocupado e que a vovó tem feito muitos exames, mas... Talvez ela esteja fazendo os exames errados.

E quando eu pensei que ele fosse me encher de perguntas e querer saber de onde eu tirei aquela idéia maluca, isso não aconteceu. Papai fechou os olhos, deu um longo suspiro e respondeu:

-Eu sei.

Eu sei, parece estranho, mas foi isso mesmo. A última coisa que eu pensei que fosse ouvir dele. Eu até esqueci o que eu tinha ensaiado mentalmente pra dizer para ele. Então foi minha vez de ficar calada esperando uma resposta.

-Hoje eu fui consultar o médico de novo. Ele disse a mesma coisa.

-O que ele disse?

-Bom, ele estudou os sintomas novamente e decidiu pedir uma segunda opinião sobre o caso e pediu uma nova bateria de exames. Ele disse que fica mais fácil ter um resultado quando já sabemos o que estamos procurando.

-E o que ele está procurando agora? – eu perguntei, mas não sabia se queria uma resposta.

-Ele acha que... – agora era papai quem estava nervoso e hesitante – Que seja câncer cerebral.

Eu tapei a boca com as mãos. O interessante é que eu acho que não teria conseguido gritar se tentasse, eu estava muito chocada, mas acho que foi uma reação involuntária.

-Nós conseguimos marcar os exames amanhã e pedimos os resultados com urgência. Ele não tem certeza se isso é mesmo verdade, ela pode não ter um tumor no cérebro, mas...

Demorou um pouco, mas eu percebi: papai estava com medo. Ora, mas claro que estava! Era a mãe dele que estava doente e era a mãe dele que podia morrer. Quer dizer, que vai morrer, mas ele não sabe e eu não vou falar, ele não precisa disso agora.

E o que era que eu podia fazer naquele momento? Nada.

Na verdade, eu podia tentar confortá-lo. Eu sou péssima com essas coisas, ainda mais sabendo que eu provavelmente teria que mentir para ele e eu odeio mentir para o meu pai. Mas era isso ou ficar olhando a agonia dele sem fazer nada.

Eu levantei da minha cadeira, papai fez a mesma coisa quando me viu levantar. Fui até ele, do outro lado da mesa, passei meus braços em volta da cintura dele e o abracei com força. Nossa, tinha me esquecido de como ele era alto. Então falei para ele a mesma coisa que ele me tinha dito alguns minutos atrás:

-Não se preocupe, vai ficar tudo bem.

Pensando melhor agora, aquilo me pareceu uma coisa muito idiota de se dizer em um momento como aquele.

Papai sabia, tanto quanto eu, que aquilo não era verdade, que não ficar tudo bem, mas ele se apegava àquilo como se fosse a única coisa que o mantivesse firme naquele momento. Ele me abraçou também e eu comecei a chorar com a cabeça enterrada no peito dele.

Ele esperou pacientemente que eu acabasse de chorar antes de sair do abraço e sentar novamente.

-Verônica – ele começou a falar, colocando as mãos em meus ombros – Escute, eu não queria falar nada sobre isso para ninguém, ainda não. Então será que você pode, por enquanto, não falar nada para sua mão ou para a sua avó? Só até saírem os resultados. Câncer é uma doença muito grave e assustadora, eu não que seja bom falar sobre isso se não estiver totalmente confirmado, e eu não queria assustar você ou sua mãe, principalmente ela, você sabe como ela é...

Fiz que sim com a cabeça. Papai se agarrava com todas as forças à idéia de que aquilo não podia ser verdade, infelizmente eu não podia fazer isso. Eu tinha certeza de que aquele exame ia dar positivo.

-Agora é melhor você ir para o seu quarto, acho que agora o melhor que nós podemos fazer é tentar dormir um pouco.

Dormir? Fala sério, Dormir? Ele realmente estava pensando que eu ia conseguir dormir depois dessa conversa? Mas eu acho que ele ia se sentir melhor se eu concordasse, então eu concordei. Disse até que estava com sono, mesmo já tendo dormido metade da tarde.

Então ele me deu um beijo na testa e eu voltei para o meu quarto. Mas eu não dormi. E nem papai. Eu sei disso por que durante todo o tempo em que fiquei acordada eu pude ver, todas as vezes em que eu saí do quarto por um motivo qualquer, a luz vazando por baixo da porta do escritório. E eu aposto que até agora ele ainda está lá.

Notas finais
Relevem os erros, eu postei com pressa ;] Eu postei hoje pq hoje é aniversário da Ju, e ela sempre me cobra as atualizações, então quis deixar elafeliz no niver dela XD Beijo Juuu, adoro tu! (olha, rimou ) Enfim... Estou traçando todaa vida da verônica, pra não ter mais esses problemas de crise existencial dela e nem ficar sem saber o que fazer com ela. Espero que isso me ajude a escrever mais rápido XDD Elogios? Críticas? Gostou? Não gostou? Sugestões? Deixa um Reviewzinho, tá? Beijo no coração o/