Diários de Verônica
12 21 de Janeiro de 1989
Notas iniciais
21 de Janeiro de 1989
Dizem que um diário é muito útil quando você tem muitos problemas e precisa desabafar. Essa última semana foi péssima. A pior de todas as que eu já tive na vida, e a última coisa que eu pensei foi em escrever em uma porcaria de diário (sem ofensas). Na verdade, eu não tinha ânimo pra nada.
Um resumo da minha semana horrível:
No dia seguinte àquela conversa que tivemos, papai levou minha avó para fazer os exames que o médico pediu. Alguns desses exames nós talvez ainda estivéssemos esperando os resultados, mas o médico pediu urgência, então três dias depois papai voltou do trabalho com todos os resultados do exame em mãos, ele não falou com ninguém e ficou a noite toda trancado no escritório. Naquele momento eu não tive coragem de incomodar papai, mas sofri com ele e me dei ao luxo de chorar até dormir. Eu já sabia o que ela tinha, mas de qualquer forma dói receber essa confirmação, é quando se apaga a nossa última centelha de esperança.
Na manhã seguinte acordei cedo demais, o céu ainda estava meio escuro quando olhei pela janela. Saí do quarto, as luzes estavam todas apagadas e a casa era um silêncio só, nem os passarinhos cantavam, e olha que passarinho acorda cedo pra burro! Eu estava com fome, então fui andando pelo corredor escuro em direção às escadas, mas parei no meio do caminho ao ver a luz que escapava por baixo da porta do escritório de papai.
Não pensei, nem bati, apenas girei a maçaneta e abri a porta, o que me surpreendeu um pouco, eu não pensei realmente que aquela porta estivesse destrancada. A porta abriu sem fazer nenhum ruído e eu entrei, mesmo com medo de atrapalhar meu pai. Quando o vi, ele estava dormindo. Dormia sobre a escrivaninha, com a cabeça e o braço em cima de uma pilha de papéis. Cheguei até a achar engraçado, nunca pensei que fosse vê-lo daquele jeito um dia. Apaguei a luz e saí do quarto da maneira mais silenciosa possível. Quando eu estava fechando a porta ouvi a voz dele me chamar. Comecei a pedir desculpas por ter incomodado, mas ele não me deixou terminar de falar, me mandou entrar e pediu que eu fechasse a porta.
A conversa foi curta, não havia muito a ser dito. Antes de começar a falar qualquer coisa, passaram minutos infinitos de um silêncio pesado, aonde eu encarava meus pés e papai arrumava os papéis sobre a mesa. Ele organizou e reorganizou aqueles papéis antes de finalmente olhar para mim e perguntar:
-Eu não preciso de rodeios com você. Você sabe muito bem o resultado desses exames, não é?
Fiz que sim com a cabeça. O choro já estava querendo sair, entalado na garganta.
-Eu fiquei aqui a noite inteira pensando em como dizer isso para vocês, mas eu não sei, eu... O médico disse que a sua avó tem realmente um tumor na cabeça e vai precisar fazer uma cirurgia para removê-lo. Ele chamou de meningioma. A remoção cirúrgica é muito arriscada, principalmente devido à idade dela. Apesar disso o médico está otimista e disse que as chances dela são boas, mas...
“mas mesmo assim estou com medo.”. Essa era a frase que eu sei que papai queria dizer, mas não disse. E só eu sabia que o medo dele não era infundado e que talvez vovó não saia viva dessa cirurgia. Abri a boca para tentar falar alguma coisa que pudesse acalmá-lo, mas não pude dizer nada e o silêncio caiu de novo sobre nós, como uma espécie de tortura.
E Naquele momento eu vi uma cena que nunca vou esquecer.
Papai estava calado, com a cabeça baixa e olhava fixamente para os exames em cima da mesa, como se ainda tentasse ver que aquilo tudo não era verdade. Não percebi o que estava acontecendo até ver uma lágrima cair em cima dos papéis. Ele estava chorando.
Papai estava chorando.
Meu pai, o homem forte da casa, o homem corajoso, meu ponto de apoio, estava chorando, estava chorando muito e me pedia entre soluços para ajudá-lo a falar com mamãe. Foi ali que eu decidi que tinha que ser forte. Agradeci a mim mesma por ter conseguido segurar o choro, por que ser forte por mim e pelo meu pai significa não chorar. Não na frente dele.
E então lá estava eu, duas horas depois, sentada à mesa do café, ajudando meu pai a explicar para mamãe tudo que estava acontecendo. Eu tinha que completar a maioria das frases dele por que ele se perdia nas palavras de tão nervoso que estava. Mamãe ficou muito nervosa, mas a reação dela foi melhor do que eu imaginei. Quer dizer, eu esperava um escândalo ou alguma coisa histérica típica dela, mas isso não aconteceu. Ela se desesperou, chorou muito e no final disse que ia rezar todos os dias por vovó e que iria à igreja todos os dias se fosse possível e que faria promessas para todos os santos que conhecesse. Não foi tão ruim assim.
Ruim de verdade foi ter que dizer para vovó que ela tinha uma bola no cérebro e que ia ter que fazer uma cirurgia delicada para retirar aquilo da cabeça dela. Ruim foi ver a resignação nos olhos dela como única reação. Ruim foi a conversa que ela teve comigo depois, bem depois, quando já estava quase escurecendo.
Eu estava no meu quarto, pensando em como seriam as coisas daqui para frente, depois de ter ficado mais de uma hora no telefone com Lílian desabafando todas as minhas angústias, quando ouvi batidas na porta. Era vovó.
Ela entrou e veio até a minha cama naquele passo lento e sentou de frente para mim. Sorriu um sorriso fraco, o mesmo que fez quando aceitou as más notícias que papai lhe dera, antes de começar a falar comigo.
-Você já decidiu o que vai fazer no seu aniversário?
Olhei incrédula para ela. Não queria ser desrespeitosa com minha avó, mas a vontade de gritar para ela que aquela não era hora de falar daquilo ficou entalada na minha garganta. Limitei-me a responder o de sempre:
-Vai ser o de sempre: a festa “surpresa” que mamãe sempre planeja. – se é que ela teria ânimo para planejar isso, dadas as circunstâncias.
-Ora, mas você está fazendo quinze anos, não pode fazer só isso!
Ela continuava sorrindo. Aquilo estava me matando.
-E o que a senhora espera que eu faça?
-Faça a sua festa. Com toda a pompa e o luxo que você merece, como sua mãe queria.
-Vovó, por favor, eu não quero falar sobre isso, eu não gosto dessas festas e não vou...
-Verônica – ela me interrompeu. Parecia bastante séria agora – Eu nunca tive dinheiro pra dar essa festa para minhas filhas, e esse sempre foi meu grande sonho. E agora eu tenho você, minha neta, a única filha do meu filho, minha última chance.
E era ali que a conversa começava a ficar mais estranha, e eu não queria que ela continuasse a falar. Mas ela continuou.
-E eu sei que não vou ter outra chance de ver, mesmo que você me dê uma neta... Eu nem sei se vou ter a chance de ver você casar...
-Vovó, não... – tentei interrompê-la, mas ela não me deixou, e falou a frase que mais me doeu.
-Eu estou morrendo, Verônica. E você sabe disso.
Não preciso dizer o peso que senti sobre minhas costas. Eu realmente sabia que ela estava morrendo.
-Mas vai dar tudo certo, a senhora não vai...
-Não fique repetindo isso se você não acredita. Eu também não acredito. Eu vou morrer, e queria ver você lá naquela festa, linda, dançando a valsa com o seu pai, completando seus quinze anos de vida.
-Mas vovó, eu não quero, eu realmente não quero.
-Pense bem nisso. É só uma festa. – Ela disse antes de levantar.
E sorriu de novo.
-Considere esse o meu último desejo.
Pronto, já era. Depois dessa como é que eu podia dizer não para ela?
Mas ela saiu do quarto antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. E agora essa festa é só mais uma das coisas que eu sei que não me deixarão dormir hoje.
Notas finais
beijos o/
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