Diário de uma paranormal
14 Me traga de volta ao começo - Parte II
Notas iniciais
-Ei, Acorda! – alguém me cutucou. Abri os olhos e as luzes queimaram meus olhos por um momento. Enquanto me adaptava o excesso de luminosidade processei o que havia acontecido. Harry, que se dizia meu melhor amigo, me esfaqueou deixando que eu sangrasse até a morte. Correção mental: Harry quando estava possuído, me esfaqueou. O que estava se tornando muito frequente – as possessões não eu ser esfaqueada — antes dele ser sequestrado por seu pai biológico, ausente e nosso inimigo numero um, Bygron. Escondemos esses vários surtos de Amber e Becky, principalmente de Amber que pelo motivo obvio não gostava de Harry e não dava uma chance de mostrar que ele poderia controlar isso. Fui ajudar a controlar isso e olha no que deu.
-Miguel? –chamei.
-Você não está no céu – uma voz conhecida explicou.
-Ah, não me diga que estou no inferno – falei com a voz subindo uma oitava. Como a voz não respondeu, falei – Purgatório?
Outra pausa e comecei a listar todos os lugares pós-morte que eu conhecia:
-Barca de Caronte? Campos de Punição? Limbo? Ceifador sinistro, é você?
-Caramba, Katherine, se eu fosse um anjo te expulsava do céu. Tu é muito chata. – Minha visão voltou ao normal e vi Harry olhando para mim.
-Cara, eu sou muito chata? Pelo menos não saio matando os meus amigos. –falei me levantando. Minha cabeça girou com a velocidade do movimento.
Já em pé vi que ainda estávamos na cozinha da mansão de Bygron. O branco do chão contrastava com as crostas de sangue seco, meu vestido estava manchado de vermelho e Harry também. Na realidade, ele estava coberto de sangue.
-O que aconteceu com você? – perguntei percebendo que soou como preocupação. Porque estava preocupada se eu quem está morta?!
-Eu também estou morto – ele disse lendo meus pensamentos. Harry mostrou a marca de facada em sua barriga.
Isso ainda não explicava o sangue no resto da roupa. Resolvi não perguntar percebendo o que aconteceu quando vi as facas espalhadas pelo chão. Não só a minha faca estava suja, A Faca de Roma também estava tingida até o cabo.
Harry havia se auto esfaqueado. Não era bem um suicídio porque A faca só mata a sua essência ruim, se você tiver um lado bom sobrevive. O que prova muita coisa ele ter sobrevivido.
-Estamos atrasados, temos pouco tempo – Harry disse como o Coelho Branco de Alice no país das Maravilhas.
-Estamos atrasados para que? –perguntei estupidamente e tive uma resposta surpreendente.
-Nós só temos até o amanhecer , depois voltará ao descanso .
-Quando você diz descanso, você quer dizer...
-Morte? –balancei a cabeça afirmativamente – É. Isso mesmo.
Pegamos as facas e corremos até a porta e antes de sair Harry se lembrou do smoking ensanguentado. Ele desabotoou, tirou e saímos.
No salão principal, indaguei:
-O colar de Miguel? Você o viu?
Ele esticou o pescoço procurando em volta – me perguntei por que Harry fazia isso mesmo sendo mais alto que a maioria dos convidados. – enquanto dizia “Vi, tá com uma mulher que está com vestido vermelho e um machado nas costas”.
-Machado nas costas? – falei distraída. Observei ela subir as escadas indo em direção ao banheiro no andar de cima. –Como se mata alguém que já está morto?
-Precisamos de agua benta, acha que Amber tem?
-Acho que deve ter no carro. Ou um livro com instruções.
Atravessamos o salão onde as pessoas dançavam algo animado e vi Becky dançando loucamente. Ela pulava levantando a mão e cantando a letra da musica que tocava. Tive vontade de rir, ela estava bem bêbada.
Abri a porta e uma brisa gelada me atingiu. Harry também tremeu ao meu lado quando saiu. Caminhamos até o carro que Becky, Amber e eu tínhamos pegado “emprestado”. Já que não sei muito de carro, posso descrevê-lo como grande e espaçoso, tinha assentos até na mala, mas estava ocupado por Liester , para caso quem não saiba que está morto.
Não trancamos o carro para que não nos atrapalhassem na hora da fuga. Então enquanto eu encaixava a minha faca no rabo-de-cavalo que acabei de fazer, Harry abriu a porta do motorista do carro e vimos algo que, como posso dizer? Meio desnecessário. Liester ,pelo o que pude ver, estava bem vivinho e se pegando com Amber. Amber foi a primeira a perceber a nossa presença e saiu de perto de seu namorado.
-Não vou nem perguntar se estou interrompendo. – Harry disse segurando o riso. E de repente percebi que não parecia certa toda a nossa festa de hoje. Josh ainda estava preso e muito machucado em algum lugar dessa mansão.
Mas por outro lado Amber e Becky mereciam se divertir um pouco antes de saber que perderam outra pessoa.
-Me dá o cantil com agua benta e podem voltar no que estavam fazendo. – falei rapidamente. –Querido, já que você está mais perto pega aí, tá no porta-luvas.
Liester pegou o cantil enquanto colocava a camisa. Peguei a faca de Amber que estava encima do painel do carro, eu ia precisar mais que ela.
Voltamos à festa correndo, tínhamos até o amanhecer. O que não estava longe.
Subimos as escadas e de relance vi algo estranho. O perfil de uma garota de treze anos no meio daqueles adultos todos, reparei que ela não estava morta como os outros e que parecia muito, muitíssimo com a minha irmã desaparecida.
-Eu vi, hein. –Harry disse enquanto chegávamos à porta do banheiro. Fiz cara de desentendida e ele me explicou.
-Vi você dando uma fiscalizada no Liester quando ele pegou a garrafinha. – Harry balançou o cantil em sua mão. O empurrei.
-Vamos acabar logo com isso.
Era um banheiro para uma pessoa só, percebi enquanto abrimos a porta. Parecia bem estranho, pelo menos para mim, que duas pessoas entrassem em um banheiro. Não pareceu nenhum pouco estranho para Harry.
A mulher que não estava na cabine do banheiro e sim na frente do espelho retocando a maquiagem virou-se para nós dois.
Ele que estava no meu lado, fingiu uma cara de decepcionado.
-Ah, o banheiro está o ocupado.
Ela mal humorada disse:
-Pois é, procurem um lugar melhor para se divertirem.
Lentamente percebi o que ela realmente dizia. Não fiquei constrangida porque estava muito absorta com o colar. Ela estava com o colar de Miguel!
-Acho que deveria nos dar o seu colar. –Harry disse e tranquei a porta. Adoro esses banheiros que a chave fica na porta.
A mulher do machado deu uma risada forcada e perguntou por que faria isso. Harry tirou a faca que estava presa na parte de trás da sua calça, — acho que não vou contar a Amber que ele fez isso com a sua faca – meu cabelo deslizou pelas costas quando também puxei a faca. Isso pareceu bem estupido até puxarmos a agua benta.
-E aí, pensou melhor?
-Até parece que vocês, crianças, conseguiriam fazer corretamente a agua. – Machadinha duvidou.
-Vamos testar? –abri um sorriso psicopata. Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa joguei o conteúdo do cantil em seu rosto. E ele queimou. Muito. Quando os gritos passaram ela disse:
-Tá. Tomem essa droga de colar. – o colar de Miguel pousou na minha mão.
-Obrigado – Harry disse. – Espere sarar o seu rosto antes de sair daqui.
Saímos do banheiro. Um pequeno grupo de demônios passou. Harry escondeu A Faca de Roma antes que alguém percebesse. Eu fiz o mesmo. Ele levantou o cantil para ao grupo como estivesse cumprimentando. Eles já estavam indo embora, Machadinha escancarou a porta, que bateu bem em mim gritando:
-Peguem eles! Eles vieram matar todos nós, veja o que eles me fizeram!
Estranhamente o grupo correu atrás da gente, provavelmente para nos matar. Harry me puxou pelo braço, já que eu estava no lado de Machadinha. Corremos escada abaixo. Não vi a garotinha que parecia minha irmã novamente. Corremos mais um pouco para fora da mansão. Percebi que estava acontecendo algo perto do nosso carro, não consegui ver claramente.
-Droga, chegamos meio atrasados. – disse Harry – Bygron já está fazendo a troca.
O porta-malas estava aberto e Liester parecia tão morto quanto antes. Caramba, ele morreu de novo ou estava fingindo? Bygron segurava Josh pelo braço, que parecia não conseguia conseguir andar sozinho. Becky e Amber estavam paradas no lado do porta-malas.
Harry e eu nos aproximamos lentamente ouvindo o que eles diziam.
-Ele está aqui. Pode leva-lo- Amber disse com uma cara de durona.
-Mas primeiro... Josh – Becky interrompeu.
Bygron empurrou Josh que quase caiu no chão se Becky não tivesse ótimos reflexos.
-Agora, Liester – ele disse friamente.
Amber disse fazendo um sinal para que ele mesmo pegasse. Quando ele chegou um pouco perto, Liester se levantou e segurou Bygron pelo pescoço.
-Ah, vingança. –Liester cantarolou e percebeu a nossa presença – Katherine, A Faca.
Bygron riu da nossa animação de finalmente estamos perto de mata-lo.
-Vocês achavam mesmo que eu ia vim sozinho?
Atrás de mim e Harry apareceram três ajudantes de Bygron que empunhavam revolveres. Porque nós não tínhamos armas?
Eles apontaram as armas para os que seguravam as facas e apresentavam algum perigo a Bygron. Ficamos alguns instantes parados esperando que alguém fosse tentar algo. Nada.
-Vamos! Solte-me! –Bygron ordenou a Liester. –Você sabe que não pode mata-los.
Liester lentamente soltou o aperto em volta de Bygron. O tempo pareceu correr mais lento.
-Não, não, não – Becky sussurrou no fundo.
Becky tinha razão, isso não poderia acabar assim. Harry olhava estranhamente para mim, como se tentasse transmitir uma mensagem telepática. Ele virou para o sol que nascia. O meu raciocínio foi a mil por hora.
Corri e cravei A Faca de Roma no peito de Bygron. Os ajudantes deles dispararam os tiros. Caí para frente com o impacto. Alguém gritou. Enquanto vi o mundo girar, Bygron cair no chão.
Havia valido a pena.
Porém ninguém concordou comigo.
O sol nasceu e ninguém iria vingar Bygron.
Vozes me cercaram dizendo varias coisas mais eu não conseguia entender nada. Nenhuma dessas coisas parecia realmente importante só uma.
-Droga, você está morrendo de verdade. Pensei que depois de morrer uma vez essa noite, tiros não fariam diferença.
Dei uma risada de velho e tossi.
-Isso não foi uma piada – Harry disse sério.
Tudo estava em paz até...
-Como assim? “Morrer uma vez essa noite”? O que você teve a ver com isso, Harry? –Amber gritou para o loiro.
Antes que começasse o barraco, Becky –finalmente – fez algo mais útil.
- Esse é o colar de Miguel? – ela apontou.
Porque eu não pensei nisso? Na verdade, eu não sei como não pensei nisso.
-Miguel – choraminguei – venha logo.
E como um gênio da lâmpada, ele apareceu no meu lado, só que estava em pé.
-Deus do céu! – Miguel ficou de joelhos.
-Rápido me cure! – falei.
Liester disse algo que fez sentido.
-Se Katherine morreu ontem a noite, como ela ainda está aqui mesmo com o sol já tendo nascido?
-Importa mesmo?
-Sinto muito – Miguel disse em um tom de medico quando dão más noticias. – Mesmo se eu te curar você ainda vai morrer.
Não entendi de inicio, mas percebi que ele dizia do arranhão que Liester me fez. Aquele que aumentava cada vez mais.
Fiz minha melhor cara de cachorro pidão e supliquei:
-Por favor, me salve Miguel. Eu prometo. Se você me curar eu faço qualquer coisa. Qualquer coisa, mesmo.
Ninguém falou nada e nem se mexeu. O tempo estava correndo. E eu certamente não tinha muito. Miguel tinha as sobrancelhas unidas pensando profundamente. E finalmente disse:
-Tudo bem – ele pousou a mão acima de mim e saiu uma luz branca.
Segurei o grito na minha garganta e arranhei o chão do estacionamento.
-Tem alguma coisa errada – Miguel disse sem nenhuma emoção.
A luz que saia de sua mão falhava cada vez mais até que ela se apagou.
Miguel e eu desfalecemos em sincronia.
- KATHERINE!MIGUEL!
Não era a primeira vez hoje que eu fiquei num estado astral. Tecnicamente havia sido, já que acabou de amanhecer. Diferente da primeira vez (quando levei uma facada e morri), dessa vez tudo parecia extremamente escuro e vazio. Primeiro eu estava... leve, essa era a palavra mas depois eu comecei a cair e afundar na escuridão. Eu sentia dor. Muita dor. E algo me dizia que eu estava doente. Pois é, isso não faz nenhum sentido.
Acordei em rompante. Sentei-me no asfalto.
-E aí, galera? – falei com um sorriso no rosto. Já não sentia nenhuma dor.
Todos ficaram pasmos, Amber revirou os olhos.
-Qual o seu problema? –ela indagou.
-Nenhum. Exatamente por isso. — falei entusiasmada. –Bygron morreu. Finalmente ele morreu! Sinto-me bem melhor.
Liester pareceu lembrar-se de Miguel, perguntou se o anjo iria acordar. Percebi que ele estava falando comigo.
-Ah, eu não faço ideia. Miguel pode ter voltado para o céu, sei lá.
-Parece que o trabalho dele acabou por aqui. – Josh disse. E todos ficaram surpresos por ele ainda estar acordado por causa de suas péssimas condições
-A profecia – ele disse sonolento. Não seria estranho se Josh pegasse no sono enquanto falava.
E Becky recitou a profecia:
-A chave perderão
E os libertados se reerguerão
O traidor pelo sangue será chamado
Para servir o mal já esperado
Três finalmente encontrarão a vingança
Mas não conseguirão impedir a matança
Uma vida será roubada
E se juntará a criatura alada
Josh elogiou Becky por ter decorado a profecia e ela corou. Agora fazia sentido. Não, não estou falando do haicai e sim de Besh (é o shipp que acabei de inventar para os dois.) Amber havia me dito que Becky gostava de Josh, mas isso não queria dizer que ele soubesse disso. Se depender de mim e de Amber nós vamos junta-los, mas não agora. Já que estamos ocupados decifrando a profecia.
Com esse meu monologo interno perdi um pedaço da conversa e eles havia decidido que “O traidor pelo sangue é chamado/ para servir o já mal esperado” era Harry o traidor porque ele tentou algumas vezes, enquanto estava possuído, nos atacar e ajudar Bygron. Onde chega na parte do sangue, já que Bygron aparentemente é pai de Harry.
-Concordam que a parte de “Três finalmente encontrarão vingança” se referem a vocês – ele apontou para Amber, Becky e eu – mas acho meio injusto não me citarem nessa profecia já que eu também fui vingado com a morte de Bygron.
Até que ele tinha razão.
-Claramente “ Uma vida será roubada/e se juntará a criatura alada” se refere a mim e a Katherine. –Miguel informou.
-Você acordou! –falei surpresa.
Miguel explicou indiferente a minha alegria porque ainda estava aqui. Ele não conseguia ir para o céu.
-Talvez sua missão não tenha acabado – Amber disse. Miguel não parecia nada feliz em passar mais algum tempo com a gente. – Ainda falta algumas partes como “ não conseguirão impedir a matança”. Isso não parece nada bom.
A expressão de Miguel passou de irritado com paranormais para preocupado.
Josh no fundo teve inicio de um ataque epilético.
-Meu Deus! –Becky disse correndo até ele.
Logo depois dela eu estava no lado de Josh.
-Miguel, não pode ajuda-lo? –perguntei desesperada. – Por favor, é o meu primo.
-Sinto muito, não ouviu que estou sem nenhuma das minhas bênçãos de anjo?
Enquanto Becky e eu colocávamos Josh cuidadosamente no carro, resmunguei:
-Você anda “sentindo muito” demais.
-Eu escutei sua reclamação. – o anjo repreendeu.
Amber, Liester e Harry já haviam corrido para o carro.
-Tanto faz. Você vem ou não? – perguntei a Miguel.
Ele balançou a cabeça dizendo que sim, mesmo contra sua própria vontade. Ele sabia bem no fundo, que suas bênçãos podiam não voltar.
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