Diário de uma paranormal

15 The family business


1 de Novembro

Miguel era um ótimo curandeiro mesmo sem suas bênçãos de anjo. Isso porque em sua vida humana ele havia sido um medico. Josh havia sido salvo por um arsenal de coisas que foram compradas em um supermercado.

Quando já estávamos instalados em um hotel e prontos para descansar, eu não chamo de descansar dormir em uma poltrona de carro, um dos amigos de Miguel fez uma visitinha para a gente. Era meio irritante o modo que eles podiam aparecer em qualquer lugar do nada.

–Eu sou Salastiel, o atual mensageiro e tenho uma intimação para você, Miguel. – um anjo vestindo uma roupa bem formal disse. Não são todos os anjos que usam jeans por aí.

Salastiel esperou que nós saíssemos, mas simplesmente ficamos esperando que eles saíssem, o quarto era nosso. Então o anjo que estava com pressa começou a falar uma língua estranha. E Miguel respondeu com a mesma facilidade.

Harry olhou para uma de nós três em busca de respostas. Becky estava meio ocupada preocupada com Josh.

–Enoquiano.- falei a ele.

–Saúde.- Harry replicou “brilhantemente”.

Revirei os olhos.

–Eu não espirrei. Enoquiano é ,tipo, o idioma dos anjos.

Olhei para Miguel assinando algo para Salastiel. O meu anjo da guarda parecia muito irritado. Percebi que era a primeira vez que ele exprimia algum sentimento. Salastiel desapareceu e só deixou um dos papeis com Miguel.

No fundo eu conseguia escutar todos falando, mas eu não estava muito interessada. Estava curiosa demais para prestar atenção. Deslizei até o lado de Miguel e perguntei para ele de mansinho o que eram esses papeis, pois é, eu estava com medo dele.

–Uma intimação. Minha situação como anjo está sendo revisada.

–Por quê? – indaguei tentando não parecer muito intrometida.

–Você não entende, Katherine? Curar alguém depois de morto é considerado ressureição e todo mundo sabe que isso é proibido. – Miguel disse atravessando a porta, segui-o.

Ele parou no corredor alguns quartos de distancia na frente. Parei ao seu lado me encostando na parede.

–Então porque me salvou?

Esperei sua reação. Miguel pareceu imerso em pensamentos, quando achei que não responderia, falou:

–Eu não sei. E isso me incomoda muito.

Um longo minuto passou até que Becky passou cantando:

–Nós vamos à praia, nós vamos à praia.

–“Nós” quem? –perguntei.

–“Nós” todo mundo.

–Acho que todo o mundo não cabe no carro. — falei a ela e me voltei para o menino-anjo. -Miguel, você deveria ir.

De repente Becky percebeu o quanto ele parecia cansado e perguntou se estava bem. A resposta foi algo bem típico dele.

–O quer dizer exatamente com “bem”?

Tive preguiça de revirar os olhos, era irritante o modo que ele fazia as perguntas parecerem difíceis.

–Só responda se está ou não bem. Vou pegar as minhas coisas lá no quarto.

Liester havia sugerido que devíamos comemorar o acontecimento da festa de ontem na praia. Ele até ofereceu a sua casa para que nos trocássemos. Amber pareceu nervosa com a ideia de ir até a casa dele, eu não entendi por que.

Chegando lá não parecia nada demais, só uma casinha bem comum. Quando entrei percebi o quanto eu estava errada. A casa era muito bonita, de um jeito que só o dinheiro comprava. As paredes eram recém-pintadas de verde-mar, e o espaço era enorme. O mais estranho que não havia televisão, só um espaço vazio na frente do sofá. Mas o que me deixou fascinada foi que sua casa por dentro parecia um museu. Havia toques de coisas históricas por todos os lados. E uma estante no canto da sala. Ah, essa estante! Eu poderia passar semanas só lendo ela. Livros, diários e jornais de época em varias línguas inclinavam o móvel raquítico.

–O que você tá pensando? –Harry perguntou se pondo ao meu lado.

–Se o meu diário no futuro vai tipo virar algo histórico, eu sei que é bobagem. –repliquei.

–É, é bobagem. –ele falou.

Olhei ofendida para ele. O loiro ria marotamente. Mas eu não achei a menor graça.

–Eu não entendo. Se você sabe que não é bobagem, porque se importa com a minha opinião? Não estou dizendo que acho que é.

Fiquei sem palavras. Como eu ia explicar isso se nem eu mesma entendia?

–Katherine, – Amber chamou – não vai trocar de roupa? Nós três vamos primeiro, são três banheiros.

Andamos no corredor da casa em busca dos banheiros. Era surpreendente que tivesse três banheiros.

–Então esse é o plano mesmo? Só ficar de boa o dia todo? –perguntei estranhando a normalidade do que iria acontecer.

–Não, na verdade. – Becky disse – À noite vamos voltar as nossas origens de paranormais.

–Hã?

–Depois a gente explica – cada uma entrando em um banheiro. Becky em um que estava no corredor e Amber em outro que ficava em uma suíte. Percebi como elas sabiam perfeitamente o caminho, provavelmente Liester havia explicado, mas eu estava distraída.

Fiquei sozinha no corredor e resolvi seguir um pouco mais, se eu não achasse o banheiro eu voltaria para a sala. Para a minha sorte encontrei o banheiro. Troquei a roupa que eu estava usando desde madrugada, quando trocamos os vestidos por algo mais pratico. Senti que aquela faca de cabo vermelho já havia se tornado uma parte de mim e lamentei que biquínis tivessem tão pouco pano.

Saí do banheiro enfiando a minha bagunça mochila adentro. Não havia muita coisa nela só...

–Ai – alguém reclamou. Eu tinha acabado de esbarrar em alguém e deixar cair uma camisa da mochila.

–Que saco, Harry. Olha por onde anda. – e completei involuntariamente — 45%

–O que?

–Nada. – Porque eu havia dito aquilo? O que significava 45%?

Me abaixei para pegar a camisa, meu cabelo longo deslizou das minhas costas.

Harry começou a tossir, engasgado.

–Que foi? –perguntei a ele, pronta para bater nas suas costas se fosse necessário.

–Isso. – Harry estendeu a mão para levantar o meu cabelo, mas parou na metade quando eu dei um passo involuntário para trás. Mesmo ele sendo o meu melhor amigo, eu ainda tinha pesadelos com as varias vezes que ele tentou me matar.

– Isso o que?

–O arranhão que Liester fez. Tá cada vez pior.

Olhei sobre os meus ombros, vendo pouca coisa. O arranhão parecia agora uma espécie de feitiço desenhado no meu ombro e até a metade das minhas costas. Mesmo que não fosse tão feio que carne viva, devia ser mais perigoso.

–Será que Miguel pode curar? – perguntei realmente esperançosa, ficando um pouco com medo do que aconteceria se esse arranhão continuasse a crescer.

–Acho que ele não ajudaria mais, ontem ele já te ressuscitou. Deve ter um limite de ajuda, por isso aquele anjo foi falar com ele.

Concordei com Harry.

–Espera, se quem fez o arranhão foi Liester ele deve saber como curar. Vamos falar com ele.

–Agora? –indaguei.

–Agora não. – ele disse como se fosse algo estúpido. –Agora nós vamos à praia. Por isso eu vim atrás de você.

O fim de tarde que podemos aproveitar na praia foi incrivelmente rápido. Talvez porque eu tivesse super curiosa para saber o que significa as origens de paranormais que Becky havia dito. Além de não ter acontecido nada remotamente importante que eu possa contar.


–Peraí? Nós vamos atrás de demônios? –perguntei – Vocês estão malucos? Normalmente ele vem atrás de nós, mas isso não quer dizer que já podemos trocar de ordem.

–Você está com medo, Katherine? – Josh provocou. Isso prova que ele está recuperado o bastante para que eu possa dar um porrada nele.

–Não, eu não estou. Mas acho desnecessário se arriscar.

–Tem um motivo, acredite. – Becky disse sombria.

–Tudo bem – prolonguei a primeira palavra.

Andamos até o centro da cidade. De acordo com Liester, à noite essa era a parte mais movimentada nas ruas. Quando chegamos passava das dez horas, os bares e lojas estavam esvaziando. Paramos em um ponto morto da rua.

–Quem teve essa ideia de irmos caçar demônios nas ruas? – falei baixo para que só Amber escutasse. – Isso é idiotice, porque teriam demônios andando na rua e principalmente atacando pessoas?

Becky ,como sempre, se intrometeu.

–Eles andam entre nós, mas normalmente não percebemos. É preciso concentração para perceber a diferença.

–Obrigado, Rebeca. –falei ironicamente.

Amber me deixou terminar de falar e disse:

–Eu. Fui eu que tive essa ideia.

–Vocês não vão prestar atenção no que estamos dizendo? –Josh perguntou, olhando para nós três.

–Sobre nos separarmos? Parece estúpido.

–No Scooby-Doo eles sempre são atacados quando estão sozinhos. –Completei Amber.

Harry revirou os olhos. Liester saiu de um dos bares imundos dali.

–Vamos – ele disse e saiu andando. Um pouco depois percebemos que era para segui-lo.

Liester usava um relógio que o mostrador piscava fazendo um barulhinho irritante. Bip, bip, bip. E esse barulho se tornava mais intenso a cada rua. Bip, bip, bip, bip, bip, bip.

–Porque nós estamos seguindo um relógio? –perguntei a Liester.

–Minha amiga tem um bar aqui perto e me emprestou esse relógio quando falei que eu estava caçando demônios.

Amber que estava seguindo no lado dele ficou insegura com a palavra “amiga”. A expressão dela dizia “Katherine, e se essa amiga dele for mais bonita que eu?”. Mandei um olhar para ela dizendo para que ela ficasse calma, não deveria ser nada de mais.

Me voltei para Harry e Josh.

–Me sinto como os Winchester, mas finalmente como vamos fazer isso?

–Nós temos que esperar eles atacarem, não vamos comprar briga sem razão.

Harry não entendeu a referencia. Revirei os olhos mentalmente. Noob.

–É tipo Buffy só que com demônios. Eu não acredito que você nunca assistiu Sobrenatural.

–Quando essa loucura toda não estava acontecendo e estávamos na nossa vida normal, Harry passava o tempo todo andando de skate por aí e arrumando briga. –Josh explicou. – Ele não era nerd como você.

–Nerd não. Geek. Eu não gosto de estudar, apesar de eu achar que eu tenho uma inteligência acima da media. – falei dando um sorriso idiota.

–Vocês não vão ficar falando nisso, por favor. Não basta Katherine falando sem parar. –Becky implorou.

Percebi que Josh andava com o braço em volta do pescoço de Becky. Que rápida.

–Tudo bem. Agora você, – apontei para Harry – você ainda vai assistir Sobrenatural. Me aguarde.

Amber e Liester pararam e mandaram ficarmos a uma distancia deles. Eles fingiam que conversavam. Amber não era muito convincente olhando no canto do olho para um grupo de pessoas. Esse grupo também disfarçava que estava junto, eles estavam espalhados pela rua. Tentando parecem naturais, mas tinha algo estranho neles.

Becky que estava de costas para a rua disse.

–Se concentre no rosto deles. Você vai ver que não é exatamente um rosto comum.

Fiz o que ela disse tentando não encarar. A cara deles se moviam como fumaça, intercalando entre crânios malvados e rostos de jovens adultos. Um deles, provavelmente o líder, se movia com presteza alcançando uma estudante. A estudante loira segurava vários livros e folhas de anotação. Sua mochila de estampa florida pendia em um dos ombros, ela ainda usava o uniforme do colégio. A loira pulou com o susto quando o ele a abordou. O líder a enrolou com um papo furado e a garota relaxou. Todo mundo sabe que quando se está com medo seu sangue fica amargo. Uma garotinha apareceu no lado do demônio em uma velocidade inumana, não deu nem tempo da estudante se assustar. A garotinha era a mesma da festa, mas agora ela não usava roupas de gala e sim jeans e couro.

–O que aconteceu? –Becky perguntou a mim. Provavelmente eu deveria ter empalidecido.

Ela virou sem que eu dissesse nada. Becky segurou a respiração, surpresa.

–Essa é...? –Josh perguntou com a voz falhando.

Balancei a cabeça afirmativamente.

-Ela mesma.