Diário de uma mortal.
2 17 de fevereiro.
Notas iniciais
– Bom dia! – eram papai e mamãe. Finalmente decidiram aparecer.
Entenda, sou filha de pesquisadores, e ser filha de pesquisadores significa não ter pais presentes. Pelo menos no meu caso.
– Bom dia... Que surpresa ver vocês aqui...
– E não iríamos vir no aniversário de nossa filhinha?
– Não fale no diminutivo mamãe. Tenho 17 anos agora. E vocês já me emanciparam, lembra?
– Lembro... Claro... Então, filhinha, se arrume logo! Seu pai e eu temos uma surpresa para você!
Falar algo para a minha mãe, era como falar algo para uma criança. Ela até poderia entender tudo, mas não deixava de fazer a mesma coisa sempre. Com toda a paciência do mundo me arrumei e desci. Alguma coisa me aguardava.
– Hoje tomaremos café da manhã juntos! Sua mãe e eu demoramos muito tempo arrumando essa mesa.
– Hmm... Obrigada?!
Sentei, peguei uma fatia de pão e comecei a comer.
– Então, querida, como vai a escola?
– Legal.
– Entrou alguém novo?
– Sim. Só dois professores novos. De história e de biologia.
– Por que os antigos saíram?
– O de história não saiu. Decidiram aumentar as aulas e dividi-las em História Mundial e História do Brasil. O professor Kléber, ficou com a parte em que se fala do Brasil e o professor Vitor, com a parte em que se fala do mundo. O professor novo é o Vitor.
– Interessante... E o de biologia?
– Aah... Ele morreu na semana passada.
– Que horror filha! Como?
– Assassinado. Ninguém sabe o motivo ou o autor. Isso vem ocorrendo bastante por aqui.
– Entendi. Bem, você precisa tomar cuidado.
– Não se preocupe papai, tomarei.
A conversa sobre mim terminou aí. Após a preocupação de papai e mamãe sobre a minha segurança, veio o momento em que eles esqueciam que eu estava presente e começavam a falar de trabalho e de suas futuras viagens pelo mundo. Não me incomodei porque já estava acostumada. Isso não significava que eu não ficava magoada. Pouco importa.
– Tina, querida, viajaremos hoje. Temos um caso na África e precisamos ir com urgência. Você não se importa, certo?
– Claro que não mãe. Acho que os fósseis precisam de vocês para serem descobertos! Vão à que horas?
– Na verdade, o motorista acabou de chegar. Estamos indo filha.
– Boa sorte para os dois.
– Ligaremos quando chegarmos lá. E feliz aniversário!
– Tchau!
Ouvi a porta fechar atrás de mim. Mais um aniversário sozinha. Paciência. Devo confessar que eu até gostava. Fui até a sala e liguei a televisão. Estava passando detalhes da morte do professor que morreu assassinado. Pobre professor Paulo, quem seria capaz de uma atrocidade como aquela? E qual o motivo? Ele deve estar melhor agora, eu espero. Meu celular começou a tocar, era Kamila.
– Feliz aniversário! Como você está? Viu que hoje terá homenagem para o Paulo? Vamos?
– Bem. Não, não vi... Onde?
– Na escola. Me diga que você irá! Adivinha quem estará lá?
– Quem?
– O gatinho do professor Vitor... Então nós vamos certo? Passarei aí em 20 minutos. Tchau!
– Kamila, espera eu não... — Mas que droga. Parece que comemorarei o meu aniversário fazendo companhia para Kamila no enterro de um morto. Perfeito!
Me troquei rapidamente. Kamila estava certa quanto ao tempo em que ela passaria em minha casa.
No caminho, ouvi Kamila falando sobre quantos garotos ela tinha beijado durante os dias em que a escola não funcionara por conta da morte do professor Paulo. Digo que eu ouvi para ser educada. Na verdade eu ficara encarando-a e concordando com o que ela dizia, enquanto meus pensamentos estavam completamente distantes. Estava pensando na família de meu professor e em quanto eu ficaria triste se fosse o caso do meu pai. Estava pensando em quem seria o nosso novo professor de Biologia.
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