Notas iniciais
Mais uma peça do quebra-cabeça de "Diário de um Assassinato". Aproveite! Capítulo betado

CAPÍTULO 6

2h18

Mal tive tempo de responder Lucchesi quando a porta se abriu novamente e Vivian Romero entrou. Olhei para ela com interesse. Uma moça muito jovem, ela parecia ser dez anos mais nova que eu. "Tão inexperiente quanto o noivo, o senhor Rupert", eu pensei.

Eu estava mesmo deslumbrado, agora que eu podia observá-la de perto, sob a luz forte das velas e lamparinas. Vivian tinha uma beleza exótica. Tinha um cabelo longo e preto, que se ajustava ao seu corpo moreno cheio de curvas. Usava ainda aquele sobretudo colorido, tão inapropriado, além de um colar de pérolas, que quase sufocava sua garganta. Ela demorou alguns segundos para entrar no escritório. Seus olhos vasculhavam o ambiente, como se ela fosse um animal procurando pela armadilha que haviam preparado para capturá-la.

– Oh! Meu Deus! Foi horrível, não foi? – ela perguntou para Lucchesi, finalmente se sentando. – Eu estou chocada! Jamais pensei que isso fosse acontecer. Miami está se tornando cada vez mais perigosa! Insistem, mesmo assim, em manter a porta da sala aberta. Eu os avisei. Jamais me ouvem, porque me consideram estúpida. Mas eu não sou tão estúpida assim.

Lucchesi passou um tempo a olhando cuidadosamente – eu não sei se deslumbrado com sua beleza, ou se buscando descobrir se ela estava mentindo a respeito de algo. Eu vim a descobrir depois que essa era uma presunção dele. "Se você confia em alguém e se acha que essa pessoa nunca mentiu para você, pense duas vezes. Todos mentem. Eu não sou uma exceção à regra. Mas eu sou muito bom para descobrir a verdade", disse ele, um pouco mais tarde, neste mesmo dia.

– Eu tenho certeza que não, senhorita. – disse o italiano, finalmente. –Senhorita Romero, você e o senhor Rupert se conhecem há quanto tempo?

– Oh... Estamos noivos há um ano. E nos conhecemos alguns meses antes disso. Noivamos muito rápido, não é mesmo? Bom, é o que todos dizem. Mas eu acredito que ele é a minha alma gêmea, ele é tudo o que eu sempre quis. E eu sei que sente o mesmo, porque nós nos amamos muito. Então, não há razão para esperar! – ela disse, com um entusiasmo típico das moças jovens e apaixonadas.

– O que achava do seu sogro, o senhor Pemberton? – perguntou Lucchesi, com uma voz firme, sem desgrudar os olhos de Vivian por um só segundo.

– O senhor Pemberton? – ela pensou por alguns segundos. – Era um homem muito quieto, principalmente com Emily e Dewey. Isso sempre incomodou Emily. Ele nunca dizia uma palavra, só murmurava: "Eric, traga isso!"; "Emily, fique em silêncio, você não precisa falar!". Às vezes, ele ficava na varanda uma tarde inteira, observando cada detalhe do jardim e dos bosques. Era com Rupert que ele era apegado... O senhor Pemberton tinha um gênio exaltado, mas eu não diria que era cruel. Dá para entendê-lo, aquela filha temperamental dele o deixava muito irritado. E o filho, Dewey, não parecia se importar com meu sogro, de modo que um era muito frio com o outro. Eu acho que ele vivia muito no passado, quero dizer, pensando na ex-esposa...

– A senhorita gostava dele? – Lucchesi perguntou, inclinando-se.

– Ele não era de falar tanto comigo, mas acho que ele gostava de mim, sim. E eu gostava muito do senhor Pemberton também, na verdade. Como nora, que fique claro! Ele estava muito bem para a sua idade. Acho que deve ter sido um homem muito atraente na juventude... Atraente feito o senhor. – ela disse, ajeitando os cabelos negros. Ela mordiscou os lábios vermelhos e carnudos, enquanto observava o belo rosto do detetive Lucchesi, tomado agora por um rubor. Foi uma das raras vezes que eu o vi constrangido por algo.

– Mas é claro que ele não deve ter sido tão grande quanto o senhor – ela continuou, numa voz inocente.

Lucchesi se recompôs, enquanto eu me esforçava para não rir daquela situação.

– A senhorita gosta de homens grandes?

– Oh, sim! Eu não gosto de homens que pareçam uma coleção de ossos. Não que o senhor Pemberton fosse assim. Só estou dizendo... Gosto de homens grandes, altos e muito fortes! – ela disse, num entusiasmo ingênuo.

Os olhos escuros dela se desviaram para mim e sua expressão foi mais de desgosto, como se ela não gostasse da minha presença ali.

Então, Lucchesi, respirando fundo, finalmente cortou os elogios da senhorita Romero:

– A senhorita mencionou sobre a porta principal... É curioso. Está considerando que alguém de fora fez isso?

– Eu não estou acusando o senhor Reed, pois ele estava com Emily! – ela se aprontou em dizer. – Não, o senhor parece ser muito honesto, apesar de tudo. Você estava lá enquanto tentávamos derrubar a porta. Mas não fui eu nem Rupert, estávamos juntos, no quarto! Não foi Dewey, pois ele estava em seu próprio quarto quando eu fui chamá-lo. E a senhorita Pemberton... Eu nem preciso dizer, ela desmaiou, coitada! Ela gosta de aparentar ser forte, mas jamais seria capaz de disparar uma arma, nem contra um animal, imagine contra o próprio pai. Só pode ser alguém de fora, alguém com um motivo... O namorado da senhorita Pemberton, por exemplo!

– O namorado da senhorita Pemberton?

– Sim, o senhor Green. Jeffrey Green. Pois, imaginem, não há rapaz mais estranho no mundo que ele! Trata-se de um jovem mirrado e desengonçado, todo nervoso. Eu acho que é o tipo que vocês estão procurando. Eu não entendo como Emily pode ter tanto mau gosto – disse a senhorita Romero. Seus olhos escuros não desgrudaram de Lucchesi, nem um por segundo. Ele retribuía. Mas, apesar de não desviar o olhar, Vivian falava com uma voz séria, que soava forçada.

– E por que o senhor Green cometeria um crime? Essa é uma acusação muito grave, senhorita. – Lucchesi disse, também a encarando.

– Eu sei muito bem o quanto é grave... Mas eu jamais confiei nesse rapaz. Eu acho que... É o dinheiro, entende? Pense: o senhor Pemberton morre, a senhorita Pemberton herda tal dinheiro. E ele se tornando cônjuge da senhorita Pemberton, também irá enriquecer. Acho que ele arquitetou tudo muito bem, é isso que eu penso! – ela disse, enquanto as mãos morenas deslizavam pelo cabelo.

– Mas se eu for pensar assim, senhorita, você também é uma suspeita. A senhorita está noiva do senhor Rupert Pemberton. – Lucchesi disse.

– Oh, é claro, mas o meu noivo não é um Pemberton de verdade. Então, se o senhor Pemberton não deixou um testamento, ele nada herdará e a fortuna ficará dividida entre Emily e Dewey. – ela explicou prontamente.

– Tendo uma resposta na ponta da língua, eu diria que a senhorita pensou bastante sobre o assunto. Estou certo?

– Oh! É verdade que eu pensei... Mas que mal há nisso? Quem não pensaria em tais coisas, não é mesmo? – Vivian disse, tentando se explicar.

Foi então que, abruptamente, Lucchesi a perguntou:

– O que a senhorita estava fazendo no quarto do senhor Pemberton, às 23h39?

O golpe havia sido desferido de repente. E a senhorita Romero, que havia relaxado desde que entrou no escritório, foi pega desprevenida.

– Oh, ele havia me chamado! – ela respondeu, com os olhos esbugalhados.

Lucchesi não perdeu tempo:

– Como?

– Eu estava indo para a cozinha... Mas ele gritou "Eric!", "Eric!". Daí eu resolvi ir vê-lo, entende? Eu fui apenas perguntá-lo se ele queria que o Eric fosse chamado. Mas, pelo contrário, ele parecia muito bravo. E ainda me falou: "Diga para aquele verme que eu irei dormir e que ele não deve me perturbar!". – concluiu Vivian, imitando a voz do falecido.

– E depois disso?

– Assim que eu fechei a porta do quarto do senhor Pemberton, eu dei de cara com o mordomo, praticamente saindo das trevas. Eu lhe dei o recado e ele pareceu muito relutante em ir embora. Eu achei muito estranho, sabe? O Eric é muito estranho! – ela falou enfaticamente e pausou. – Eu nunca ouço seus passos e ele sempre parece surgir do nada. Eu fico muito assustada. Ele sempre anda pela casa durante a noite, como um sonâmbulo ou algo do tipo, mas diz que estava procurando por algo que perdeu. Quero dizer, quem é o louco que faz isso? Ele gosta de ver o medo no rosto dos outros quando ele os apavora? Isso é um pouco estranho!

– Acalme-se, senhorita Romero... – disse Lucchesi. – Essa história me não faz muito sentido.

– Pois foi o que eu disse, o Eric é como se fosse um fantasma!

– Não, não é essa história. Eu falo sobre a sua conversa com o senhor Pemberton, logo antes da morte dele. – ele disse, trocando um olhar com a senhorita Romero. – A senhorita está escondendo algo, não está?

– Oh, mas é claro que eu não tenho nada a esconder!

– Eu posso facilmente descobrir o que a senhorita está escondendo... – Lucchesi suspirou.

– Pode? – ela perguntou, numa voz atemorizada.

– Então está afirmando que há algo a ser descoberto?

– Oh... Eu estou muito confusa! – ela disse, mordendo os lábios e com uma sobrancelha mais alta que a outra.

– O senhor Rupert guarda uma pistola consigo?

Ela olhou para mim. Claro, ela não poderia mentir sobre aquilo.

– Sim, ele guarda. Mas ele nunca a usou... Era apenas por proteção, sabe? Ele não poderia fazer mal algum ao senhor Reed. Ficamos assustados com aquela confusão no corredor e ele resolveu pegar a pistola. Nós fomos acordados com o grito... E não tivemos tempo para pensar em nada. Eu saí do quarto primeiro e, ele, logo em seguida, com a arma guardada no sobretudo.

– Está muito claro até aí, senhorita. – disse Lucchesi. – Mas é sobre Dewey Pemberton que eu não entendo muito bem. Ele não foi acordado com o grito do próprio pai?

– É claro que não. Imagine, o crime aconteceu no quarto do senhor Pemberton, que é logo após a escada, enquanto o quarto de Dewey Pemberton fica bem no final do corredor! É uma distância razoável. É natural que não tenha ouvido nada, algumas pessoas tem um sono muito pesado. – ela disse, rapidamente.

– É verdade, senhorita. – ele concordou. – Por favor, chame aqui o senhor Dewey Pemberton.

– Tudo bem, com licença. – ela disse, arriscando um bonito sorriso. Então, deixou o escritório. Lucchesi ficou pensativo, olhando para a porta de madeira.

– Ela bem que poderia dizer mais coisas, se quisesse. – ele disse.

Eu me ajeitei.

– Você acha que ela está mentindo?

Lucchesi desviou o olhar para mim e, prestes a responder, abriu um sorriso.

– É claro. E ela mente muito mal, aliás.

Como ele podia ter tanta certeza?

– Todos eles mentem. Eu não irei aceitar de ânimo leve tudo o que estão me dizendo. Mas é muito cedo para determinar por que mentem, e sobre o que mentem... – Lucchesi pausou, passando a mão pela barba por fazer. – A senhorita Romero é muito atraente. Mas, novamente, as pessoas sempre mentem. O que devemos é separar as mentiras sem importância das que são vitais para desvendar a estranha morte do senhor Pemberton.

– De fato, Lucchesi... Isso é mesmo muito importante.

Com um olhar sério, ele continuou:

– Se você confia em alguém e se acha que essa pessoa nunca mentiu para você, pense duas vezes. Todos mentem. Eu não sou uma exceção à regra. Mas eu sou muito bom para descobrir a verdade.

Notas finais
O que acharam da atitude de Vivian Romero? Muito ingênua? Uma boa suspeita? Deixe seu comentário!