Notas iniciais
Mais um capítulo! O mistério acerca da morte de Stratford Pemberton cresce ainda mais. Aqui, algumas observações bem interessantes, feitas por Lucchesi e por Dewey, dão um olhar bem diferenciado ao leitor, pois são apontados alguns 'furos' no crime. *Ainda a ser betado, algumas correções serão feitas

2h33

Dewey Pemberton entrou na sala um pouco confuso. Olhou ao seu redor e também perdeu alguns bons segundos observando Lucchesi. E o italiano o observava de volta, com as testas franzidas. Os passos do senhor Pemberton, nesse ínterim, eram quase calculados. Ele era cauteloso demais – por quê?

Tratava-se de um rapaz muito bonito, se você for um daqueles que gosta desse tipo de conversa. Dewey era alto, tinha cabelos loiros e bagunçados e conservava um leve cintilar nos olhos azuis sem vida. Pelos relatos que havíamos ouvido, ele estava com quase trinta anos. Apesar disso, mantinha um aspecto saudável e atlético, típico de pessoas que vivem no litoral.

Tenso – esta foi a primeira impressão que eu tive dele. Ele estava nervoso. E tentava disfarçar isso com uma calma forçada, mas eu tinha certeza que Lucchesi não havia se deixado enganar.

– Sente-se, senhor Pemberton. – Lucchesi disse, com sua usual voz firme, despertando Dewey de seu transe. Ele se acomodou na cadeira ao meu lado e pareceu mais relaxado.

– Bem, o que eu devo lhe dizer? Eu não tenho muito a dizer... – começou Dewey, numa voz muito fraca. Novamente, eu tinha a sensação de que ele estava falando a metros de distância, embora estivesse bem ao meu lado.

– Eu queria alguns esclarecimentos sobre os acontecimentos desta noite. – disse Lucchesi.

– Eu não sei absolutamente de nada, senhor. Não é a mim que você deve perguntar e sim a Emily, Rupert, Vivian e a esse rapaz. – disse ele, um pouco mais exasperado do que era necessário, apontando o dedo ossudo para mim.

– Entendo que o senhor estava dormindo no horário do crime, certo?

– Era de se esperar, não era? Não deve lançar esse olhar para mim, senhor. Eu suspeitaria de quem não estivesse dormindo àquela hora da noite e não o contrário.

– É claro, senhor Pemberton. Eu não estou lançando olhar algum. É você mesmo que está se acusando. – Lucchesi disse. A testa pálida de Dewey Pemberton estava molhada de gotas de suor.

– Eu apenas estou muito nervoso com o que aconteceu, é claro. Mas, sim, eu estava dormindo no horário do crime.

– E não foi acordado pelo grito do seu pai? – Lucchesi perguntou abruptamente, inclinando-se para estudar a reação de Dewey Pemberton. O rosto de Dewey ganhou um tom vermelho vivo.

– É claro que não. Você não notou o tamanho daqueles quartos? Nós temos um corredor enorme. A distância do quarto do meu pai para o meu é a mesma distância da sala de estar até a cozinha. – ele se explicou e, então, numa pausa, respirou fundo. – Eu poderia ter ouvido o grito se estivesse acordado, é claro. Mas eu não sei... O tal grito não me despertou. Eu não tenho culpa alguma disso!

– E a senhorita Romero quem o chamou?

– Exatamente... Ela bateu insistentemente na porta, dando alguns gritinhos agudos. E, aí sim, eu fui saber o que havia acontecido. – Dewey explicou.

– O senhor não parece muito perturbado, senhor Pemberton. – Lucchesi observou.

– É verdade que eu não estou particularmente em desespero por causa da morte de Papai. E não há razão para fingir tal coisa. Eu nunca fui muito ligado ao meu pai, em primeiro lugar. Acho que teria sido muito chato para meu pai morar comigo e com a Emily, apenas. Acho que, afinal de contas, ele ter trago o Rupert para morar sob esse teto após a morte de mamãe foi uma escolha muito acertada. Em termos, é claro, porque, para Emmie, isso nunca será aceito. O que importa é que Rupert sempre foi uma excelente companhia para meu pai enquanto ele estava vivo.

Fora seu nervosismo, que aos poucos suavizava, Dewey não esboçava quase nenhuma reação. Escondia suas mãos nos bolsos do sobretudo. Seus olhos azuis eram frios e distantes, vazios como cavernas. E a sua voz ao falar do pai não tinha nem um pingo de dor.

– Gostava do senhor Rupert, então? – Lucchesi perguntou.

– Ora, não exatamente. Eu nunca gostei dele, para ser sincero. Mas eu não tive a mesma resistência que Emily apresentou em tê-lo aqui. Acho que Emily sempre colocou essas barreiras contra o menino, Rupert, porque ela sentia que ele roubava-lhe algo, a atenção do papai. E eu, bem, eu nunca me importei muito com o que ele pensava.

– E o senhor pensava dessa forma logo no início, assim que o senhor Rupert veio para esta casa?

– Eu já tinha dez anos naquela época, eu sempre fui o mais velho. Emily tinha cinco ou seis anos. Ela sempre havia sido a mais mimada. Eu nunca me importei com quanto afeto papai demonstrava por mim. Após a morte de mamãe e com a chegada do senhor Rupert, foi Emily quem sofreu mais. – explicou Dewey. – Papai, dessa época em diante, sempre nos tratou com a mais profunda frieza. E eu aprendi a retribuir isso. Desculpem a minha franqueza, mas a morte dele não fará diferença alguma. De vez em quando, ele parecia ter morrido, mesmo. Podia passar horas ao olhar para o longe, sem emitir uma palavra que fosse.

Lucchesi refletiu por alguns segundos.

– É uma forma triste de se falar sobre o próprio pai.

– Eu fiquei muito surpreso, mas... Infelizmente, eu acho que não consigo sentir um pesar muito grande. – ele disse, numa voz macia, como se tentasse amenizar a dureza das suas próprias palavras. De fato, porém, eu não o julgava por aquilo. Na minha concepção, era perfeitamente natural perder um pai e não se sentir mal por isso. Alguns pais nem mesmo mereciam ser chamados de pais, afinal. Após uma pausa, Dewey continuou a falar com seu distinto tom de voz:

– O que eu quero, senhor detetive, é que haja justiça. Eu quero que não meçam esforços para encontrar o assassino do meu pai, e quero que ele quem receba uma bala no meio da testa.

Eu achei muito curiosa a pergunta que Lucchesi fez logo em seguida – e mais interessante ainda a resposta perspicaz dada por Dewey.

– O senhor tem alguma suspeita sobre quem assassinou seu pai?

– Na verdade, eu andei pensando bastante sobre isso. – ele disse. – Meu pai não é um homem de ter amizades, muito menos inimizades. Estive pensando, não poderia ter sido ninguém de fora, porque não houve roubo algum, houve? E como poderia ser algum marginal se ele foi diretamente para o quarto do papai? É claro que é alguém de dentro, que conhece a casa e que tinha um único objetivo: assassinar papai. Eu não consigo suspeitar de nenhum dos criados. Eric, o mordomo, praticamente me criou, e ele é honesto demais para fazer tal coisa. Então, meu primeiro pensamento foi de que a motivação era muito simples: dinheiro. Há algumas pessoas que se beneficiam com o testamento, em tese: Emily, o namorado dela, Vivian, Rupert e eu. Essa é a única razão pela qual alguém mataria meu pai: dinheiro.

– Entre essas quatro pessoas, Emily, o senhor Green, Vivian e Rupert, o senhor chegou a alguma conclusão?

– Cheguei, sim. – ele disse, dando uma pausa dramática e continuando numa voz que apenas conseguíamos ouvir porque estávamos muito perto dele. – Já ouviu dizer que, uma vez descartado o que é impossível, chegamos à verdade? Pois bem, é impossível que eu, Vivian, Emily ou Rupert tenhamos feito parte desse crime. Somos um o álibi do outro e, bem, temos também o senhor Reed para nos respaldar nessa história. Assim, eu tenho certeza de que o assassino foi Jeffrey Green.

Eu o olhei com surpresa. Seu maxilar travado e os olhos azuis obstinados mostravam de que ele falava com confiança.

– Certeza, senhor Pemberton? – Lucchesi perguntou, franzindo a testa. – Essa é uma acusação grave e perigosa.

– Mas ele é o único capaz de tal coisa. Irá herdar, indiretamente, o dinheiro do meu pai. Se eu fosse da polícia, não pensaria duas vezes: eu iria logo detê-lo. Ele não me aspira confiança e basta vê-lo para se ter a mesma sensação. E papai fazia questão de mostrar seu desagrado com esse noivado. Acredito que, por isso mesmo, o senhor Green sempre o odiou. E Emily gostava de ver o quanto aquela situação incomodava o pai. Provavelmente, ela se sentia vingada. Vingança, aliás, é algo que está muito no sangue da nossa família. Mas o pior de tudo... Após o jantar, eu vi o senhor Green rondando a casa.

– Tem certeza disso, senhor Pemberton?

– Eu pude ver o senhor Green com distinção por uma das janelas da sala de estar. Papai estava a ler, todos os demais haviam se retirado e o mordomo estava na cozinha. Assim que eu o vi – e nossos olhares se encontraram, o infeliz não demorou em correr como quem havia visto um fantasma. Mas eu não havia dado muita importância a isso. Emily havia adquirido o hábito de vê-lo quase todas as noites. Agora, eu sinto mesmo é muita raiva! Se eu soubesse do que ele era capaz, eu teria dado-lhe uma boa surra para que ele jamais ousasse pôr os pés aqui.

– O senhor afirma ter visto o senhor Green a que horas? – perguntou Lucchesi, sem se importar com as vagas ameaças de Dewey.

– Era nove da noite, provavelmente um quarto de hora mais tarde. – respondeu Dewey.

– Isso é suficiente, senhor Pemberton. Por favor, chame agora o senhor Rupert.

Muito mais confiante do que havia entrado, Dewey Pemberton deixou o escritório. Eu tenho a impressão de que jamais vi palidez tão mortal num rosto e tanta falta de emoção numa voz, principalmente nos instantes em que ele falava sobre o próprio pai.

– O que você achou? – perguntei para Lucchesi, que, mais uma vez, tinha um olhar vazio e fixo na porta.

– Ele falou algo interessante... – Lucchesi ponderou. – Há a questão de que, no corredor, há diversos quartos. Quem quer que tenha cometido o crime, foi com o objetivo de assassinar o senhor Pemberton. E, para isso, precisava saber onde ele dormia.

– Mas não tínhamos dúvidas disso, não é mesmo? O senhor tomou como certo, desde o início, que o assassino é alguém daqui.

– É verdade que sim. Só havia uma possível saída. E ninguém saiu da casa após o crime. Assim que se ouviu o grito, você e a senhorita Pemberton subiram para averiguar o que havia ocorrido. Não seria possível que alguém tivesse deixado a casa sem ter sido visto. Ou mesmo o quarto, pois, novamente, não podemos esquecer de que ele estava trancado por dentro... Ora, é um caso dos mais fantásticos!

– Acha que alguém planejou tudo isso? – eu perguntei.

– Há algo que me intriga. Se o assassino foi mesmo tão inteligente a ponto de orquestrar um crime tão perfeitamente de modo a tornar a solução quase impossível; por que então, não levar a arma do crime? É óbvio que, se houvesse uma pistola ao lado do corpo sem vida do senhor Pemberton, nós poderíamos considerar a hipótese de suicídio. E, assim, essa investigação nem mesmo estaria sendo feita. Parece contraproducente.

– Se alguém poderá dizer algo sobre pistolas, esse alguém é o senhor Rupert. – eu murmurei, ouvindo os passos pesados dele no corredor.

Notas finais
O que vocês acharam de Dewey Pemberton? Frio demais ou, afinal, ele tem razão de ser assim? E sobre o mistério da morte de Stratford Pemberton, alguém se arrisca a apontar um suspeito?